Flowers
4 Aquele sorriso
Notas iniciais
A Julie do passado provavelmente não gostaria da vida da Julie do presente.
Se é que aquilo poderia ser chamado de vida.
Julie gostava de se recordar da adolescência, por mais que lhe causasse certa nostalgia. Ela era feliz naquela época, por mais que a família tivesse milhares de defeitos, por mais que convivesse em uma casa que tinha brigas a cada refeição, por mais que tenha se magoado profundamente naquela época.
A Julie de hoje em dia não se permitia viver.
Ela acordava uma hora antes do trabalho numa editora não tão reconhecida assim, passava o dia todo no trabalho e depois voltava pra casa pronta para dormir e recomeçar tudo aquilo. Ela detestava viver ter uma rotina, mas não fazia questão de mudar aquilo. Era como a sua zona de conforto. Mas era extremamente cansativo e desanimador.
Nos dias de folga ela tentava se distrair. Assistia algum programa de repetido, tentava reler algum livro velho que tinha se esquecido de tirar das caixas da mudanças que já ainda estavam lá ocupando uma pequena parte do quarto dela, ou então tentava olhar pela milésima vez se alguém estava sentindo a sua falta. E, como esperado, todos pareciam viver suas vidas perfeitamente bem sem ela.
Fez o que menos fazia sentido no momento. Foi em direção a varanda e sentou-se no chão gelado.
A varanda era um cubículo. Era como um quartinho de limpeza em forma de varanda de tão pequeno. Mas Julie não se incomodava com esse pequeno fato. Gostava de ficar ali, observando as pessoas levando a vida. Queria poder dizer que aquilo a deixava nostálgica, mas não conseguia sentir nada. Apenas organizava os pensamentos quando sentia o vento gelado contra a pele bronzeada, e hora ou outra sorria quando presenciava uma mãe puxando a orelha de um filho ou o moço do prédio ao lado correndo atrás do cachorro que sempre acabava fugindo.
E então se questionou pela segunda vez naquela mês por que não acreditava no amor.
Vários argumentos rondaram sua cabeça e nenhum parecia se encaixar perfeitamente. Tinha parado de crer nele a algum tempo.
O amor é como uma flor. Ele precisa ser plantado e cultivado com muito carinho, precisa ser regado todos os dias. Precisa-se ser cuidadoso e observador para ver se não foi ferido por nenhuma praga. O problema é que quando uma pessoa consegue o amor de alguém ela simplesmente para de regar, afinal, essa fase já passou e tudo vai continuar firme e forte. Mas não é bem assim. A flor vai murchando, dando vários sinais, até que finalmente, morre.
Até agora Julie não entendia se ela tinha deixado de regar as pessoas ou se elas tinham parado de regar ela.
Levantou-se com um pulo quando escutou o som alto da campainha. Suspirou, cansada de mais para protestar.
Podia ter uma noção de quem a aguardava do outro lado da porta.
– Uma flor para outra flor!
Esse com certeza foi o elogio mais idiota que ouviu em anos. Estava tão cansada que nem pensou em mandar ele ir se ferrar. E talvez, gostasse um pouco da flor que ele lhe trouxe. Fazia um bom tempo que ninguém a irritava ou mesmo, que alguém lhe dava algo que não fosse contas para pagar.
Ele esperou prontamente uma resposta. Com um sorriso tão verdadeiro nos lábios que Julie teve vontade de perguntar qual era a porcaria da receita da felicidade.
A única coisa que estranhou, era que a essa hora ele provavelmente estaria fora.
– Sabe, – ele olhou para baixo sem graça – eu ficaria bem feliz com um obrigado.
A postura da mulher baixou um pouco após escutar isso. Era muito grossa, sem motivos aparentes. Deveria ficar irritada com as vizinhas que faziam questão de ir fofocar sobre ela, ou com si mesma por ter deixado escapar algo que não era da conta de ninguém além dela. Mas não podia evitar, ainda tinha uma certa desconfiança em relação a ele. Ela não sabia nem o nome dele. Por um segundo não soube o que responder. Talvez um “obrigado” fosse a resposta, mas não queria que a conversa acabasse ali, tão rápido.
– Se me contar por que acredita no amor, – a morena hesitou um pouco antes de acabar de falar. Pegou uma mecha loira que ainda não tinha sido completamente descolorida e ficou mexendo nela perguntado a si mesmo o que iria propor. – eu te conto por que não acredito.
***
Havia uma cafeteria a duas quadras dali.
Quase mudou de ideia, mas continuou avançando ao lado do vizinho.
Eles se mantinham em um silencio estranho. Toda vez que alguém tentava falar alguma coisa era algo totalmente forçado, para tentar quebrar a “barreira” que tinha se formado ali.
Era muito estranho estar disposta a falar sobre sua vida para uma pessoa que mal conhecia. Parecia... loucura.
Nessas horas, sentia falta de uma amiga para lhe dar conselhos. Sentia falta da Becca, a única que tinha ficado. Sentia falta da tia lhe dizendo para tomar cuidado com as mãos bobas toda vez que saia com algum menino ou de como tinha que repetir toda vez que era só um amigo.
Mas algo naquilo ainda a incomodava muito. Ele sabia muito sobre ela. Sabia o nome, onde morava, uma opinião forte sua e tudo que ela sabia sobre ele era os seus horários.
Pigarreou de leve tentando trazer a atenção dele para si. Sentiu a garganta reclamar depois do feito, nunca entendeu porque as pessoas faziam isso, toda vez que tentava fazer acabava saindo baixo demais e tinha que repetir.
Se queria construir uma boa relação a partir dali com o vizinho, tinha que ter algum começo, algum dialogo. Ela estava caminhando com um estranho até uma cafeteria para falar de amor. Mas precisava conhecer pelo menos um pouco esse estranho. Pela primeira vez, pode notar a cor dos olhos dele. Era uma coisa muito clichê dizer que achou eles bonitos, mas apenas se manteve calada.
O olhar dele sobre si era como um pedido para prosseguir. Um encorajamento. Então desviando o olhar e tentando soar simpática fez a pergunta que não queria se calar.
– Qual o seu nome?
Ele sorriu. Aquele sorriso.
– Rafael. – ele também desviou o olhar ainda sorrindo. – Prazer em conhece-la Julie.
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