Flower Girls
8 Olha a pamonha!
Notas iniciais
Acordei no outro dia com o toque do meu celular, indicando que uma mensagem havia sido recebida. Tateei o criado mudo ao lado da cama, procurando pelo mesmo. Depois de encontrá-lo, abri os olhos com dificuldade, e desbloqueei a tela. Meu coração acelerou. Ele havia respondido à minha mensagem de boa noite. Ai Jesus! Tia Cleide, onde você está nessas horas? Cliquei no ícone da mensagem, e li o que estava escrito:
“Obrigado! Tenha um bom dia! PS: Você ainda deve uma salada para mim e meus hyungs! Não se esqueça. XD”.
Sorri com aquela simples frase, e me espreguicei, ainda me preparando física e mentalmente para o que viria à seguir. Agora eram exatamente sete e meia, e ninguém havia acordado ainda. Sabe o que isso significa? Hora da vingança! Muahaha! Ninguém mandou me acordar com uma sapatada! Abri um sorriso maior que o rosto e me sentei na cama. Procurei minhas pantufas antes de colocar os pés no chão, já que hoje o tempo esfriara.
Eu comecei a andar pelo quarto, pensativa: O que eu poderia fazer com essas jumentas que dividem o quarto comigo?
Até que aquela lâmpada irritante se acendeu novamente em cima da minha cabeça, acho que o ar da Coreia me tornou mais inteligente. Mas, como eu iria fazer isso? Eu precisava de alguém para me ajudar a achar o que preciso... Mas quem? Pense Violet, pense!
...
JungKook, é claro!
Peguei meu celular. Eu sei que ele havia me falado que eu deveria chamar se precisasse de ajuda com a coreografia, mas ele poderia abrir uma exceção, não é? Digitei a mensagem:
“S.O.S! quarto...”
Parei de digitar quando percebi que não sabia qual era o número do dormitório. Bufei constatando que sou muito caduca por me esquecer de olhar a porta antes. Andei até a mesma e enfiei minha cabeça para fora, olhando a numeração, e voltando para dentro logo em seguida.
“S.O.S! quarto 27”.
Apertei o botão enviar e fui destrancar a porta, para ele entrar. Enquanto esperava o mesmo chegar, comecei a arrumar minha cama. Porém, nem tempo de terminar eu tive. Um biscoito passou pela porta feito um furacão, todo descabelado, e com a respiração acelerada. Olhei para ele surpresa.
— O que...? – Começou a falar, mas teve que parar para recuperar o ar. Ele se agachou um pouco, curvou as costas para frente, apoiando as mãos nos joelhos e inspirou ar por longos segundos, expirando logo em seguida. – O que aconteceu? — Perguntou vindo em minha direção. – Você se machucou? – Segurou meu rosto com as duas mãos, examinando o mesmo. Suas mãos eram macias e seus olhos pareciam querer desvendar até minha alma. Aquele simples gesto me deixou envergonhada. Desvencilhei-me de seu delicado toque, um pouco encabulada.
— E-eu estou bem. – Droga! Por que eu gaguejei? – Você veio rápido hein? – Comentei, me permitindo soltar uma curta risada.
— Ya! Você me assustou! – Falou empurrando minha testa com o dedo indicador. – Nunca mande uma mensagem escrita “S.O.S” sem especificar do que se trata! Pensei que alguém tinha invadido o quarto, eu sei lá! – Ele parecia um pouco nervoso.
— Miane! – Exclamei. – Espera aí! Você achou que alguém tinha invadido o quarto? – Dei risada. – Isso acontece com frequência por aqui? Um invade o quarto do outro?
— N-não! Bem, você me entendeu! – fez uma pausa. – Ah, belo pijama, roxinha. – Corei com aquele comentário. Não havia nada de mais no meu pijama, tirando o fato de ele ser do come-come, aquele bichinho azul da vila sésamo que vive se empanturrando de biscoito. — Então, qual é o problema para você mandar mensagens a essa hora da manhã e me fazer vir para cá de pijama? – Questionou, e só então reparei nas roupas que ele usava. Apesar do frio, ele usava uma regata branca e um calção largo, mesclando as cores em listras azuis bebês e azuis marinhas. Eu até queria dar risada, mas aqueles braços de fora me deixavam desconcertada.
— Vamos precisar de um megafone. – Falei e ele me encarou confuso. – Onde podemos arranjar um?
