Floresta Negra

5 Capítulo 5 - A casa no fim da rua


– Eu não sei se quero fazer isso. – Eu murmurei, tentando não tossir enquanto falava.

– Qual é Mel?! Você vai amarelar logo agora que já estamos aqui?

Eu pensei em respondê-la, mas depois notei que a decisão mais sábia era ficar calada. Eu não tinha concordado em vir, só tinha aceitado aquela ideia ridícula por pura pressão. Apesar de não viver em um mundo normal, que escondia segredos que só eu sabia, eu não acreditava muito em tarôs. Eu queria algo mais concentro que realmente pudesse me dar as respostas para as minhas perguntas. Entretanto, eu sabia que provavelmente não acharia respostas se não sozinha.

– Quem vai primeiro? – Ana indagou.

– Você.

Ela deu de ombros e continuou a ler a sua revista sobre signos.

O local era muito estranho. Apesar de estarmos no meio da tarde, em um dia relativamente bonito, todas as janelas e cortinas estavam fechadas. Graças ao tom alaranjado das cortinas, o local todo parecia ter essa cor. Pufes e pequenos sofás estavam espalhados pelo cômodo. Uma mulher que aparentava ter mais ou menos quarenta anos nos observava em frente á uma porta branca. Á cada meia hora ela abria a porta, dava uma olhadinha e depois sussurrava “próximo”.

Incensos com cheiros enjoativos de baunilha estavam espalhados por toda a casa. Aquele cheiro estava me deixando tonta e com dor de cabeça. Como todas as janelas estavam fechadas, eu começava a sentir uma sensação forte de claustrofobia e rezava para aquele pesadelo acabar logo.

Ana e eu não erámos as únicas que esperavam. Algumas mulheres estavam sentadas no sofá ao nosso lado, conversando baixinho. Ninguém parecia se importar com o cheiro, a não ser eu.

Depois do que pareceu uma eternidade, a mulher que nos observava abriu a porta, murmurou alguma coisa com alguém e logo em seguida disse:

– Próxima.

Ana se levantou rapidamente animada.

– Me deseje sorte. – Ela sorriu para mim.

E então ela entrou passou por aquela porta que escondia sei lá o que. Eu suspirei e encostei-me ao sofá, tentando relaxar. Minha cabeça estava a mil e tudo o que eu queria era um segundo de paz. Nem mesmo a hora de dormir era relaxante para mim. Os meus últimos sonhos não eram tão claros como costumavam ser e na maioria das vezes eu os esquecia rápido. Porém, isso não me impedia de acordar assustada no meio da noite. Os sonhos eram macabros, pessoas gritando, morrendo, pedindo socorro. E era sempre no mesmo lugar: uma floresta. Algo naquela floresta me dava calafrios e eu não sabia por que ela sempre tinha que estar nos meus sonhos.

E para piorar a minha situação, aquele endereço que tinha recebido via sms, que aparentemente não continha nada de especial, não saia da minha cabeça. Eu sabia que era loucura e estupidez, mas e se realmente houvesse alguém querendo se encontrar comigo? E o que havia de tão especial nesse endereço que fazia com que ele não saísse da minha cabeça? Lembro-me de ter lido-o apenas uma vez, mas me lembrava perfeitamente bem.

Eu era curiosa demais, esse era o meu grande problema. Por que eu simplesmente não podia esquecer?! Provavelmente alguém estava aprontando alguma para cima de mim e eu estava louca para cair feito um patinho. Se não fosse coisa pior.

– Próxima! – A mulher exclamou.

Assustada eu me sobressaltei e levantei. Ana saiu daquela porta com cara de tacho. Definitivamente toda a excitação se esvaio do rosto dela.

– Por que você está com essa cara? Não foi como você esperava?

Ela suspirou.

– Deixa pra lá. Vai logo, é a sua vez.

Eu respirei fundo e caminhei até aquela mulher. Ela segurava a maçaneta da porta e parecia estar impaciente. Seu cabelo castanho claro estava amarrado em um coque e ela usava um vestido extremamente largo, que não valorizava nenhuma curva do seu corpo. Ela me olhou com aqueles olhos escuros e perguntou:

– Você não vai entrar? Há pessoas esperando!

