Flores Para Alemanha

11 Flor de Higanbana


Notas iniciais
Olá!^^

Postando no sábado por causa de uns probleminhas pessoais, mas não se preocupem, na semana que vem será sexta a noite como é do costume ^^

P.S.: O ano que esse capítulo se passa é 1943*.

E uma das flores símbolos do Japão, significa dor e saudade, em outros contextos a dor da saudade da pessoa amada, por isso é muito comum vê-la em cemitérios.

Com isso, também dizem que a flor representa dois amantes apaixonados que devido às circunstâncias precisam viver separados. Também significa a dor da perda e da saudade, como também pode representar a morte, mas não sentido pejorativo da palavra e sim no sentido de transição para uma nova vida. Enfim, esta flor tem inúmeros significados e uma grande simbologia na religião budista.


Desde que havia chegado ao Brasil, Lovino tinha aprendido muitas coisas, como aquele país tinha tanta diferença climática e como a sua política estava passando por uma fase difícil. O italiano não entendia muito bem sobre política, mas podia perceber muito bem o que estava acontecendo ali, a ditadura de Getúlio Vargas era muito parecida com o fascismo italiano* e isso o deixava nervoso; afinal de contas aquele povo se mantinha neutro em toda a guerra, os Estados Unidos já tinham tomado um partido*, porém, de todos os países americanos, apenas o Brasil ainda estava naquele impasse. Talvez seja porque estava enfrentando seus próprios problemas internos para se preocupar com o resto do mundo ou talvez eles não quisessem mesmo se meter naquela briga.

Lovino não culpava os brasileiros, achava até certo a força que faziam para se manter longe da guerra e se não fosse pela política dura que estavam vivendo poderia jurar que aquele povo não ia perceber a guerra. Mas o que mais o surpreendia era o fato que as pessoas abrigavam famílias refugiadas da guerra.

Na casa onde se encontrava tinha os asiáticos — que havia estado no navio com eles -, tinha uma família judia e até mesmo um grupo alemão! Podia parecer idiotice, mas todos sentavam e comiam juntos após fazerem uma oração. Era um pouco irônico vendo a pequena menina alemã receber um biscoito que o judeu estava comendo, mas era verdade o que via.

A casa era grande e espaçosa; quem cuidava dela era Maria, uma jovem moça irmã de Luciano, ela fazia comida e ensinava aos outros suas línguas. Lovino as vezes lembrava de sua irmã ao ver Maria, sabia que ela era uma boa moça e por isso tentava ajudar, então ele vivia tentando fazer comida e as vezes arrumar a casa.

- Não precisam limpar mais nada — A voz da moça ecoava pela sala enquanto olhava para o chinês e o italiano.

- Mas é preciso aru — Yao estava preocupado com ela, não queria ficar como um inútil para as pessoas que haviam cuidado dele.

- Não, já está escurecendo e vocês precisam comer e além disso, logo os meninos vão chegar do trabalho — Ela mantinha seu ar materno, as vezes lembrava mesmo uma mãe cuidando dos filhos.

Lovino pensou em Antônio, era estranho perceber que o seu espanhol havia arrumado um emprego logo que havia chegado no país. O espanhol trabalhava numa plantação e depois vendiam a colheita para os outros locais, era um pouco complicado explicar o que era aquele dever todo, mas Lovino achava admirável ver o seu espanhol suado do trabalho e com aquele corpo maravilhoso indo tomar banho a noite.

Yao e Lovino a acompanharam até a cozinha, era impressionante a rica culinária que existia no Brasil, tinha várias especiarias desde temperos indianos a temperos orientais. Enquanto cozinhavam, Maria preparava alguma sobremesa para comerem depois, o que era uma ótima ideia.

- Quando eles iram partir de novo? — Não foi uma pergunta proposital, Lovino estava apenas curioso e falou sem pensar.

A resposta demorou um pouco para chegar, ela ficou pensando em como poderia responder.

- Não sei exatamente como posso te responder, — Novamente houve hesitação. — mas acredito que logo, assim que vocês estiverem acomodados eles iram buscar mais.

Ela tentava sorrir, porém, era visível sua preocupação com os amigos quando eles estavam no barco. Não gostava de se separar deles, mas era para o bem de muitos, então ela tinha que guarda seu egoísmo para pode vê-los partir.

