Flores Esquecidas
1 Prólogo
Notas iniciais
PRÓLOGO:
Ripley, Maine. 1910.
Aquela estação começava em Ripley do mesmo jeito há 10 anos, o que equivalia dizer que era toda a sua existência. Não saberia dizer se algum dia foi diferente, e honestamente, aquilo pouco importava. Fustigadas prazerosamente pela chuva, as pequenas flores e as árvores que lhes davam cobertura preparavam-se para receber o verão. Para a menina, que o sabia daquele jeito desde que se conhecia por gente, a chuva significava a própria estação, muito mais do que ouvir das bocas dos adultos que “o verão estava aí, finalmente”.
Crianças esperavam com muita ansiedade aquela estação em particular: afinal, nela esqueciam-se dos avisos cautelosos de suas mães e saíam de suas casas para pisotearem poças de água e espalharem lama pelas camisas. Numa cidade tão pequena como Ripley, as diversões eram escasas e a criatividade era uma bênção para os pequenos. Aura Collins, em dias normais, teria feito o mesmo – tirado seus sapatos (sempre o fazia, com medo de uma represália da mãe) e abandonado a si mesma naqueles pequenos minutos felizes, geralmente no próprio quintal de sua casa, uma vez que não era dado a ela a permissão de abandonar os arredores por muito tempo.
Entretanto, aquele não era um dia normal. A loucura de sua mãe não obedecia à conceitos tão efêmeros quanto estações ou tempos. Ela simplesmente acontecia.
E aconteceu de coincidir com o primeiro dia de verão, naquele instante.
Aura Collins estava acostumada com aquilo, tanto como com o verão sendo a estação das chuvas que refrescavam as árvores que rodeavam a pequena cidadezinha localizada no Estado de Maine. Desde que se conhecia por gente – o que equivalia a dizer que aquilo acontecia há 10 anos, uma eternidade para uma criança –, às vezes, aquela mulher não era a mãe esforçada e carinhosa que a menina conhecia. Às vezes, um fantasma mau se apossava do corpo dela. Ela não tinha nenhuma explicação lógica para o fenômeno, portanto, em sua inocência e desejo de acreditar na bondade inerente da pessoa que a criou, acreditava piamente que sua mãe estava possuída. Que suas palavras eram obra do fantasma cruel que a abraçava em sua loucura.
Aura Collins acreditava na inocência de sua mãe.
O que não significava dizer que ignorava totalmente um instinto de sobrevivência inerente a qualquer humano, e que, portanto, permanecia perto dela quando lhe era dada a chance de escapar.
Enquanto as crianças ao seu redor corriam embaixo da chuva gelada com um sorriso, ela o fazia agradecida pelo álibi. Sua mãe odiava lágrimas – mesmo ali, longe dela enquanto a menina se afastava do pequeno povoado que conhecia como a palma de sua mão, seu fantasma continuava em seus pensamentos, minando suas ações.
Apesar de seus pensamentos sem lógica, em seu corpo flui como sangue uma lógica inegável e instintiva – ela tem um lugar onde pertence de verdade, acima daquela casa com dois quartos de paredes brancas, acima do mundo chamado Ripley feito de uma igreja cercada de pequenas casas provinciais e uma grande floresta esmeralda sufocando a todos.
A casa abandonada de Maine.
Localizada há pelo menos meia hora de caminhada da cidade, escondida pelo verde natural de Ripley, tão linda como um conto-de-fadas, a casa era uma mansão de dois andares e de arabescos coroando seus detalhes como joias em uma linda mulher. O nome do homem que ordenou a construção daquela casa era Courtenay, e isso era tudo o que os moradores da região sabiam. Mas quem veio morar nela era uma jovem e exótica mulher de vestidos justos e não dada a aparições públicas – e quem sabe por isso resolveu isolar-se em uma cidade remota como aquela. Foram contratadas três empregadas para cuidarem de suas vontades e abastecerem sua despensa, e tudo o que Ripley sabia sobre aquela mulher era através delas. Rezam as lendas que a mulher era a amante de um rico francês e que nunca aceitou sua condição, inconformada com o casamento que ele prometeu-lhe e nunca lhe deu e que, por isso, um dia, decidida a procurar alguém que a quisesse de verdade, desapareceu tão silenciosamente quanto se instalou ali. Ninguém nunca descobriu o quanto daquela história era mentira e o quanto era a pura verdade, apenas que aquela casa não era direita, e que ninguém louco o bastante a compraria outra vez. Não quando os Estados Unidos brilhavam com centros cosmopolitas bem longe dali.
Para as crianças do povoado, entretanto, aquele se tornou um lugar conhecido entre elas – afinal, os pequenos possuem um universo de segredo que adulto nenhum jamais compartilhará. Em uma espécie de rito de passagem, um menino só era considerado verdadeiramente adulto se passasse uma noite inteira dentro das paredes daquele mausoléu abandonado.
Se ela fosse um menino, Aura cogitou em meio à outros tantos pensamentos sobre sua mãe, ela seria considerada extremamente corajosa. A mansão Courtenay não era assustadora.
Era, pelo contrário, bastante acolhedora.
Ela não a julgava. Ela não a machucava.
