Flores para o garoto do entardecer
1 Capítulo Único - Flores para o garoto do entardecer
Os passarinhos ainda cantavam no céu matinal de Heartland, mostrando que, por mais que já estivesse claro a bastante tempo, o dia estava apenas começando.
Era domingo, o que significa ser dia de feira, por isso Mizuki Kotori gostava de sair bem cedo, para aproveitar as melhores ofertas. Os melhores expositores vinham antes mesmo do sol nascer.
Costumava sempre trazer o Yuma, que vinha o caminho inteiro reclamando, mas hoje ele sequer havia acordado a tempo para vir, então estava só.
– Que clima maravilhoso! Perfeito para fazer umas comprinhas! – Disse para si mesma, conforme caminhava pela entrada da feira. Já podia escutar o murmúrio das vozes dos muitos compradores e vendedores, o cheiro fresco dos diferentes perfumes, tudo estava perfeito! – Bem, quem está perdendo é ele, não eu.
Aquele lugar era normalmente frequentado pela terceira idade de Heartland, que vinham sempre em peso e bem cedo, aproveitando o tempo agradável para conversarem sem preocupações e aproveitarem o ar fresco
Kotori era a única garota da sua faixa etária que gostava daquele tipo de atividade, por isso já era bem reconhecida por todas as senhorinhas e senhorinhos da feira. Adorava ficar para conversar com todos, mas hoje o tempo era bem restrito, tinha um objetivo para cumprir.
Seria noite de festa na casa dos Tsukumo, portanto a vovó Haru havia dado a ela a importante missão de trazer todos os ingredientes para que pudessem ter uma farta ceia. Por isso era hora de arregaçar as mangas e pôr a mão na massa!
Sendo uma compradora nata, em pouquíssimo tempo suas sacolas recicláveis já estavam cheias dos melhores produtos, completamente estocadas, e já estava preparada para voltar para a casa em tempo recorde. Mas, como de costume, não resistia a parar para olhar os souvenires que estavam sendo vendidos
Haviam muitas exposições bonitas.
Quadros pintados a mão, bonecos e bichinhos de costura, pingentes, anéis e jóias reluzentes, potes, pratos e até mesmo pequenas esculturas de argila… queria poder comprar todos, mas seu tempo e capacidade de carga já estavam muito limitados.
Se apenas o Yuma não ficasse dormindo até tarde… talvez pudesse levar tudo.
Antes de ir embora, parou em uma última tenda, onde uma amigável e fofa senhora vendia diferentes buquês de flores
– Bom dia Kotori-Chan! Como vai? – Disse a senhora, sorrindo para ela
– Oooi! Vou muito bem, e você?! – Respondeu com um sorriso acalorado no rosto, com a maior gentileza possível – Esses buquês que você está vendendo são muito lindos!
– Ora, que gentileza a sua – Respondeu a senhora, feliz com o elogio – Onde está aquele rapaz que está sempre com você? O de cabelos espetados
– Ah, o Yuma? Deve estar dormindo até agora, com certeza – Ela fez um bico enquanto falava, claramente emburrada pela falta de compromisso de seu amigo – Hoje vim sozinha, estou completamente carregada – Ela suspirou, mostrando todas as sacolas cheias de compras
– Isso é uma pena, vocês dois são uma gracinha juntos – Falou a senhora, deixando Kotori levemente envergonhada – Diga, Kotori-Chan, o que acha de levar um buquê?
– Eu gostaria muito, mas já tem tantas flores lá em casa, desse jeito mal conseguiria tomar conta de todas elas – Ela riu sem jeito, lembrando-se das incontáveis outras vezes que havia levado flores e mais flores para a casa.
– Então por que não leva um para ele? – Perguntou a senhora, pegando Kotori de surpresa
– Flores, para o Yuma? – Perguntou de volta, confusa – Não acho que meninos gostem de flores… não parecem nem um pouco a cara do Yuma.
– Talvez seja porque eles não ganham flores o suficiente, para saberem se gostam ou não – Acrescentou – Mas tenho certeza de que, se for você quem der, ele com certeza vai adorar.
