Fobia Social
1 One-Shot
O céu brilhava com suas luzes chamejantes naquela noite. Eu não esperava grande coisa para o dia seguinte. Volta às aulas. A escola sempre foi um tédio para mim. Nunca tive um dia letivo divertido. Nada parecia me animar para o inevitável tédio que se seguiria.
O tempo passou voando e quando menos percebi, estava no carro de meu pai, observando o movimento retilíneo das casas velozes. Não lembro bem, mas acho que estava chovendo levemente. O carro cheirava a chuva de verão. O para-brisa era bombardeado por gotas parecidas com balas de revólver. O tempo voou novamente.
Lá estava eu na entrada da minha moderna fábrica de tédio, a escola. Meu pai me deu adeus e eu não o respondi. Ele era o carrasco que me levará ao tédio. Adentrei a soleira daquele maldito lugar. Estava vazia.
Sons de passos se propagavam pela atmosfera, mas eles não tinham donos. Como sempre eu estava sozinho. Caminhei pelo vácuo. Eis que vi alguém. Eu jamais tinha visto alguém naquela maldita escola.
Nunca.
Ela era mais linda que um anjo caído. Mexia os lábios delicadamente pronunciando palavras incompreensíveis ao vácuo. Provavelmente estava falando com um amigo imaginário.
Seus cabelos ruivos eram sedosos e reluzentes. Perdi-me em seus olhos verdes penetrantes. Eu devo ser demasiado tolo para ter ficado boquiaberto a tal aparição. Quando menos percebi, de meus olhos escorriam-se lágrimas. Talvez eu tivesse ficado tempo em demasia com os olhos abertos e eles resolveram reclamar, ou eu simplesmente estava enternecido. Os olhos dela oscilaram e encontraram com os meus, ao longe, eu corri.
O giz escrevia sozinho na lousa negra, flutuando imponente no ar. A sala estava vazia, mas com sons de conversas e balbúrdia. Meus pensamentos oscilaram-se nela. Pensei em diversas maneiras de ir conversar com ela, mas ao mesmo tempo alguém me impedia. Um monstro mórbido que vive em minha cabeça. Lutar com ele é impossível. Mas afinal de contas, o que eu falaria?
“Oi! Tudo bem?”
Eu não sou patético a ponto de levar um assunto tão entediante. Tenho que pensar em um assunto melhor, dizia eu a mim mesmo. TENHO QUE PENSAR EM UM ASSUNTO MELHOR! TENHO... ASSUNTO MELHOR!
Eu não consegui.
O sino final soou como uma canção fúnebre. Caminhei rapidamente, ansiando em revê-la. Trompei em alguém, mas não pude vê-lo. Cheguei ao pátio. Lá estava ela, majestosa como sempre, linda como um anjo caído. Mirei-a e ela me mirou de volta.
Seria um sinal? Mesmo se não foi, meu coração interpretou como.
Ela começou a caminhar em minha direção. Eu já não sentia minhas pernas. Nunca tinha a visto tão de perto. Ela havia se interessado em mim... Fiquei feliz e entusiasmado por breves segundos majestosos. Ela se dirigiu a mim e sua voz saiu delicada e letífera:
– Por que está me encarando?
Meu coração parou.
– Er... O-Oi! Você-ê... – Gaguejei.
– Você é retardado? Fala direito seu verme! – Cuspiu ela.
Meus olhos se entupiram. Eu me senti desprezível como uma barata fenecida.
– Hum... Desculpe...
– Dane-se! Só pare de me encarar seu maldito! Se me encarar novamente, meu namorado lhe mata! – Ela mirou-me com um olhar de repugnância e foi se agarrar febrilmente ao seu análogo diante dos meus olhos.
Ela era tão bonita como um anjo caído. Mas seu interior tão sujo como uma fossa.
O monstro dentro de mim sorriu perspicazmente. Por que fui torná-la visível afinal? Eu mereci. Eu não precisei encará-la novamente. Aquele foi meu primeiro dia de aula de uma série de dias, da qual eu não estive presente.
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