Flores da Liberdade
8 Capítulo 8
Rin estava certa ao admitir que o castelo de Sesshoumaru ficava longe daquele vilarejo. Talvez Hannah não tivesse sentido tanto assim o passar das horas se o homem que a carregava fosse mais sociável. Não que a moça não apreciava o silêncio quando não se tinha nada para dizer, mas isso teria servido para quebrar aquele clima que a oprimia.
Deveria ter ido de dragão, lamentou ao observar o casal flutuando em cima daquele animal de duas cabeças. Analisando agora que tinha o tempo e o ânimo para isso, constatou que Rin e Kohaku formavam um casal bonito de se ver. Eles podiam ser jovens, porém o amor transmitido pelos dois era notável.
Hannah se questionou se um dia ela havia sido tão feminina quanto Rin quando estava na presença de Kyouya e a resposta foi positiva. Com Kyouya ela pôde abaixar um pouco a sua guarda e quando revelava um pouco de seus nervos o rapaz tinha paciência para lidar com o seu mau-humor, lhe dizendo que gostava dela mesmo assim. Na verdade ele nunca disse que gostava de mim, se lembrou com amargura de sua antiga relação. Para ela ainda era dolorido o relacionamento que tivera. Talvez uma parte de si ainda gostasse do rapaz que a descartara como se ela não fosse ninguém. Maldito... praguejou e ergueu os olhos para encontrar as orbes douradas do youkai fixadas nela. Sentiu que ele podia ler os seus pensamentos e desistiu daquele jogo, virando o rosto para os campos que passava.
Os aldeões lhe contaram a verdade quando disseram que ela de alguma forma fora parar em outro século. A moça só vira casas de madeira por onde passara e camponeses do tamanho de formigas realizando o trabalho agrário ou seguindo por estradas para caminhos incertos. Não havia nenhum prédio alto, nenhuma estrada asfaltada, nem mesmo homens e mulheres vestidos de ternos ou com as roupas que ela estava acostumada a vestir em sua casa. Aquela imagem era desoladora e suspirou perante ela.
Na altura em que estava voando, teve o privilégio de ver o sol cruzar o céu até ser substituído pela lua. O pôr do sol naquele lugar era maravilhoso, parecendo que havia sido retirado de uma pintura. O ar também era mais puro e a estação mais marcada. Hannah deu graças por aquele dia não ser tão quente quanto o que estava habituada devido à chuva do dia anterior. Ainda agora algumas nuvens carregadas cruzavam os céus, nenhuma de grande proporção, felizmente.
A noite fora consolidada quando enfim começaram a perder altura. Ela e Sesshoumaru foram os primeiros a atingir o solo e assim que fizeram se soltou da mão que a prendia a ele. Passara tanto tempo em pé grudada ao homem com medo de uma queda que sentiu as pernas bambas ao poder andar com os próprios pés, sem contar que a junta dos dedos que seguraram a estola estavam doloridos.
— Finalmente chegamos! – Rin exclamou em satisfação, erguendo os braços na direção do céu ao se espreguiçar.
— É aqui? – Hannah olhou ao redor, não vendo nada que não fosse árvores altas.
— Tem uma barreira – Kohaku constatou.
Barreira? Não teve tempo para entender o termo, pois logo o dono daquelas terras lhe respondera através da ação. Caminhando na frente de todos, cruzou uma árvore e desapareceu na escuridão.
— Como isso é possível!? Ele estava aqui agora mesmo! – Assustou-se. Podia ver a mata que continuava além da árvore e mesmo assim o youkai não estava ali.
— Vamos, Hannah-San – Rin a encorajou, passando na frente dela junto com Kohaku, ainda montados no A-Un.
Mais uma vez, Hannah viu os dois desaparecem. Aquilo era impossível. Ilógico. Inexplicável. Contudo já vira muitas coisas desse nível desde que chegara aquele mundo. Com passos incertos, fechou os olhos e os imitou, só tornando a abri-los quando sentiu uma onda de energia passar pelo seu corpo. Diante de si, estavam aqueles que foram tragados para a escuridão. Nenhum deles pararam para esperá-la. Eu podia fugir agora enquanto ninguém está olhando, disse a si mesma e dominada por sua teimosia, voltou-se para a passagem e deu de cara com uma parede sólida, apesar de não haver nada diante de seus olhos que não fosse o caminho por aonde viera.
— Hannah-San, o que está fazendo? – Kohaku tinha os olhos cheios de curiosidade fixos nela.
— Nada – Mentiu, virando-se para ele.
— Você não poderá fugir, humana – Sesshoumaru comentou sem se dignar a lhe lançar um olhar que fosse, continuando a jornada até o seu castelo.
— Maldito... – Murmurou, pondo-se a contragosto a segui-los, lançando uma última olhadela sobre o ombro para a passagem que permitira que ela entrasse, mas não que saísse – Quanto tempo ficaremos aqui, Rin? – No alvoroço de sua partida, esquecera-se de perguntar o que realmente importava.
— Dois meses – A menina sorriu de volta para ela.
— D-Dois meses!? – Gaguejou. Por dois malditos meses ela ficaria presa naquele lugar! Pelo menos no vilarejo ela podia ir e vir aonde quisesse.
— Pouco tempo, não é mesmo? – Rin demonstrou insatisfeita com aquilo – A lua-de-mel de um casal geralmente dura seis meses.
