Florestas de Outono
4 Capítulo 04
Notas iniciais
– Parece que temos uma última tarefa antes de descansar, Rose.
Johann colocou cuidadosamente o corpo de Randall sobre Rose e acariciou sua crina antes de começar a puxá-la para fora do estábulo e seguir em direção ao pequeno templo no cemitério do castelo. Ao passar pela porta, olhou ao longe e percebeu que Kat e Algor seguiam de mãos dadas timidamente. Mesmo após ter visto Algor, Kat ainda mantinha um pânico no olhar, um temor na sua voz, uma melancolia em seus gestos. Johann torcia para que os sentimentos entre os dois fosse capaz de acalmar a pequena Kat.
Não sabia se achava isso bom ou ruim. Sabia das condições em que todos do grupo se encontravam e do perigo de ter uma pessoa querida. “Quantas mais pessoas você amar, Johann, mais fraco você se tornará”, foi o que ouviu de seu líder no momento que chegou ao castelo. Não havia regra alguma quanto se apaixonar ou se enamorar após entrar para o Grupo, mas havia a maldita consequência “daquilo que te é mais importante”. Era relativamente comum acontecer de membros dos grupos se relacionarem entre si, mas nunca com alguém de fora. Era arriscado demais.
Há tempos, antes de ingressar como um elemento dos Nove, Johann teve um amor. E todas as lembranças que envolvia esse agridoce passado era o que tinha de mais importante. Uma única desobediência e perderia todas aquelas memórias que ainda o fazia sorrir, ainda que tristemente.
Durante o caminho, Johann lembrou-se de cheiros, gostos, toques, gargalhadas, olhares, cores... e de um único nome que agora soava tão nostálgico. Perdido em devaneios, chegou ao templo. Pegou uma maçã de dentro da bolsa que carregava a tira colo e deu a Rose:
– Aguente só mais um pouco, está bem?
O templo era uma construção pequena, porém muito bonita. Havia colunas na entrada com diversos desenhos contando batalhas entre homens, criaturas mágicas que há muito se extinguiram e os Nove contra os mais variados tipos de demônios. A porta era de uma madeira escura e forte com adornos em ouro. O interior era claro, com paredes e o chão de pedras brancas e continha apenas duas janelas, pequenas e estreitas, bem ao alto, uma em cada parede paralela. Era mobiliado com móveis pequenos, contendo apenas o necessário para preparar um cadáver para o ritual, e uma mesa de pedra destinada para repousar o corpo enquanto é preparado.
A partir do momento que desembrulhou o corpo de Randall e o colocou sobre a mesa, Johann passou a recitar em um idioma antigo algo que parecia ser uma oração ou um mantra. Despiu Randall e com panos limpos embebidos com um líquido com aroma forte começou a limpar e perfumar o seu corpo. Sentiu um peso no coração ao ver que sua cabeça foi costurada ao corpo. Os pontos foram feitos de forma precisa; era nítido que não era trabalho de um amador. E, então, por um instante, sentiu um pequeno alívio e agradeceu por ter sido Kat a companheira de Randall. Sempre tão doce, meiga e cuidadosa... Ninguém além dela faria algo assim, ainda mais por alguém tão ranzinza e arrogante quanto Randall.
Findado todo aquele processo de limpeza, Johann retirou de um armário uma espécie de uniforme, de um tecido preto da melhor qualidade que existe com detalhes e adornos em prata. Enfim cobriu o corpo de Randall com um lençol marfim e o deixou repousando para que, à noite, fosse realizada a cerimônia com todos presentes.
Ao sair do templo, deu outra maçã a Rose. “Ela deve estar tão cansada de esperar para ter uma refeição descente quanto eu”. Desde que chegou, Johann não havia descansado e nem comido nada desde a reles refeição que teve ao acordar para retornar ao castelo. Montou em Rose e retornaram aos estábulos, onde Rose, finalmente, recebeu sua tão merecida refeição seguida de um longo descanso dormindo.
