Florest

1 Capitulo um


Capítulo um

"As vezes o eterno dura apenas um segundo!" — Lewis Carrol, Alice in Wonderland

"Eu queria ter a sua chance de recomeçar!"

"Olhe pelo lado bom ! você vai conhecer novos lugares, vai fazer novos amigos, quem sabe não arruma um namorado novo, hum?"

"Você vai ter uma vida toda novinha , isso é demais!"

Eu juro que se ouvisse qualquer uma dessas frases mais uma vez, eu me jogaria na frente do primeiro carro que passase na minha frente. Hipócritas filhas da puta. Querem recomeçar? Vão no meu lugar então, merda.

Não é ser pessimista, ou qualquer mimimi que seja. Mas ninguém gostaria de ser arrastado pro outro lado do país no fim do ano só porque sua mãe arranjou a porra de um namorado. Eu não teria tantos problemas com isso, se pelo menos a gente tivesse se mudado pra uma cidade decente. Qual é!? West Park, Colorado? Ninguém nunca ouviu falar nisso! Não que antes eu morasse em uma metrópole importante, como Nova York. Mas eu estava bastante feliz em Portland.

— , quer ir ao banheiro? — Minha mãe perguntou quando estacionou o carro no posto de gasolina. — Bota oitenta, por favor — Ela botou a cabeça pra fora da janela e entregou a chave pro funcionário magrelo e sujo de graxa.

Idiota. Se tivesse se esforçado não teria esse emprego de merda.

— Quer? — Ela perguntou de novo enquanto fazia um coque alto em seu cabelo loiro. Pegou um espelho no porta luvas, passou gloss e fez uma careta.

Sempre me pergunto como as pessoas podem nos achar idênticas. Enquanto mamãe tem uma pele branca de porcelana e sardas meio ruivas, eu sou branca, porém mais escura que ela, claro. Até uma pessoa albina seria mais escura que ela. Meu cabelo é grosso, enrolado e preto, e o dela é tão liso e fino que as presilhas escorregam quando presas. O cabelo dela é o mais claro que eu já vi na vida, e ela sempre sabe o que vestir, sempre elegante. Meus olhos são de um verde bem claro, enquanto os dela são castanho escuro, quase preto. Ela sempre parece que acabou de sair do salão, enquanto eu pareço que acabei de acordar. Tenho certeza de que se ela tivesse nascido há duzentos anos, provavelmente seria uma rainha, e eu, uma de suas serviçais.

— Se eu quisesse ir, já teria ido. — Respondi num tom ríspido e coloquei o fone. Não estava tocando música alguma, mas ela não sabia disso. O cheiro de gasolina que antes me agradava agora começara a me dar dor de cabeça. Fechei os vidros e liguei o ar.

Eu nunca mais seria eu mesma, não teria minha vida de volta e a culpa era toda dela. Ela não pensou em mim quando embalou toda nossa vida em dois caminhões e um carro e nos fez atravessar metade do país, então por que eu teria que pensar nela? Eu não conseguia nem ficar no mesmo ambiente que a minha mãe.

Como se lesse meus pensamentos, mamãe fez uma cara de quem não sugeria que havia recebido a resposta errada, saiu do carro e foi até uma porta onde em uma placa alaranjada feita à mão se lia "toaletes". Com um vestidinho azul balançando por conta do vento, ela refez o coque. Um cara gordo de boné vermelho sentado numa cadeira de madeira olhou pra bunda dela enquanto ela ia em direção a porta. Babaca. Ele tirou o boné desbotado e sorriu.

Eu tinha minha roda de amigos, mas sempre conhecia uma galera nova. Estudava em escola pública, mas a escola era daquelas modelo, e eu sempre tava vencendo algum prêmio de redação. As terças e quintas eu encontrava com a Marie e nós íamos juntas pro curso de vôlei. Depois da escola, saía com meu namorado, e aos domingos desligava o telefone, e ia pra cidade sozinha.

A cidade no domingo era uma das coisas que eu mais gostava. Quase nada funcionava, a não ser o shopping, e as lojas grandes, como a Mercy's. Poucas pessoas iam pra rua, e se você fosse depois das quatro horas, já faria menos de 15° e se você saísse sozinho (como eu saía), teria a sensação de ser um dos únicos sobreviventes de um desastre, e viver numa época pós apocalíptica. Era ótimo pra parar e pensar.

Sinto saudade de ir até a Bells com a e a e roubar doces (nós três), filmes, ou até livros (no caso eu, e aliás foi só uma vez. Duas. Ou onze, talvez?) . De encarar as meninas da escola do lado na hora do intervalo, ou fazer uma vaquinha e comprar refrigerante depois da aula. De quando eu chevgava atrasada, mas tinha um lugar guardado pra mim. Ou de ter piadas internas.

Que seja! Eu tenho saudade de poder ser eu mesma. Por que não se pode usar todos palavrões do vocabulário, falar sobre aquela galera maneira que você conheceu no dia em que saiu de casa escondido ou sobre como vocês fumaram maconha no estacionamento do cinema, ao falar com a sua mãe. Você não pode dizer tudo que pensa porque gente velha não entende.

Ninguém entende, pra ser totalmente sincera. Meus amigos estão tristes por mim, mas eles têm uns aos outros. Eles não sabem o quanto é irritante receber todo dia no nosso grupo mensagens de piadas internas que se formaram depois que eu me mudei. Eu não entendo, eles não explicam eu não pergunto. Meu namorado me liga chorando todo dia, mas eu vejo os comentários dele nas fotos de umas vadias. Que porra de saudade é essa? E minha mãe? Ela não entenderia nunca, afinal, ela veio por livre e espontânea vontade, não arrastada.

Duas horas e cinco quilômetros depois, eu chego a West Park. Que cidadezinha escrota. Nem cinema, nem livraria, muito menos um shopping. Aqui "é conhecido por suas longas e belas trilhas, pelas diversidade da flora e da fauna em seu parques, e por ser referência da prática do alpinismo no Estado", da pra acreditar nisso? São tão caipiras que já não basta morar numa cidadezinha fudida, ainda tem como maior diversão se enfiar no meio do mato pra correr.

Mamãe voltou até o carro, e começou a dirigir. Duas horas depois cheguei a minha querida nova cidade.

Aposto que iria morrer de tédio aqui todos os dias.

Mas eu não fazia ideia do quanto estava enganada.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.