Flower Girls
19 Surrupiadores de Azeitonas.
Notas iniciais
Jungkook não fazia ideia do que o havia instigado a agir daquela maneira. Acontece que, enquanto ele se abria com Violet, e lhe contava o quão confuso estava em relação aos seus sentimentos, seus olhos se fixaram nos lábios da mesma, e de repente, eles pareciam muito convidativos. Eram rosados, e pareciam ser tão doces. Então, ele tomou uma decisão precipitada, e essa fora a primeira coisa imprudente que fizera em sua vida. Ele se aproximou. Conforme andava na direção da mesma, a vontade de tomar seus lábios para si só aumentava. Seu coração batia mais forte conforme chegava perto da garota, tanto que as marteladas do mesmo chegaram a machucar seu peito. Ele sabia que era errado, afinal de contas, ela era sua melhor amiga. Mas, ele não se importou.
Somente agora, com a boca colada na dela, ele percebe o que fez, e mesmo assim, não ligou.
“Macios”.
Foi a primeira coisa que veio a sua mente quando os lábios da menina de cabelos roxos vieram de encontro aos seus. Suas mãos foram, timidamente, parar na cintura dela, e ele se arrepiou quando sentiu as mãos da mesma, delicadamente, pousarem em sua nuca. O mesmo não queria que aquele momento acabasse, e muito pelo contrário, quase chegou a aprofundar o beijo, se não fosse por Violet, que, inusitadamente, o empurrou levemente, quebrando o contato entre os dois. Ela o encarou com os olhos esbugalhados, os quais demonstravam sua surpresa, e levou a mão direita à boca, tocando com o indicador seu lábio inferior. Sua cabeça estava uma bagunça, e se antes ela se encontrava em dúvida sobre o que sentia em relação à Jungkook, agora se pode dizer que seus sentimentos e emoções haviam se misturado numa grande bola de neve de caos e desordem.
Jungkook, sem saber exatamente o que fazer, tentou justificar suas ações, mesmo que nem mesmo ele entendesse o que o tinha feito agir de tal maneira. Ambos estavam confusos.
— Violet, eu... – Violet o interrompeu, erguendo sua mão esquerda num sinal de “pare”, ainda encarando o nada.
— E-eu preciso ir! – Exclamou de forma rápida e, sem olhar para trás, saiu correndo e desceu as escadas, que antes a tinham levado até ali, parecendo um furacão.
Jungkook ficou parado no mesmo lugar, enquanto um único pensamento ocupava sua mente: Será que ela não gostou do beijo?
~~//~~
— O que foi... – A garota interrompeu sua frase para tomar fôlego. – Isso?
Ela agora se encontrava no banheiro de seu dormitório e, pelo que pôde ver, suas companheiras ainda não haviam saído do quarto do bangtan. “É melhor assim”. Violet pensou. Começou a se beliscar diversas vezes, questionando se tudo aquilo não passara de um sonho, um sonho bem maluco. Mas, quando viu que ela não iria acordar, notou que era tudo verdade, isso tudo estava acontecendo.
— O que...? – Sussurrou. A garota mal conseguia formular uma sentença sequer, de tão atordoada que estava. – Por que...?
Ela olhou seu reflexo no pequeno espelho pendurado em cima da pia, e seus olhos migraram diretamente para sua boca. Automaticamente, ela começou a reviver a cena de minutos atrás, e isso a deixou envergonhada. Percebeu pela sua imagem no espelho que suas bochechas começavam a adquirir um tom avermelhado.
— Aish! – Bagunçou seus cabelos. – O mundo deve ter virado de cabeça para baixo. – Concluiu, e decidiu começar a se preparar para ir dormir. A noite iria ser longa.
*** ***
Pov. Violet.
E eu começo minha narrativa dizendo: Coitada de mim!
Não entendeu? Eu explico.
