Fluorescent Adolescents
4 Natalya Flyorov
Notas iniciais
CINCO ANOS ANTES
O lábio inferior de Natasha estava com gosto de sangue, e ela mentalmente se repreendeu por não parar de mordê-lo. Ela estava andando distraída, chutando todas as latinhas de Coca-Cola e as pedras para o lado. Caramba, ela pensou. Se os americanos pararem de beber refrigerante, a Coca-Cola vai à falência.
Ela sabia muito bem que não devia estar na rua depois das oito horas, regras do orfanato, mas ela nunca se importou com regras. Pelo menos, havia deixado de se importar desde que perdeu os dois pais em menos de um mês, então foi largada para o sistema de adoção.
Claro que ela foi largada no sistema de adoção com os irmãos. Ninguém queria mexer com aquele lado da família.
O vento frio e súbito fez com que Natasha se arrepiasse e apertasse o casaco contra si. Uma sensação de que estava sendo observada tomou conta dela, e engolindo em seco, ela olhou em torno, pensando em todas as lições que seu irmão mais velho, Benedikt, havia ensinado sobre defesa pessoal. Não era pouca coisa.
Você sabe muito bem que nunca está sozinha, Natasha. As vozes a lembraram. Sentindo-se idiota, ela fechou a cara e resmungou, "Sei. Agora calem a boca."
Sim, ela sabia muito bem que não devia esconder os remédios debaixo da língua, regras da psicóloga, mas ela nunca se importou com regras. E não era errado até que alguém descobrisse — o que ela esperava que nunca ia acontecer, visto que seria arrastada para o hospício. Ela odiava aquele lugar.
Eu não sou louca, ela pensou. Não sou, não sou, não sou!
Seu telefone vibrou no bolso, e ela soube imediatamente quem era. Sua lista de contatos tinha cinco números, dois deles de um telefone fixo. Adrian sempre ligava, Benedikt dormia umas sete horas da noite para acordar às duas da manhã e ficava acordado até a hora de ir para a escola, portanto só sobrava...
"Jim", Natasha murmurou para a rua vazia, com um sorriso. Eles haviam se conhecido quando ela tinha 5 anos, e desde então, eram melhores amigos. Ele é o seu único amigo, sussurrou uma voz na cabeça dela. "É sim", ela respondeu, sem se importar com o fato. Ele era mais do que o suficiente.
Finalmente, ela leu a mensagem.
Eu sei q vc n ta fazendo nada. minha casa. agora.
Já estou indo, ela digitou de volta, com uma velocidade assustadora, e enfiou o celular no bolso de novo. Prática.
Teoricamente, ela devia ir para o orfanato antes que se metesse em mais encrenca. Mas ela simplesmente deu de ombros, e começou a andar para a casa que ela conhecia muito bem.
Estava no meio do caminho quando o celular vibrou de novo. Entra pela janela e me diz uma frase filosofica, dizia a mensagem.
Okay. Te digo quando chegar, ela respondeu. Como se ela não soubesse que tinha que entrar pela janela.
*
A casa de Jim era a melhor casa que existia — logo depois da casa na qual Natasha cresceu, quando sua mãe ainda era saudável. E depois que isso aconteceu, a residência dos Waters havia se tornado quase que uma segunda casa. Quase. O problema era o pai de James.
Quando Marie Waters morreu,apenas oito meses antes, James foi morar com o pai que ele até então não conhecia, e embora Gregory tentasse, simplesmente não conseguia fazer com que Jim gostasse dele.
Como sempre, havia uma escada de montar jogada para fora da janela do quarto de Jim. Natasha foi incapaz de segurar um sorriso ou de não acelerar o passo à medida que se aproximava. Pelo menos iria ter alguma coisa boa em seu sábado.
Ela subiu a escada silenciosamente, e Jim não percebeu que ela havia sequer se aproximado da casa até ela dizer, enfiando a cabeça para dentro pela janela, "Permissão para subir à bordo, Capitão Kirk?"
Jim pulou e por muito pouco não derrubou o computador do colo. Então se virou para ela e sorriu. "Permissão concedida."
Natalya Flyorov — ou, mais precisamente, Spock — entrou no quarto, sentindo-se perfeitamente à vontade, puxando a escada de volta para dentro e fechando a janela. Ela se espreguiçou, antes de se jogar no chão ao lado de Jim e chutar os sapatos. "Como foi o grande dia em família com papai Greg?", ela perguntou.
"Uma bosta", Jimmy respondeu, com verdadeira raiva na voz. "Odeio ele."
Natasha franziu o cenho. Por essa ela não esperava — geralmente, James não falava naquele tom. Ele era sempre despreocupado, fazendo piadas, de fato lembrando o Capitão James Kirk. "Tão ruim assim?", sua amiga perguntou.
"Ele me levou para um museu", Jim se virou para ela com o que tinha que ser horror nos olhos. "Uma porra de um museu. E me deu aquela conversa nossa-como-é-bom-passarmos-um-tempo-de-pai-e-filho no carro."
"Que droga" Natasha disse com compaixão. Ela mesma era fã número 1 de museus, mas James tinha pesadelos com eles. "Mas ele está fazendo o melhor que pode, Jim", ela o lembrou suavemente. "Ele realmente quer se conectar com você."
"Ele quer tanto que espera minha mãe morrer para começar a tentar", Jim rosnou de volta, mas Natasha sabia que ele não estava com raiva dela, e sim, do pai e da situação toda de modo geral.
"Eu sei que ele ficou ausente sua vida toda, e eu sei que você tem raiva disso", Natasha falou com calma, inclinando ligeiramente a cabeça na direção dele. Ela sabia como acalmá-lo, do mesmo modo que sabia como acalmar Sam e Benedikt. "Mas ele está aqui agora."
Jim bufou, mas sua raiva estava diminuindo. Natasha sabia como ele funcionava, o que era de certa forma, irritante e útil, especialmente se combinado com aquele talento da oratória que já os havia tirado de muitas confusões na escola. "Eu sei", ele disse, e olhou para baixo, repetindo baixinho: "Sei de tudo isso", e ergueu de novo os olhos azuis para ela. "Mas eu ainda tenho raiva dele. Ele não me conhece."
Natasha deu de ombros. "Só posso te desejar toda a sorte do mundo. Só se passaram alguns meses, vocês ainda vão se entender."
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