Kotori ficou em silêncio por alguns momentos, nunca havia pensado naquilo, não daquela maneira.
Os dois conviviam juntos há tanto tempo, será que havia realmente coisas que ela ainda não sabia sobre ele?
Após alguns momentos de indecisão, pôs as mãos em seu bolso, retirando uma pequena bolsinha com algumas moedas
– Eu vou levar um… só para ver – Disse quase sussurrando, enquanto entregava as moedas para a senhora. Antes mesmo que pudesse dizer outra palavra, a senhorinha lhe entregou um buquê de Ajisais, flores azuis que chamavam bastante atenção – Eeeh… muito obrigada.
– Não há de quê, Kotori-Chan, eu que agradeço
Nesse momento, a garota olhou para o relógio em seu pulso, percebendo que seu tempo curto estava ficando cada vez menor
– Ah! Preciso ir andando! – Disse, desesperada – Eu prometo que volto outro dia!
– Se cuide, querida. Se vir Haru, diga que mandei um abraço! – Disse a senhora, se despedindo da mocinha
– Pode deixar! – Kotori então saiu em disparada, indo em direção a residência dos Tsukumo, segurando o buquê de flores firmemente para que ele não caísse
…
Na casa dos Tsukumo, Akari e Haru estavam sentadas no sofá da sala. A jovem mulher assistia à televisão, enquanto sua avó fazia crochê. Foi nesse momento que Tsukumo Yuma desceu como um trovão do andar de cima, calçando seu sapato enquanto descia
– AAAAAAARGH!! – Gritou, enquanto terminava de cair os degraus restantes da escada – Por que não me acordaram? Já são nove horas!
– Você estava dormindo tão calmamente, decidi te deixar lá quietinho por mais alguns minutos – Disse Haru, continuando seu tricô
– Mas isso eram as seis da manhã vovó! – Ele se levantou rapidamente, terminando de colocar os sapatos – A Kotori deve estar me esperando até agora!
– Se ela fosse esperar você, garanto que jamais iria a lugar algum – Respondeu Akari, irmã mais velha de Yuma
– Nee-Chan… não precisa ser tão malvada assim – Ele resmungou, indo até a porta da cozinha– Vou correndo até a feira, vejo vocês em breve!
Assim que ele foi para abrir a porta, se deparou com Kotori, correndo como um torpedo para dentro de casa, trombando um no outro e derrubando tudo, inclusive eles mesmos
– Ai ai ai – Resmungou Yuma – Alguém anotou a placa do caminhão que me atingiu?
– Caminhão coisa nenhuma! – Respondeu Kotori – Foi você quem ficou parado na frente da porta e não me deixou passar
A essa altura, ambos ainda estavam no chão, em meio a muitas e muitas compras
– Você vai ficar e me ajudar a limpar essa bagunça, nem pense em sair andando – Disse ela, com voz firme.
– Tá bom, tá bom… eu não ia sair mesmo – Ele se ajoelhou no chão, começando a recolher as compras e colocá-las de volta nas sacolas
Kotori logo fez o mesmo, colocando tudo de volta em seu lugar. Um a um, logo o chão estava limpo e tudo estava guardado novamente
Só estava faltando…
– E isso aqui? – Perguntou Yuma, segurando o buquê nas mãos – Vai aonde?
Ela rapidamente puxou o buquê das mãos dele, deixando ele boquiaberto enquanto via suas mãos vazias
– Não precisava disso tudo, era só pedir! – Exclamou o garoto, ainda ajoelhado no chão – Por acaso trouxe para a vovó Haru?
– Não, não é para ela – Respondeu, com a face emburrada
– Hmm… então é pra Nee-Chan? – Perguntou ele, outra vez
– Não, também não é para Akari-San também – Para cada resposta que dava, ficava levemente mais consciente do que logo teria que dizer, usando o buquê para tampar o rosto
– Então é seu?
