Flowers and Hurt
1 Flowers and Hurt
Notas iniciais
Tudo estava em chamas.
Rebecca encarava o fogo, que se intensificava a cada instante, alastrando-se por toda a floricultura, a mesma que sua mãe deixou antes de morrer naquele terrível acidente, e que foi seu único sustento durante todos esses anos sozinha.
E, para piorar, a loja também era sua casa.
Estava perdendo tudo naquele fogo.
— Afastem-se! Estamos tentando controlar o fogo! — Um dos bombeiros berrava, tentando afastar as pessoas que começavam a se juntar, curiosas para ver aquele desastre acontecendo.
Algo estoura dentro da loja, aumentando o fogo e assustando a todos, que recuam de medo, porém continuam a encarar as chamas.
Não iriam controlar aquele fogo tão cedo, Rebecca chegou à conclusão de que perderia tudo.
— Você é a proprietária do estabelecimento, certo? — Alguém toca em seu ombro, que se vira e dá de cara com um policial.
— S-sim. — responde, mal conseguindo encontrar sua voz.
— Pode vir comigo um momento? — Ela concorda com a cabeça enquanto os dois se afastam do burburinho. Quando estavam a uma distância considerável e que não iriam ser interrompidos por sons externos, o policial tira um bloco de notas de seu bolso — Seu nome é Rebecca Thomson, correto?
— Sim.
— Sabe se havia alguém na casa?
Por um momento se lembra de seus amigos um tanto quanto inusitados, Arion e Dorian, dois Sirens que conheceu na praia que ficava a algumas quadras de distância. Porém eles só aparecem durante a madrugada, se esgueirando com suas caudas pelas ruas sem serem notados, e só entram em sua casa se ela estiver lá.
— Não, eu moro sozinha.
— Algum animal?
— Nenhum.
— Algum amigo para passar a noite?
— Não. — Digamos que dormir no oceano não seja aconselhável para humanos.
Ela o vê anotando no bloco de notas e lançando um olhar estranho que a deixa confusa por um momento, até que entende.
Estava sozinha.
Aquilo pesa em sua mente.
Durante todos esses anos, sempre esteve sozinha. Todos os seus amigos se afastaram, brigaram com ela por não ser como eles. Sua tia, que a cuidou quando criança, foi embora no momento em que completou a maioridade, e por mais que procurasse, nunca a encontrou novamente.
Até aquele momento aquilo não incomodava Rebecca, na realidade, ela apenas se lotava de trabalho e fazia de tudo para distrair sua mente de pensar o quão solitária era. Se não tivesse aqueles dois Sirens aparecendo de vez em quando, não teria ninguém para conversar ou sorrir.
Reconhecer tudo isso a faz arfar.
Estava sozinha.
E não tinha ninguém que pudesse lhe ajudar.
— Não temos nenhum lugar na cidade que faça serviços de graça para passar a noite, mas posso oferecer para você passar a noite na delegacia, não se preocupe, não vai ter que dormir numa cela. — O policial oferece, com pena da sua situação.
— Ah, n-não precisa, eu me viro. — Sua resposta é automática, e o policial concorda com a cabeça, indicando que ela estava liberada.
Ela se vira, começando a caminhar, olhando sua loja pegando fogo.
Tudo o que tinha estava sendo consumido por aquelas chamas.
E não tinha nada que pudesse fazer para parar aquilo.
Seus pés começam a se mover, se distanciando aos poucos daquele caos.
Como faria para conseguir dinheiro?
Onde dormiria?
Comeria?
Como conseguiria sua vida de volta?
As perguntas ficam martelando em sua mente, enquanto se lembra de tudo o que aconteceu, tentando achar onde havia errado.
Será que foi quando seus pais morreram? Ela era muito nova na época, porém não era desculpa para ter sido birrenta com eles e gritado que preferia ter outros pais porque não quiseram lhe dar uma maldita boneca. Aquilo foi a última coisa que falou para eles antes de saírem de casa.
E só veio a reencontrá-los quando estavam em um caixão.
Ou será que foi quando sua tia a cuidou, onde qualquer coisa que fazia, ela brigava e sempre a relembrava que foi por sua culpa que seus pais morreram e que agora deveria ficar cuidando da floricultura que tanto odiava.
