Lisa Flores não fazia meu tipo, ela era... Estranha. Era o tipo de garota com quem eu e meus amigos sempre fazíamos piadas, tinha os cabelos pintados de violeta e usava óculos pequenos e redondos, como o Harry Potter, o nariz era arrebitado demais, as bochechas muito rosadas e era excepcionalmente inteligente, como se tudo nela fosse irritante e excessivo. E era.

Talvez a coisa mais irritante nela fosse o constante estado de “não estresse”, não importava o quanto a importunassem: ela nunca parecia irritada ou agressiva. Ela sorria como se estivesse tendo uma conversa muito agradável, às vezes fazia observações espertas que sempre me deixavam constrangido por não ter pensado naquilo antes, e então saia andando, com sua mochila em um ombro e um livro na mão oposta, dizendo que estava ocupada.

Pietro e Arthur, meus amigos, viviam irritados com ela. Ela nunca havia feito nada contra eles, ou contra mim, mas a existência dela parecia naturalmente incomoda, ou, o mais provável, havia algo de errado com nos três. Era como se ela zombasse de todos, ainda que não estivesse fazendo isso, quando terminava uma prova em poucos minutos e ficava sentada balançando os pés, lendo um de seus enormes livros, ou rabiscando uma folha, ou desenhando mal em seus braços.

Naquela manhã de terça, pelo menos eu acho que era terça, ela estava diferente do modo como sempre aparecia. Seus olhos estavam inchados de sono e usava um óculos quadrado prata, ao invés de sua típica armação redonda, vestia o uniforme azul e vermelho como sempre, mas meias coloridas apareciam para fora de seu par de tênis brancos, os dedos finos estavam enrolados em meio aos fios violeta, tentando desembaraçá-los, aparentemente sem sucesso.

−Cansou de ser o Harry Potter? –Pietro perguntou alto, com seu tom áspero, atraindo a atenção de Lisa.

−Eu gosto do Harry. –respondeu, o sorriso mole e sonolento em seu rosto indicava que ela não estava em seu estado normal, o sono a deixando parecida com uma bêbada.

Pietro e Arthur arquearam as sobrancelhas quase ao mesmo tempo, me questionei mentalmente se eu parecia um idiota do mesmo modo que eles, mas não era como se realmente fizesse diferença. Ela se jogou em uma cadeira no lado oposto da sala, a primeira da fileira, logo ao lado de um nerd e na frente de uma amiga dela, sorriu para os dois como se tivesse algo muito bom para contar, e então, parei de prestar atenção nela.

Arthur e Pietro implicavam um com o outro, sentados na mesma cadeira, disputando uma posição mais confortável. Aparentemente, eles tinham uma grande dificuldade de se sentar em outra cadeira, e preferiam ficar os dois naquela. A aula correu e eu não pude deixar de perceber que Lisa não estava normal, ela não insistia em responder a todas as perguntas e cochichava com a menina de trás, a professora até mesmo brigou com ela.

—Por que está idiota hoje? Não é comum para uma geniazinha. —o sinal tocou e pude importuná-la, era como uma espécie de droga viciante, mas como sempre, ela não se importou.

—Sabe o que eu ganhei ontem? —ela me perguntou animada, se sacudia nas pontas dos pés como se soubesse da notícia mais incrível do mundo.

—Não. —respondi um pouco chocado.

—Eu ganhei flores. —me contou, o sorriso dela poderia ter rasgado aquelas bochechas coradas, e então ela simplesmente catou suas coisas e foi embora, como sempre fazia.

Naquela hora eu percebi que talvez eu devesse ter dado flores para Lisa Flores.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!