Florescerá
1 Capítulo único
Notas iniciais
Mais um dia bem sucedido de luta contra o crime em Sternbild.
O trabalho foi árduo, pois os heróis tiverem algumas dificuldades para deterem um grupo de assaltantes de banco que pretendiam detonar uma bomba logo após fugirem e abandonarem os reféns. Com esforço os bandidos foram pegos antes mesmo de acionarem os explosivos.
Sky High havia sido o melhor da vez, o que aos poucos o levava de volta ao pódio de Rei dos heróis.
Isso por que, ultimamente, Barnaby estava se importando muito menos com a fama do que de costume. Fazendo sua parte sem buscar o sucesso, deixando que os outros tivessem alguma chance.
Ninguém se importou com essa mudança, até mesmo estavam aliviados por terem um “lugar ao sol” mais uma vez.
Não "ninguém" exatamente. Pois se tinha uma pessoa que notava qualquer mudança de comportamento no loiro, esse alguém era o Kotetsu.
Ainda era cedo, o sol estava começando a se pôr, e a cidade parecia que continuaria em paz pelo resto da noite. Tudo o que restava para os heróis Next's era comemorar por ai, alguns juntos, outros preferiram ir para casa relaxar. Com exceção de Kotetsu que teve que ficar um pouco mais na sede levando bronca por mais uma vez ter destruído tudo ao seu redor.
Enquanto ouvia Alexander por telefone, expressando todas as suas caras de tédio com aquilo, sentiu que alguém havia passado atrás de si e quando se virou teve apenas tempo de notar a figura esguia e alta entrar na sala de informática.
– Eu preciso desligar. – Disse sério e desligou o celular antes mesmo de ser bombardeado por mais gritos do outro lado da linha. Sabia, não só pela forma física, mas também pelo perfume. Barnaby estava ali e essa era o momento perfeito para se aproximar.
O loiro estava em frente a um dos computadores, um no canto mais distante da porta. Olhava para a tela aparentemente exausto, com a cara fechada e os dedos entrelaçados das mãos diante do queixo, lhe dando apoio para a cabeça antes que desabasse de sono ali mesmo.
– Não vai sair para se divertir com os outros? – O moreno surgiu na porta já com o sorriso amigável estampado no rosto marcado pelo tempo, mas não menos bonito do que qualquer um dos jovens do time. Não menos e quem sabe até tanto quanto Barnaby.
Ele ergueu os olhos da tela por poucos segundos, encarando Kotetsu por cima das lentes com desdém. – Por acaso parece que irei sair? – Disse ríspido e já voltou-se para suas pesquisas.
O mais velho não se deixou abalar e até mesmo sorriu um pouco de lado. Se irritava com o jeito arisco do loiro, mas teve tempo o suficiente para se acostumar com o jeito arrogante que oscilava no decorrer do dia. – Foi só uma pergunta, Bunny. Mesmo você sendo um tanto quanto anti-social, me preocupo com seu humor. Que para variar não está nem um pouco doce.
Barnaby bufou e fechou os olhos, apoiando o cenho com os dedos indicadores juntos e os polegares lhe sustentando o queixo. Também já havia se acostumando com os apelidinhos e aquela mania insuportável do velho de querer sempre estar por perto. – Diga logo o que quer, velhote. — Admitia para si mesmo que ele não era ruim e que a amizade de ambos havia tomado um rumo positivo depois de um tempo trabalhando juntos. Porém ainda perdia a paciência com facilidade e não estava em uma boa semana.
Agora Kotetsu torceu o nariz e entrou mais para dentro da sala de informática. – Quero conversar com você.
– Não tenho tempo para suas bobagens. – Desdenhou e voltou a digitar impacientemente. – Seria gentil da sua parte de me deixasse de fora das suas conversas fiadas.
O moreno jamais se dava por vencido. – Qual é, Bunny. Você não sabe disfarçar. – Puxou uma cadeira qualquer e sentou com o encosto dela diante do peito. Isso a uma mesa de distância do mais novo. – Todos já notaram que você está diferente e...
