Flores Secas
6 Capítulo 6 - Memórias -
Notas iniciais
Mandy caminhou a passos lentos em direção a sua casa e entrou naquele obsoleto ambiente seguindo em direção a cozinha, dirigiu-se para a geladeira de aço escovado e abriu retirando uma jarra de suco de laranja. Pegou nos armários de madeira com portas e maçanetas de vidro na parte superior um copo de vidro. Colocou seu suco degustando ao fechar a porta da geladeira.
"Elizabeth West, que garota mais estranha" pensou e assustou-se ao deparar com a mesma garotinha de dez anos que viu naquela mesma manhã brincando com a folhagem seca.
– Que susto! Oi... Você está perdida? — ela dizia pondo o suco na ilha com bancada em mármore branco.
A menina negou com a cabeça ao sorrir, a mesma saiu correndo para a porta dos fundos da casa indo embora.
– Espera! — Mandy correu atrás dela quando ouviu uma voz familiar, chamando-a.
– Mandy? Querida é você? — Maryanne estava com luvas amarelas nas mãos sujas de terra. Ela entrava na casa e estava com a roupa repleta de terra.
– Ajeitando o jardim?
– Sim, estou começando pelo quintal. Eu lembro de como tudo isso era tão verdejante e vivo, queria trazer esse sentimento de alegria de volta. E como eu sei que gosta tanto de um cenário verde queria fazer isso para que se sinta em "casa". Eu sei como foi difícil para você deixar Dallas. Eu só quero o melhor para você querida.
– Mãe eu sei! Não vai bancar a sentimental agora. Estamos aqui e estamos bem, não importa onde estejamos, desde que juntas. — Maryanne ficou com os olhos marejados e sorriu orgulhosa da sua filha.
– Quem estar sendo sentimental agora? — a mãe sorriu ao falar isso abraçando a filha apertado. Mandy pensou em falar sobre a garota que vira hoje de manhã e agora pouco, mas sua mãe precisava de ajuda com o novo jardim e resolveu falar isso em um momento mais adequado.
Mãe e filha estavam com a mão na massa, corrigindo, na terra. Maryanne plantava algumas flores como: copo de leite, astromélia, cravos, delfim, dendron e algumas flores de cerejeira para crescer forte e formosa. Flores alegres para animar aquele ambiente melancólico e cinza que agora viviam. Uma voz máscula e veluda falou atrás delas.
– É a senhora Reid? — Maryanne virou para olhar quem chamara seu nome. Ela cobriu o rosto com uma das mãos devido o sol que iluminava aquele homem para projetar uma sombra no seu campo de visão. Era um homem alto semelhante a Avan, era seu pai, Albert Jackson. Ele estava ali para visitar as novas vizinhas.
– Sim é ela mesmo e você é? — disse Mary ao levantar tirando uma das luvas para cumprimentar o homem.
– Eu sou o pai do Avan, Albert Jackson. Meu filho falou muito sobre vocês e sua chegada. Desculpe-nos por não ter vindo antes. Mas o trabalho nos consome a maior parte do tempo. Holly queria ter vindo aqui comigo, mas ela está dando um plantão e só chegará mais tarde. — aquele homem articulava com a mãe de Mandy.
– Tudo bem, não é preciso se incomodar. Essa é minha filha, Mandy.
– Oi. — disse Mandy ao esticar a mão para cumprimentar aquele homem que deveria caminhar nos seus quarenta e três anos.
– Olá jovenzinha. — Albert sorriu galante assim como o filho. Mandy observou os traços angulares daquele homem e pode ver a quem Avan herdou tamanha beleza ele era uma cópia do filho, porém mais velho. Perguntava-se como deveria ser a mãe do garoto, será que era tão bela assim? — Holly e eu ficaríamos muito felizes se pudessem jantar conosco hoje a noite.
– Jantar? Hum... Parece ser uma boa ideia. — Maryanne sorriu. — O que acha querida?
– Parece ser legal. E há que horas seria esse jantar?
– Às vinte horas está de acordo para vocês? — ele inquiriu para ambas.
– Por mim já está marcado. — gargalhou a mulher com seu próprio comentário.
– Estaremos ansiosos aguardando vocês no jantar. — Albert sorriu e refez o seu caminho.
