Notas iniciais
Escrito por Annie

– Olá Jimmy! — ouvi Allison dizer, mas saí de perto dela o mais rápido possível. Colin apertou minha mão antes que eu pudesse me afastar muito.

– Acho que... Eu vou andar por aí.

– Está bem. — disse — Você sabe onde não me encontrar.

Ele sorriu, assentiu com a cabeça e foi embora. Eu continuei andando por um tempo. A casa era realmente enorme e seu jardim, nem se fala. A piscina era realmente imensa e no fundo do jardim, havia uma passagem formada por árvores podadas que davam em um destino incerto. Olhei em volta para ver se ninguém estava olhando, mas todos pareciam estar ocupados demais bebendo e conversando no salão de festas, hoje especialmente decorado com balões pretos, brancos e azuis para a festa. A casa de três andares mantinha todos os seus cômodos com as luzes acesas o que a fazia parecer cada vez mais deslumbrante. Olhei para as enormes janelas do terceiro andar imaginando qual graça as pessoas viam naquelas festas em que a maioria das pessoas presentes não haviam sido convidadas. Na última janela do lado esquerdo, pude ver a sombra de duas pessoas. Uma delas se aproximou da janela e fechou bruscamente as cortinas que julguei serem de seda. A outra desapareceu da minha vista enquanto as luzes do quarto se apagavam como se os dois estivessem fugindo de algo. E é claro que estavam. Ninguém ali nunca poderia viver normalmente. Toda aquela máscara que escondia suas verdadeiras identidades, nunca cairia. Todas aquelas pessoas sempre mentiriam e se esconderiam. Posariam de importantes e respeitáveis para os outros, quando no fundo não valem nem metade do dinheiro que tem. Dinheiro. A verdadeira causa dessa autoconfiança repentina. Desse respeito por quem não merece ser respeitado. É como dizem alguns que ainda conseguem sobreviver à essa tentação luxuosa: o dinheiro cega as pessoas. É a mais pura verdade na minha opinião. Por isso eu talvez tivesse um pouco de vergonha de ser rica. Se riqueza tem a ver com ostentação e hipocrisia, eu não queria fazer parte daquilo. Mas do mesmo jeito como alguns outros dizem: nós não pedimos para nascer, muito menos em que tipo de realidade nascer. Continuei andando pelo jardim, admirando as plantas que sempre me fascinavam como um claro exemplo de seres vivos independentes. Tudo o que precisam brilha sobre elas todos os dias e não procuram nada além do que precisam. Em alguns segundos já me encontrava me adentrando na tão secreta passagem do outro lado da piscina. Percebi que ela me levava até um jardim parecendo meio esquecido e mal cuidado. As plantas abriam espaço para uma clareira com um banco e várias plantas que não pareciam ter sido podadas recentemente, tão diferentes do resto do jardim. Mas apesar do descuido, o lugar era grande e o chão de azulejos era impecável, sem sequer uma rachadura. Deixei minha bolsa preta de lantejoulas no banco de madeira e comecei a praticar alguns passos de dança. Gostava daquele lugar, fazia eu me sentir viva. Afinal, era algo esquecido no meio da mentira. Uma parte que a máscara não conseguia cobrir. Assim como eu era. Comecei uma sequência de giros e quando atingi o terceiro, abri os olhos e me deparei com algo que não estava ali antes. Ou melhor, alguém.

– Você dança muito bem. — o garoto que antes se escondia nas sombras das árvores se aproximou de mim para que eu pudesse ver melhor seu rosto magro, seus olhos azuis e seus cabelos cor de areia. Ele usava um casaco de capuz preto, talvez por isso não o tivesse visto antes.

– Obrigada. Me deculpe não tinha visto você aqui. — eu peguei rapidamente minha bolsa preta do banco. Sentia minhas bochechas ardendo de vergonha. Nunca ninguém tinha me visto dançar. Eu não tinha coragem suficiente para dançar em público antes de completar 16 anos e poder competir nos campeonatos estaduais de dança. Eu treinava todos os dias da minha vida para esse momento.

– Certamente que não. — ele se sentou no banco.

– Eu... Bom... Já estava de saída. — me virei apontando para a casa de onde saía uma música eletrônica alta.

– Nick. Meu nome é Nick Branson. — ele se levantou. Eu me virei para ele novamente.

– Branson? Acho que já ouvi esse nome antes...

– Creio que não. Não é um nome digamos... Importante.

– Então você não foi convidado. Foi?

– Não é claro que não. Nunca convidariam alguém sem nome e dinheiro não é? Mas, quem se importa? A maioria das pessoas aqui não foi convidada. E sinceramente eu odeio esse mundo fútil e capitalista. Enfim, pelo que eu me lembre, eu disse meu nome, mas você não me disse o seu...

– Claire Chase. — seus olhos azuis me hipnotizavam e eu não conseguia pensar em nada além do essencial para dizer.

– Claire Chase... É parente do famoso empresário Lary Chase? Aquele que tem milhares de empresas de publicidade?

– Sim, sou filha dele... Mas, como...

– Foi um prazer srta. Chase. — ele fez uma reverência, mas senti ironia em sua voz como se ele tivesse me tratando como uma princesinha e eu estava odiando aquilo, afinal assim como ele eu também odiava aquele mundinho falso, mas não conseguia mostrar minha verdadeira personalidade para aquele garoto tão misterioso. Era como um bloqueio em que eu não conseguia ser eu mesma enquanto aqueles profundos olhos azuis me observavam. Minha raiva me despertou e me fez sair dali o mais rápido possível sem dizer mais nada. Eu não era daquele jeito. Eu não era como os outros naquela festa, mas não era isso que ele pensava. Me virei para ver se ele ainda estava lá, mas vi somente uma porção de plantas e escuridão.