Fluxo - JuGil
3 Capítulo 3
Notas iniciais
(Pov Ju)
– Tô chegando! O Bruno disse que eu podia entrar!
– Claro, Lia! Senta aí — falei, oferecendo um canto da minha cama.
– O Bruno me disse também que mais tarde vai rolar uma ação do C.R.A.U lá na pracinha. Anima?
– Não sei não...
– Mas eu sei. Olha só Ju, você precisa sair um pouco, sabe, relaxar. Eu sei que você tá triste, com saudade e tudo mais, mas já faz dois meses. E o que que você fez nesses dois meses? Nada, a não ser ir todas as tardes abrir as janelas do quarto do Gil e tirar dos móveis poeiras que só você vê — a Lia estava realmente indignada — Ju, você já parou pra pensar que tá fazendo exatamente o contrário do que você prometeu pra ele que faria? Porque pelo que você me contou, disse a ele que não ia interromper a sua vida, mas você não sai pras festas, não faz mais vídeos, não se alimenta direito, fica a maior parte do tempo quieta, e nas aulas nem se fala — ela parou um pouco para se acalmar, mas logo recomeçou, visivelmente sincera, de um jeito que só ela conseguiria ser — Poxa, Ju, o Bruno já tá ficando preocupado, e eu também. O vestibular tá chegando, e não é porque o Gil tá servindo, que esse fato deixa de ser importante.
Eu estava mesmo precisando desabafar sobre tudo isso, mas o Bruno não entenderia, e já que a Lia tinha puxado o assunto, resolvi dizer tudo o que eu estava sentindo:
– Sinceramente, Lia? Eu não faço tudo isso porque eu não consigo. Eu simplesmente me sinto culpada, sabe? Como se fosse errado me divertir, ir às festas, enquanto o Gil tá lá, passando sabe Deus por qual tipo de exame, teste, o que quer que seja. Eu até tento, mas não dá. Além de namorados, eu e o Gil somos amigos, e a gente fazia praticamente tudo junto. E agora eu tenho que reaprender a fazer tudo sozinha de novo. E eu fico com tanta pena dele, sabe? Se eu pudesse fazer alguma coisa...
– Pensa, Ju: o Gil pode tá até gostando de estar lá. E imagina só se daqui a algum tempo vocês terminam? Você vai ficar pensando no um ano que deixou pas...
– Peraí Lia — aquilo já era demais pra mim — Você acha o quê? Que o Gil não gosta de mim de verdade? Ou que eu não gosto dele de verdade? Que o nosso namoro aconteceu só pra gente conseguir superar uma traição? Pois eu vou te contar uma coisa, Lia Martins: eu não estaria aqui mal por mais um casinho adolescente. O que eu e o Gil sentimos é muito forte. Pode até não ter sido uma paixão avassaladora nas nossas primeiras conversas, mas com o tempo, com as coisas que aconteceram... — mesmo que eu não quisesse, falar naquilo ainda me doía, mas eu não ia parar mesmo com a voz embargada — Ele se tornou pra mim um porto seguro, e ele diz sentir a mesma coisa.
Vi que a Lia me olhava espantada, como se não esperasse aquela reação de mim, e eu percebi que talvez tivesse ido longe demais, porém eu realmente não estava legal.
– Desculpa, Ju, não foi isso que eu quis dizer. O que eu queria te dizer é que no futuro, você pode se arrepender de não ter vivido intensamente o bom da vida durante um ano. Eu não queria que você me interpretasse errado.
– Foi mal, Lia, eu acho que isso tudo tava precisando sair, e você foi a azarada que escutou. Mas sabe que agora eu me sinto até mais leve? — esperava que ela entendesse que eu estava sendo sincera.
– Leve a ponto de ir para um evento do Comando Revolucionário dos Anarquistas Unidos? Vamos Ju! Vai ser legal! — então eu compreendi que ela era minha amiga de verdade, porque mesmo depois de ter ouvido poucas e boas, ela ainda estava disposta a levantar o meu astral, então eu não podia negar:
– Tá bom, vamos! — e puxei-a para um abraço.
Passado algum tempo, a hora do evento chegou, e eu fui para praça com a Lia, o Vitor e a Fatinha, pois o Bruno já estava lá, envolvido. A ação da vez tratava-se de um momento a fim de resgatar a gentileza entre as pessoas. Um momento contra todo tipo de mau-humor, estupidez e violência.
Eu estava distraída com o tanto de gente que estava chegando, que até me assustei quando ouvi uma voz atrás de mim:
– Oi gata! Tudo bem?
– Oi Nélio! Que susto! Tudo bem sim, e com você?
– Melhor agora. Sabe, eu tava te olhando de longe, tão distraída, aí eu resolvi vir ficar de guarda. Sabe como é, garotas bonitas e desligadas em pleno Rio...