Passei a noite inteira me revirando na cama, sem conseguir pregar os olhos uma vez sequer, e quando finalmente o faço, o maldito despertador de Rose toca, e visto que eu não levantei junto com as outras garotas, elas logo vieram me atacar com seus travesseiros. Como alguém pode ser tão animado logo pela manhã?
Enfim, não levei muito tempo para me arrumar hoje, e garanto que isso já está virando uma rotina. Meu dia-a-dia é tão cansativo, que nem tenho tempo para mim mesma. Porém, enquanto me trocava, comecei a lembrar novamente da noite passada. Já estava até ficando enjoada disso, afinal, passei a madrugada inteira recordando a imagem de Jungkook se aproximando de mim, de como meu coração estava acelerado, e de como seus lábios eram gentis... Solto um suspiro. Talvez eu não esteja nem um pouco enjoada de me lembrar dessa cena.
Terminei de colocar minha roupa o mais rápido possível, já que fazia um frio desgraçado.
— O que há com você hoje, Violet? – Camellia questionou.
— O-o que foi? Tem algo estranho comigo? – Tentei me manter o mais firme possível.
— Só o fato de você gaguejar enquanto fala já é estranho. – Senti minhas bochechas esquentarem, com a frase de Jasmine.
— E agora está ficando vermelha! – Incriminou-me Daisy. – Aí tem coisa...
— Não tem nada para nos contar, Violet? — Rose perguntou, semicerrando os olhos e dando destaque ao meu nome. Será que ela viu alguma coisa? – Algo relacionado à alguém? – Soltou um de seus sorrisos debochados. Como ela sabe que algo aconteceu ontem? Será que ela viu o beijo?
— N-não aconteceu nada ontem à noite! Nós não fizemos nada! – Me desesperei, exaltando meu tom de voz e, só então percebi a burrada que havia cometido.
— “Nós” quem? – Jasmine ergueu a sobrancelha direita.
— E a gente não falou nada sobre ontem à noite... O que aconteceu? – Daisy acompanhou as mais velhas, também lançando um olhar travesso para mim. Conti um suspiro de frustração e pensei na melhor desculpa que poderia usar no momento.
— É que... – Hesitei por um segundo. – Ontem à noite, eu vi na geladeira que ainda havia um daqueles potes cheios de azeitonas que a Rose trouxe do Brasil, daí eu pensei em ir comer um pouco fora do quarto, mas encontrei J-Hope no caminho para o refeitório e nós acabamos comendo tudo. – Admiti com cara culpada.
— É só isso? – Camellia perguntou, e todas pareceram ter a mesma reação... Exceto por Rose. Parecia que a mesma iria começar a espumar de raiva a qualquer instante.
— Você fez o que? – Questionou com a voz extremamente aguda. – Aquele era meu último pote, e você sabe o quanto eu amo aquelas azeitonas, sua meliante surrupiadora de *olivas alheias! Eu vou te matar! – Rose começou a correr atrás de mim, tacando tudo que via pela frente, tendo como alvo, a minha cabeça.
Eu tive que sair do quarto, pois se ficasse lá dentro mais um segundo, seria alcançada e morta pela fanática por azeitonas. É claro que o pote ainda estava intacto na geladeira, porém a mesma nem foi checar, e agora estávamos nessa situação. Mas, pelo menos, é melhor do que contar o que realmente aconteceu ontem à noite. Fui perseguida pela ruiva por mais uns dez minutos, quando consegui despistá-la, entrando no primeiro local que encontrei, que no caso era uma sala de ensaios qualquer. A única coisa é que, Suga e Hope estavam lá.
— Você! – Apontei para J-Hope. – É melhor se esconder. – Aconselhei-o, lembrando-me que também havia metido ele no meio da minha mentira. – Não me pergunte o por quê, apenas faça, e mais tarde eu te explicarei tudo. E você! – Dessa vez falei com Suga, que me lançou um olhar confuso. – Me proteja, por favor! – Implorei por ajuda, enquanto me escondia atrás de suas costas, segurando sua camisa. J-Hope fez o mesmo, e logo parecíamos duas criancinhas assustadas se escondendo atrás da mãe quando um estranho fala com elas.
