Notas iniciais
Cain um pouco OOC? Talvez, Kayles? Idem, Echo? Com certeza.

Ele definitivamente não sabia o que estava fazendo ali, mentira, talvez soubesse no fundo, mas não era capaz de admitir nem para si mesmo.

“Tudo parte do plano” Pensou espiando o palco onde sabia que, em breve, ela cantaria. Invadir a casa de shows foi relativamente fácil para um mago como ele, ocultar todo a sua maravilhosa presença e glória dentro daquele disfarce cafona é que era a parte difícil!

“E ainda tem essa gente irritante” Pensou desconfortável, de fato, a casa estava cheia. Kayles estava divulgando uma música nova e, pelos teasers que estampavam as revistas de música, parecia algo bem diferente de seu estilo costumeiro, não que Cain se importasse.

Entre um e outro álbum “sério” era comum que a cantora lançasse singles mais descontraídos, dançantes e com coreografias bem elaboradas, não sabia muito sobre as que seriam mostradas naquele dia, mas quando as luzes se apagaram e o show começou, o mago acabou bocejando involuntariamente, “Só isso?” Pensou olhando a mulher dançar uma música animadinha e, na opinião dele, genérica, no palco.

“Decepcionante”.

Aquela não era a Kayles que ele queria ver! Onde estava o olhar de ódio? As promessas de dor? As runas que vinham se aviso atacando-o por todos os lados como uma tempestade furiosa que apenas a presença dele, ele sabia, era capaz de provocar? Se ele quisesse ver danças bonitinhas, poderia muito bem ver Echo ensaiando na nave.

Jamais admitiria, mas desde tudo o que aconteceu na ilha, estava 100% concentrado em se preparar para o próximo encontro que tivessem, caso alguém perguntasse, não saberia explicar onde “perseguir obcecadamente” se encaixava nos planos de preparação, mas sempre que sua mente apontava o fato, fazia questão de jogar o pensamento no fundo do cérebro.

Aquele dia ficou marcado em seu corpo como ferro quente, queria ver mais daquela Kayles dominadora, forte, intensa e até mesmo um pouco sádica, que visivelmente se divertia provocando-lhe dor e deleitando-se com seu sofrimento, queria vê-la perder aquela postura educada e senti-la avançando em si mesmo como um animal avança em sua presa... Respirou fundo recuperando a compostura, só de pensar nisso sentiu algumas partes de seu corpo formigarem.

“Eu quero dor, Kayles, uma dor que apenas você é capaz de causar, ou, pelo menos, eu achava que era” Bufou dando as costas para o palco, decepcionado como uma criança birrenta “Tudo aquilo foi realmente efeito da maldição?”.

Estava já caminhando em direção a saída, quando o barulho de fachos de luz acendendo fê-lo virar-se de volta e, por um mínimo segundo, arregalou os olhos ao ver a silhueta de Kayles perfeitamente delineada ali, embora ainda sem ver os detalhes por causa da pouca iluminação.

A música que começou era mais calma, o que fazia os vocais fortes da mulher se destacarem, porém foi quando as luzes se acenderam e Cain a observou que o mago experimentou uma estranha mistura de assombro e contentamento.

Usando um body preto por baixo de um colete vermelho-escuro com pontas que formavam uma espécie de saia que descia armada até acima dos joelhos na parte de trás e possuía o tamanho de um colete normal na parte da frente, salto alto preto e algumas fitas escuras amarradas pelo braço direito, a maga cantava numa voz lenta e carregada de sentimento, porém forte, algo aparentemente comum até o ritmo acelerar numa batida poderosa acompanhada de uma coreografia extremamente elaborada.

Cain nunca se preocupou em entender muito sobre o mundo musical, mas sabia que aquela canção era, definitivamente, uma aposta ousada.

Uma ousadia para a qual ele NÃO estava preparado, detalhe. Não conseguia desviar o olhar de Kayles nem por um minuto, a faixa foi desacelerando mais uma vez até chegar num refrão lento, sussurrado e hipnótico, o qual ele não conseguiria esquecer tão cedo.

Confie em mim

Concentre-se em mim

Acredite em mim

Foco!

Que as luzes se acendam

Sempre em minha direção

O meu poder ecoa aos céus

Sintam a minha ascensão

Foco!

O ritmo acelerou novamente e o mago pensou em como poderia ter feito a besteira de compará-la com Echo! Kayles era capaz de dominar um palco simplesmente com a força da própria presença e ele estava tendo a oportunidade de testemunhar isso ao vivo e bem de perto.

A dança por si só não era particularmente provocante, mas todo o conjunto tornava a obra extremamente atrativa e o olhar dela...

Tremeu em expectativa.

O mesmo olhar de Galuna, a mesma postura, o mesmo ar de deboche, a pitada de arrogância que sempre lhe chamou a atenção.

Era isso que ele queria, era disso que ele precisava.

Agora poderia ir embora feliz, estava extremamente satisfeito.

o0o0o0o

Viu a maga se aproximar de si com a mesma roupa que usava naquele fatídico show, só que desta vez não havia luzes, não havia música, não havia plateia, o que havia era apenas ele e ela, juntos, no que parecia ser uma briga de poderes orquestrada de forma extremamente interessante. O som ritmado dos saltos naquele palco o fez dar seu sorriso habitual e, quando Kayles estendeu a mão, forçando-o a encará-la, um dos versos da música foi sussurrado novamente.

“Concentre-se em mim” — Ela falou começando a escrever as tão conhecidas runas em seu corpo, o mago jogou a cabeça para trás em expectativa escutando a voz melódica da cantora repetir seu nome infinitas vezes.

“Cain... Cain... Cain...”

—CAIN! — O grito de Echo o despertou para a realidade – Você não parava de fazer sons estranhos e está suando frio, o que houve?!

—Hã? Echo? Onde eu tô? — Olhou em volta reconhecendo seu quarto na guilda e se deu conta do que aconteceu – Se você não sair em três segundos eu não garanto que vá ter vida para sair daqui de novo – Sussurrou com um sorriso infantil, mas sabe-se lá o tamanho da aura maligna que estava emitindo, pois a garota saiu no mesmo instante e, quando se viu só, Cain só teve forças para jogar o travesseiro na parede num ato de frustração.

Se a raiva vinha por causa do sonho ou por causa do momento em que ele acabou, é um mistério.

Notas finais
Reviews?
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