Flores do Solstício
1 Flores do Solstício
Notas iniciais
Era inverno de 1937, o país se despedaçava como um ensaio ao genocídio de Hitler sem nenhuma clemência. O galopar dos cavalos anunciava a derrota em mais uma batalha contra a densa névoa de trevas que pairava sobre a nossa Espanha. A trovoada vociferava com angústia todos os palavrões entalados nas gargantas condenadas da Frente Popular. Pés desnudos e calejados pelas botas maltrapilhas chafurdavam no esgoto fétido da humilhação; braços trêmulos e inconformados banhavam os vestígios do sangue inimigo em lágrimas de extintos sonhos de liberdade. Em marcha forçada, os combatentes e traidores do exército nacionalista rumavam à sumária execução, unidos na morte pelo mesmo ideal: viraríamos rostos sem nome, perdidos na pilha de corpos pálidos fruto do vermelho proibido. Sedutor escarlate como aquele teu vestido com que costumavas me abordar nas noites solitárias de verão.
***
Submerso em melodia clássica, degustava as últimas partículas de ar quente antes da chegada do solstício de inverno. A campina exalava o cheiro das flores silvestres agitadas pelo vento gradual. Lembranças de dias serenos na rústica choupana da Andalucía, de quando dedos ágeis tocavam piano com poesia, não a orquestra de ódio das armas de fogo em punho. A montanha contornava a paisagem em imponência bela, tal qual as curvas sinuosas de luxúria que viriam me ver na noite mais longa do ano.
― Pablo! ― exclamou meu pai, trazendo-me de volta à realidade. ― Não ias dar de beber aos cavalos no estábulo? ― indagou com o seu castelhano ligeiro que tanto incomodava os meus rompantes de inspiração.
― Sabes que não gosto de fazer nada a essa hora. Não com uma beleza divina como essa a me encantar no horizonte ― referi-me ao pôr do sol como se um homem retrógrado e humilde como o meu pai fosse realmente entender tamanha pausa simbólica.
― Sei. Não penses que me despistas com esses teus discursos de moço formado. Anda, vai já! Sabe que, em tempos de guerra, é preciso concluir as tarefas mais cedo para trancar em segurança os parcos bens que ainda nos restam. Anda! Antes que aquele bando de famigerados dê cabo dos animais ― relembrou-me da onda de saques que tomava conta do país. De fato, eu não entendia essa guerra estúpida! Exército, Igreja e o grande latifúndio reprimindo com violência a alvorada gloriosa de 1931. “República idônea seria o fim das tantas calamidades que assolavam os nossos irmãos”, diziam os livros de sábios distintos casados em vida com a verdade e a filosofia. Quem eram eles para discordar e instalar a Ditadura, afinal?
― Esse pesadelo não seria concreto se não fosse o Maldito General Franco! ― resmunguei de forma imatura apenas para suprir a minha necessidade de sujeito passivo ao ódio quente que eu sentia. No fundo, todavia, a minha razão lapidada em anos de estudo tinha plena convicção de que o caos era arquitetado pela teia ideológica que regia o mundo e não por um único soldadinho de chumbo com sede de poder. ― Dá-me logo o lampião, por obséquio, sim? Na densidade daquela mata é impossível enxergar o poço sem ajuda do sol de meio-dia ― acendi o objeto com chama baixa e adentrei o matagal, contrariado.
***
O caminho até o poço era muito capcioso; sobre as pedras dissimuladas, uma breve distração poderia custar meses do uso das pernas. Por isso, eu mapeava cada milímetro quadrado do terreno com cuidado, forçando a minha mente delirante a ficar em guarda e não me desfavorecer. Desci o balde de metal alguns metros chão adentro e, em seguida, resgatei-o preenchido pela água ainda cristalina; nada sangrenta ou enlameada como aquelas em que atolaria num momento sádico de ironia divina. A brisa noturna soprou gélida, dando a certeza de que, em instantes, o cenário sumiria em escuridão. Aumentei, pois, a chama do lampião, satisfeito, sentindo-me das criaturas a mais prudente. Valha-me Deus!