Grossa.

Ela girou a maçaneta e eu entrei, antes que pudesse me arrepender. Assim que entrei, me vi em um cômodo ainda mais claustrofóbico que o outro. As cortinas estavam igualmente fechadas e havia uma quantidade exagerada de incensos pelo lugar. Uma pequena mesa, com nada mais que duas cadeiras – uma em frente da outra – estava no centro do cômodo. Além disso, a única coisa que havia no local era uma estante com bastante livros.

Uma mulher, aparentemente normal, estava sentada em uma das cadeiras. Ela usava jeans e uma camisa rosa claro. Seus cabelos tinham um tom de loiro, quase branco o que a deixava com um aspecto de bronzeada. Ela embaralhava um bolo de cartas e quando finalmente notou a minha presença se levantou e sorriu.

– Olá, eu sou a Diana. Eu vou te atender hoje.

Percebi.

Eu tentei sorrir, mas estava tão desconfortável com a situação que provavelmente fiz o sorriso mais falso da história. Sem se importar, ela aproximou de mim e apertou a minha mão. No mesmo momento, ela soltou um gritinho e largou a minha mão bruscamente.

– Algo errado? – Eu perguntei assustada.

Seus olhos estavam arregalados e ela parecia estar surpresa com a sua própria reação. A mulher tinha agido como se tivesse apertado a mão do diabo!

Ela colocou a mão no peito e respirou fundo. Quando estava controlada o suficiente, ela disse:

– Energias! Sinto energias muito fortes em você!

Eu franzi o cenho sem saber se me achava patética ou se achava aquela mulher patética.

– Como?

Ela balançou a cabeça negativamente.

– Vamos... Vamos para as cartas.

Ela se sentou na cadeira e fez sinal para que eu fizesse o mesmo. Eu me sentei rapidamente, não querendo prolongar o momento.

– É muito simples, você passará a mão pelas cartas e escolherá uma. Não se esqueça: escolha a quarta que puxar você.

Ela espalhou as cartas pela mesa. Sem entender muito bem o que ela quis dizer, eu passei a mão direita lentamente pelas cartas. Depois de passar a mão, por cada carta e não sentir absolutamente nada, eu olhei para ela.

– Não está funcionando.

– Passe a mão mais uma vez.

Eu respirei fundo e fiz a mesma coisa, dessa vez com a outra mão. Eu estava prestes a desistir, quando finalmente senti. Uma das cartas, não exatamente me puxou, mas eu senti certo calor ao passar a minha mão por ela. Sem achar que eu pudesse sentir isso por outra carta, eu a peguei.

Diana pegou a carta da minha mão antes que eu pudesse vê-la.

– Certo, vamos ver...

Ela analisou a carta e engoliu em seco.

– E então?

– Você pegou a carta... Morte.

Meus olhos se arregalaram. Justo aquela carta?

– E o que isso quer dizer? Eu vou morrer ou algo do tipo?

– Não exatamente. Quando você a pegou, ela estava de cabeça para baixo.

– Isso é ruim?

Ela assentiu, abalada.

– Você irá passar por momentos difíceis. Você precisará de sabedoria para tomar as decisões certas. Uma sabedoria que você provavelmente irá adquirir com o tempo.

– Isso não parece ser tão ruim...

Ela me ignorou.

– Sua vida passará por uma mudança drástica e você precisará manter os olhos abertos. O perigo ás vezes está ao nosso lado e nós nem sequer notamos isso...

– E o que mais?

Ela suspirou.

– Alguém que você ama irá partir.

Eu me perguntei se era saudável ficar ouvindo aquelas coisas.

– Acabou?

– Sim, acabou.

– Mas... Isso não quer dizer que seja verdade, né?

Diana pareceu ofendida.

– As cartas nunca mentem.

Eu rezava para que Diana estivesse errada.

– Eu acho melhor eu ir agora.

