Fobias
4 Capela
A biblioteca devia ser a área mais vazia do colégio, principalmente durante o recreio, até a pequena capela do lado do prédio do colégio – que havia sido inaugurada no começo do ano — estava mais agitada. Também, fazia uns dias que andavam acontecendo coisas estranhas por lá.
Parece que sempre que um aluno ou professor ia rezar na capela, era encontrado no dia seguinte morto, normalmente com o corpo estirado na frente da porta da igreja. Pelo que se contava pelos corredores, um demônio tinha invadido a escola e matava todos os que rezassem atrás da ajuda de Deus.
-Que besteira. –Alec disse, rindo- Se um demônio invadisse o colégio, destruiria a capela e mataria todos, não acham?
-Alec! –Naehe fez uma cara de nojo- Credo, não estamos brincando.
-É verdade, outro dia desses eu vim mais cedo para procurar meus livros que tinha deixado no colégio, e vi um dos corpos. –Idan disse num tom assustado- Tive a impressão de estar sendo seguido, mas não vi ninguém pelo colégio todo.
-Vai me dizer que é Oftalmofóbico¹ também? –Alec disse, suspirando.
-Cala a boca, Alec! –Daren- Se não acredita em nós, vá ver por si próprio. Mas não reclame se perder uma perna ou um braço.
-Ok, vou sim. –ele se levantou com um sorriso- Alguém me acompanha?
Os três ficaram calados, olhando ele.
-Ah, medrosos. –ele riu e se sentou de novo.
-Não está falando sério... Está? –Naehe disse, quase gaguejando.
-Claro que estou. Se ninguém fizer nada, vão continuar matando os alunos. –ele ficou mexendo na espiral do caderno- Vamos ver... Vou estar aqui onze horas, quando já acabou o turno da noite.
Os três se entreolharam e depois de uns instantes, Daren tomou coragem.
-Eu vou com você.
-Eu também. –Naehe sorriu.
-Muito bem. –Alec os olhou e depois, Idan- E você, Idan?
-Eu... Ahn... –ele engoliu seco, pensando em como onze horas está escuro no colégio- V... Vou também.
-Ótimo, então nos encontramos na entrada onze horas. –Naehe escrevia no caderno.
Depois de uns minutos, no meio da aula de matemática, Alec virou para Idan.
-Se não quiser vir não tem problema. –ele disse, piscando.
-Ah... Não precisa se preocupar, eu venho sim. –Idan forçou um sorriso.
E assim, o dia continuou. Idan tentou não falar com ninguém, parecia incomodado. A noite caiu e, exatamente onze horas da noite, estavam os quatro na frente do portão do colégio.
Idan estava com três lanternas, uma em cada mão e uma presa na testa. Tremia e olhava para os lados várias vezes. Quase soltou um berro quando Daren tocou seu ombro, chamando-o. O loiro se virou e viu que Daren estava sem a capa, uma coisa que ele achava que nunca ia ver.
-Está com algum problema, Idan? –ele perguntou.
-Nã... Não. –Idan gaguejou.
-Muito bem, pessoal. –Alec disse baixo, chamando os outros três- Eu fico na capela, Naehe fica aqui no portão, me avise se alguém entrar. Idan e Daren cuidam dos corredores, gritem se virem algo estranho.
Os três assentiram e foi cada um para um lado. Quando Idan e Daren já tinham entrado e Alec abria devagar a porta, sentiu Naehe puxar seu braço.
-Você vai ficar bem? Tem certeza? –ela disse tristemente.
Alec sorriu docemente e abriu a porta.
-Obrigado por se preocupar, mas eu vou ficar bem. Agora volte pro portão e cuide da entrada.
-Ok...
Em pouco tempo já estava cada um no seu lugar. Daren e Idan vigiavam os corredores, Naehe estava atrás de umas latas de lixo vazias, olhando para a entrada do colégio e Alec estava ajoelhado nos degraus da capela de cabeça baixa, fingindo estar rezando.
-Idan, dá pra desgrudar? –Daren disse, apontando a lanterna para o rosto do loiro, que estava quase agarrado a ele.
-Desculpe... Estou com medo. Esse colégio me dá arrepios. –Idan disse, dando uma pequena distância entre ele e Daren.
Na entrada, Naehe estava quase dormindo, o sono a dominava aos poucos. Acordou ao ouvir um som de passo. Quando se deu conta, já tinha uma garota dentro da área do colégio que estava perto da capela.
Naehe se levantou e tentou correr até ela, mas acabou tropeçando e caindo no chão. Quando se pôs de pé de novo, já tinha perdido a garota de vista. Correu até a capela e tentou abrir a porta, mas esta estava trancada. Gritou o nome de Alec diversas vezes, mas parecia que sua voz não queria sair.
Dentro da capela, Alec abriu os olhos quando ouviu baixos sons de gritos abafados pela grossa porta da capela. Olhou lentamente para trás e viu uma garota baixinha, de cabelos pretos e olhos azuis, de pé na frente da porta da capela e segurando um grande machado.
Ambos levaram um susto ao se reconhecerem. A garota segurou o cabo do machado com as duas mãos. Num dos bancos da capela estava repousado seu bichinho de pelúcia, olhando para Alec.
O garoto se levantou e olhou para Sarae, de quem se lembrava ver todo dia na aula. A garota se aproximou devagar dele, com um olhar assustado, mas destemida em relação ao que teria de fazer.
-Sarae. –ele disse, com um pequeno sorriso- É você, a garota que não conversa com ninguém, né?
A garota parou perto dele e desviou o olhar.
-Nossa nunca imaginei que... –ele se aproximou da garota- Mas por que você faz isso?
-Eles me mandam. –ela disse, com lágrimas nos olhos- Dizem que devo fazer isso e não terei mais medo.
Alec tocou o ombro dela – que tremia bastante e parecia até que ela tinha caído num rio de água gelada. Ele delicadamente tomou o machado das mãos de Sarae e largou-o longe.
-Eu sei que você é hagiofóbica². –ele segurou os ombros da garota- Mas isso não explica o porquê de você matar tanta gente.
-Eu já disse... Eles me mandam. –uma lágrima escorreu do rosto dela.
-Eles quem?
-Os demônios. –ela disse, encostando a cabeça no peito dele.
“Demônios? Mas que droga essa garota anda fumando!?”, Alec pensou –gentil, não?
-Eles dizem que é a única forma de esquecer esse medo. –ela chorava.
O garoto a olhou e sentiu que não estava mentindo. Envolveu-a em seus braços num aconchegante abraço. O rosto da garota ficou vermelho e ela sussurrou:
-Você não vai me entregar, né?
-Só se prometer não matar mais ninguém. –ele disse calmamente.
-Eu prometo. –ela disse, acalmando-se.
Alec a soltou e apontou a porta.
-Vamos, tem gente lá fora preocupados conosco. –ele disse, levando-a até a porta.
-Não seria preocupados com você?
-Que isso, agora somos um grupo. –ele bagunçou os cabelos dela- Um por todos e todos por um.
Ele fez a garota dar uma fina e sutil risada. Antes de sair, ela pegou sua pelúcia do banco e abraçou-a. Olhou para Alec, que abria a porta e mostrava os três amigos com olhares curiosos e um tanto assustados.
-Pessoal, essa é a Sarae. –ele apresentou a garota.
Os três olharam para ela e suspiraram de alívio, por Alec não estar morto.
¹: Oftalmofobia — medo de estar sendo vigiado.
²: Hagiofobia — medo de santos ou coisas santas.
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