Flores Secas
1 Capítulo 1 - Mudanças -
Notas iniciais
"Odeio as almas estreitas, sem bálsamo e sem veneno, feitas sem nada de bondade e sem nada de maldade."
–Friedrich Nietzsche-
Prefácio
Na terra dos sonhos tudo pode ser possível, não existe a palavra inalcançável. Na verdade, na terra dos sonhos não existe limites! Basta fechar os olhos e sonhar. Era isso que Mandy queria fazer. Fechar os olhos e esquecer todo esse tormento que a assolava. De um lado um espírito raivoso, cujo desejo — ou deveria chamar de obsessão?- Era que a pobre garota fosse embora daquela casa! Por outro lado Avan Jackson com seus lábios sedutores sua voz aveludada e hipnótica a tiravam daquele tormento, como o elixir que tanto ansiava. Mas ainda havia a gótica Elizabeth West... Seus olhos de tonalidade azul-esverdeada fuzilavam sem piedade o corpo de Mandy. Elizabeth despertava um misto de curiosidade e desejo proibido. Olhar a gótica de cabelo ônix lhe dava um frio na barriga não sabia se de ansiedade ou medo do que a garota poderia fazer. Mas, que culpa ela tinha de estar com uma faca de dois gumes nas mãos? Um mistério sondava aquela cidade, disso ela tinha certeza! Se o espírito poderia mata-la? ela temia a ideia só de pensar. O que poderia salva-la dessa encruzilhada? Será que esse martírio não teria fim?
Capítulo 1 — Mudanças -
E mais uma vez o sol se levantava para as montanhas rochosas do interior dos Estados Unidos, iluminando a longa estrada desértica ocupada por um antigo veículo cross lander musgo em alta velocidade. A vegetação seca e o vento forte faziam as plantações de salsola sobrevoar a estrada calma. Maryanne uma americana que caminhava nos seus trinta e nove anos dirigia o veículo fadigada. As olheiras e as bolsas ao redor de seus olhos cor de safira denunciavam que a noite anterior fora insone. Ao lado, sua filha Mandy de dezessete anos dormia no mais sono solto ao banco do passageiro.
– Onde está o café? — Maryanne inclinou o corpo para o lado direito esticando a mão à procura do copo de 300 ml de café que ela e Mandy compraram na noite anterior. — Mandy? Mandy? Querida acorde, eu preciso de mais café e não consigo encontrar.
Mandy espreguiçou o corpo abrindo os olhos de mesma tonalidade que os da sua mãe. Ouviu o barulho do vento passando pela janela do carro, parecia assobiar para ela, chamando-a. Ela passou a mão pelas madeixas que desciam retas até os ombros de tonalidade escura tentando amenizar a forma desalinhada. Inclinou-se para o porta luvas um pouco arranhado, abrindo-o. O copo de café de Maryanne encontrava-se ao fundo daquele compartimento retangular.
– Aqui mãe. — Mandy deu o copo para sua mãe que bebeu logo em seguida e percebeu que o rosto pálido e magro de Maryanne estava abatido e cansado mais do que de costume. — Dirigiu a noite toda de novo. Não podemos parar?
– Querida estamos a menos de vinte quilômetros, parar agora seria um erro drástico.
Mandy suspirou em descontentamento. Haviam ocorrido muitas coisas nos últimos dias. Com o divórcio dos seus pais, ela e a mãe foram obrigadas a mudarem de lar, precisamente de estado. Teriam que começar uma vida nova em uma casa nova. Seu pai o Policial civil Oliver Scott estava tendo um caso com sua parceira de trabalho há mais de dois anos. Maryanne descobriu tudo quando o melhor amigo da família, Andrew contou toda a história. Como Oliver possuía um casal de filhos do seu primeiro casamento, a casa em que Mary e Mandy moravam estavam no nome dos dois herdeiros, as mulheres Reids foram "expulsas" do seu próprio lar. A avó de Maryanne possuía uma velha casa no interior dos Estados Unidos em uma pequena cidade do Estado de Oklahoma.
– Ainda falta vinte quilômetros? Eu quero morrer! — disse Mandy se queixando, quando um cervo marrom correu entrando na autoestrada invadindo a frente do carro das Reids. — MÃE CUIDADO! — ela vociferou virando bruscamente o volante para desviar do animal que invadira a frente do veículo.
Maryanne freou abruptamente, fazendo vascolejar o automóvel.
– Querida você está bem? — Mary olhou para sua filha que havia batido a cabeça no painel do carro.
– Estou, foi só um arranhão. — Mandy levou a mão até o ferimento e olhou para os seus dedos finos e brancos aquele líquido carmim.
– Mandy você está sangrando! — Maryanne inclinou-se para tirar do porta-luvas uma caixa retangular branca de primeiros socorros. Ela possuía o símbolo de uma cruz vermelha, havia um cadeado de prata lacrando o objeto. A mãe de Mandy sentiu o peso da caixa, que não era tão maior que um livro. Abriu o objeto retirando algumas gases e algodão. Limpou o ferimento e fez um curativo na testa da sua filha. — Pronto agora irá ficar tudo bem.