Diana assentiu. Eu me levantei rapidamente, sem saber o que pensar. Quando estava pronta para sair, eu senti Diana segurar meu ombro com força. Eu me virei para olhá-la e ela me soltou rapidamente.

– Suas energias estão muito fortes. – Ela observou.

– O que isso significa?

– Há muita energia negativa em volta de você. Alguém não está te fazendo bem.

– Como assim?

– Eu não sei. Quando toco você, eu me sinto angustiada. Há muita maldade em volta de você, mas não é você. Sua família é unida?

– Sim. – Eu disse rapidamente. – Eles são boas pessoas.

– Você tem certeza?

– É claro que eu tenho certeza!

– Querida, se eu fosse você eu começava a desconfiar. Nenhuma pessoa é o que aparenta ser.

***

– E então, o que ela disse? – Eu perguntei pelo telefone.

Já havia escurecido. Eu estava sentada na minha escrivaninha há mais de uma hora lendo o livro que o professor Fábio havia me dado – que era muito bom á propósito – quando Ana me ligou.

Nós não tivemos tempo de conversar depois da minha consulta com Diana graças á John que me ligava repetidamente pedindo para que eu fosse para casa. Eu fiquei aliviada; eu teria tempo de inventar uma mentira á Ana. Ela era minha amiga, mas eu não repetiria as bobagens que Diana havia me contado.

– Simples. A única coisa que ela disse foi “você escolhe o seu destino”. – Eu pude ouvir Ana resmungar pelo telefone – Não acredito que eu paguei para ouvir frase clichê de facebook!

Eu podia imaginar claramente Ana andando de um lado para o outro em seu pequeno quarto e chutando tudo o que via pela frente.

– Ou ela disse “o seu destino está em suas mãos”. Tanto faz, foi algo do tipo. Continua muito ruim do mesmo jeito.

– Tá explicado. Sua consulta durou no máximo cinco minutos.

– Você tinha razão; não deveríamos ter ido aquele lugar!

– Nos pouparia tempo e dinheiro.

– Agora me diz: o que ela disse para você? Foi tão ruim quanto a minha? Porque se foi, nós podemos ir até lá amanhã e pedir nosso dinheiro de volta.

Eu ri, tentando disfarçar.

– Na verdade ela só me disse que... Bem, que eu serei bem sucedida no trabalho.

Ana soltou um muxoxo.

– Você não perguntou nada para ela? Sobre amor? Sobre o seu admirador secreto, por exemplo.

Eu suspirei.

– Não, Ana. Não perguntei. E se pudesse voltar no tempo, não perguntaria. Eu decidi que não vou mais me importar com isso... Deve ser alguém querendo brincar comigo...

– E eu já te disse que você é uma boba por pensar nisso... Oh, droga! Eu tenho que ir, acabei derrubando refrigerante na cama. Minha mãe vai me matar! Depois eu falo com você, Mel. Vou limpar essa bagunça e depois eu te ligo. Vamos fazer uma enquete dos caras mais prováveis á serem o seu admirador secreto.

Eu gargalhei.

– Tudo bem, depois agente se fala. Eu também tenho que ir ou Claudia me mata. Você sabe, hora do jantar aqui em casa é sagrada. Beijo.

Depois de desligar o telefone eu tomei um banho rápido e vesti meus pijamas. Quando cheguei à sala, todos estavam na mesa, se preparando para jantar. Quando me viu, Claudia sorriu – como sempre.

– Mel, seu prato já está pronto.

Fui obrigada á me sentar ao lado de Tyler, que como sempre me ignorava. Apesar de Claudia estar sorrindo para mim, ela parecia cansada. John encarava Tyler de tal forma que eu tive certeza de que eles tinham acabado de discutir.

Sem dizer nenhuma palavra, comecei a comer. Todos na mesa estavam terrivelmente concentrados em sua refeição e ninguém trocava nem ao menos um olhar. O único som que eu era capaz de ouvir era o dos talheres batendo levemente no prato de vidro.

Quando achei que não aguentaria mais aquele silêncio, John perguntou:

– Como estão os estudos?