– Não me importo com o que os outros acham e não me importo com o que você acha. – Não tirou os olhos da tela, mas sua respiração já se tornava levemente alterada, o tirando do seu foco.
O moreno bufou. – Não preciso repetir que eu me importo, não é? – Dizia num tom sério apesar do doce sorriso adornado com o cavanhaque diferenciado. – Me importo com o que está sentindo e estou disposto a ajudar. Somos amigos, não somos?
Barnaby sentia seu coração tremer toda vez que ouvia a palavra “amigos” saindo daquela boca. Infelizmente ou não, Kotetsu era uma pessoa com um coração que não cabia no peito, o que fazia dele um homem um tanto quanto bobo e irritante. E bonito, insuportavelmente bonito. Não só por dentro, como que por fora. O loiro admitia por mais doloroso que fosse. Kotetsu kaburagi era um estilo de homem que, apesar do jeito desastrado, tinha uma graça exclusiva.
– Sim, nós somos. – Sussurrou vencido por fim. Ultimamente não andava em bons tempos para discutir e rebaixar umas das únicas pessoas que se importavam consigo de verdade. – Eu só... quero ficar sozinho.
– Você já passa tempo sozinho demais, Bunny. – O mais velho sentia uma leve pontada de orgulho quando conseguia baixar o escudo que o loiro mantinha ao redor do coração. Com isso levantou daquela cadeira e sentou-se numa ao lado do outro. Claro que Barnay recuou um pouco, mas seus olhos claros já haviam tomado um brilho triste com o rumo que a conversa estava tomando.
– Você é irritante, Kotetsu. — Resmungou baixo e virou o rosto um pouco para o lado. Gostava da presença do mais velho, mas muitas vezes isso o irritava, pois depois que passaram a ser amigos, até mesmo o perfume do moreno era algo que lhe tirava do sério.
– E você é jovem demais para ficar com essa carranca. – Kotetsu olhou para a tela do computador e perdeu o sorriso. Lá estavam as mesmas noticias, fotos e teorias sobre as mortes da família Brooks e informações sobre o herdeiro que sobreviveu ao incêndio. – Primeiro vamos parar de pensar nisso. – O herói veterano desligou a tela do computador e não teve reação alguma vinda do loiro. – Logo vai ter mais rugas do que eu se continuar se estressando assim.
Barnaby se atreveu a sorrir e se odiou por isso. – Mais rugas do que você? – Sempre acabava cedendo ou explodindo com o mais velho. O maldito tigre não desistia. Poderia levantar e deixa-lo falando sozinho? Sim. Mas sabia que o filho da mãe iria atrás dele mais tarde. – Quem sabe daqui a uns cinquenta anos, velhote. – Havia uma sintonia incrível entre eles. Bunny sempre tinha boa parte de toda a sua dor sugada por aquele homem estupido de uma forma que uma se fazia necessário para o outro.
– Mas não perde a oportunidade, não é?! – O moreno fez um bico emburrado e fez uma das suas caras engraçadas de quando levava alguma do mais novo. Kotetsu fazia amizades com facilidade, mas nenhuma outra poderia se comparar com o laço que havia criado com o playboyzinho irritante. Suas gerações eram distintas, assim como seus ideais e toda a maneira com que viviam fora do trabalho. Mas ambos haviam uma dor para superar e isso fazia com que todas as suas diferenças fossem pelos ares. – Ora ora, o que temos aqui?
Barnaby havia mostrado um largo sorriso que de dissipou ao ser notado pelo moreno. – O-o que foi? – Eles estavam próximos, muito próximos. Tanto de maneira física como mental. – Até parece que nunca me viu sorrir.
– Não desse jeito. – Tiger jamais negava para si mesmo o quanto aquele pelo par de olhos verdes eram hipnotizantes. Nem como o rosto do mais novo e a pele mais clara eram atraentes e causadores de uma espécie de guerra entre as fãs enlouquecidas que o desejam. — Gostaria de ver esse sorriso sempre.