Dirigi-me, por fim, ao estábulo, sem deixar de encarar os cavalos nos olhos com todo o ressentimento pela separação forçada do meu piano por um instante sequer. Eu até lhes relincharia umas boas verdades se fosse mais louco, ou, quem sabe, idiota... Alimentei-os mesmo assim, porém. Enquanto os bichos matavam a sua sede urgente, dei falta de umas poucas aves, vindo a ficar de todo apreensivo. Afinal, em épocas delicadas como essa, tudo o que some quase necessariamente foi apertar a mão do Criador. Olhei por cima dos ombros, na expectativa de a qualquer hora ver correr um vulto marginal do qual eu seria o primeiro a fugir se me dessem tempo. Um grande estrondo possuiu-me, então, os tímpanos, de modo a irradiar um calafrio por toda a extensão da minha covarde espinha dorsal. As mãos trêmulas de pânico vasculharam a palha em busca do ancinho ou o que quer que viesse a calhar.
― ¡Dios mío! ¿Dónde está? ― questionei-me sobre as quinquilharias que sempre somem quando são muito úteis. Agarrei-me ao lampião e ao balde metálico, torcendo com todas as forças para que o meu grande inimigo fosse apenas mais uma das raposas ladinas comedoras de ovos. Er... e galos e perus robustos. Acreditaria até nas comedoras de cavalos se fossem eles os desaparecidos! Todavia, estalos rítmicos ecoaram pelo ambiente em derrocada do meu calmante psicológico sobre o ataque de animais surreais. ― Quem está aí? ― indaguei ingênuo como se esperasse deveras um anúncio de “sou eu, o ladrão!” ou um pedido formal a cordialmente vir afanar a minha granja. ― Quem está aí? ― insisti ainda mais alto conforme as batidas se aproximavam. Ao apurar os ouvidos para decodificar a sinfonia que compunha a minha marcha fúnebre, contudo, pude perceber que se tratavam de castanholas.
― Vais me atear fogo ou derreter em água benta como fazem com as hereges? ― interrogou-me a feminina aparição à porta do estábulo, com um sorriso desafiador nos lábios de carmim. O corpo curvilíneo sob o tecido vermelho de musselina era um convite irrefutável à minha imaginação. A pele de porcelana esculpia-lhe a face com tanta delicadeza que mal se notavam os pontuais vestígios da sua condição mais simplória. Os cabelos ondulados e castanhos, presos em um coque e com as fugitivas mechas frontais a lhe pender na testa, eram prévia da sensualidade controlada que poderia vir a me dominar de imediato. ― ¿Y qué? ¿No es el hombre de esta casa? ― debochou, mordendo os lábios mais beijáveis que os meus olhos ousaram ver ― o un niño... ¿quién sabe? ― encarando-me triunfante, permanecia a batucar aquelas benditas castanholas.
Balbuciei palavras inúteis e completamente incompreensíveis para além do meu próprio raciocínio. Ela era mais alucinógena do que qualquer último devaneio dos acamados por gripe espanhola! Ah, aquelas íris caramelo! Traziam a serenidade de arcanjos com a bravura das correntezas num misto hipnotizante de calmaria com tempestade. Vi-a, então, aproximar-se do meu semblante transtornado e apontar-me, de maneira felina, a navalha que tirara da cinta liga sobre a coxa; como se para poder comigo fosse mesmo necessário ser ainda mais ameaçadora...
― Erga as mãos! ― ordenou, rendendo-me ao jugo de sua vontade. Amarrou-me os braços erguidos à base do pequeno suporte destinado ao repouso dos lampiões. ― Agora, não vais mais a lugar algum ― beijou-me urgente e com um quê de sofrimento. A fachada endurecida estilhaçava em mil pedaços que não mais se esconderiam nem por detrás do mais lindo leque a lhe cobrir a face; minha noiva, decerto, havia descoberto os últimos desígnios que se fizeram sobre mim...
