Notas iniciais
Por Angel of Silence

"Meus parabéns!"

Do outro lado da linha, Natasha ouviu Jim rindo, e ela sabia que ele estava sacudindo a cabeça. "Meu pai vai me matar", ele disse. "Eu não acredito que eu realmente transei com a Lily Turner. Eu não sei o que aconteceu. Eu acho que eu dormi ou... sei lá, desmaiei. Acordei e ela tinha sumido."

Sua mente estava enevoada. "Acredito muito menos", ela respondeu. "Mas essa não é a sua maior preocupação agora, é? Quer dizer, eu aposto minha pele que a sua casa virou de cabeça para baixo."

Suspiro. Jim Waters soava inconsolável. "Eu não sei como consertar isso, Tasha. Agora mesmo você tá no viva-voz e... puta que pariu, isso é um sutiã. Dentro da geladeira. Como eu arranjei um sutiã dentro da minha geladeira?"

Incapaz de se conter, Natasha riu. "Tenta falar com Sam ou Benedikt. Um deles talvez te ajude. Ou aquele cara do time de futebol, o simpático. Ou o Isaac, ele é meu amigo."

Outro suspiro. "Sêmen congelado atrás do sutiã", informou Jim, e Natasha ouviu a porta de uma geladeira se fechando, seguido pelo som de algo caindo na pia. Ela começou a rir. "É, talvez."

"Ainda é Domingo de tarde", Natasha disse, tentando soar confiante. "Você vai conseguir."

Mesmo estando duas horas de distância da casa de Jim, ela sabia que ele estava apertando os olhos castanho-azulados de dor de cabeça proporcionada pela grande e admirável ressaca. Ela conseguia imaginar, perfeitamente, ele passando a mão pelo cabelo negro que insistia em cair no rosto dele o tempo todo e deixando-o mais bagunçado do que naturalmente era. "Para de bagunçar o cabelo e vai tomar um analgésico", ela mandou.

"Como?" Jim perguntou, soando exasperado.

Um sorrisinho surgiu nos lábios de Natasha, enquanto ela apoiava o telefone no ombro para ter as mãos livres e prender o cabelo em seu habitual rabo-de-cavalo. "Eu te conheci quando eu tinha cinco anos, sabia disso?"

"Eu devia estar envergonhado de estar nesse estado falando com a minha melhor amiga atualmente trancafiada em um hospital psiquiátrico, sabia disso?" Jim replicou, mas pelo som de armários de fechando, Natasha sabia que ele havia seguido o conselho dela e estava se entupindo de analgésicos.

"Eu estive presente em todos os momentos vergonhosos da sua vida, o que inclui o dia em que você descobriu que os dinossauros estavam extintos e chorou até desmaiar, sabia disso?" Ela disse, imitando perfeitamente a voz dele e rindo.

"Para", Jim suplicou. "É sinistro quando você dá uma de ventríloqua e repete o que eu digo."

"Eu não estou 'dando uma de ventríloqua', eu sou uma ventríloqua." Natasha finalmente soltou uma risada.

"Você tá muito felizinha hoje"Jim comentou. "Eles te deram alguma coisa?"

Não era engraçado, mas Natasha caiu na gargalhada. "Se eles me deram alguma coisa? Cara, eles me deram, tipo, tudo. 'Cê já tomou o..." Sua mente drogada teve dificuldade em lembrar o nome do remédio. "Flu...fenazina?"

"Não, mas eu já vi você tomar. Nat, você tem certeza que tá bem? Você não disse absolutamente nada sobre o seu ataque na escola." Jim comentou, e ele, com toda a certeza, estava juntando as sobrancelhas em uma expressão preocupada.

"Ataque?" Natasha olhou para uma de suas mãos. Estava tremendo. "Eu não ataquei ninguém, mas eu vou ser atacada aqui." Soltou uma risadinha muito atípica dela. "Tecnicamente, eu não tenho permissão para roubar o celular do meu psiquiatra."

