Flores de Velório
1 Desabrochando
Oi, meu nome é Dália e hoje é o dia da minha morte.
Nunca pensei em como morreria, bem, já pensei sim, inúmeras vezes, mas nunca com tanto vigor.
Talvez vocês devem estar perguntando-se, qual o motivo dessa narração fúnebre. Ou talvez não estejam nem ai.
Tenho o nome de uma linda flor, muitos me acham linda, mas só eu sei como é feio e extremamente estranho dentro de mim. Enquanto uns queriam a vida de volta outros estão perdendo.
Eu sou Dália, e essa é minha morte.
Nasci, cresci e não sei muito bem o que é o amor. Cresci convivendo com uma mãe que bebia e cada dia estava com um homem diferente. O cheiro de nicotina me deixava nauseada, me ajudava a me dispersar do mundo e entrar no meu, o mais e estranho psicodélico e utópico mundo de Dália.
1.6! Não é todo dia que fazemos 16 anos, eu estava feliz, eu estava descobrindo meu corpo, conhecendo pessoas novas, sim! Eu estava feliz, eu estava me adaptando, eu. Eu! Eu? Meu Deus! Eu? Não existia eu, existia um saco de matéria mórbida que era controlada pela mãe possessiva e drogada.
Nem tudo são mil maravilhas, mas havia uma maravilha e o nome dele era Carlos. Nome viril e forte, ao menos pra mim. Eu sorri, parecia aquelas meninas da televisão, só parecia.
27.05.2011 – como esquecer essa data? Impossível.
Era hoje, ele tinha me chamado para sair, nós íamos dar uma volta na praça, degustar um sorvete, coisas típicas de um casal. Um casal? O que eu posso falar para vocês: foi incrível, parecia que tinha fogos de artifícios estourando descontroladamente dento de mim, era uma sensação de dopagem.
Cheguei a casa com um sorriso que não cabia no rosto, abri a porta e encontrei minha mãe, sentada em uma cadeira bem de frente à porta, estava de roupão, com um cigarro na boca manchado de batom vermelho, estava séria e provavelmente tinha um desconhecido dormindo no quarto.
Com um tom autoritário perguntou onde eu estava ate essa hora da noite, olhei para o relógio e nem eram 21h 30min. Ela levantou-se e com violência arremessou uma garrafa de vodka que estava ao seu lado contra a parede, em um movimento instantâneo cobri meus olhos e senti os cacos se alojarem entre meus fios de cabelo, enquanto o liquido de cheiro forte molhava minha roupa.
-Sua puta!
Meus olhos ferveram, eu estava possessa, não era eu, mas ao mesmo tempo eu gostei de ser daquele jeito.
De repente tudo ficou vermelho, eu estava no meio de uma piscina de sangue e de lagrimas, mas eram lagrimas de felicidade. Parte da garrafa estava enfiada no pescoço da minha mãe e ela estava caída no chão agonizando enquanto litros de sangue inundavam o chão da sala de estar. Por um momento eu me senti livre.
-Acho que você vai precisar de ajuda.
Essa voz grave que fez meus ouvidos estremecerem e meus lábios esticarem. Carlos?! Olhei para ele, que estava na janela, não havia nada em seu rosto, nenhum tipo de julgamento, simplesmente era ele, transbordando empatia pelos seus olhos azuis como lápis lazuli, me senti calma.
A tempestade passou e o sol nasceu, porém estava nublado. Caminhava vagarosamente pelas ruas de paralelepípedo de um bairro vizinho, estava indo ate a mercearia.
-Sinto muito pela sua perda. – disse o comerciante, com um olhar de tristeza e uma expressão vazia, pensei em respondê-lo, porém apenas assenti com a cabeça. Meu celular tocou, uma voz rouca estava no outra linha.
-Alô, Dália?
Eu estava com medo, talvez porque eu já sabia sobre o que se tratava.
Ao terminar eu soltei as sacolas e liguei para Carlos.
-Preciso da sua ajuda. Ele esta vindo, não deixem ele me pegar. Minha voz estava tremula e lagrimas escorriam e caiam no chão e nem mesmo a voz dele conseguia me acalmar.
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