— Por que eu deveria protegê-los? – Questionou, com um sorriso irônico no rosto. Porém em seus olhos, eu pude perceber um pouco de diversão.
— Porque... – Fiz uma pause dramática, e fiquei na ponta dos pés, ainda atrás do mesmo. Aproximei-me de sua orelha, sussurrando logo em seguida. – O tornado Rose está chegando. – Percebi os pelos da nuca do mesmo se eriçarem, por conta de minha respiração em seu ouvido. – Eu acho que consegui despistá-la, mas tenho certeza que cedo ou tarde ela irá me encontrar. Até lá, acho que eu e J-Hope teremos que morar nas escadas de emergência do prédio.
— Mas o que diabos eu tenho haver com isso? – Perguntou visivelmente confuso, e eu lhe lancei meu melhor sorriso fofo. – Acho que eu te coloquei numa fria, meu caro amigo.
*** ***
No fim das contas, Rose não nos esfaqueou, pois finalmente notou que seu precioso pote de azeitonas ainda continuava intacto dentro da geladeira. Mas, tenho certeza que a mesma exigirá explicações mais tarde.
— Agora, estou morrendo de medo de sair pelos corredores e encontrar Jungkook por aí. – Terminei de contar a história a J-Hope.
Neste momento, nós estávamos nas escadas de emergência do prédio, e eu contava a Hoseok o que acontecera noite passada.
— Mas, vocês não estavam brigados? – Indagou.
— É uma longa história. – Falei simplista, e quando vi que o mesmo pedia por mais detalhes, não me aprofundei muito. – Digamos apenas que era uma fachada, para o manager não nos impedir de sermos amigos.
— O mais irônico é que, no final, o manager estava certo em desconfiar dos dois. – Soltou uma risada escandalosa, e eu fiz um esforço para dar um tapa em sua cabeça, já que o mesmo estava sentado um degrau acima de onde eu estava.
— Isso é sério, idiota!
— Ué!? Eu estou falando sério. Seríssimo! – Falou, fazendo uma pose nobre. – Mas, o que você vai fazer agora? – Perguntou o que eu estava tentando evitar pensar. Eu não sabia o que fazer, e fui honesta sobre isso. – Não faço a menor ideia. O que eu faço?
— Eu acho que vocês deviam conversar. – Fiz uma careta.
— Não consigo nem pensar nele sem começar a corar, como vou falar com ele?
— Se acalme. O momento certo virá, e você saberá o que falar quando a hora chegar, ok? – Me tranquilizou. – Além do mais, acho que você tem outras coisas com o que se preocupar...
— Tipo...? – Incentivei-o a continuar.
— Ouvi dizer que você vai fazer uma audição na SOPA, é verdade? – Ele parecia animado.
— É. – Respondi indiferente.
— Você não parece ansiosa para isso acontecer. – Observou.
— Acredite: Eu estou ansiosa, porém não de um jeito bom. – O mesmo tombou a cabeça para o lado, mostrando que não entendeu.
— Sofro de transtorno de ansiedade. – Falei neutra. Já que eu estava revelando todos os meus segredos para ele, por que não contar sobre isso também?
— Oh. – Não havia o que falar, então o mesmo simplesmente se sentou ao meu lado e me abraçou o mais apertado que pôde. Seu abraço é reconfortante, e me lembra muito minha mãe.
Acho que não comentei antes, mas um dia desses, depois de seis meses morando na Coreia do Sul (O tempo voa), recebi pela primeira vez uma mensagem da mamãe. Nela, a mesma me perguntava:
“Vale mesmo a pena?”