Ou será que foi quando participou daquela festa, onde algum de seus amigos batizou sua bebida sem ela saber e apenas acordou uma hora antes do amanhecer no meio de várias pessoas e com suas roupas arrancadas. Aquilo gerou a pior briga de sua vida, que envolveu a polícia e a prisão de alguns presentes. Desde lá, ganhou uma fama ruim entre os festeiros da cidade e não era bem-vinda em festas e boates, o que piorava tudo por ser uma cidade relativamente pequena em que todos se conheciam.
Fazendo assim com que fosse uma pessoa solitária naquela cidade, vivendo quase o seu tempo inteiro dentro da loja.
Que agora estava deixando de existir.
Começa a correr.
A verdade é que continuava naquela cidade porque não tinha escolha, sua renda vinha exclusivamente da loja, e não teve como fazer uma faculdade porque sua tia não quis. E agora que a loja estava virando cinzas, não tinha como se reerguer.
Tudo estava acabado.
A única coisa que a alegrava naquela cidade eram aqueles dois Sirens, que agora não tinham mais como se esconder em sua casa.
Estava se arrependendo de nunca ter tentado ir atrás de seu sonho de estudar em uma faculdade. Ainda mais agora, que é impossível conseguir isso.
Um som a faz parar.
Não um som qualquer.
Uma canção.
Olha ao seu redor, estava na frente do píer. Quem diria que acabaria perto do lugar onde conheceu Arion.
A canção vinha da ponta do píer, era uma canção em uma língua incompreensível, porém ela tocava o coração machucado de Rebecca, fazendo com que a seguisse.
Até que fica de frente com uma Siren, que conhecia muito bem.
— Siera? — pergunta, e a Siren para a canção e olha diretamente em seus olhos.
— Deseja que a dor acabe? — Ela estende a mão, olhando diretamente nos olhos de Rebecca, que a olha por alguns segundos, processando o peso daquela pergunta.
Aceitar a proposta de Siera era abandonar sua humanidade, suas lembranças, tudo, e se tornar uma Siren. Trocar toda essa dor e solidão por uma vida no mar, onde poderia ser livre pela primeira vez, não ter preocupações naquele mundo infernal.
Era muito tentador.
— A dor… Vai acabar mesmo? — pergunta em um sussurro, lágrimas escorrendo por seu rosto.
— Vai, mas a Rebecca que é hoje jamais retornará. — Siera fala de forma melodiosa. — Quer fazer a troca?
As duas se encaram por um momento, até que Rebecca faz sua escolha.
— Ei, Arion, diminui aí! — Dorian reclama, tentando serpentear atrás de seu amigo Siren, que saiu em disparada no momento em que viu uma luz e fumaça que vinham na direção de onde ficava a casa de Rebecca. — Droga, às vezes eu queria ter quatro braços como ele, ou pernas! — reclama, debatendo sua cauda na parede do beco, tentando ganhar um impulso para ir mais rápido.
Quando finalmente alcançou seu amigo, estavam em um beco que dava de frente para a casa de Rebecca.
— Podia ter me esperado, né? Cê sabe que eu não sou tão ráp-... — ele se interrompe quando finalmente vê que o amigo estava encarando assustado.
O que era antes o refúgio dos dois Sirens agora estava vermelho em chamas, mal dava para distinguir a forma que era antes a casa de Rebecca. Tudo que os humanos faziam para parar aquele fogo parecia que apenas aumentava mais as chamas.
— Arion, você não acha…
— Estou procurando. — É a resposta breve de seu amigo, que olhava ao redor, procurando algo que um humano não conseguia ver, até que finalmente detecta — Ela não está lá, está em outro lugar…
— Onde?
Antes que obtivesse uma resposta, Dorian se viu sozinho. Sério, por que Arion era sempre assim?
Os dois serpenteiam por entre os becos, Arion seguindo o rastro, até que chegam ao píer.
— O píer? Por que ela viria aqui? A gente sempre fica do outro lado da praia e ela sabe disso… — Ele começa, até que sente um cheiro específico, que faz sua espinha gelar — Arion, esse cheiro…
— Impuro. — Arion rosna, indo até a ponta do píer, colocando a mão na madeira, que estava molhada. — Aquela maldita…
— Siera? Como? A Rebecca não jogaria toda sua vida humana por causa dela. E Siera seria capaz de fazer isso depois de tudo que fizemos para ajudá-la?
— Impuros são assim mesmo, fazem de tudo para passar o contrato. — Ele olha ao redor — Mas fáceis de rastrear, mesmo com pernas. — E sai em disparada, com Dorian seguindo-o.