Ele não olhava para ninguém me particular então eu não soube com quem ele estava falando. Antes que eu pudesse ter qualquer reação, Tyler resmungou:

– O jeito que você fala faz parecer que você realmente se importa. Belo teatrinho, não é?

John franziu o cenho.

– Se eu estou perguntando, eu me importo.

Tyler riu. Uma risada irônica, morta, sem um pingo de humor. Ele estava mais sombrio do que nunca.

– Você só diz isso porque essa garota está aqui.

Tyler olhou rapidamente para mim. Ele olhou tão rápido que se eu não estivesse prestando tanta atenção, eu não teria percebido.

Claudia arregalou os olhos e olhou para Tyler. Ela parecia estar advertindo-o de alguma coisa. Enquanto John não tinha expressão nenhuma no rosto.

– Essa garota que você se refere de forma tão mal educada, é a sua irmã. Acostume-se a trata-la como tal! – John aumentou o tom de voz.

Tyler gargalhou novamente.

– Esse teatro de vocês é patético. Eu não consigo suportar mais isso. Pra falar a verdade, eu não consigo mais comer na mesma mesa que vocês.

Ele se levantou rapidamente e vestiu sua jaqueta que coro, que até então estava no seu colo.

– Aonde você vai? – Claudia perguntou nervosa.

– Vou sair não me esperem.

E então ele olhou para mim, realmente olhou para mim. Seus olhos azuis fixaram-se nos meus de uma forma tão profunda e intima que eu tinha certeza de que havia ficado vermelha como um tomate. Eu sentia vontade de desviar o olhar, mas seus olhos eram tão hipnotizantes que eu sentia que podia olhá-los pelo resto da minha vida.

– Boa sorte. – Ele sussurrou.

Seu sussurro foi tão baixo que eu tinha certeza de que ninguém além de mim havia escutado.

Ele se virou e foi embora, me deixando – por alguma razão – desolada. Assim que a porta bateu, eu estremeci. Tyler estava furioso com os seus pais e eu não fazia ideia do por que. Muito menos sabia o que ele quis dizer com “Boa sorte”.

– Vá atrás dele! – Claudia exclamou.

– Não. Ele já é maior de idade e sabe o que faz.

– Mas... Ele irá usar a moto nova! Ele está zangado e se... E se alguma coisa acontecer?

– Nada irá acontecer! Agora se sente e termine de comer.

Claudia respirou fundo e se sentou. Eu fiquei assustada com o tom que John havia usado com ela. Eu nunca havia o visto falar daquela forma. Tive vontade de fazer a mesma coisa que Tyler, mas eu não tinha moto e não tinha nenhum dinheiro.

– John eu... Você se lembra de um livro que emprestou? Tiago disse que eu passei mal naquela noite e eu não me lembro muito bem o que aconteceu. Eu gostaria de lê-lo.

John olhou para mim.

– É claro, está no mesmo lugar. Pode ir pegá-lo.

Eu me levantei e rapidamente me livrei daquele lugar.

Quando cheguei no escritório, tive uma sensação estranha. No dia anterior, eu havia sentido uma dor de cabeça tão forte que quase me impediu de lembrar meu próprio nome. Porém, quando entrei no escritório tive alguns flashes blacks daquela noite. A minha conversa com John, a pequena história que ele havia me contado, nosso abraço... Tudo me pegou tão de surpresa, que eu arfei e cai de joelhos no chão.

Pequenos filmes se passavam pela a minha cabeça daquela noite. Minha discussão com Tyler, Tiago... Minha cabeça doía. Parecia que alguém despejava imagens na minha cabeça, de uma hora para outra.

O que estava acontecendo comigo? Uma hora eu simplesmente esquecia de tudo e então...Tudo voltava, como um flash?

Eu olhei para aquelas enormes prateleiras e me arrastei até uma delas. Automaticamente eu peguei o livro Cem Anos de Solidão e o sacudi. Eu não sabia por que eu estava fazendo aquilo, era como se eu estivesse sendo controlada por alguém.

Depois de um tempo, um pedaço de papel caiu de dentro do livro. Eu coloquei o livro na estante novamente e peguei o papel.

