Foge
4 Um Twix e uma Boleia
Apesar de já só ter apenas um parafuso agarrado, as grades mantiveram-se no lugar. Voltei-me para ao chão e comecei a raspar as manchas, o meu coração batia freneticamente.
A chave rodou na fechadura e a porta abriu-se. Por causa do nervosismo tinha a testa a pingar de suor, o que deu mais realismo à minha suposta tarefa de limpeza.
– Então? Sempre consegues tirar essa porcaria ou não? – Abanei a cabeça em confirmação – Boa, limpas o resto amanhã, está na hora de voltares ao teu lugar.
Assenti com a cabeça. Tremia por todo o lado, estava numa situação muito arriscada e tinha medo que a grade caísse durante a noite. Aí, estaria metida em grandes sarilhos!
Ao jantar não comi a comida toda apesar de ser proibido não o fazer e de saber que precisaria de energia extra para a caminhada do dia seguinte até à casa de amigos que moravam a uns quilómetros dali. Mas estava demasiado nervosa para comer o quer que fosse.
À hora de recolher deitei-me na cama e debaixo dos lençóis escrevi uma carta que deixaria à Mar.
Querida Mar,
Por esta hora já deve estar tudo num alvoroço com a novidade, mas não te preocupes, eu estou óptima!
Bem que queria ter-te levado comigo. Eu sei que é arriscado, mas a vida aqui dentro é demasiado feia para mim. Não suporto mais.
Obrigada por me teres acolhido.
Deixo-te um Twix e alguns trocos.
Espero que não estejas triste comigo,
Obrigada,
Sofia
Queria desabafar com ela, contar-lhe tudo, acordá-la e dizer-lhe o que ia fazer, mas agora já era tarde de mais. A mensagem tinha de ser curta para caber num lenço de assoar.
O alarme tocou e saí da cama com um pulo.
– Bom diaaa! – Gritei eu
— Ai! Mas o que é que te deu? – Queixou-se ela
– Nada. Só acho que de vez em quando devia haver uma certa alegria nesta casa.
– Pois, pois, és passada. – Abanando a cabeça com um sorriso
Apesar de esse dia ser o “Dia D” apenas me sentia excitada, o nervosismo tinha ido com o sono e não havia espaço para ansiedade. Estava feliz como não estava desde que dera entrada no reformatório. Passei todo o dia a retribuir sorrisos a toda a gente, estava super bem-disposta. De tal forma que me chamaram a atenção.
— Com toda essa boa disposição até parece que vais sair hoje! – Disse uma polícia com um riso de gozo e uma gargalhada seca.
Não respondi, passei por ela com os olhos cravados no chão ganhando consciência de que precisava de me acalmar ou denunciaria o meu plano, mas sem deixar escapar um sorriso – E não é que vou mesmo? – sussurrei.
Quando me vieram buscar para me levarem ao sótão corria tudo normalmente. Apesar de a ansiedade estar a dar sinais de querer alimentar-se de mim, ninguém me tirava aquela boa disposição. Mas enquanto subia as escadas uma memória terrível invadiu-me a mente. E se as grades tivessem caído durante a noite? Como é que eu podia ter deixado escapar esse pormenor? Estava tão empolgada que me esqueci completamente daquela hipótese tão comprometedora. Se alguém as visse desconfiaria logo de mim. Comecei a tremer e a suar por todo o lado. A cada passo que dava ficava mais nervosa, mal conseguia continuar de pé. Por fim a polícia abriu a porta…
— Estás com essa cara de enjoo porquê? Vá, entra, toca a trabalhar.
