Notas iniciais

Grandes lembranças do verão abrasador quando tudo fazia sentido. Gritaria dos garotos percorrendo a rua perseguindo pipas que nunca voltariam a seus donos. O formato das nuvens e o vento são os mais dolorosos, junto às flores que exalavam cheiro de Papai Noel de shopping aos domingos que eu e minhas primas mais tarde mataríamos. Os segredos guardados a árvore com seus frutos de abacate, sonhos petrificados por uma adulteração sufocante. Quando foi que tudo acabou? Às vezes parece que foram ontem, outras, numa vida passada que nem minha era. Se eu me visse hoje como sou não me reconheceria.
Meninas esbanjando néctar juvenil atravessando a sala até o quintal. O indício da chegada da puberdade, as primeiras fofocas, o fim da infância, fase tão monótona em nossas vidas. A era da melancolia.
Ainda vejo as bonecas deixadas de lado, tentativas fracassadas de seguir a moda vigente, o cheiro do absorvente com sangue misturado ao perfume da embalagem. Tenho que admitir, era uma fragrância intoxicante, mas gostava do odor. Posso senti-lo se imaginar bastante. Presilhas de cabelos, saia jeans, unhas descascadas, pulseiras coloridas, o olhar indiferente que lançávamos quando estávamos entediadas. Grandes olhos verdes que vislumbravam o infinito da floresta que tínhamos a nossa frente. Sonhando em viver em outro lugar, outra realidade, fugir dali, talvez?
Inutilmente querendo compreendê-las. Eu que jamais entenderia, ou chegaria a ser uma delas, tão belas, sempre a garota deixada de lado, esquisita. Havia outras mais desgraçadas, verdade. A do braço queimado e suja, sem uma mãe para lavar e pentear os cabelos e assoar o seu nariz. Crianças carentes de atenção existiram e existirão enquanto esse mundo girar.
Estávamos todos fora de órbita, apenas observando sacos plásticos levantarem voo diante da ventania refrescante, a água escorrer pelos cantos da parede, os quintais enlamearem após a chuva deixar suas marcas na natureza. Aquele lugar não permanecia e nem continuava, todo estranho, hoje é pior, todavia antes havia uma aura de mistério e delicadeza que nunca decifraríamos. Agora o tédio impera como um ditador totalitário, e a pureza indecente daquelas meninas precoces foram embora e deram lugar a algo chamado “nada.”
Raramente embora tentasse expelir a dor e o sentimento, esse maldito sentimento! De não sei o quê, a sensação de estarem ali, na rua ou nos quintais, sentadas no chão, brincando na areia, arrancando a grama que crescia sem permissão, deitadas no colchão na laje tentando adivinhar as formas das nuvens, não encontrávamos nenhuma resposta a esses anseios tão agoniantes.
Se fosse possível, gravaria todas pequenas descobertas, ou as deixaria ali para sempre, presas num lapso temporal, sem envelhecer ou voltar para trás, naquele exato momento. Eu as veria por toda eternidade sobre um binóculo passando de um lado por outro esvoaçando o cabelo á brisa, andando no corredor, conversando embaixo das árvores ou brincando com as outras crianças nas suas bicicletas. Essa visão, essa que dava a sensação de contentamento. Eu diria frases do tipo: “Garotinha malvada loira, espere por mim enquanto escrevo o seu nome com indignação na calçada do vizinho.” “Você sempre foi à irmã feia,” “Acho que a nossa amizade não passou de farsa. Tudo bem foi legal.” Pensamentos de uma mente perturbada, no caso a minha.
Lembram-se dos doces oferecidos por aquela velha estranha, das represálias de nossas mães e tias ao descobrirem? Do exibicionismo exercido de vocês em vão aos garotos, imaturos demais para entender? Ou de como nos encolhíamos de medo ao anoitecer com as histórias e lendas sobre a nossa cidade, quer dizer, a cidade de vocês?
As pequenas porcarias nos deixavam felizes até certo ponto, mas as limitações com o tempo nos aborreceram e nos afastaram pouco a pouco. Porque a nossa amizade se comparava á uma Glória-da-manhã, tão rápido desabrochou quanto murchou facilmente. Do nosso grupo algumas partiram, outras permaneceram.
Portanto, o que me magoa mais é saber que eles destruirão a floresta que esteve presente antes de nascermos e depois disso. Como será quando eles derrubarem a última árvore e não restar nenhuma contemplação na estrada? Não sei dizer, apenas sinto a tristeza dessas coisas acabarem. Como se aquela floresta pequena e insignificante para o resto do mundo fosse parte de mim, e esta parte estivesse sendo arrancada a força por homens maus, morrendo a cada dia.
Eu espero que ninguém que me conheça esteja lendo este texto, porque sei que as coisas não foram assim tão fascinantes como descrevo, ou só eu tenha reparado nelas e acabei floreando. Por favor, me perdoa se eu estiver fazendo isso.
As coisas mudam, mas nem sempre as antigas lembranças são esquecidas.
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