Não era um papel, era uma foto. Da minha mãe.

Eu arfei novamente.

Eu já tinha visto aquela foto. Eu virei a foto e encontrei um endereço rabiscado atrás dela. O mesmo endereço, o endereço que tinha ficado todo esse tempo em minha cabeça.

O endereço que eu tinha visto no dia da festa e o endereço que alguém havia me enviado por mensagem. Era exatamente o mesmo endereço, eu tinha certeza disso.

“... Casa no fim da rua...”.

Eu peguei o livro novamente e enfiei a foto dentro dela. Sem pensar duas vezes, eu me levantei, segurando o livro com força e saí do escritório. Assim que saí pude ouvir Claudia e John sussurrando alguma coisa, mas não dei nenhuma atenção.

Eu entrei rapidamente no meu quarto e arranquei o pijama do meu corpo. Abri o armário com força e peguei a minha calça Jeans. Coloquei a minha camiseta e os meus tênis com tanta pressa, como se a minha vida dependesse disso. E por algum motivo, eu sentia que ela dependia.

Eu não sabia o que estava acontecendo, eu simplesmente me vestia. Eu não tinha controle nenhum do meu corpo, não sabia por que fazia aquilo, eu apenas me movia.

Depois de arrumar minha mochila com algumas coisas, coloquei o livro lá dentro e vesti o meu casaco. Assim que coloquei o celular no bolso, senti-o vibrar. Provavelmente era Ana. Ignorei.

Quando cheguei à sala, John e Claudia ainda sussurravam.

–... Nós temos que controla-lo... – Claudia sussurrou.

Assim que ela me viu, ela parou de falar. John olhou para as minhas roupas e para a mochila que eu segurava. Ele ergueu uma sobrancelha.

– Eu queria saber se vocês me deixam ir até a casa do Tiago. Nós temos que fazer alguns trabalhos juntos para a escola e eu só fui me lembrar disso agora.

– Ah, Tiago! – John sorriu – Ele é um bom garoto. É claro que pode ir.

Ele pegou a carteira do bolso e me deu algumas notas de vinte reais.

– Isso serve para o táxi?

Eu sorri.

– É claro. Obrigado. Eu não demoro.

E então sai do apartamento correndo. Eu também desci as escadas correndo. Eu tremia, meu coração estava quase saindo pela boca, eu sentia tanta adrenalina nas veias que seria capaz de gritar.

Eu passei pelo porteiro correndo – ele tentou puxar assunto, mas eu o deixei falando sozinho. Eu queria logo chegar até lá, saber o que havia nesse endereço. Eu sentia medo, tentava convencer á mim mesma que não era certo ir até lá, o meu coração me dizia que eu deveria ir até lá.

Quando cheguei ao ponto de táxi e notei que nenhum táxi passaria tão cedo, liguei rapidamente para Tiago. Ele atendeu no segundo toque.

– Oi amor!

– Tiago! – Eu estava ofegante – Eu preciso da sua ajuda.

Pude ver um táxi se aproximando.

– O que foi? Aconteceu alguma coisa? Você parece nervosa!

– Eu preciso que você, caso alguém ligue para a sua casa, diga que eu estou com você.

– Você vem para cá.

Eu fiz sinal para o táxi.

– Não! Eu não posso depois eu explico, eu só preciso que você me ajude!

– Mel, eu não entendo.

Quando o táxi parou, abri a porta e me joguei dentro do banco de trás.

– Só diga que eu estou com você e que estamos estudando. Depois eu explico tudo, eu juro.

– Tudo bem. Não é nada grave, né?

– Não, não se preocupe. – Eu disse, mesmo sem ter certeza de nada.

– Ok, eu amo você.

– Tchau.

Eu desliguei o telefone, sem me importar com o fato de que ele tinha acabado de dizer que me amava. Eu não me importava com mais nada agora, eu apenas sentia que algo me puxava para aquele lugar.

O táxi já estava andando quando o motorista olhou para mim pelo retrovisor e perguntou:

– Vai para onde?

Então eu disse o endereço que eu já sabia de cor.