Lá no Queens, alguma coisa quebrou. "Você roubou o celular do seu psiquiatra? Natalya Drakovna Flyorov, onde que tá a sua cabeça?"

"Hm..." Natasha hesitou, olhando ao redor. "Em cima do meu pescoço, dormitório feminino do prédio Lincoln", ela respondeu, total e absolutamente séria, e mentalmente se consagrando por ter identificado o lugar em que estava. "Onde mais ela poderia estar?"

James suspirou, e fez a pergunta que o havia incomodado desde que soube que ela seria levada pelo hospício. "Mereço. Quanto tempo vai ficar?"

"Nem sei", Natasha deu outra risadinha, então se interrompeu. "Eu não quero ficar aqui, Jim", confessou, olhando ao redor novamente. Estava sozinha. "Eu não gosto daqui. Eu não gosto dos remédios, eu não gosto da comida, eu não gosto dos médicos, eu não gosto dos pacientes, eu não gosto de ter meu horário todo definido por estranhos, eu não gosto de estar presa, eu quero sair."

"Você vai sair", Jim prometeu, seu tom agora muito mais suave do que antes, se sentindo mal por ela, e culpado. Não que ela tivesse percebido isso. "Você tem só que ficar aí até melhorar. Quando estiver boa de novo, eles vão te soltar, e você vai voltar pra cá. É temporário. Vai... vai ficar tudo bem — você vai ficar bem."

Quase sem perceber, Natasha se encolheu, puxando as pernas para cima da cama e abraçando-as. "Eu vou ficar bem?" repetiu, piscando várias vezes para não chorar.

"Claro que vai!" Jim disse com a mesma firmeza que diria A Terra é redonda e Eu transaria com a Megan Fox até ela gritar. O que é dizer alguma coisa. "Você vai ficar bem, vai sair daí, então vai voltar pra cá e nós dois vamos ver o pior filme romântico que tiver pra zoar e rir dele o tempo todo. Depois, nós vamos jogar WoW, você vai me chamar de idiota e vamos comer bala de ursinho até triplicarmos de tamanho."

A tentativa de levantar o humor dela funcionou. Relativamente. "E batata frita?", ela perguntou quase timidamente, soando dez anos mais nova e vulnerável.

Jim riu. "E batata fria, é claro."

Natasha mordeu o lábio, ainda insegura. "Você promete?"

"Prometo." A voz dele estava firme de novo. "E eu já prometi alguma coisa pra você que eu não cumpri?"

É claro que ela nem parou para pensar. "Você me prometeu que não ia ficar chateado se eu te contasse a verdade sobre os dinossauros, e quando eu contei que eles estavam extintos, você chorou até desmaiar."

Era a segunda vez que ela mencionava isso na mesma conversa, mas parte dela não se deu conta e a outra não ligava.

"Era um ponto sensível!" Jim se defendeu. "Mas tirando isso, eu sempre levei a sério minhas promessas, não levei?"

Natasha fungou. "Levou", respondeu baixinho.

"Então, pintora de rodapé, relaxa. Vai ficar tudo bem. Você vai ver. Vai ficar aí só mais um pouquinho, e aí vai sair. E depois que você sair, nunca mais vai ter que voltar."

Imediatamente, Jim se sentiu mal por isso. Ele não tinha como garantir nada daquilo, a última parte em especial, e a estrada diante de Natasha era esburacada e incerta. Mas, ela estava visivelmente frágil, provavelmente à beira das lágrimas, sob o efeito de mil remédios diferentes, e o que ela precisava naquele momento eram palavras de conforto, não uma exibição simples e fria dos fatos e das variáveis. Então ele tentou se perdoar, só dessa vez.

"Okay", ela disse. "Ficar só um pouquinho. Sair. Não voltar mais. Eu consigo fazer isso."

"Claro que consegue." Jim mordeu o lábio. "Claro que consegue", ele repetiu, tentando convencer tanto Natasha quanto a si mesmo.