– Bom, minha mãe sempre me ensinou que se te convidam para alguma coisa, NUNCA chegue de mãos vazias! E estou passando esse mesmo ensinamento para você Mandy Reid. Vamos preparar algo para levarmos para os Jacksons em agradecimentos por sua gentileza. — Maryanne puxou a filha para a cozinha tendo a grande ideia de cozinhar uma torta de maçã. Mary nunca foi um mestre cuca na cozinha, mas tudo que ela fazia tinha a grande sorte de sair bem feito. Ela tinha bastante facilidade de aprender algo novo, diferente de Mandy cujo único talento (se é que poderia se chamar de talento) eram em organização, ler partituras de violão e decorações em jardim. Ambas passaram o resto da tarde assando a famosa torta recheada com maçãs verdes adquiridas no mercado próximo a praça central da cidade.
Capítulo 6 — Memórias -
Enquanto as mulheres Reids trabalhavam firme naquela torta de maçã para o jantar com a família Jackson. Elizabeth estava confinada em seu laboratório, de volta a perseguição incessante com seus documentos perdidos. Aquele local não estava o mais arrumado, pelo contrário, pilhas e mais pilhas de livros estavam sobre a mesa. Ela puxou uma cadeira e sentou-se. Fazia cerca de uma semana que a jovem não dormia, o que deixava sua fisionomia ainda mais pálida do que a dos seus irmãos, litros e litros de café eram consumidos de forma exacerbada pela gótica, Liz bebia café como um alcoólatra dependia de cachaça. A verdade sobre Liz não dormir muito não era o fato dela realmente pensar que dormir era uma perda de tempo, às vezes era sim, mas todos nós precisamos de um bom descanso e ela sabia disso. O fato da morena não querer fechar seus olhos para descansar era porque ao fechar os olhos um misto de momentos ruins e bons invadiam sua mente, martirizando-a. A gótica repousou seus braços na mesa curvando-os como uma espécie de travesseiro para sua cabeça e recostou a mesma ali, fechou seus olhos, adormecendo.
Sua mente a levou para dezessete anos atrás em uma cidadezinha esquecida por Deus no estado do Maine. Elizabeth fora deixada ainda recém nascida na entrada de um orfanato por volta das 23h45. A noite estava muito agitada, as bolsas de nuvens carregadas com fortes trovões e relâmpagos despencavam do céu negro. Os bosques repletos de árvores e planícies montanhosas, ao longo dos pastos e das plantações tomavam conta ao redor daquela casa de madeira alva e telhado cinza. Na frente haviam duas pilastras, após a escadaria onde se encontrava a cesta de palha com Liz dentro que choramingava sem parar. A porta de entrada era de carvalho marfim e aos lados duas janelas de vidros que ocupavam na horizontal das paredes. A mesma possuía três pavimentos, porém sem varandas ou algo extravagante, era um ambiente bucólico.
Quando a porta fora aberta uma mulher idosa e corpulenta trajando um avental bege sujo sobre o vestido cinza, enxugava suas mãos no mesmo para pegar a criança que ali se encontrava. Ela devia ter seus sessenta e cinco anos, suas bochechas rosadas e inchadas contornavam aquele rosto redondo oleoso. Os cabelos grisalhos estavam presos em um coque cheio. As bolsas ao redor dos olhos cor de mel eram protuberantes.
– Nancy veja só o que os anjos nos trouxe. — uma garota de aparência jovial nos seus vinte e cinco anos de idade apareceu atrás da velha corpulenta. Com seus cachos escuros rebeldes presos também em um coque, a jovem era esbelta e mais alta que a velha ao seu lado. Vestindo um vestido floral azul celeste ela sorriu ao ver aquela pequena bonequinha de porcelana nos braços da senhora.
– Tia Josephine quem será que a deixou aqui nesse tempo horrível?– a jovem inquiria com uma voz melodiosa.
– Deve ter sido alguém sem coração minha querida Nancy. Como todos os pequenos que temos aqui nesta casa. Mais uma mãe ou pai sem coração não aceitou as bênçãos que Deus nos da. Vamos entrar, ela pode pegar um resfriado com esse temporal.
As mulheres entraram e aquela casa estava mais quentinha do que aparentava, a calefação era extraordinária. No arco a esquerda ficavam um enorme entorno com mais de dez mesas longas de mogno para as refeições das crianças. Ao final daquele entorno uma entrada oval que dava para cozinha industrial e outras dependências sem importância. Na direita estavam a sala de estar com piano e alguns móveis velhos, escritório e uma biblioteca pequena infantil. No segundo e terceiro andar ficavam os inúmeros quartos das crianças. Nancy e Josephine cuidavam das crianças com a ajuda de outras freiras ali que preparavam a comida. A tapeçaria estava puída, as paredes com papeis decorativos florais estavam arranhados e com alguns rabiscos. A escada logo a frente de madeira também estava um pouco gasta, o local precisava de algumas reformas.