***

– Você tem certeza de que quer ficar aqui? – Ele perguntou.

Eu dei o dinheiro para ele e coloquei a mochila nas costas. O motorista estava com mais medo que eu.

– Sim, eu tenho. Obrigado pelos seus serviços.

Eu saí do táxi rapidamente. O motorista foi embora á toda velocidade, provavelmente com medo de pegar um cliente tão estranho como eu em um lugar daqueles. Ou medo de ser assaltado.

Eu também sentia medo, mas já que estava aqui, iria continuar. Eu não tinha nada á perder.

O lugar era realmente muito sinistro. A rua era completamente deserta e escura. Havia algumas casas no local, mas todas pareciam abandonadas. Nenhuma luz acessa nenhum sinal de convivência por perto. A rua era bem longa, com várias casas abandonadas. Eu sabia que seria uma longa caminhada até achar a última casa.

Não havia nenhum poste com luzes, não havia nada para iluminar aquele lugar. O lugar era o cenário perfeito para um filme de terror. Tremendo e com o coração batendo forte no peito, eu abri a mochila e tirei uma pequena lanterna de lá. Aquilo foi o suficiente para saber onde eu estava pisando.

Eu comecei a andar decididamente. O lugar era tão silencioso que o simples som dos meus passos parecia o som mais escandaloso já existente. Eu andava em um ritmo rápido e olhava para todos os lados, mas realmente não havia ninguém por perto.

Nunca imaginei que no Rio de Janeiro houvesse um lugar assim.

Comecei a analisar as casas enquanto andava. Apesar de abandonadas, todas eram casais de dois ou três andares. Quase nenhuma casa tinha muro e todas tinham um enorme jardim e varanda. Em algumas das casas, a grama devia bater no meu joelho. Apesar de não medir mais que um metro e meio, eu sabia que aquilo já era muita coisa.

Enquanto andava, senti o meu celular vibrar no bolso. Sem perder o ritmo, peguei o celular e vi que Ana me ligava. Ignorei. Eu queria muito uma distração nesse momento, mas eu sabia que se atendesse ela começaria a me fazer perguntas e eu não sabia se ela tinha falado com Tiago ainda.

Eu coloquei as mãos no joelho e respirei fundo, tentando controlar a respiração. Nunca estive tão cansada.

Quase comecei a chorar quando vi que havia duas casas no fim da rua. Uma na frente da outra.

– Isso não pode estar acontecendo. – Murmurei comigo mesma.

Tentando manter a calma, guardei a lanterna na mochila e fiquei feliz quando vi que eu conseguia ver pelo menos o que estava á minha frente.

Olhei para as duas casas. Uma delas só tinha dois andares, tinha o mesmo aspecto de abandonada que as outras. Eu não pude ver muito além disso graças ao enorme portão que a escondia. A outra casa não tinha portão. Eu me aproximei. Ela era definitivamente a maior casa da rua. Tinha três andares e eu sabia que á alguns anos atrás, ela era muito bonita.

Sua cor original era branca, mas graças ao fomo e falta de cuidado, ela estava ficando verde. Havia uma enorme varanda que se estendia por toda casa, dando um aspecto original á aquela casa. Algumas janelas estavam quebradas e todas as luzes estavam apagadas. Entretanto, o que me deixou curiosa com relação á aquela casa foi que, diferente das outras, o gramado não estava grande, estava aparado. Alguém tinha cortado a grama daquele jardim. E na varanda havia algumas cadeiras e uma rede em perfeitas condições.

Alguém ainda usava aquela casa.

Aquela definitivamente era a casa no fim da rua que eu procurava.

Pensei em entrar, mas fui tomada pelo medo. Tudo estava escuro, eu não sabia o que se escondia ali dentro, o que me esperava. Aquela casa era tão misteriosa... Eu sabia que ainda dava tempo de ir embora.

– Não seja covarde, não seja idiota. Você não veio até aqui para desistir... – eu repetia para mim mesma.

Respirei fundo, assenti e fui.