Alguns momentos depois retomaram a estrada a sua frente entrando em um atalho. O cenário logo mudou de montanhas rochosas e solo árido para uma floresta de galhos mortos, folhas secas que cobriam todo o solo. O ambiente antes vivo tornou-se um pouco monocromático. Quanto mais aprofundavam naquela mata mais uma casa emadeirada podia ser vista. Era tudo tão cinza e mórbido, um tanto velho e desgastado. Mas o tempo ainda fora generoso poupando a delicadeza e singularidade do local. A estrada era sinuosa e acompanhada por plantações de musgo. O céu estava cinza, com muitas nuvens e o sol não mais brilhava, o clima hipocondríaco era como boas-vindas. Mandy estava melancólica por ter deixado Dallas. Dando adeus ao clima úmido com invernos relativamente amenos e verões quentes para um clima divergente. Ao redor do terreno haviam algumas casas dos vizinhos. Assim que os portões se abriram, Mandy entendeu que ali seria a sua nova vida e não teria volta.
A casa da sua bisavó era um tanto bucólica a sua maneira. Os portões de ferro negro eram sustentados por muros de pedra, havia jardins com várias flores secas dos dois lados do caminho que levavam a casa. A casa se erguia despretensioso diante delas. Suas paredes eram revestidas com carvalho fulvo de tonalidade clara, o telhado de telha verde. Na frente haviam oito alicerces sustentando o telhado da varanda, após a escadaria. A porta de entrada era dupla, revestida de madeira, e de cada lado mais duas janelas de vidro que ocupavam toda a vertical da parede. No segundo andar havia um pequeno terraço sobre os dois alicerces na vertical, mais duas janelas de cada lado, seguindo o padrão do primeiro pavimento.
Havia muitos troncos de árvores ao redor do lugar, era silencioso e um pouco hostil. Dava a impressão de serem as únicas pessoas habitando aquele pequeno espaço de terra.
– Como a vovó pode morar isolada aqui por tantos anos? — inquiriu Mandy ao descer do carro.
– Bom a minha mãe dizia que a mãe dela gostava muito da natureza. Antes isso tudo aqui era bem cuidado. Eu lembro de quando tinha a sua idade e minha mãe me trazia aqui para as férias de verão. Eu considerava o melhor lugar do mundo. — Maryanne retirava do porta malas as bagagens. — Por que não entra e da uma olhada pelo lugar? Talvez você mude essa cara de enjoada. — sorriu sugestiva.
– Ah, tudo bem.
Quando as portas da nova casa da família Reid se abriram, Mandy sentiu um arrepio percorrer suas costas, mas ignorou. Entrou observando aquele entorno vasto. O hall de entrada era ovalado com tapume de papel de parede com padrões florais. Do teto pendia um lustre não muito luxuoso, mas emanava bastante conforto e aconchego. O chão era forrado com tapeçarias recatadas, Mais a frente ficava a grande escada com corrimão de madeira, forrada com tapete também floral. Do lado esquerdo se via um arco que levava a sala de estar, escritório, alguns quartos e dependências menos importantes. Do lado direito ficava a sala de jantar, a cozinha e lavanderia. A cozinha era simples com fogão e geladeiras em aço escovado, bancadas de mármore, vários armários e uma dispensa pequena.
– Uau essa casa é enorme! — disse Mandy ao observar toda a casa, sorrindo encantada.
– Pelo visto alguém aqui ficou surpresa com a casa, não foi? — Maryanne entrou logo atrás com algumas bagagens nas mãos largando na tapeçaria. — Está do jeitinho que eu me lembro. — ela colocou as mãos em cada lado da cintura vasculhando com os olhos os cômodos. Toda a mobília estava ali, coberta por lençóis brancos. De supetão uma brisa gélida fechou com força a porta atrás de si assustando ambas.
– Que vento forte hein? Querida vá ao carro trazer o resto das malas, eu estarei levando essas aqui lá pra cima.
– Grr... — reclamou Mandy.
A adolescente dirigiu-se a saída seguindo para o carro em que chegara, desprendendo as amarras do teto daquele veículo ao qual prendiam algumas malas.
– Precisa de ajuda? — Mandy assustou-se ao ouvir aquela voz aveludada. Ela virou-se e deu de cara com um lindo garoto alto, ela ousaria dizer que ele possuía seus 1,80 de altura. Ele sorria como um galã de novela, o cabelo louro claro estava cortado de forma desfiada e os olhos azuis cintilavam em sua direção. Ela ficou paralisada sorrindo de forma desajeitada.
– Ah... Oi. — ela disse tendo as maçãs do rosto levemente ruborizadas.
– Você vai querer? — ele falou novamente.
– Querer o que?
– Ajuda para tirar as malas. — ele continuou com aquele sorriso galanteador.
– Ah, sim, as malas. É, eu aceito à ajuda.
– Eu sou Avan Jackson, moro ali na casa ao lado com meus pais. — ele disse retirando as bagagens com Mandy.
– Eu sou Mandy, Mandy Reid. — balbuciou ao entrar na varanda da casa com o restante das bagagens.
– É um belo nome, Mandy. — ele sorriu ainda mais.
Fale com o autor