Depois daquelas palavras Lovino e Yao não disseram nada em relação ao navio e a comida, não queriam cometer o deslize de magoá-la.

xxx

A vida de Roderich estava acabada e Feliciano sabia bem disso; desde que havia recebido a carta de Ludwig sobre o namorado ter desaparecido na guerra, não queira fazer mais nada. Ficava deitado na cama, as vezes chorando ou apenas querendo dormir, em seu peito parecia ter um buraco que não permitia mais ele sorrir.

Ficava pensando se Gilbert já estava morto ou se ele estava sendo torturado, mas aqueles pensamentos aumentavam ainda mais a sua dor; ao imaginar o namorado albino machucado, ele sempre acabava chorando e as vezes Feliciano tinha que ficar ao seu lado da cama cantando até ele dormir. E agora para piorar havia sido chamado para servir o exército austríaco com suas habilidades médicas.

Como não estava em condições alegou que foi pego por uma doença grave e tinha medo de piorar a situação dos feridos e que só ia servir quando estivesse se sentindo melhor. Algo que Feliciano aprovou.

Deitado em sua cama, Roderich lembrava mais uma vez do rosto do outro e, para a sua infelicidade percebeu que já estava apagando como era a face do albino, o que não ajudou em nada. Naquele momento ia entrando em seu quarto Feliciano, que em todas as manhãs trazia comida para ele.

- Ve~ não fica assim não Roderich. — O italiano estava ficando preocupado, não gostava de ver o amigo daquela forma.

- Desculpa, eu não quero comer. — Disse sem olhar para o menor.

O italiano olhou em volta do quarto procurando a bandeja que havia trazido para o outro jantar na noite seguinte, e lá a encontrou, no mesmo local e da mesma forma que havia deixado, há quanto tempo estavam naquilo? Há quanto tempo Roderich se recusava a comer?

Feliciano sabia que fazia alguns meses, então isso o preocupava ainda mais; colocando a bandeja em cima da cômoda, tentou animá-lo ao se sentar na cama.

- Sabe, você precisa sair de casa. — A primeira frase despertou a curiosidade do austríaco. — Você pode comprar comida para os gatos, faz um tempo que não somos bombardeados*, então você pode sair sem problemas.

O castanho se sentou na cama e encarou o italiano, aquele menino realmente não sabia o significado da palavra "pessimismo" ou como eram os seus aderentes, e aquilo o animou um pouco mais; ter alguém que precisava dele como aqueles gatos, podia ajudá-lo a esquecer seu sofrimento por um momento.

- Tudo bem, eu irei comprar comida para os gatos. — Disse concordando com a ideia do menor.

xxx

Fernanda olhava para o berço, cujo dormia tranquilamente seu filho, nunca imaginou que um dia ela estaria casada e naquela situação, lembrava de quando era menor e sonhava em ser uma dona de casa que sorria para seu marido quando ele chegasse do trabalho no campo, mas então ela viajou para Alemanha e tudo mudou.

Ela não estava reclamando da vida que levava agora, mas era surpreendente como sua vida tinha mudado em tão pouco tempo. Agora separada dos irmãos e com um filho para cuidar, ela se perguntava até quando aquela guerra duraria, tinha medo de quando voltasse a vê-los recebesse notícias ruins.

Sentada na poltrona do lindo e luxuoso quarto de bebê, ela estava perdida em meio a seus pensamentos quando foi abraçada pelo marido. Darem gostava tanto dela que não podia deixar de demonstrar carinho, ele era um homem carinhoso e bastante amável, mesmo sendo duro e frio as vezes, ele era um ótimo pai e marido.

- Bom dia querido — Ela falou sorrindo, já tinha tido tempo o suficiente para se acostumar a chamá-lo de "querido".

- Desculpe-me por sair tão rápido da mesa de café, era uma ligação importante. — Ele tentava se desculpar pelo ocorrido mais cedo.

- Tudo bem, não quero atrapalhar o seu trabalho. — Ela sorriu e fez um leve carinho em seu rosto.

- Você não me atrapalha querida, — Ele a beijou no rosto. — foi uma ligação do Ludwig. — Sua voz ficou séria.