Entrar naquela casa não seria problema. As janelas estavam quebradas. Eu abri a minha mochila e tirei a lanterna de lá. Com o cabo da lanterna, tirei os pedaços de vidro que haviam ficado presos na janela e poderiam me machucar. Liguei a lanterna e coloquei primeiro os meus pés dentro da casa. A janela era baixa então eu sabia que não correria o risco de cair.

Coloquei as minhas pernas dentro da casa, dei um impulso e pulei. Assim que consegui entrar, me vi em uma sala de jantar comum. A mesa e o enorme lustre no teto estavam cheios de teias e poeira. Eu coloquei a mão no nariz evitando a crise de espirro que poderia ter.

Havia um piano velho no canto da sala de jantar. Boa parte do piano estava quebrada. Eu comecei a caminhar, hesitante. Os pisos eram de madeira e a cada passo, eles faziam um ruído ensurdecedor.

Com medo de algum piso estar podre, pisava duas vezes com o pé direito antes de andar.

A casa estava toda mobiliada e parecia ter sido uma casa comum. Nada de novo, nada de encantador, nada de misterioso.

Na sala havia apenas um sofá, uma pequena televisão, uma mesa de centro e um tapete no meio. Em cima da mesa de centro havia alguns jornais espalhados. Só de olhar eu sabia que eles não eram velhos. Eu me sentei em frente à mesa de centro. Todos os jornais eram desse ano, desse mês, dessa semana.

Alguém definitivamente frequentava essa casa.

Mas eu ainda não entendia a ligação dessa casa com a minha família adotiva e com aquela foto. Eu me levantei e procurei por mais. Quando estava a caminho do que parecia ser uma cozinha, me dei conta de uma pequena abertura para o que parecia ser um galpão ou até mesmo um sótão no chão. Eu peguei a maçaneta de ferro e a puxei com força. O galpão se abriu.

Eu limpei a cabeça com a testa e me senti aliviada quando vi que havia uma escada lá dentro. Desci lentamente pela escada de madeira até chegar ao chão.

Tudo o que havia lá eram estantes e gavetas guardando o que parecia ser arquivos. Eu abri uma das gavetas. Eram definitivamente arquivos. Todos eles estavam organizados em ordem alfabética.

Peguei o primeiro que vi e o abri. Assim que o abri e li o seu conteúdo, gritei.


Família Souza

Assassinada no dia 18 de 1994

Local do Assassinato: Própria Residência

Integrantes da família: Dois filhos(Lucinda e João), mãe(Carmen) e pai(Henrique)

Motivo do assassinato: Desrespeito, Traição e Vingança


No arquivo havia todas as informações sobre a família. Fotos da família viva e depois o corpo destroçado. Eles provavelmente haviam sido torturados antes de morrerem. Eu me perguntei o que aquilo significava. Parecia algum tipo de arquivo de polícia.

Eu abri mais arquivos. Todos eram separados por família e não individualmente. Eu sentia nojo de ler aquilo e ver todas aquelas fotos. Depois de ler três arquivos, os guardei. Eu me sentia tonta e enjoada.

Fui até outra gaveta e a abri. Havia uma enorme caixa lá dentro preta.

– O que essa caixa está fazendo aqui...?

Eu peguei a caixa e me sentei no chão, sentindo que eu não tinha mais forças para ficar de pé. Assim que abri a caixa, soltei um grito. Um grito confuso, desesperado. Eu coloquei a mão no peito e tentei respirar direito.

Dentro da caixa havia milhares de fotos. Entretanto, não eram apenas fotos. Eram fotos da minha mãe – como a do livro – do meu pai e de John. Milhares de fotos do meu pai vestido roupas pretas ao lado de John. John era muito mais novo, ele aparentava ter apenas vinte e poucos anos. Fotos da minha mãe com John, fotos do meu pai com a minha mãe, fotos da minha mãe abraçando John, fotos da minha mãe beijando John.

As fotos caíram de minhas mãos á medida que eu comecei a tremer e me sentir fraca demais para segurá-las. Meu estômago estava embrulhado, minha cabeça girava, eu estava confusa.

Como... Como minha mãe pode ter conhecido John? E meu pai ter sido tão próximo de John? O que aquilo significava?