~//~
E cá estamos nós, dentro daquele quartinho no qual me enfiei com Daisy à dois dias atrás, procurando por um megafone. De acordo com JungKook, aqui é jogada qualquer tipo de tralha, então, deve haver algo útil. Porém, a iluminação do lugar não ajudava em nada nossa busca! Quando entramos, até tentamos achar um interruptor, mas não obtivemos nenhum sucesso. Devo ressaltar também que minha mente estava em outro lugar. Eu não conseguia me preocupar em procurar o bendito megafone, quando estou sozinha com você sabe quem, no escuro. (Só para esclarecer, o “você sabe quem” não é o Voldemort kkk).
Minhas mãos suavam e meu coração palpitava, enquanto eu tentava ignorar o fato de que ele foi mexer em uma pilha de sucata ao meu lado. Aish, quanta paranoia! Por que estou agindo assim, afinal de contas? – Porque ele é Jeon JeongGuk! — Minha consciência gritou e isso só me deixou mais nervosa. “Calada Brittany!” Ordenei. Sim, minha consciência se chama Brittany e eu não vejo problema nisso. Fui despertada de meus pensamentos com uma exclamação animada vinda de Kook:
— Achei! – Ergueu o megafone como se fosse uma barra de ouro, exibindo-o para mim. – Não sei para que você precisa disso, mas espero que valha a pena.
— Ah, vai valer! – Falei e dei minha melhor risada maléfica, coisa que deve tê-lo deixado assustado.
— Você parece uma sociopata rindo desse jeito!
— Ah, deixa de besteira! Vamos logo testar isso. Pode ser que esteja quebrado. — Sugeri e ele apenas concordou. Apertou um botão e uma luz vermelha se acendeu no mesmo.
— Parece funcionar. – Falou, mas cometeu o erro de estar com o objeto próximo à boca. O que era para ser uma simples afirmação saiu dez vezes mais alto, e eu, atrapalhada como sou, me assustei, indo involuntariamente para trás. O outro problema, é que, quando fui para trás, tropecei em algum cabo jogado por ali, e senti meu corpo indo de encontro ao chão. Porém, diferentemente de todos os clichês que já vi por aí, JungKook não chegou a tempo de me segurar, e eu bati a cabeça com tudo no ladrilho.
— Aish! – Reclamei enquanto esfregava a mão no local, bagunçando um pouco meu cabelo. Sentei no chão com certa dificuldade, e JungKook se agachou de frente para mim.
— Como você consegue? – Perguntou.
— Como eu consigo o que?
— Ser tão atrapalhada! Você sempre se machuca, aonde quer que vá. – Soltou uma risada fraca, que me fez querer sorrir. Por que eu queria sorrir? Eu acabei de me machucar! Ele se levantou e me estendeu a mão. Senti minhas bochechas esquentarem, mas dei minha mão a ele, esperando a ajuda para levantar. Sua mão era tão quentinha e macia. Porém, ele chacoalhou-a, se soltando da minha mão. – O que está fazendo?
— Ué, v-você não...? – Não tive tempo de continuar, já que o mesmo me interrompeu.
— Eu só queria que você me desse seu celular, para eu ver se estava quebrado. – Falou e só então eu me lembrei do celular na minha mão. E o prêmio de maior pagadora de micos vai para: Violet! Ai que vergonha! Quero abrir um buraco e enfiar minha cabeça dentro, igual a um avestruz. Entreguei meu celular, procurando não olhar em seu rosto. – Ele está bem, agora levanta daí e vamos fazer o que você pretende. – E assim o fiz.
~//~
Já estávamos de volta ao quarto, e por sorte, nenhuma das meninas havia acordado, já que havíamos combinado de acordar às oito e vinte. Agora era exatamente oito horas. Como foi que passamos vinte minutos inteiros procurando pela porcaria de megafone?
— JungKook, está com seu celular aí? – Perguntei.
— Sim, por quê?
—Filme! Isso será épico! – Exclamei divertida. Ele, Camellia e Daisy não iriam entender nada, já que era uma piada interna de nós, brasileiras. Mas, eu aposto que quando esse vídeo for parar no youtube, vamos virar viral. Peguei meu celular e posicionei-o perto do megafone, e quando vi que JungKook já gravava tudo, dei o play no áudio no meu celular.
— Pamonha, pamonha, pamonha! Pamonhas quentinhas, pamonhas caseiras! É o puro creme do milho verde! Temos curau e pamonha! Venha provar, minha senhora, é uma delícia! – Não me pergunte por que eu tenho uma propaganda de pamonha no meu celular. Mas, eu sabia que um dia ela viria a ser útil!