Eu entendi o que ela quis dizer. Será que toda essa saudade que eu sinto de casa, todo esse cansaço, toda a frustração, todas as horas a mais gastando minha voz, valerão a pena? Meu esforço será recompensado? Eu vou ser feliz? A resposta? Eu ainda não sei, mas eu vou descobrir!
— Vai valer a pena? –Questionei, sem que me desse conta de que essas palavras estavam saindo de minha boca e, quando percebi, eu chorava novamente. Sinto-me uma bebezinha fazendo isso. Sempre demonstrando minha franqueza ao invés de me mostrar forte. Sempre chorando quando eu deveria sorrir. Sinceramente, não sei como as pessoas me aguentam.
— Eu sei que é difícil, mas, deixa eu te contar uma coisa:
Dizem que quanto mais alto você sobe, maior é a queda. Mas, quanto mais alto eu subo, melhor é a vista.
Você não precisa se preocupar se vai cair e se machucar, você não vai! E mesmo que você acabe caindo, você sempre pode se levantar e continuar subindo. Martin Luther King disse uma vez:
“Se não puder voar, corra. Se não puder correr, ande. Se não puder andar, rasteje, mas continue em frente de qualquer jeito.”
Você quer saber aonde essa estrada termina? Quer saber o que te aguarda no final do arco-íris? Continue andando. Nunca para trás, somente para frente, e assim, você conhecerá o inédito, um mundo totalmente novo. Então, não desista. – Terminou sua sentença com um beijo em minha testa.
Quando o mesmo terminou, eu me vi sem palavras, apenas o apertei mais, se é que isso era possível, e quando finalmente eu me lembrei de como utilizar minha língua para formar frases e expressar minhas ideias, eu o agradeci, muito.
— Você é mesmo o Hope que eu conheço? – Indaguei com divertimento, me desencostando de seu ombro, porém ainda abraçada ao mesmo.
— Você ainda não viu nada. – Brincou, e secou algumas de minhas lágrimas, passando ambos os polegares por minhas bochechas. – Agora, pare de chorar, por que você fica feia quando o faz. – Fiz minha melhor cara de indignação, porém logo comecei a rir junto com o mesmo.
— Eu só quero te pedir uma coisa. – Informei, me desvencilhando completamente de seu abraço.
— O que?
— Não sinta pena de mim, ok? Nunca! Eu odeio o olhar que as pessoas fazem quando eu conto meus problemas para elas. É como se eu fosse uma pobre coitada, cheia de lamúrias e jogada na rua da amargura. – Franzi o cenho.
— Eu prometo que não vou senti pena de você. – Rolou os olhos.
— Por que você revirou os olhos desse jeito? – Questionei.
— É que quando me falou que iria pedir uma coisa, pensei que fosse algo mais fofo como: Promete ficar sempre comigo, oppa? Ou, promete que seremos amigos para a eternidade? – Imitou-me, exagerando na hora de afinar a voz. E dessa vez quem revirou os olhos fui eu.
— Você é muito fofo Hobi... – Comecei, o que fez crescer um sorriso em seu rosto. – Mas não espere nunca ouvir isso de mim. Eu não sou tão melosa assim. –Soltei uma risada, enquanto apertava sua bochecha.
— Omo! Eu mereço isso? Uma adolescente, seis anos mais nova que eu, falando informalmente comigo e ainda apertando a minha bochecha! É um ultraje! – Fingiu-se de bravo, enquanto começava a me dar cutucões na barriga, como uma forma de me fazer cócegas.
— Ah, pare com isso! Foi você quem começou! – Exclamei, quase não conseguindo me pronunciar por conta de minha própria risada incessante.
Logo Hoseok também estava rindo, mais por conta da minha risada do que por qualquer outra coisa. E assim nós ficamos. Rindo e conversando, até o momento em que ambos tinham que voltar para seus compromissos, e tivemos que deixar a diversão de lado. Mas, de uma coisa eu sabia: Aquela conversa, eu levaria para a vida toda.
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