– Não, também não é meu! – Respondeu, o buquê tampando sua boca, tornando mais difícil de escutá-la,
– Então… pra quem é? – Perguntou, com uma expressão bem confusa
– É para… para… – Ela começou, sem conseguir terminar. A essa altura, seu peito já estava queimando completamente por dentro, e seu rosto ficando cada vez mais vermelho, que ele não conseguia ver por trás do buquê
– É para…
– É para você, Yuma – Ela disse, baixinho, completamente envergonhada, seu rosto praticamente soltando fumaça
– Pra quem? Fala mais alto, não dá pra te escutar com o rosto atrás dessa coisa – Ele foi afastar o buquê do rosto dela, para conseguir escutar o que ela falava, foi então que ela esticou completamente as mãos para frente, deixando o buquê bem na frente dele
– É para você, idiota! – Ela gritou, extremamente envergonhada, estava com os olhos fechados bem forte, como se não quisesse ver a expressão dele.
Ele estava bem confuso, e aos poucos a ficha realmente caiu para ele
– Hã? Você está dando esse buquê pra mim!? – Exclamou, surpreso
– Se não gostou, então eu levo ele comigo de volta pra casa! –Ela tentou puxar o buquê de volta, mas no meio do caminho sentiu algo segurando seu pulso
Foi nesse momento que ela abriu os olhos e viu o rosto dele, estava igualzinho a ela, vermelho igual a um tomate, o fruto que detestava tanto.
– Não é que eu não gostei… é que eu nunca ganhei flores antes – Ele respondeu, olhando nos olhos dela – Nunca achei que fosse ganhar flores, para falar a verdade.
– Bem… então… o que você achou? – Ela perguntou, timidamente
– Achei elas bem bonitas, gostei bastante da cor – Ele disse, soltando a mão dela e colocando no buquê – Posso pegar?
Kotori tropeçou levemente nas palavras, mas soltou o buquê nas mãos dele, deixando que ele olhasse as flores com plena atenção
– Essa flor tem algum nome? – Perguntou ele
– Ajisai – Disse, em resposta
– Ajisai… – Ele repetiu o nome – Acho que isso significa que agora essa é minha planta favorita
Com o buquê em mãos, ele se levantou rapidamente do chão.
– Vovó, posso pegar um dos seus vasos emprestados? – Ele gritou, sua voz chegando até a sala de estar
– Claro, Yuma. Eles estão na prateleira de baixo – Respondeu Haru, que ainda estava na sala esse tempo todo
– Você vai precisar me ensinar como cuidar dessa coisinha, nunca tive uma planta antes – Ele falou para Kotori, que ainda estava no chão.
– Isso não é tão difícil, vai precisar apenas de um pouco de terra, luz e água – Ela respondeu, se preparando para levantar do chão
Foi quando ele lhe estendeu a mão
Seus rostos ainda estavam vermelhos, mas não queimaram mais tanto de vergonha, mas sim com acalorados sorrisos meigos
E enquanto isso tudo acontecia na cozinha, Akari e Haru ainda estavam no sofá da sala.
– Então foi por isso que você não acordou o Yuma hoje mais cedo? – Perguntou Akari, olhando para a avó, que tricotava com um sorriso no rosto
– Esses dois estavam precisando de um empurrãozinho, não fiz nada demais – Ela respondeu – Se fossem juntos, ela ficaria com vergonha demais para trazer algo para ele
– Parece que o seu plano funcionou muito bem – Respondeu Akari, olhando em direção a cozinha – Vamos começar a organizar as coisas agora, ou esperamos um pouco?
– Vamos esperar um pouco, Akari-Chan, não temos pressa – Disse Haru, enquanto começava a cantarolar um pouco
…
Mais tarde, finalmente puseram a mão na massa, começando a cortar e cozinhar todos os vegetais para a ceia, rendendo muito mais conversas e momentos carinhosos. A partir daquele dia, o canto do quarto de Yuma havia ganhado uma nova cor
No final das contas
, enquanto estavam todos juntos, aproveitando a comida, as palavras da senhora da tenda passaram por sua cabeça
Quem sabe garotos também não gostem de flores.
FIM
…
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