Entrei devagar, à espera de encontrar as grades no chão e dois anos na solitária, rodeada por seis paredes de betão, enegrecidas pela sujidade e apenas um ralo empestado de bactérias por onde teria de fazer as minhas necessidades. No entanto estava tudo no mesmo lugar do dia anterior: as caixas de cartão, a faca e o garfo, os fungos e a grade. Que alivio! Uma sensação de adrenalina invadiu-me o corpo, era agora ou nunca. Ergui a cabeça e o sorriso invadiu de novo a minha face. Comecei logo a trabalhar, cantava para dentro e esperava ansiosamente que a guarda virasse as costas. Não foi preciso pedir muito, passado meia hora de trabalho ela saiu e eu pus realmente e finalmente mãos à obra. Despi a minha farda, ficando de calções pretos e um casaco de fato de treino, e juntei-a à corda de fardas, que agora devia medir uns seis metros de comprimento, o suficiente para descer toda a fachada do edifício. Verifiquei todos os nós e amarrei-a a uma barra segura à parede; desaparafusei rapidamente o último parafuso…
Vi a noite pela primeira vez em meses. Era Outono e caía uma chuva miudinha, que senti ao esticar a mão, rapidamente uma pequena poça formou-se na palma. Molhei a cara, não era o tempo ideal para o que estava prestes a fazer, mas teria de servir. Lancei a corda improvisada e comecei a descer; tive que saltar um metro para pôr os pés no chão, olhei em volta e avancei rapidamente até ao carro mais próximo e agachei-me. Espreitei pelo vidro da traseira e vi um carro e uma carrinha que começavam a fazer marcha atrás. Desatei a correr em direcção à carrinha (que bom que era correr!). Enfiei-me debaixo do automóvel, e tentei agarrar-me a um tubo e elevar-me, o carro estava a curvar, sentia-me como na montanha russa que tinha visitado há uns anos, os meus pés não tinham maneira de se fixar a nada, escorregavam e raspavam no chão. Felizmente durante o resto da viagem consegui adaptar-me e mantive-os presos a um tubo. Se calhar para uma pessoa que quisesse fazer aquilo apenas por diversão seria difícil, mas eu, que me encontrava num caso sério de vida ou de morte, estava disposta a ficar agarrada o tempo que fosse necessário.
Passei a cancela e logo de seguida ouviu-se o alarme, o mesmo do primeiro dia, mas ainda mais alto: já tinham dado pela minha falta. O coração quase que me saltou do peito, mas concentrei-me naquilo que estava a fazer. O carro começava a acelerar e o calor do motor era insuportável, estava a transpirar e as minhas mãos começavam a escorregar, enrolei os braços em volta do tubo para me agarrar melhor, a gravidade puxava-me contra o chão e mesmo por baixo da minha cabeça a estrada passava a grande velocidade, se perdesse a força, caía e morria. Não poderia aguentar muito mais, rezava para que o condutor abrandasse. Uma paragem brusca foi a minha oportunidade, provavelmente devido a um coelho apressado que atravessava a estrada; bati com a cabeça e os meus pés escorregaram; durante um segundo e meio não tive reação, regressei a mim, deixei-me cair e rebolei para o lado esquerdo rapidamente. Deixei-me ficar no chão com medo que o condutor tivesse reparado. Mas ninguém apareceu, e nenhum carro passou. Levantei-me e tentei orientar-me. Do lado direito da estrada um campo agrícola, do lado esquerdo um pequeno monte coberto de árvores e arbustos de difícil penetração. Aquele lado teria de servir, dar-me-ia algum esconderijo e abrigo para a noite fria que ia penetrando na minha pele nua. Não fazia ideia para que lado ficava a casa dos meus amigos. Devia ter previsto melhor aquilo, estava tão obcecada em sair do reformatório que nem calculei muito o depois. Era uma falha que poderia tornar-se fatal, mas tinha de seguir em frente, pensar rápido e de forma inteligente. Comecei a trepar o monte agarrando-me aos arbustos, os meus ténis davam-me o apoio ideal para a caminhada apesar da falta de iluminação que não me permitia ver onde me agarrava. A chuva deixara as pedras escorregadias e o chão lamacento, no entanto após muito esforço e duas horas consegui chegar ao topo. Apanhei algumas folhas secas e cobri-me de lama. Só agora é que o cansaço começava a dar sinais, já não comia há algumas horas, e não estava nada em boa forma, decidi então que continuaria na madrugada seguinte. Deitei-me espalhando caruma e lama pelo meu corpo, abrigando-me debaixo de uma árvore aninhada a um arbusto. Estava gelado. Ouvia ocasionalmente o barulho dos carros e o piar do mocho. Sonhava com uma manta fofinha e uma lareira quente a crepitar, apesar de muito poucas vezes ter tido esse tipo de luxos na minha vida. Não me sentia segura mas também não pensava muito na Polícia e o perigo de ser descoberta, talvez já tivessem emitido um anúncio na rádio ou um aviso na televisão, mas pouco mais fariam, no final de contas, quem era eu?
Não fazia ideia do quão estava enganada…
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