Era estranho poder caminhar depois de sabe-se lá quanto tempo.
Siera andava pela calçada que ficava ao lado da praia, absorvendo aos poucos o cenário moderno dos humanos, algo de que havia se esquecido desde que virou uma Siren.
E algo que jamais se recordaria, pois mesmo tendo virado uma humana novamente, não há como recuperar a memória que perdeu, que jogou fora quando se tornou um ser mitológico.
Porém as memórias de Rebecca continuavam pairando em sua mente, sua dor, seus sentimentos. E era algo que conhecia bem.
Não sentia remorso por ter dado um fim à dor daquela que havia se importado com ela por todo esse tempo, via apenas como uma forma de recompensá-la depois de tudo que a florista fez para ajudá-la. Ainda mais que, de acordo com as memórias, não havia como ela se reerguer daquele poço em que enfiou sua mente.
Sim, ela havia quebrado, e quando se quebra, não há como consertar.
Um som chama sua atenção, e quando se vira, algo colide com ela e a leva ao chão.
— O quê?! — grita, se debatendo e tentando tirar quem quer que fosse de cima de si, até que houve os rosnados e abre os olhos, se deparando com um Arion raivoso. — O que está tentando fazer, seu animal?!
— Olha quem fala, você era um de nós pouco tempo atrás. — Dorian aparece ao lado de Arion, tirando-o de cima da mulher.
— Por que você fez aquilo? — Arion rosna ainda mais, enquanto ela se senta no chão, massageando a cabeça.
— Suponho que tenham descoberto que a Rebecca agora é uma Siren. — fala em um tom irritado — E sim, fui eu, mas não a hipnotizei ou algo assim que vocês, Sirens Puros, imaginam que nós, Impuros, fazemos.
— Está dizendo…
— Foi a escolha dela abandonar sua humanidade e esquecer tudo.
— Mentira.
— Mas é a verdade. — Ela suspira ao ver que Arion continuava agressivo, obviamente não acreditando nela. — Olha, não sei se vocês sabem, mas quando passamos a maldição, vemos as memórias da pessoa, e a Rebecca não estava bem. Ela basicamente perdeu tudo em questão de horas e não via uma saída. — Tenta explicar — Teria uma solução? Tem, mas pra ela, começar do zero, sozinha, sem ter a educação necessária, sem o apoio de ninguém nesse mundo humano era praticamente impossível. Então, virar um Siren não seria algo tão ruim, já que não teria grandes preocupações depois.
— E você? Não está na mesma situação? — Dorian arqueia uma sobrancelha.
— Diferente da Rebecca, eu não me importo de me sujar para conseguir dinheiro. Moral nunca foi preocupação pra um Siren e não é para mim. — Ela ri — Mas não a julgue por querer esquecer tudo, a vida humana é difícil demais, e se você é uma pessoa pura, ela te engole e tenta te corromper o tempo todo. Ela quebrou, e não havia outra maneira. Mas se os faz se sentir melhor, ela não queria se esquecer de vocês, mas né, era o preço a se pagar pra acabar com a dor.
— Então, o que fazemos agora? Simplesmente vamos embora e fingimos que ela morreu? Que não há mais Rebecca? — Dorian bufa, não gostando de nada daquilo.
— Bem, por experiência própria, nós esquecemos de tudo quando viramos um Siren, mas ainda somos os mesmos na essência. Somos atraídos por coisas que faziam parte de nossas vidas antes. Volta e meia vejo Sirens fazendo algo que um humano fazia como de costume, mas sem saber o porquê, além de não saberem explicar por que gostam de tal coisa. — Ela suspira, vendo a cara interrogativa dos dois — O que estou tentando dizer é que, apesar da Rebecca não ser a mesma, de não ser mais humana, ainda é ela. E, no fundo, ela vai querer ficar com vocês de novo.
— Tem certeza? — Arion a encara.
— Por que eu mentiria? — Ela se levanta, batendo a mão nas roupas para tirar o pó e a areia delas. — E antes que me perguntem, ela foi naquela direção. Se seguirem a lua, talvez a encontrem. E também, com a habilidade de rastreio de vocês, não vai ser tão difícil achá-la, a presença dela ainda é a mesma, só mais fraca.
Com isso, Arion sai em disparada por onde ela apontou, deixando os dois o encarando.
— Grosso.
— Ele é assim, mas obrigado. — Dorian a encara. — Não posso dizer que estamos gratos pela ajuda, já que é em parte sua culpa tudo isso, mas apreciamos a informação.
