Flores Mortas

1 Flores Mortas (Capítulo Único)


Ela era uma menina loira e baixa, vivia numa cidade grande, cinzenta e em algum nível, morta. É de praxe dar-se um nome aos protagonistas, chamemos-na de Alice, Alice era uma menina real, uma menina relativamente comum. Ela era autista e enfrentava um forte quadro de depressão, estando muitas vezes entre a vida e a morte, não era, no entanto, difícil conviver com ela. A sua família a amava e ela sabia disso, era quieta e tranquila, raramente falava ou discutia... Ou sequer saía de casa. Sua vida social era de fato quase inexistente, Alice tinha apenas dois amigos com quem conversava eventualmente, mas nos últimos dias, não.

Alice tinha um gato persa grande e gordo que gostava de roçar nas suas pernas e braços quando os alcançava, ele não tinha nome, ninguém pensara em um para lhe dar por muito tempo, então ficou por isso mesmo, o gato se chamava "gato" e nada mais, ela estava sentada no para-peito da janela do seu quarto enquanto Gato, o seu gato, roçava sua cabeça carinhosamente sobre os seus finos braços. Alice era uma menina esquelética com o rosto puxado para dentro, alguns chegariam a compará-la a uma caveira, mas tantos já a haviam comparado a tantas coisas... As pessoas não se davam bem com Alice, talvez simplesmente não gostassem dela, mas ela também não gostava de nenhum deles. As violências pesadíssimas nunca pararam nos apelidos, piadas ou perseguições, Alice já fora estuprada coletivamente e teve ovos entre outros objetos e alimentos podres jogados em si, recentemente haviam cortado a metade do seu cabelo sem que ela percebesse no colégio... Não fazia muita diferença para ela, o estresse do cotidiano, a falta de energia e a sua má alimentação estavam começando a fazer o seu cabelo cair aos montes... Ela olhou para o lado, com a mão na nuca e tirou mais um tufo que soltara do seu cabelo.

Naquele dia, ela havia tomado café da manhã, se é que pode-se chamar aquilo de refeição, ela comeu meio pão e tomou uma xícara de café preto, mesmo que o médico a tivesse recomendado que cortasse o café, pois o seu estômago estava muito sensível e cheio de doenças e feridas, assim como o seu coração e a sua mente. Mas já era uma da madrugada e Alice não comera mais nada... Olhou pela janela os carros na rua embaixo do seu quarto, inexpressiva... O seu apartamento ficava no vigésimo quinto andar, ela se afastou do vidro e encarou ao longe uma rosa num jarro do seu quarto. Seu pai trazia rosas do jardim quando elas desabrochavam, como sabia que Alice gostava de flores, deixava-as sempre num jarro que a menina mantinha na escrivaninha... Mas com o passar do tempo todas as flores morrem um dia, e agora, aquela rosa que um dia fora branca, estava morta com as suas pétalas caducas e jogadas ao redor do jarro, amareladas e amarronzadas... Ainda havia beleza na morte daquelas flores.

Alice tinha a breve sensação de que ainda havia beleza lá fora, mas algo a fazia continuar recuando. Sempre que saía de casa ela buscava meios de acabar com a sua vida onde quer que estivesse, e quando os encontrava, simplesmente desistia na hora H, e dentro de casa, sozinha ou na companhia dos seus amados familiares, ela tinha a sensação de estar constantemente à beira de um colapso, estava sempre pensando em se isolar e cometer suicídio, passava horas olhando pela janela até que algo a convencia a adiar um pouco mais o seu fim... Haviam semanas que Alice não pronunciava uma palavra sequer, era chegado aquele momento onde ela esquecia como sons se tornavam frases ou palavras, ela estava completamente muda e não sabia quando voltaria a verbalizar qualquer coisa, não havia nada a ser dito mesmo, não havia nada que ela quisesse compartilhar, e de qualquer forma, não havia ninguém para ouvi-la... Para Alice, era muito difícil ver qualquer beleza em qualquer lugar, era como se em tudo estivesse derramada tristeza e confusão, para Alice, quase tudo era morte... Mesmo que houvesse beleza em algumas mortes.