Seguiu com passos apressados até o castelo para ter logo a reunião para discutir sobre a busca por um novo membro, para substituir Randall.
– Desculpa o atraso – disse Johann cordialmente enquanto se sentava à mesa – Estava dando início ao ritual funerário de Randall.
– Poderia ter demorado um pouco mais, Johann. Demorou pouco – comentou Hilda com desdém na voz e desprezo nos olhos que acompanhavam Johann sentar ao seu lado. Hilda era uma mulher alta e forte. Tinha os olhos verdes e cabelos loiros, quase platinados, e os mantinha sempre curto.
– Uma boa tarde pra você também, Hilda. – Respondeu Johann com uma ironia ácida.
– Vai começar outra vez... – Resmungou Eryr e depois encostou a testa na mesa. Todos ali já sabiam que Hilda e Johann nunca se deram bem.
– Eu espero que não estejam planejando uma nova discussão vocês dois – disse uma séria e forte voz vinda da ponta da mesa. – Já começamos a debater nossos planos, Johann, espero que não se importe.
– De forma alguma, Robert.
Robert era o líder e podia ser facilmente descrito em uma única palavra: força. Ele era incrivelmente forte física e mentalmente. Tinha traços marcantes em seu rosto, olhos pretos e cabelos ainda mais escuros. O líder se reclinou na cadeira e passou ao grupo presente as medidas a serrem tomadas.
– Como Randall está morto, precisamos encontrar um novo membro para substituí-lo. – Virou-se para Mona e Levin – Vocês dois deverão partir amanhã cedo em busca de alguém que seja apto para se tornar um de nós.
A bela moça com cabelos tão vermelhos presos com uma trança, Mona, indagou:
– Devemos procurar em algum lugar específico, Senhor?
– Comecem pelas Terras do Sul. É a menos povoada. Evitem as Terras Centrais. É perda de tempo ir até lá. Podem se retirar para começarem os preparativos. Estejam às 20h em ponto no Templo.
Levin levantou-se e curvou-se, seguido de Mona, e então retiraram-se. O rapaz era baixo para um homem adulto, mas era muito observador e dotado de uma inteligência invejável. Ao ouvir a porta bater, Robert prosseguiu:
– Como todos sabem, a segunda lua de sangue apareceu. E a profecia diz que a terceira aconteceria antes, muito antes do esperado e que o caos será enorme... – soltou um longo suspiro e prosseguiu – É sabido que haverá um grande herói que conseguirá por um fim à raça dos demônios, trazendo a paz e a harmonia para todo o Continente. Entretanto, a identidade desse herói é desconhecida. As pistas que a profecia oferta são muito vagas... Diz que será alguém com sangue nobre e que guarda consigo um poder capaz de destruir o mundo em um piscar de olhos.
O líder esperava algum tipo de contestação ou opinião de seus escolhidos, mas obteve apenas o silêncio. Levantou-se e apoiou as mãos na grande mesa de mogno.
– Eryr, você vai para o Norte. Hilda vai com Kat para o Oeste.
– Espero não voltar morta assim como Randall – resmungou Hilda. Robert apenas lançou-lhe um olhar de desaprovação. – Johann, siga para o Leste. Eryr e Livith para o Centro e Sul. Quero que partam ao nascer do sol e encontrem o herói que porá um fim nisso tudo.
***
Eram oito horas e Robert e seus nove seguidores estavam no templo. O corpo de Randall foi posto em um leito portátil e saiu de lá carregado por Robert, Algor, Hilda e Eryr e colocado em uma pira que fora construída após a reunião atrás do templo. Kat mantéu os olhos baixos o tempo todo. Ainda se sentia culpada. Robert tomou a frente de todos e passou a recitar versos no mesmo antigo idioma que Johann recitou enquanto preparava o corpo de Randall.
Ao terminar, Robert se abaixou próximo à pira e de suas mãos saíram uma pequena chispa, que em questão de poucos segundos incendiou a palha. Em seguida se levantou e se juntou aos demais.
E lá todos ficaram até restarem apenas cinza.
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