- O que ele queria? — Ela o encarou preocupada, havia ficado nervosa apenas com a menção do nome do outro.

- Ele conseguiu se comunicar com Roderich e Feliciano, — Viu sua esposa ficar mais aliviada. — e Gilbert está desaparecido.

Aquela última frase foi como um balde de água fria nela, ficava feliz por seu irmão e o austríaco, entretanto, ficou nervosa com o desaparecimento de Gilbert. Havia passado bastante tempo servindo a casa do general e gostava muito das visitas do albino, ele era tão alegre que por onde passava deixava uma marca na qual a pessoa não conseguia esquecer.

Darem a abraçou para tentar acalmá-la, não queria vê-la triste e deprimida. Fazendo um leve carinho em seu corpo para deixa ela mais tranquila, ele pensava em tudo que tinha escutado no telefonema. Afinal não podia falar para ela que Ludwig estava frequentando a Toca do Lobo.

xxx

Gilbert Beillschmidt estava tendo um dia chato, tinham passado horas andando entre os soldados alemães e estava ficando cansado de tanto andar, o lado bom daquela situação era que ele podia se informar sobre o andamento da guerra.

Uma hora ou outra era possível escutar um soldado reclamando das condições que estavam vivendo, mas sempre que um reclamava os outros brigavam com este, o que fazia dos revoltados guardarem seus desejos.

No entanto, quando ouviu que a Áustria estava praticamente toda a mercê de Hitler, o albino ficou em choque, começou a imaginar o que o namorado podia estar passando em seu país e quando se lembrou de Feliciano ficou ainda mais apavorado. Tinha que ir para a Áustria custasse o que custasse!

- O que disse, filho? — Gerson encarou Gilbert por um breve momento pedindo aos céus que estivesse escutado errado.

- Eu vou deixar o bando, pai, eu vou para a Áustria. — Seu olhar demonstrava determinação, sua voz saía firme e seus punhos estavam cerrados.

- Filho, é arriscado fazer isso, fique aqui na Alemanha comigo e seus irmãos e tudo ficará bem... — O loiro mais velho não conseguiu terminar a frase, foi cortado pelo mais novo de forma rápida e fria.

- Mas eu tenho que ver o Roderich e o Feliciano! E se eles estiverem feridos? Ou talvez mortos? — Eles podiam estar afastados do acampamento, mas qualquer um poderia perceber o desespero nas palavras do menor.

O mais velho parou de falar e se sentou numa pedra, seu filho mais novo estava completamente desesperado por notícias do namorado e ele não conseguia acalmá-lo. O que fazia o loiro se sentir péssimo, afinal era dever de um pai manter seus filhos tranquilos e não a beira de um ataque nervoso.

Gilbert andava de um lado para o outro pensando em como seu amado devia está sofrendo, era enlouquecedor para ele também.

- Filho, se vai mesmo para a Áustria, tome cuidado, lá está entregue a Hitler, então eles não hesitaram em te matar caso for pego com seu amante. — Aquelas palavras surpreenderam até mesmo o próprio Gerson.

O albino o olhou surpreso por um momento, ambos estavam surpresos pelo que tinham acabado de ouvir; e quando realmente perceberam o que tinha acontecido ali o clima ficou mais leve, Gilbert sorriu para o pai em agradecimento.

Não precisava falar mais nada, deu as costas ao loiro mais velho e, juntando suas coisas, começou a andar rumo a estrada, com a intenção de ir para a estação de trem. Tinha dinheiro o suficiente guardado para uma viajem até a Áustria, só pedia a Deus que seu adorável Roderich estivesse bem quando lá chegasse.

Gerson ainda ficou parado olhando o filho partir, sentia um pouco culpado por tudo e tinha medo de perder Gilbert mais uma vez, mas não podia negar a felicidade do menor pelo seu simples capricho. Olhou para o céu e sorriu, uma antiga lembrança veio em sua mente.

- Ele é igualzinho a você. – Poderia parecer loucura conversar com o nada, contudo, aquelas palavras foram para a bela albina que há muito tempo não existia mais na Terra.