– Ah, não precisa se preocupar não — eu sempre ficava desconfortável com essas investidas do Nélio. Será que ele não ia desistir nunca? — Eu sei me cuid...
– Relaxa, Ju. Como amiguinho.
Não gostei do tom da brincadeira, mas não importava, pois o Bruno já havia pegado o microfone para dar início aos procedimentos:
– Boa noite, galera! — muitas palmas e assovios — Hoje a ação vai ser um pouco diferente. Nós organizamos algumas dinâmicas com foco na confiança, para serem feitas em duplas. — comecei a me preocupar. Com quem eu faria? Todos já estavam meio organizados: Lia e Vitor, Rita e Fera, Morgana e Orelha, e a Fatinha estava junto com o Bruno, servindo de exemplo.
– Vamos fazer nós dois? — falou o Nélio, baixinho e irritantemente perto do meu ouvido.
Como eu diria não, se eu não tinha outra alternativa? Olhei em volta, em um último apelo, mas só enxerguei o rosto da Lia num misto de surpresa ao ver a minha proximidade com o Nélio e de diversão, pois estava visível no meu rosto o meu desconforto. A situação era no mínimo irônica: todos os casais, e eu e o Nélio
– Claro! — falei, tentando parecer o mais empolgada possível.
O Bruno continuou:
– A primeira dinâmica é a seguinte: um da dupla vai pegar esta venda preta que o Rasta está distribuindo — eu peguei a nossa — E irá vendar os olhos do companheiro — assim eu fiz. Com os olhos vendados, o sorriso do Nélio ficou ainda mais evidente. Ele estava mesmo muito feliz.
Meu irmão seguiu com as instruções:
– O que não está com os olhos cobertos irá guiar o outro aleatoriamente pela praça. Cuidado! O seu companheiro depende de você.
E assim ficamos durante alguns minutos. Percebi que às vezes o Nélio se "desequilibrava" e aproveitava para se apoiar em mim. Quando eu pensei que havia acabado, o Bruno seguiu com as dinâmicas:
– Agora o feitiço virou contra o feiticeiro. O que estava vendado irá vendar o amigo — o Nélio rapidamente o fez — E a atividade será a seguinte: o que está vendado irá simular uma queda sobre o amigo que não está vendado, confiando que ele não irá deixá-lo cair. Entendido? Vamos lá!
Aquilo não ia dar certo. Mas se tinha que fazer, lá vamos nós. Me lancei para onde imaginava que o Nélio estaria e acertei. O Nélio me pegou pela cintura, porém imobilizando meus braços, por isso, quando tentei tirar a venda, não consegui. Fiquei esperando que ele falasse alguma coisa. Talvez um por que para aquela cena, tão típica de romance. E ele disse:
– Eu jamais te deixaria cair!
Em seguida, eu senti seus lábios nos meus, em um selinho. Curto, pois eu comecei a me debater feito uma louca. Quando enfim me desvencilhei daqueles enormes braços, tirei a venda e gritei, com toda a minha raiva:
– Que isso, garoto? Enlouqueceu? Quem você pensa que é? Não sabe que eu tenho namorado?
E saí correndo, sem ouvir as respostas.
(Fim do Pov Ju)
(Pov Gil)
Passados dois meses de Exército, já conseguia perceber as mudanças o meu corpo: eu estava mais forte, tinha mais resistência. E foram dois meses longos. Até fiz amigos no quartel, e o Tales se tornou o melhor deles. Ele era um cara legal, prestativo e confiável,apenas um pouco enxerido demais. Mas saudade já estava grande. Saudade dos amigos, da guitarra, dos grafites e da Ju, principalmente. Era nela que eu pensava sempre quando me deitava, e não era diferente naquela noite.
Comecei a me pensar que poderia ter sido um namorado um pouco mais carinhoso, mais romântico, talvez. E não foi por falta de pedidos, porque ela pediu algumas vezes:
"E você? Quando vai fazer uma música pra mim?"– disse ela, quando a Lia compôs aquela música pro Dinho. Podia ser só um comentário pra fazer graça, mas no fundo expressava um desejo. Eu nem sequer havia tentado escrever a tal música.
"Sabe, Gil, às vezes eu te acho meio pão duro de chamego..." – esse comentário sim, eu ouvi. Mas teria sido suficiente?
E se nesses dois meses, ela tivesse encontrado alguém disposto a fazer mais carinho, alguém que fosse menos travado que eu, alguém que estivesse disposto a escrever uma música?
Aquela conversa com o Tales vinha me tirando o sono. E não foi diferente naquela noite, quando eu inclusive tive um pesadelo: eu vi um outro cara, agarrando-a pela cintura e puxando-a para um beijo.
"[...] E eles não vão deixar uma menina linda como essa sozinha durante tanto tempo. [...] Promessas são muito fáceis de serem quebradas."
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