― Maribel... ― queria alentá-la em meu peito, pois havia receio demais para nós dois. Ao aparecer de repente, estava tão forte e decidida, que eu não imaginava que tão rapidamente fosse perder o porte em lágrimas de desespero. Queria ser a sua válvula de escape a toda dor latente, exatamente como a minha arte melancólica me havia sido o dia todo; apenas não sabia como...
― Pablo, guerrear é para os brutos e não para poetas como tu ― referia-se à insensata decisão dos republicanos de me levarem a campo de batalha. Justo eu, o mais jovem e despreparado para a missão, ingressar no exército conservador como agente duplo em prol da resistência? ― Para que partirás à surdina nesta noite quando sabes que nada do que fizeres vai mudar o curso da História? ― frustrava-se em tentativas vãs de conter o pranto insistente e as ideias insanas maquinadas em nome daquela tal liberdade.
― São inúteis as minhas palavras, corazón. Se a virtude não dissipa a ignorância desses irracionais, tenho de lutar. A Frente precisa de mim; de militantes cheios de paixão e esperança, sem coração conformado a ponto de se evadirem da Pátria. Se todos se enternecessem diante da dádiva da vida ao invés de cobiçarem o poder fictício do patrimônio, talvez verdades lapidadas em vocábulos fossem mesmo capazes de tocá-los na essência e acabar com a selvageria. Sendo eles como são, a diplomacia é tão utópica quanto uma flor vencer tanques de guerra ― argumentei com propriedade no intento de disfarçar a morte certa em ato heroico e necessário.
― Olha à tua volta. Estás completamente indefeso, incapaz de defender a santidade de tua própria casa. Como vais combater Franco quando te assustas até comigo? Fala! Como, em tua doçura ingênua, vais matar compatriotas?― acabou com a minha virilidade em apenas um segundo. ― É sangue que queres nas mãos? ― cortou a própria palma com bastante superficialidade, sendo, no entanto, o suficiente para me sujar os dedos com gotículas rubias do seu sangue quente. ― Estás mais homem ou herói agora? ― fitou-me magoada, sem entender o porquê de tudo de que eu tanto discordava estar sendo mais válido do que ela ou do que a minha própria vida.
― O que queres que eu faça? Assista sentado à queda da Espanha sem nada fazer? Há mulheres e crianças lá fora morrendo como ratos. Devo deixá-los definhar cruelmente só porque não os conheço? Também são nossos patrícios, Maribel. Muito mais do que os covardes sanguinários a silenciar esses inocentes ― esbravejei enérgico de forma inédita, impedindo-me de trazer à tona o pavor que me afligia de a carnificina tomar a Andalucía e adicionar aos obituários todos os rostos que eu conhecia. ― Não tenho escolha ― engoli a massa de ar seco que me cortava a garganta.
― Não. Não vou permitir ― beijou-me num misto de ardor e tristeza, pousou minha face entre as suas mãos desprovidas de mais quaisquer argumentos. ― Pablito, cariño, queda-te comigo. Esquece isso tudo e fica comigo ― libertou-me os braços com uma ágil navalhada, permitindo que eu correspondesse a cada um de seus toques potencializados pelo medo de que fossem os últimos. Suas palmas percorriam a extensão de meu tronco e rosto com tanta ânsia que era como se a qualquer momento eu pudesse vaporizar diante dos seus olhos chorosos. As minhas, por sua vez, eram finalmente autorizadas, de modo implícito, a lhe percorrer o corpo como um apaixonado; a tornar humana aquela silhueta etérea até impregnar cada centímetro dela nas minhas impressões digitais. E, decerto, a sua matéria nunca me esteve tão palpável. Tão conjugada à minha em uma justaposição transcendental que nos unia no abstrato de tudo aquilo que é eternidade; não obstante houvesse durado consideravelmente menos do que um ideal pode viver, é claro: eu era o seu ideal de intelecto, ela, a divindade encarnada que agora, como nunca, eu tinha o privilégio de alcunhar minha mulher.