— De nada, não que eu me importe ou espere algo de vocês. — Ela se vira — Apenas cuidem bem dela agora.
E com isso, a antiga Siren começa a caminhar, sumindo aos poucos enquanto adentra cada vez mais na cidade.
Deixando seu passado e aqueles que considerou amigos alguma vez para trás.
Por que tudo era tão gelado?
Essa pergunta paira sobre a mente da que antes se chamava Rebecca, enquanto nadava sem propósito naquelas águas escuras.
Era tudo tão estranho para ela, não tinha memórias sobre quem era, apenas se guiava por algum instinto, fazendo-a continuar em frente.
Só tinha certeza de que uma vez foi humana e trocou sua humanidade para se tornar aquilo.
E continuava a nadar.
Sentia que algo faltava, um frio por todo seu corpo, como se algo muito importante tivesse sido deixado para trás.
Estava nadando mais rápido.
Não importa o quanto se mexia, não conseguia se aquecer, aquele frio não a deixava. Era incômodo, como se uma parte de si estivesse faltando.
Continua a nadar.
Bem, realmente uma parte de si faltava, sua humanidade, porém seu instinto dizia que não era isso. Só que não sabia o que era.
Interrompe seu nado, uma faixa de luz chama sua atenção, não sabia por quê, mas a segue, deixando seu instinto tomar conta, indo até a superfície da água, emergindo. Para por um momento, até que seus olhos se arregalam ao ver onde estava.
Ao seu redor havia pequenos pedaços de terra, pequenas ilhotas, onde havia várias flores, e no centro, na maior ilhota, estava uma enorme árvore florida, onde de seus galhos desciam vinhas que estavam repletas de flores.
Aquele lugar parecia um paraíso, era a única descrição que ela poderia dar.
Ela nada até a ilhota maior, olhando maravilhada por aquela beleza. Quando chega na borda da terra, sai da água e se senta na pequena grama, as vinhas floridas iam até a altura de seus ombros, e ela toca uma delas com sua mão, sorrindo.
Flores a faziam feliz, faziam com que aquele gelo que sentia se esvaísse.
Porém não todo.
Iria ficar nesse lugar, era perfeito para ela.
Com esta decisão, deita-se na grama, deixando o sol lhe esquentar e fecha os olhos, caindo no sono.
Já se passaram dois dias desde que encontrou aquele lugar.
Passou a maior parte de seu tempo observando as flores, passeando pelas ilhotas e cuidando das flores. Não sabia como, porém sabia quais eram e o que precisavam.
Enquanto cuidava de algumas orquídeas, sua mente divagava. O gelo que sentia tinha ido embora, porém não todo.
Ainda faltava algo para se sentir completa.
Estranhamente, não era o instinto de buscar um humano para passar a maldição, não, não sentia nem o menor ímpeto de fazer isso, o que já a caracterizava como uma Siren estranha.
Não, era algo que não conseguia saber.
Suspira, molhando mais um pouco as flores.
Terminando, retorna para a água, iria agora passar o resto do dia na árvore maior, aproveitar o sol e dormir um pouco e…
Um Siren, alguns metros à frente, para e a encara, parecia surpreso.
Ela paralisa e o encara. Ele era um Puro, aqueles que descendem dos demônios.
E Puros não gostam de Impuros como ela.
Essa informação paira em sua mente, deveria sair dali, sumir da vista dele para não entrar em conflito com ele. Não venceria nem se tentasse.
Se vira, o mais seguro seria voltar para a superfície e ficar em uma das ilhotas menores até ele ir embora. Não que ele não pudesse decidir também ficar nas ilhotas, porém era o único lugar que ela poderia sair da vista dele no momento.
Começa a nadar rapidamente, até que ouve o Siren falar algo.
— E-espera! — Ela ignora, subindo até a superfície e saindo da água, ficando deitada entre as flores enquanto observava o Puro dentro da água.
Ele se mexe um pouco, parecia confuso no que fazer. Outro Siren aparece e começa a falar com ele, e para a infelicidade dela, era outro Puro.
Quais eram as chances de dois Puros irem para um lugar tão isolado como aquele? Ela devia ter muito azar mesmo.
Os dois Puros começam a se afastar, ela respira fundo, aliviada.
Poderia ficar em paz agora com suas flores.
Era o que achava, porém um dia depois, os Puros voltaram. Fugiu de novo, e foram embora.
