Flores de uma esquecida estação
5 Não foi como o esperado
Notas iniciais
Caleb
As rosas estavam mais lindas do que ele lembrava. Foram exatamente aquelas rosas que o atraíram para filmar naquele local quase um ano antes. Lembrou do último dia de filmagem e de como prometeram voltar na primavera, com sorrisos que o primeiro dia de inverno logo trataria de apagar. Lembrou do acidente e de seu amigo Mark e sentiu uma pontada de culpa o atingir. Eles nunca voltaram para filmar naquele lindo cenário da natureza.
Agora não tinha equipe, atores e nem câmeras. E Caleb não estava filmando nada. Era apenas ele e as flores que pareciam o encarar. Passar alguma mensagem. Summer o encarava curiosa. Estava faltando um. Onde estava seu outro amigo?
Summer ainda lembra de como os ajudou após o acidente doando uma parte de sua força vital. Estava ansiosa por esse reencontro, porém algo estava errado. Esperava ver os dois amigos e não apenas um. Se aproximou mesmo assim a passos lentos.Era final da primavera. As flores estavam mais bonitas que nunca. Seus passos fizeram um suave barulho quando seus pés pisaram nas folhas secas do chão. Caleb pareceu ouvir que alguém se aproximava.
Caleb ouviu os passos se aproximando. Quem estaria lá com ele? Seria ela? O acidente confundiu algumas lembranças, mas ele lembrava claramente de ver uma menina de vermelho pelo retrovisor segundos antes da batida. Sabia que ela havia os ajudado, não sabia como, mas sentia que recebeu ajuda dela. Também sentia que ela morava perto daquelas flores de beleza sobrenatural. Talvez ela estivesse por trás do mistério de porque essas flores nunca murchavam ou eram danificavam.
Virou-se lentamente e viu a menina de capuz vermelho. A menina parecia ter uns dez anos, mas tamanho de seis. Porém seus olhos profundos mostravam bem mais idade. Parecia até mais experiente e esperta que ele. E havia algo a mais também naqueles olhos misteriosos.
—Caleb, consegue me ver?-perguntou surpresa Summer ao notar que era vista aparentemente. Ele apenas concordou com a cabeça meio sem jeito ainda. O que se passaria pela mente dele? Summer não sabia dizer. Ele não aparecia exatamente surpreso. Parecia esperar que ela aparecesse. Depois de um longo tempo de silêncio, apenas com o vento ao fundo, a menina perguntou o que queria perguntar desde quando o viu novamente- Onde está seu amigo?
A expressão dele mudou de repente. Havia uma certa tristeza em sua fala quando disse:
—É uma longa história...
—Ele morreu?!- perguntou com medo da resposta- Mas ele estava melhor...Você pegou o pior do acidente. Ele está vivo não é?
Caleb não disse nada. Olhava para um certo ponto da floresta como se visse algo. Pensou na última conversa que teve com o amigo. Sentia falta de ter um amigo. Alguém para desabafar.
—Me diga logo Caleb. Não me deixe nesse suspense.- disse a menina o tirando de seus pensamentos.
—Ele está bem, só que não somos mais amigos...
—Porque? O que aconteceu?
—O acidente aconteceu. Nada seria como antes depois daquilo... Quase mato nós dois. Por culpa do meu celular... — comentou triste, lembrou- se que no sonho que teve nos momentos após o acidente, enquanto estava desacordado, no sonho com as duas senhoras quem estava com o celular era Mark, mas apenas no sonho mesmo. Na realidade lembrava bem que era ele. A culpa sempre o lembrava. Ninguém morreu, foi verdade, mas poderia ter ocorrido o pior. Não entendia como o amigo poderia o perdoar sendo que ele quase havia o matado sem querer. E pior havia marcado seu rosto para sempre. A culpa o lembrou também de quando ele ofendeu o amigo mais do que gostaria... Apenas queria que ele entendesse que a culpa os separava... Mas sentia falta dele... Não poderia pensar nessas coisas... Olhou para a floresta com folhas verdinhas por causa da estação e completou- Não devia está usando o celular enquanto dirigia...
—Porque está aqui, Caleb?- perguntou Summer se aproximando. Ele eram feitos de matérias diferentes, mas ela conseguiu tocar nele. Ele estava tão frio. O outono logo daria lugar ao inverno. Outro inverno. Aquele reencontro não estava sendo como ela esperava.
Na mente de Summer ela veria os dois novamente logo na primavera. Bem recuperados do acidente. Eles sorririam para ela e talvez até acenassem. Poderiam a ver devido a força vital que transferiu para eles. Nunca imaginou um reencontro mais triste que aquele. Além de faltar Mark o Caleb estava totalmente arrasado.
—Vim ver você. Queria alguém para conversar e precisava saber se você era real.-após uma pausa completou- O que você é exatamente?
—Sou a Summer, tenho esse nome por causa das rosas. Elas gostam de verão. Não sei exatamente o que sou, mas sei que venho de um lugar diferente do seu. Um outro mundo. Do lugar que eu vim há mais rosas como essas. Há muitas flores na verdade e outras como eu, na verdade, mais ou menos como eu.
Caleb pensava que a história de Summer daria um bom roteiro de filme, se fosse outros tempos se sentaria com o amigo e eles dariam um jeito de transformar em um filme.
Ele e Mark sempre trabalharam juntos fazendo filmes do cinema independente como o que filmavam no local no dia do acidente. Lembrou daquele último dia de filmagem. Principalmente do momento em que ele entrou com o celular na mão no carro, porém também lembrava dos equipamentos sendo guardados e dos atores. Os atores estavam alegres por atuarem mesmo sabendo que se tratava de um filme de baixo orçamento e que provavelmente não faria tanto sucesso, como foi o caso. Mas a grande verdade era que muitos nem eram atores, eram apenas curiosos que queriam a chance de atuar.
Apesar de terem dirigido o filme eles não foram para a exibição no pequeno cinema local. Primeiro porque, por motivos óbvios, devido ao acidente a pós produção foi feita por outra pessoa. Mas eles não foram principalmente porque Mark devia está com vergonha do rosto e ele ficou em casa preso pela culpa. Mas pelas críticas que leu foi um filme de recepção morna e que logo seria esquecido. Ainda bem. Ele queria que sua mente esquecesse o acidente com a mesma facilidade que o filme deles.
Por falar em esquecimento lembrou que alguns atores o visitaram e outros mandaram cartões de melhoras. Nem suspeitavam que a culpa era dele... Mas após um tempo o deixaram de lado. Surgiram outros projetos, as estações mudaram...Estava se aproximando outro festival de cinema e todos que tinham uma câmera iriam se aventurar a dirigir, queria que Mark estivesse entre esses. Apenas ele ficou parado no tempo. Lembrou de seu irmão e de sua mãe. Da tristeza dela por causa do acidente e de como ele não se dava bem com seu irmão mesmo após o acidente. Ele sabia do detalhe do celular e as vezes era meio cruel e mandava indiretas. Se arrependeu de contar para ele.
Desejou que tudo fosse como antes. Caleb começou a chorar desesperadamente e abraçou a menina de repente. Ao fazer isso sentiu tudo se transformar ao redor deles. Não estavam mais naquele lugar. Estavam no mundo de Summer. Não sabia explicar, mas sabia disso.
—Onde estamos?-perguntou sabendo da resposta. Olhou ao redor e notou que todo o lugar parecia envolto por uma névoa suave. Haviam rosas, muitas e uma floresta com árvores em miniatura. De longe se viam castelos.
—Estamos no meu mundo.
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