Entretanto, naquele estábulo, havia muito mais do que dois amantes em consumação dos ímpetos da Natureza; estavam também algumas bipartições internas e todas as dores que essas escaras proporcionavam ao par de criaturas cujos sonhos e temores se faziam tão mortais. Ainda que tomados pelo frêmito de enfim tê-la entregue em meus braços, as lágrimas inconvenientes eram o grande inimigo contra o qual ambos tínhamos de lutar por ora: o êxtase que sentia em estarmos juntos só reforçava a ideia de como seria insuportável se eu não mais pudesse voltar para fazê-lo. Outro lhe provaria o gosto doce dos lábios, tocaria a porcelana de veludo e se afogaria nas calmas tormentas de caramelo que costumavam retratar um futuro somente nosso. Essa sim era a única guerra que me dizia respeito: batalhar pelo amor à Espanha ou por aquele que fazia da minha família e da minha espanhola as maiores razões para eu optar por viver um pouco mais.
― Eu te amo ― sussurrou, ofegante, beijando-me o lóbulo com os lábios trêmulos.
― Te amo demasiado, mi amor ― tentei dizer naturalmente como se não houvesse entendido que aquela era a nossa despedida, a permissão forçosa para eu partir. Toquei-lhe o rosto com as pontas dos dedos para fotografar em mente cada detalhe e sacramentá-lo na memória. A propósito, posso assegurar com toda certeza, agora, que nada seria capaz de apagar aqueles traços do meu pensamento. Muito pelo contrário. Quanto mais tive o desprazer de contemplar o feio, o sujo e o imoral de cada atrocidade que move a contraposição de egolatrias em batalha, mais recorria àquela noite sobre o feno para me lembrar de que o divino também habitava entre nós; de que havia sempre um feixe do belo sobre cada mínima coisa que, um dia, poderia enfim se evidenciar como a centelha dos céus que ultrapassa a carne e faz girar o mundo na frequência certa. Porém nem mesmo eu, o tal rapaz poeta, estava perceptivo o bastante diante de tantas calamidades para crer mais no afeto do que na força bruta... E como me arrependeria de haver optado pela ignorância de pagar o mal com o mal!
Dentro de poucas horas, eu fugiria para Madrid com os outros guerrilheiros, deixando para trás tudo o que eu amava. Antes de sair, demorei-me ao máximo para gravar em minúcias a paisagem da minha querida Andalucía: a sua herança mourisca, a bela Alhambra e os seus Carmenes tão inspiradores aos meus momentos de introspecção... O meu piano-refúgio e a robusta carcaça adormecida de meu pai. Como eu queria poder ouvir aquele castelhano irritante para sempre! Entrei, enfim, na carroça fedida, perdi a fragrância feminina que me inebriava há tanto e me tentava a ficar. Dentro do bolso, vim a encontrar o seu rosário, símbolo da fé que secretamente tinha em mim, e no bom Deus que nos abandonara desde 1936. Apertei-o com força como uma relíquia, ciente, agora, de que eu iria voltar: enquanto eternizado em suas lembranças saudosas, teria em cada solstício o meu caminho de regresso.
***
― Quer proclamar um epitáfio? ― fitou-me o algoz com falsa misericórdia, apontando o instrumento do desenlace.
― Só a flor pode vencer o canhão ― espremi o terço entre os dedos ao recordar a mim mesmo a verdade simplória que, com pesar, havia negligenciado. Pena que fosse demasiado tarde...
― ¡Una, Grande y Libre! ― exaltou o lema Franquista, curvando-me aos pés da negra Águia de San Juan. Ouvi o brado das castanholas, senti o cheiro das minhas campinas. Sorri às poças de caramelo, fechei os olhos, dormi em paz.
Muitas vezes é necessário perder o rumo para reencontrar algumas certezas.
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