Eu joguei todas as fotos da caixa no chão. Quando não havia mais nenhuma foto dentro da caixa, eu notei que havia um pedaço de papel antigo lá dentro. Eu o peguei delicadamente, com medo de que pudesse rasga-lo.

Quando o peguei, notei que ele era um papel dobrado. Desdobrei-o com dificuldade. As letras do papel eram tão pequenas e o papel era tão velho, que tive que fazer um grande esforço para lê-lo.

Á medida que o lia, meu coração ficava cada vez mais acelerado. Não pude evitar as lágrimas de caírem e meu corpo de cair também. Me corpo se sacodia todo com os soluços desesperados que eu não conseguia conter. Eu havia perdido todas as minhas forças. Aquilo só podia ter sido um pesadelo.

Todos os meus sonhos agora faziam um pouco de sentido. Todos os anos em que eu tentei descobrir sobre o assassinato dos meus pais foram em vão.

John havia matado os meus pais. E ele admitia isso naquele pedaço de pergaminho.

***

Não sei se dormi, desmaiei ou se entrei em um estado de torpor tão grande que não era capaz nem sequer de pensar. Só sei que fiquei horas deitada naquele chão, sem fazer nenhum barulho, sem pensar em nada, sem tentar digerir toda aquela história.

Eu estava fraca, não conseguia acreditar. Queria respostas para as minhas perguntas. Tudo o que aquela Diana havia dito, agora fazia sentido.

“As pessoas nunca são o que aparentam ser...”.

As lágrimas escorriam pelos os meus olhos e eu não tentava evita-las mais. Meus olhos estavam inchados, minha cabeça doía. Nunca havia chorado tanto assim.

Eu estava tentando criar forças para me sentar, quando ouvi alguém murmurar:

– Ela está aqui, eu pude ver do andar de cima.

E então outra voz disse:

– Fazer o que, ela já sabe. Essa hora tinha que chegar.

Eu pude ouvir o som do galpão sendo aberto. Sentei-me e peguei minha mochila, apertando-a contra mim. Rapidamente escondi a carta dentro do bolso. Apesar da vontade de lutar, eu não tinha forças.

Sem fazer o uso da escada, dois homens pularam para dentro do galpão, bem perto de mim. Eu gritei.

Os dois homens vestiam apenas preto da cabeça aos pés. A única coisa que conseguia ver na escuridão eram os músculos e as cicatrizes no rosto.

– É essa? – Um perguntou.

– Essa mesmo.

E então eles agarraram o meu braço com força e me puxaram para fora do galpão. Eles me jogaram com força no chão da sala e meu rosto bateu com força no chão. Eu pude sentir o gosto de sangue dentro da boca.

Eu não sabia se tinha forças para me levantar ou se eu simplesmente não queria levantar. Eu tinha sido pega e eu não sequer sabia por quem.

As luzes estavam acesas e eu podia ouvir o som de passos. O silêncio era quase torturante. Perguntei-me quanto tempo eu ficaria ali e o que fariam comigo. Eu estava sozinha, eu iria morrer.

Coloquei minhas mãos no chão e fiz impulso para me sentar. Assim que me sentei notei que dois homens me observavam. Eles tinham um enorme sorriso no rosto, mas não era um sorriso simpático, eles zombavam de mim.

– Chefe, é essa a garota que você procura? – Um dos homens perguntou.

Ele tinha uma voz realmente muito grossa, que me deu arrepios. Seu rosto era coberto de cicatrizes medonhas e seu cabelo era preto. Sua aparência não era nem um pouco agradável.

– Onde ela está?

– Aqui!

Eu ouvi mais passos, passos de pessoas correndo. Eu me levantei preparada para lutar. Porém, quando o “chefe” chegou meus joelhos ficaram moles e eu caí novamente.

– O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO AQUI, IDIOTA? – John gritou.



Notas finais
GURIAS, o que acharam? Estou louca pra saber a reação de vocês! hahaha
Não se preocupem, tudo irá se esclarecer nos próximos capítulos.
Espero que gostem,
Abraço!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.