E no outro dia também aconteceu o mesmo.
E no outro.
E outro.
— Qual é o problema deles? — Ela rosna, enquanto molha algumas plantas, quando vê que o Puro da cauda roxa a encara de longe, de novo.
Sério, o que eles queriam?
O da cauda roxa era sempre o primeiro a chegar, ele ficava a encarando, às vezes sorria quando a via. O da cauda rosa estava à espreita, ela podia sentir, porém não sabia dizer o local exato. Esse era o problema de Puros, eles sabiam mascarar sua presença.
Termina de molhar as plantas e suspira. Pela sua experiência dos outros dias, eles pareciam que não iriam atacá-la se ela chegasse perto. Será que conseguiria convencê-los a deixá-la em paz?
Não, não podia correr esse risco, ainda mais que obviamente o da cauda roxa era muito mais forte que ela e parecia ter um temperamento mais volátil.
Volta para a água, iria para algum lugar mais longe e veria se assim eles vão embora.
— Ah, espera, Rebecca! — Ela para. Não sabia por quê, mas sentia algo familiar naquele nome.
— Esse nome… — ela sussurra.
— Ah, bem… Esse nome… Era o seu nome… — ouve o da cauda roxa falar. Ela se vira devagar para ele, confusa.
— Meu nome? — De certo modo, o nome lhe soava nostálgico. — Você… Me conhecia quando era humana?
Ele confirma com a cabeça.
É então que as peças se encaixam, por isso ele não atacava, mesmo ela sendo uma Impura.
Espera, era uma Impura agora, não deveria estar falando com um Puro, e agora que ela não se recordava nada sobre tudo o que viveu com ele quando humana, ele poderia atacá-la quando visse que ela era outra coisa agora.
— Desculpe-me, mas eu não tenho minhas lembranças, não sou a “Rebecca” que você espera. — Ela recua, medo pairando em suas ações. Ele ficaria com raiva agora, e teria que ser rápida para fugir e…
— Eu sei disso. — Ela paralisa.
— S-sabe? — Todo o seu plano de fugir foi esquecido pelo choque.
— Não me importo que você tenha virado uma Siren, você continua sendo você, e é por isso que vim até aqui.
Ele chega mais perto e pega nas mãos dela, ela sente seu coração acelerar.
Não, aquilo era errado, ele ainda espera que ela seja como era quando humana.
— Você vai apenas se decepcionar. — Tira as mãos dele, recuando — Não sei o que eu era pra você, mas eu mudei, sou apenas uma Impura agora. Não tem essa de “continuar sendo eu mesma”. Eu sou uma Siren, sou diferente da Rebecca que conheceu. Além disso, eu nem sei quem você é.
— Impura ou não, isso não importa. E não me importo de começar de novo, apenas… Quero ficar ao seu lado. — A tristeza dele aperta seu coração, sentia a sinceridade em cada palavra, sentia que, de alguma forma, ele jamais tentaria atacá-la.
— Mesmo que eu seja totalmente diferente da Rebecca que conheceu? — era a pergunta que mais a deixava apreensiva. Ele a encara nos olhos.
— Mesmo que seja diferente. — Ele sorri.
Ela arregala os olhos. O vazio, o frio que sentia em seu peito, se esvaiu, finalmente havia achado a última peça, a peça que faltava.
— Então, posso ficar ao seu lado de novo?
E então ele é surpreendido quando dois braços o envolvem.
Ela o abraçava, seu corpo esquentando, tudo parecia estar certo agora.
— Acho que isso é um sim? — Ele ri, ela concorda com a cabeça, fazendo-o rir mais.
— Eu não sei por que, mas acho que você era o que faltava. — Ela murmura — Faltava algo, um pedaço, eu não sabia o que era, mas agora acho que sei, acho que era você.
— Eu também me senti assim quando descobri o que aconteceu com você. — Ele olha para toda ela. — Mas também sinto que agora estou completo.
Os dois sorriem um para o outro, se abraçando.
Dorian encarava os dois de longe, suspirando quando vê que deu tudo certo.
— Bem, acho que isso quer dizer que agora a gente vai morar aqui no meio dessas flores. — Ele encara os dois, vendo a felicidade de seu amigo. Quem diria que uma humana, que depois virou Siren, domaria o feroz Arion? — Acho que não vai ser tão ruim afinal. — Ele sorri.
O trio finalmente se reuniu.
Tudo estava bem agora.
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