O som estava muito alto, graças ao megafone, e acho que eu acabei acordando o prédio inteiro. No momento em que eu liguei o som, Camellia sentou na cama assustada, gritando:
— Eu não vou lavar os porcos! – Acho que era alguma coisa relacionada ao seu sonho. Logo em seguida, ela abriu os olhos, e olhou em volta, assustada.
Rose levantou da cama em um pulo, gritando que queria pamonha, e foi correndo para a janela, procurando o carro que vendia. Acho que ela se esqueceu por um segundo, de que estávamos na Coreia do Sul, e provavelmente não haveria nenhum carro de pamonha pelas redondezas. Já Jasmine apenas me encarou com cara de morte, e colocou o travesseiro sobre a cabeça, tentando abafar o som. Daisy se assustou tanto, que quando levantou, bateu a cabeça na parte de cima do beliche, e caiu da cama, indo parar no chão duro ao seu lado, resmungando de dor logo em seguida.
— Desliga essa porcaria! – Rose exigiu, quando se deu conta de que o som vinha do meu celular. Fiz o que ela mandou, com um sorriso travesso no rosto. A meu mando, JungKook parou de gravar. O mesmo ria, assim como eu, mesmo sem entender do que se tratava o áudio. – Agora eu fiquei com vontade de comer pamonha, sua jaca escorpiônica!
— O que foi isso? Que língua era aquela? E o que raios é pânmonia? – Camellia disparou, tentando pronunciar a palavra corretamente.
— Você nem precisa saber. – Falei, tentando fazer mistério. Mas ela simplesmente deu de ombros.
— Agora que a Violet fez o favor de nos acordar, vamos nos arrumar, depois do café, nós iremos para o teste vocal. – Jasmine falou, como a boa mãe que é, e todas começaram a sair lentamente de suas camas, separando as roupas para usar depois do banho. Eu me virei para JungKook, que apenas observava tudo com um sorriso no rosto.
— Obrigada soldado! Seus serviços não são mais necessários. Dispensado! – Falei fazendo uma voz grossa e batendo continência.
— Então você me usa e depois me enxota do quarto desse jeito? – Perguntou se fingindo de ofendido.
— Exato! – Dei risada enquanto o virava pelos ombros em direção à porta, e empurrava o mesmo para fora.
— Eu vou me lembrar disso! – Ele apontou o dedo na minha direção, com cara de bravo.
— Dramático! Eu tenho certeza que você tem alguma coisa para fazer com o Bangtan agora.
— Eu não... – Ele ia continuar falando, mas arregalou os olhos e se interrompeu. – Ensaio às oito e meia! Merda! – Praguejou, e saiu correndo logo em seguida, e antes de virar no corredor, falou. – Te vejo mais tarde roxinha! – Sorri e meu coração esquentou. Eu iria vê-lo mais tarde.
~//~
Enquanto tomávamos café, Jang PD-nim apareceu do além em nossa mesa, dizendo que iria nos guiar à sala de ensaio (diferente da que fomos ontem), aonde iríamos fazer tudo que já foi explicado anteriormente (Cantar, tocar, blá blá blá). Quando entramos na sala, eu esperava algo grandioso, como um palco, cheio de cortinas e poltronas. Mas, na verdade, era só mais uma saleta qualquer, com algumas cadeiras espalhadas em forma de roda, com um microfone em cima de cada uma, alguns instrumentos aqui e ali, e uma caixa de som. Mas a minha atenção se concentrou única e exclusivamente no canto da sala, onde um grande piano de cauda ocupava espaço. Piano, minha maior paixão. Tentei desviar minha atenção dele, já que, mais um segundo e eu estaria correndo em sua direção. Foquei meu olhar em um canto qualquer da sala, esperando alguma ordem vinda de Jang PD-nim. O mesmo logo pediu para que sentássemos. Sentei em uma ponta da roda, e ao meu lado veio Daisy. Em ordem, ficamos: Eu, Daisy, Camellia, Rose e Jasmine, na outra ponta da roda. PD-nim andou até o centro da roda, olhando para cada uma de nós, e todo aquele silêncio estava me incomodando.