Tudo parecia oprimir Alice, ela caminhou até o seu banheiro, abrindo uma pequena caixa de músicas e, enquanto as notas atingiam melancólicas os seus ouvidos, ela tomava de uma das frestas da mesma, uma lâmina de prata, atacando o próprio braço com cada vez mais força, ela não sentia mais dor ou prazer, e não importava quantas vezes ou o quão fundo ela cortasse, o sangue escorria e ela mal sentia-se rasgar a pele... Se mutilar, se masturbar, nada a fazia ter qualquer sensação de dor ou prazer. Nada vindo de fora aliviaria a dor de dentro, nada vindo de fora apagaria a angústia no seu peito, a única coisa que sentia era o seu coração batendo ainda que letárgico e desencorajado, o seu estômago se autodestruindo, essa era a única dor que sentia, mas certamente não era uma dor que aliviaria toda a angústia que apertava o seu lento coração. Alice não sentia frio nem calor, mas evitava a luz do sol, pois esta era outra das coisas que lhe pareciam dolorosamente opressivas.

Há semanas ela mal comia, apenas forrava o estômago quando a fome se tornava insuportável, e mesmo assim, depois de comer ficava com a constante sensação de que iria vomitar tudo a qualquer momento, suas roupas não lhe serviam mais, Alice estava mais magra do que muitos cadáveres. Ela olhou para o seu fino braço ensanguentado, as gotas escorriam rapidamente ao mesmo tempo, as várias aberturas em forma pontiaguda derramavam mais e mais do rubro líquido que escorria até os seus finos dedos com unhas quebradiças e pingavam no chão, sujando o tapete esverdeado com pequenas e delicadas gotas vermelhas, o chão branco era também atingido por manchas de sangue rubras, que pingava e pingava entre as frestas dos azulejos.

Uma moça tocou o seu ombro, uma moça alta, pálida, com unhas quase tão longas quanto os próprios dedos, ela não tinha cabelos e usava na cabeça um véu preto de tecido fino e transparente, tinha grandes olheiras sob pequenos olhos, usava roupas pretas e cheias de plumas ainda mais escuras, olhou a menina apiedada e disse:

— Eu quero aliviar a sua dor — Alice olhou para a mulher, que a encarava com um curto sorriso — Eu quero apagar a sua tristeza, te levar para uma terra dos sonhos, para um mundo de beldade e leveza no brilho dos seus olhos catatônicos... — Aquela que apenas falava através de rimas, puxou um pequeno fio solto do cabelo de Alice, acariciou o seu rosto, dizendo — Esqueceis este doloroso mundo, você nunca mais estará sozinha, vamos ficar para sempre juntos se aceitares esta proposta minha... — Alice quase lhe mostrou um sorriso, a mulher, que ainda usava o véu sobre a cabeça, tomou um longo frasco alaranjado cheio de pílulas da bancada do banheiro de Alice, e a entregou com um sorriso benevolente — Alice, quero estar ao teu lado onde a alegria jamais se definha, se me deixares livrar-te de todos os teus fardos... Você nunca mais estará sozinha... — Segurando então a mão da menina em torno do enorme frasco alaranjado, ela prosseguiu — Me use para apagar os fardos teus, matar toda essa tristeza e temor... Vamos unir a preciosa você à venenosa eu.

— Só isso pode apagar a minha dor... — A menina disse, pela primeira vez em semanas.

Quando o sol nasceu naquela manhã, ela estava em seu quarto, vestida em sua camisola branca, fria e envenenada, a primeira a encontrar foi a sua irmã, que pensou que estivesse dormindo, e apenas percebeu que ela dormia num sono eterno quando tocou a sua pele, fria como gelo. E o seu rosto estava sereno como há muitos anos jamais estivera... Ainda havia beleza na morte daquela flor.

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