Ambas subiam aquela escada e retratos de uma mulher com seu gatinho egípcio, era visto na maioria deles, uma mulher esgalgada sempre com vestidos pretos com gola até o pescoço e mangas longas fechadas até o pulso estavam nele. Ela tinha um semblante austero e olhos caramelos afiados como facas, era a dona daquele local. Josephine e Nancy trabalhavam ali para se sustentarem e ajudar na administração com aquelas crianças, a senhora Baltimore não suportava crianças, estava nesse ramo pela "ajuda" — monetária — que o Estado lhe fornecia. Gastava o dinheiro das contribuições em viagens ou com seu gato desprovido de pelos, Argos.
Com a chegada de mais uma criança, significaria para a senhora Baltimore mais gastos, ou seja, cem dólares a menos para seu bolso. Nancy e Josephine deram o nome a recém chegada de Elizabeth, pois nos livros que a jovem Nancy adorava ler contava inúmeras história da rainha Elizabeth e de como ela era independente e forte com seu reino. A jovem de cabelos escuros acreditava que a pequena Liz era forte por ter suportado aquele temporal e significaria que quando torna-se adulta seria ainda mais forte, uma soberana. Auxiliaram na educação e crescimento da menina. Antonieta Baltimore odiava com todas as forças a pequena Liz, ela já estava com o número máximo de crianças permitido e com a renda calculada para as crianças e para ela mesma, uma nova inquilina seria seu desequilíbrio econômico. Tentava fazer de tudo para que Nancy e Josephine não dessem muita comida, pois dando mais comida seria a falta para as outras e teria que gastar dinheiro para repor, não deixavam que passassem mais de dois minutos dando banho na garota, conta de água alta seria uma lata de ração a menos para seu bichano.
Mas com o passar de três anos e meio, Josephine chegou a falecer de um ataque cardíaco, enquanto preparava o jantar das crianças e Nancy lia uma história para os meninos. Nancy foi mandada embora por Antonieta que achou a oportunidade perfeita de assumir o controle sobre a nova inquilina indesejada, deixando-a dormir no sótão. A partir daí seus únicos confidentes eram seus amigos imaginários. Quando fazia refeições com os "colegas" eles a maltratavam alegando que ela era louca, esquisita e adoradora do diabo. Liz possuía uma caixinha de música que ganhara da jovem Nancy antes de ir embora e todas as manhãs ouvia aquela sonância "My Fair Lady" observando os garotos brincarem e correrem alegres atrás de uma bola marrom gasta e remendada.
Rou to ichi de tsukure, tsukure, tsukure, Rou to ichi de tsukure, My Fair Lady. Tetsu to hagane de tsukure, tuskure, tukure. Tetsu to hagane de tuskure, My Fair Lady. Kin to Gin de tsukure, tsukure, tsukure. Kin to Gin de tsukure My Fair Lady. Tetsu to hagane já magaru, magaru, magaru. Tetsu to hagane ja magaru, My Fair Lady. ¹
A jovem, Liz, cantava baixo para si por trás daquela janela de vidro onde ficava o seu "quarto".
– Criança do demônio que palavras absurdas são estas? o canto do diabo por acaso?– Antonieta segurou com suas mãos magras e enrugadas o braço da garota, abruptamente.
– Vou ensinar-lhe uma lição!– retirou o cinto que descansava em sua cintura magra e começou a bater diversas vezes na garota. Aquelas lições eram dadas de vez em quando (frequentemente) depois que as crianças dormiam. Diante de qualquer situação que Liz fizesse, ao sentar-se curvada para comer: uma cintada nas costas, ao ler erroneamente: duas tapas da boca, esfregar o chão sem poli-lo o suficiente quatro palmatórias nas mãos e teria que repetir o serviço até Antonieta aprovar. Cantar músicas que para Antonieta faziam referencias ao diabo vinte cintadas na bunda e teria que rezar cinquenta Ave Marias e trezentos pai nosso.
Notas: ¹- tradução:
Faça como o Mestre deseja,
Faça, faça
Faça como o Mestre deseja,
Minha bela dama.
Faça-a de aço,
Faça-a, faça-a
Faça-a de aço,
Minha bela dama.
Use ouro e prata para fazê-la,
Fazê-la, fazê-la
Use ouro e prata para fazê-la,
Minha bela dama.
Faça-a se transformar,
Transformar, transformar
Faça-a se transformar,
Minha bela dama
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