A distância entre eles, que já era mínima, diminuiu. Barnaby estava rígido e perfeitamente alinhado em sua cadeira enquanto Kotetsu estava sentado um pouco de lado, com um dos cotovelos apoiados no encosto da cadeira do mais novo.
Muitos já haviam notado, outros negavam e a maioria preferia não acreditar.
Mas o envolvimento daqueles dois homens crescia dia após dia. Criando uma nova energia regada não apenas com o companheirismo e cuidados no meio de trabalho, como também na vida pessoal. Tiger e Bunny, Kotetsu e Barnaby. Só mesmo os mais tolos para não notar que haviam semeado um jardim que agora começava a florescer.
– E o que o faz pensar... – Bunny tentou ser grosseiro, virar o rosto, mas estava toxicamente conectado com os olhos cor de âmbar que o impediam de fugir para qualquer canto. – Que eu irei sorrir assim só para o seu deleite, Kotetsu?
– Não precisa sorrir só para mim. – O mais velho sorriu daquele jeito amigável, muitas vezes inocente, como se ignorasse que seus narizes quase estavam se tocando. – Gostaria que sorrisse assim para o mundo inteiro.
– Como? – Barnaby respirou fundo. Odiava sentir aquele frio na barriga que só sentia ao estar perto do moreno. Ficava vulnerável perto dele e aquilo era um mal sinal. Porém um mal sinal que não queria mais resistir.
– Nha... – Sussurrou. Seus hálitos dividiram a mesma atmosfera. – Encontre um motivo para sorrir. Vamos lá, você acabou de me mostrar que não é impossível. – Seus dedos finos percorreram a pele clara e exposta do pescoço do herói jovem até se entrelaçar nos cachos macios e loiros. Kotetsu tinha uma coisa inocente em si, já que até seu tom de voz não anunciavam que estava tentando ser sedutor. Para muitos aquilo poderia ser chamado de carência. Mas para Barnaby aquilo era um dom, ou uma intensa necessidade, de querer ver as pessoas felizes.
– U-um motivo para... sorrir? – Não notou o quando seu sussurro soou frágil daquele momento. O toque em sua nuca foi o que o desarmou de vez. Seu olhar percorreu o curto caminho entre as íris alaranjadas e os lábios do mais velho. Tiger era exemplo de que a idade poderia melhorar e muito a beleza de um homem. Foi então que o encarou mais uma vez, como se houvesse um ima daqueles olhos enigmáticos do moreno. A resposta estava bem diante dos seus olhos, diante de si o tempo todo. O seu motivo para sorrir era o mais obvio, estupido e encantador da face da terra.
Não precisaram de palavras. Ambos sorriram e se aproximaram mais e ao mesmo tempo. Seus lábios se roçaram com delicadeza, pois o receio ainda tomava conta deles. Mas foi só o moreno ofegar e puxar levemente os fios claro entre os dedos que Barnaby soltou um riso baixo e passou a língua pelo vão quente da boca do outro, dando o sinal de largada para o primeiro beijo acontecer.
Suas línguas se enlaçaram timidamente. Invadindo um território perigoso e tentador em busca de conforto.
Bunny levou sua mão tremula até o pescoço do mais velho e ambos abriram os olhos.
O curto espaço de tempo em que trocaram aquele carinho foi o suficiente para terem certeza de que não havia mais volta para o que já era obvio.
Agora foi o moreno que atacou os lábios jovens. Sempre fora mais ansioso, apesar da vasta experiência com a língua levar o coelho a um certo nível de excitação, fazendo com que retribuísse a altura com toda a sua voracidade.
Sons molhados escapavam de suas bocas junto com baixos gemidos e ofegos de suas respirações traiçoeiras que começavam a falhar. Podiam sentir cada terminação nervosa dos seus corpos irem sofrendo espasmos, com bilhões de nano bombas explodindo com eletricidade.
A língua do loiro avançava um pouco mais, enchendo o mais velho de satisfação com a fome com que era beijado, fazendo seus corações baterem num mesmo ritmo.