— S-Seis meses!? – Gaguejou mais uma vez.
— Sim, iríamos ficar este período aqui, mas eu tenho obrigações como exterminador e não posso me dar ao capricho – Kohaku explicou.
— Dois meses são bons o suficiente para mim, marido – Rin segurou a mão do rapaz que descansava nas costas do dragão – Até lá a nossa casa já vai estar pronta também e aí poderei me tornar a mulher que você merece.
Hannah quis vomitar com aquela conversa melosa, mas a ânsia viera para a ideia de ficar dois meses presa naquele lugar. Pouco se importava com a lua-de-mel daquele casal, pouco se importava com Sesshoumaru e sua maldita soberania, porém se importava em muito com a perspectiva de retornar para o Templo Higurashi a tempo de suas aulas que começariam em exatamente um mês.
— Eu preciso voltar para a minha Era daqui trinta dias no mais tardar! – Exclamou sua preocupação. Se não voltasse a tempo, perderia a chance de refazer sua experiência de vida escolar. Começando a estudar depois do primeiro dia de aula iria denegrir a sua imagem diante daqueles estranhos que seriam seus colegas de turma – Eu preciso voltar agora! – Desesperou-se. Não deveria ter concordado com aquela ideia idiota de ir até o Oeste.
— Hannah-San, acalme-se – Rin recomendou – Não adianta nada você voltar agora se não sabemos como te levar de volta. Tenho certeza que a Kagome e o InuYasha pensarão em uma forma, mas precisa dar tempo para eles – A menina completou.
— Eu posso ajudá-los. Posso ir todo dia ao poço! – Sugeriu.
— Isso não dará certo – Kohaku lamentou – Você esteve lá hoje e soube que não funcionou.
Hannah mordeu o lábio inferior. O rapaz tinha razão e era difícil admitir isso. Se tivesse em sua época poderia procurar explicação para o que lhe acontecera na internet ou em livros. Livros... Aquele pensamento a atingiu como um raio e desatou a correr até chegar ao lado de Sesshoumaru.
— Ei, você tem um castelo! – Exclamou a realidade como se só tivesse ouvido falar disso agora – Lá tem uma biblioteca, não tem? – Acrescentou o ponto que queria chegar – Você tem livros, não tem? Muitos livros, certo? Livro a respeito de tudo, não é mesmo?
Sesshoumaru a estudou antes de lhe responder.
— Não. Este Sesshoumaru não tem livros, o que quer que isso signifique.
As esperanças da moça foram destruídas, fazendo com que ela diminuísse o caminhar. Ele não sabe nem o que são livros... Estava estupefata com o que ele dissera. Como alguém pode morar em um castelo e não ter um simples livro? Nem mesmo um de História? Recordava-se que os senhores donos de fortalezas liam pergaminhos, então por que aquele Sesshoumaru não tinha? Pergaminhos... Deu-se conta de seu erro e voltou a alcançar o youkai.
— Pergaminhos – Corrigiu-se – Você tem, não? – Sesshoumaru respondeu com um menear de cabeça positivo – Ótimo! – Estava satisfeita com aquilo. Que sua prima e o marido dela buscassem a resposta para o seu problema do jeito que pudessem, porque ela iria encontrá-la do jeito que sabia.
Agora já não parecia tão inútil a sua vinda para aquele lugar. Seu corpo estava preso, era verdade, mas a sua mente poderia voar nas páginas de velhos pergaminhos repletos de sabedoria. Aquele era o sonho de qualquer Historiadora.
— Mas você não os lerá – Sesshoumaru a advertiu – Se quiser achar um meio para voltar para a sua Era, humana, faça isso com os seus próprios meios.
— O que...? – Hannah se pôs na frente dele, impedindo que ele desse mais um passo que fosse – É isso, não é mesmo? Vocês todos estão conspirando para que eu fique presa nesta merda de lugar! – Esbravejou aquilo que a estava corroendo por dentro.
— A função deste Sesshoumaru é impedir que você fuja – A voz dele soou com indiferença, mas as orbes douradas cintilavam o desprezo contido na fraca luz da noite.
— Fugir!? O único lugar que eu vou fugir é para a minha casa! Você é mais cachorro do que homem, por acaso? Por que simplesmente não me matou? Teria livrado a nós dois desses meses de cárcere! – Gritou.
Sem esperar pelo o que ele tinha a dizer, deu-lhe as costas e marchou adiante. Vira que Rin e Kohaku estavam se aproximando deles e não queria que sua atitude fosse corrigida por aqueles irritantes olhos achocolatados da menina.
O arrependimento que sentira pelas palavras proferidas por ela no jantar da noite anterior foi substituído pelo de pura fúria. Se pudesse teria lhe dito mais coisas. Teria dito o quão imaturo ele estava sendo se aquela era a ideia dele de vingança. Preferia ter quebrado o pescoço no poço e morrido ao invés de ido parar naquele inferno. Talvez eu tenha mesmo morrido e estou pagando os meus pecados aqui, imaginou. Durante dois meses ela viveria em um pesadelo interminável. Dois malditos meses no castelo desse maldito! Se ele achava que podia prendê-la ali, aquele Sesshoumaru estava muito enganado. Ela iria descobrir onde ficava a biblioteca dele e descobriria como retornar para o lugar de onde viera. Mesmo que eu morra fazendo isso, declarou.
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