— Meninas, hoje eu trouxe comigo a professora de canto de vocês, a senhorita Lee Hye. Ela ensinará técnicas de canto e aquecimento vocal, durante seu período como trainees. Ela também irá auxiliar as rappers, então não se preocupem. – Uma mulher, provavelmente em seus trinta anos de idade, entrou na sala, sorrindo e nos cumprimentando. Pude jurar que vi os olhos do nosso querido PD-nim brilharem quando viu a jovem moça, mas resolvi não comentar nada, apenas para não constrangê-lo.
— Olá garotas! Eu fui chamada pelo senhor Jang, para ajudá-lo a decidir as funções de vocês no grupo, então irei assistir à sua apresentação. Finjam que eu não estou aqui ok? – Ela sorriu simpática, o que me serviu para deixar mais nervosa. Estaria cantando sobre os olhos de uma profissional, será que minha voz seria boa o suficiente?
— Nós poderemos usar os instrumentos? – Perguntei cheia de curiosidade. Eu estava louca para tocar aquele piano.
— Claro! Vocês podem usar o que quiser! – Ela exclamou animada. Menos mal.
— Bom, vamos fazer o seguinte: começaremos por Jasmine, indo na ordem da roda, e acabaremos com Violet. De acordo? – Todas concordaram, e eu fui obrigada a fazer o mesmo.
Eu simplesmente odeio ser a última, minha ansiedade sempre cresce quando vejo os outros se apresentando. Antes de começarmos as apresentações, eu perguntei se poderíamos cantar músicas internacionais também, e a professora confirmou. Jasmine pegou um violão no canto da sala para fazer o acompanhamento da música, e começou a cantar Hey Soul Sister do Train. (Vou deixar o link das músicas na descrição). Sempre admirei a voz de Jasmine, ela não era pesada, nem muito aguda, era somente leve. Logo em seguida Rose começou a cantar o Rap de T.O.P em Doom Dada, e devo admitir que me surpreendi com a agilidade de sua língua. Porém, me surpreendi mais ainda quando Camellia começou a cantar a parte de Suga em Cypher pt.3: Killer. Agora era a vez de Daisy e eu já sentia meu coração batendo mais forte, eu seria a próxima. Daisy começou a cantar Give Love da dupla AKMU. Sua voz era tão melódica, que me fez querer ficar ali escutando para sempre. Com certeza ela seria responsável pelas high notes. E finalmente, chegou a minha vez. Levantei da minha cadeira, e caminhei lentamente até o piano, coisa que eu queria ter feito faz tempo. Todos me olhavam com expectativa, talvez por ser a última a apresentar. Sentei-me no banco de frente para o piano, e posicionei meus dedos sobre as teclas, sentindo elas levemente. Fazia muito tempo que não tocava, que saudade! Espero que dê tudo certo. Fechei meus olhos por um segundo e respirei fundo. Comecei a tocar Let It Be, dos Beatles, ainda de olhos fechados. Eu não conseguia me concentrar de olhos abertos. Comecei a cantar a música, tentando não me importar com os olhares caídos sobre mim. Depois de um tempo, isso realmente se concretizou, e eu nem me lembrava de que existiam pessoas comigo. A saudade de tocar era tanta, que eu simplesmente me deixei levar por aquele momento. Meus dedos deslizavam com facilidade pelas teclas, e aquela sensação conhecida de preenchimento e satisfação tomou conta de mim, eu estava me deleitando. Enquanto cantava, lembrei-me de como era no Brasil. Eu tocava em um piano da sala de música da minha escola, já que minha mãe não tinha condições de comprar um para mim. Depois de um tempo, retiraram o piano de lá, e eu nunca soube o motivo, mas aquilo me atingiu como uma faca no coração. Quando percebi, uma lágrima solitária escorreu por minha face, indicando o alívio por poder tocar novamente. Quando acabei de tocar, abri os olhos, e todos ainda e encaravam. Tentei não dar importância para isso, e com relutância sai de perto do instrumento, indo me sentar novamente em meu lugar. A professora Hye pigarreou, antes de falar:
— Muito bem meninas, eu e o senhor PD-nim iremos discutir um pouco algumas coisas juntamente com o professor Kwang e provavelmente no final do dia vocês já serão informadas sobre suas funções. Podem se retirar por enquanto.
Obedecemos e, uma de cada vez, passamos pela porta, todas em silêncio. Parecia que estávamos esperando pela nota de uma prova do vestibular (coisa que eu não tive chance de fazer, já que saí da escola). Agora, a única coisa que nos restava fazer era esperar.
Fale com o autor