Um sorriso bobo ficou em seu rosto, quem passasse por ali pensaria que ele era um velho doido ou até um soldado que havia levado muitas balas, porém, para ele pouco importava, sentia saudades de sua amada e querida esposa, como sentia saudades de ver a família inteiramente reunida para cear no Natal; no entanto, era bastante visível que aquilo nunca iria acontecer novamente. Olhou para o relógio de pulso e foi para perto de seus companheiros, logo estaria a hora de sua ronda para proteger acampamento e ele não gostava de se atrasar para compromissos.

Xxx

Feliciano Vargas tinha seus segredos, sempre que estava sozinho em casa ele lia a carta que o general mandou para ele; Ludwig havia mandando duas cartas, uma avisando sobre o sumiço de Gilbert, seu irmão caçula e namorado de Roderich, e outra para ele, com informações de rotas seguras caso precisassem fugir rapidamente; havia dinheiro junto das duas cartas, bastante dinheiro. O italiano tinha certeza que todo aquele dinheiro que tinha em suas mãos dava para sobreviverem por alguns meses e se fossem espertos poderiam até conseguir sobreviver por mais tempo ainda, mesmo não sabendo o quanto aquela guerra maluca ia durar.

Olhando para o colar com o sinal da cruz que havia recebido do alemão em meio as cartas, pensava em Luddy, sentia que aquele tormento nunca mais acabaria, ele queria ver o alemão, queria sentir o gosto de seus lábios de novo e queria abraçá-lo, dizer “Eu te amo”, algo que não conseguiu dizer quando o trem partiu.

Sempre que pensava naquilo seu coração doía ainda mais, se lembrava do olhar triste e preocupado do loiro e se lembrava daquelas palavras, a voz do loiro era tão clara em sua mente que Feliciano podia ouvir aquilo como se fosse sussurrado em seu ouvido várias e várias vezes. Em seus sonhos podia ver o alemão sorrindo e eles juntos no jardim, o loiro o dizia que o amava e ele sorria, e então se beijavam. O interessante que em seus sonhos, ambos estavam num belo jardim de sua antiga casa, especificamente em sua amada Itália.

- Vocês querem comida? – Olhou para o gato preto e o gato castanho claro com machas no corpo. — Vamos, eu dou comida a vocês. – Pegou o gato preto no colo, sentia tanta saudades de seu alemão que mal podia ficar parado num local. – O Luddy é legal, é bonito também, vocês vão gostar dele. – Disse para os gatos.

Xxx

O austríaco andava conturbado pelas ruas de sua cidade, como havia prometido a Feliciano, nos dias em que sua dor fosse grande ele ia sair de casa; então tinha ido dar uma volta pela cidade. Podia parecer absurdo, mas era a mais pura verdade, ele fazia caminhadas quando sentia vontade de se matar, era uma ótima forma de enfrentar a depressão que estava se instalando nele.

Seus dias se resumiam a comer, dormir e passear; graças ao tempo já estava conseguindo superar o sumiço do namorado e pensar coisas boas, afinal Gilbert era forte e saberia se cuidar, não ia ser uma guerrinha de uma bicha mal comida que ia fazê-lo morrer ou se ferir gravemente, então ele tinha que confiar e acreditar que o albino voltaria para a casa são e salvo.

Enquanto andava pela rua se surpreendeu com a quantidade de soldados que se via na rua, sentiu medo e ficou pensando se era realmente seguro ter saído naquele dia sozinho. Mas antes de cruzar a esquina foi pego e arrastado até um beco. Tentou lutar, mas não era forte o suficiente para se defender, quando foi prensado contra a parede e conseguiu encarar seu “agressor”.

- Sentiu minha falta, jovem mestre? – Os belos e marcantes olhos vermelhos podiam ser visto embaixo daquele capuz, a voz inconfundível trouxe Roderich para a realidade.

- Gil?

Notas finais
* O ano de 1943 faz parte da segunda fase da guerra. Essa fase é marcada pela contenção das tropas do eixo e o início da contra-ofensiva aliada. Os japoneses sofreram pesadas baixas nas batalhas de Midway e Guardalcanal; os alemães perderam importantes posições no norte da África; o bombardeio nazista sobre a Inglaterra não teve os resultados esperados; e os russos resistiram heroicamente ao cerco à cidade de Stalingrado.

Pouca coisa hoje de novo, desculpas ai quem esperava um capítulo grande e bom u.ú

Beijos e espero comentários ~