Não tiveram a mínima noção do tempo que aquele beijo incrível levou. Mas teve um momento em que precisaram parar e se olharem, como que se soubessem a hora exata para isso e sentiram cocegas nos cantos em baixo da língua. Os dois pares de olhos oscilavam, ambos com as pupilas dilatas e um leve marejar em cada um.
Mais uma vez Kotetsu deu o passo seguinte e sorriu, exibindo um brilho infantil no seu par de ambares, como se tivesse acabado de ganhar o melhor presente do mundo.
Aquele sentimento contagiou Barnaby que lambeu os lábios molhados e exibiu novamente aquele sorriso bonito e sincero que os levaram até ali.
– É motivo o suficiente para você? – Disse baixo e passou os polegares no cavanhaque felino do mais velho, amando a textura que ele possuía de maneira tão impecável.
– Nossa... – A voz de Tiger soou como um ronronar rouco invadindo os ouvidos do mais jovem. – E motivo mais do que suficiente e para voc... – Foi interrompido de continuar falando, pois o loiro se atirou em seus braços e abraçou com força, escondendo o rosto entre seu ombro e pescoço.
Bunny sabia muito bem o que estava fazendo. Por mais que aquele abraço seria constrangedor em outra ocasião, agora era algo mais do que necessário. Pois se o moreno estupido lhe fazia bem, por que fugir disso já que sempre buscou o mínimo de paz para seu coração.
Por sua vez o mais velho não disse nada por hora. Poderia ser um bobão as vezes, mas sabia que certos momentos jamais deveriam ser quebrados. Então retribuiu o abraço, algo cheio daquele amor que estava florescendo. O beijou na altura dos ombros e esfregou seu queixo no maxilar do loiro.
– Kotetsu... – Barnaby chamou ainda imerso daquela paz que o perfume dele o trazia. – Podemos ir para minha casa?
O moreno abriu um sorriso largo e seu coração mal cabia em seu peito. Sabia que não havia outras intenções na voz do mais jovem (ainda) e também nem ao menos se atentou a isso. – Quer que eu lhe prepare arroz frito, não é? Confesse que você ama minha comida.
Bunny saiu do abraço com cuidado e ajeitou os óculos. Os olhos marejados alertavam que poderia chorar a qualquer momento, mesmo que sustentasse um sorriso aflito. – Eu iria dizer que não quero ficar sozinho hoje. – Tentou fazer deboche dele, mas foi em vão. – Mas agora que tocou no assunto eu irei querer sim...
– Sim senhor. – Levantou- se com calma e estendeu a mão para Barnaby, que era um homem sensível mesmo com todo o rancor preso naquelas memorias. – Eu já lhe disse que nunca irei te deixar sozinho.
– Uma eterna pedra no meu sapato. – Brincou ao se levantar também e por alguns segundos entrelaçou seus dedos aos do moreno, pelo menos até passar por ele e tomar rumo até a saída.
Kotetsu se amoleceu com aquele sorriso e aquele olhar. – Que tal um acordo? Você poderia parar de ser tão implicante comigo. – Fez um bico sem disfarçar a felicidade transbordando. — Em troca que não te chamo mais de coelhinho.
Barnaby riu já fora da sala de informática e ignorou o que o outro disse. – Eu irei na frente com o meu carro. Vê se não se perca no caminho, Tiger. – Seus lábios ainda estavam queimando com a sensação maravilhosa que aquele beijo havia lhe proporcionado e já tinha planos de roubar mais alguns daquele amado cabeça oca.
– Fresco... – Sussurrou para si mesmo enquanto coçava os fios do seu cabelo escuro caídos na nuca. Ainda estava perdido e com medo de tudo aquilo ser apenas um doce sonho. Verificou se as chaves do carro estavam no bolso e seguiu em frente, sem pressa, pois sabia que aquele moleque não iria mesmo espera-lo. Entretanto se tudo aquilo era mesmo um sonho, e o melhor da sua vida, Kotetsu tinha certeza de que iria aproveita-lo a cada segundo antes que pudesse acordar.
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