A sensação do portão de ferro contra sua mão, abrindo com uma facilidade alarmante, o som que fazia cada vez que ela o puxava, eram todos pequenos detalhes que a faziam pertencer àquele lugar. O silêncio daquele lugar, como se o mundo não existisse ali dentro, somente ela, nenhuma dor e nenhuma alegria, era inebriante. Aura Collins não precisaria incomodar ninguém com sua presença ali dentro, pois não havia humano que se atrevesse a entrar naqueles domínios.
A menina corre para a casa que certamente a esperava com a impaciência de uma amante, e por um instante pensa em ficar ali para sempre. Ninguém sentiria sua falta. Havia uma macieira no quintal dos fundos; ela poderia viver de maçãs. Ela poderia viver sozinha.
Ninguém sentiria sua falta.
Instantaneamente, sua própria mente ri da inocência que permeava seu amadurecimento prematuro. Ela não poderia viver naquele lugar para sempre. Era tolice apenas pensar que podia.
A chuva apertou exatamente quando ela avistou a casa outrora branca que agora começava a escurecer com os anos de descaso. Apesar de ninguém visitar o lugar, não se pudessem evitar, aquilo não impediu que alguém quebrasse as janelas da frente, transformando o local em um triste remedo de nobreza. Fechando o portão atrás de si tão logo entrou na propriedade, a menina corre para os fundos; descobrira na primeira vez que visitou aquele lugar, ainda incerta sobre a procedência dele e pela distância a qual se encontrava da cidade, que a porta da frente estava trancada, assim como a que dava para a cozinha, nos fundos da casa, mas isso não impediu que as crianças usassem as janelas para entrar. Ela já era alta o suficiente para entrar sem precisar subir em alguma coisa, e assim o fez.
O ar do interior da casa era pesado e velho. Seu cheiro era de poeira e solidão. De alguma forma, Aura Collins considerava aquilo mais familiar do que todos os produtos de limpeza que sua mãe se esmerava em passar na própria casa. A menina, jovem como era, possuía o espírito tal qual aquele mausoléu: abandonado e nu. Como uma plantação amaldiçoada onde nada podia crescer. Os poucos móveis que ainda restavam – os que não foram pilhados, muito provavelmente – não ajudavam a deixar o local mais amigável.
Ela sentou-se no chão, próxima ao que provavelmente fora a sala de jantar um dia, as costas encostando-se na parede desnuda, ignorando a sujeira que impregnou-se no vestido molhado como se fossem ervas-daninhas. Lá fora, o som da chuva reverberava nas paredes como um eco distante – Aura Collins sentiu que poderia dormir ao som daquilo.
(Ela poderia viver de maçãs para sempre.)
Fechou os olhos, e somente ali finalmente sentiu o que sua consciência esteve ignorando até então: o latejar constante em seu braço.
O fantasma mau que possuía sua mãe a machucou ali através do corpo da mulher, a marca de sua mão que a bateu com força e a levou ao chão ainda marcava a pele branca como uma medalha de honra para todos verem. Entretanto, aquelas feridas não eram nada se comparadas à dor de seu coração. As do corpo, essas iriam embora eventualmente. As outras sempre ficavam. Assim como o fantasma mau. Elas nunca iam embora.
A menina encolheu-se, escondendo o rosto nos joelhos, e sua mente a ralhou com uma voz adulta e professoral, indigna da criança que era; não chore, dizia. Você não tem o direito de chorar.
Ela ignorou aquela parte de si, assim como ignorou o mundo ao seu redor.
O palácio abandonado era o único lugar onde podia chorar.
(Ela poderia viver de maçãs ali para sempre.)
Seus soluços abafaram o som do estranho que entrou ali procurando abrigo da chuva torrencial que fustigava sua cabeça, impulsionado pela curiosidade pasma em ver o portão de seu refúgio já aberto, indicando que alguém estava na mansão Courtenay antes dele. Abafaram o som dele entrando pela janela e pisando em um caco de vidro do chão, imediatamente suando frio por ter denunciado sua posição antes de checar quem estava ali dentro. Abafaram até mesmo o som do coração dele parando e, em seguida, batendo duas vezes mais rápido, ao ouvir o som inconfundível de alguém chorando. Abafando até mesmo os passos dele em direção à sala de jantar, a garota continuou alheia ao fato de que estava sendo observada.
O estranho não passava de um menino, muito provavelmente da idade daquela garotinha. Magro, a calça puída que usava não escondia os joelhos ossudos e a provável falta de três refeições diárias em sua casa. Não havia nada de nobre naquela criança que destoava tão violentamente do ambiente exótico, mesmo que decadente, no qual se encontrava. Mas havia uma beleza singular em seus olhos – duas piscinas de brilhante azul, como o sol a tocar o mar. Ele encarava a garota, mas especialmente o que a definia: o hematoma em seu braço.
Como não fazê-lo, afinal? O seu próprio rosto também exibia uma medalha purpúrea e efêmera que latejava com a dor pulsante da violência.
O menino permaneceu em silêncio por um tempo que julgou demasiadamente longo, sua garganta subitamente fechada demais para falar alguma coisa, em guerra direta com seu cérebro, que em seu lugar recitava um milhão de diferentes diálogos. Seu coração parecia ter sido apertado por mãos invisíveis que pareceram confundi-lo com uma fruta, a qual se podia esmagar para colher seu suco. Não sairia nada dali, entretanto, além de uma podridão escura e espessa. Ele sabia.
Quando finalmente sentiu as amarras que prendiam sua voz se desfazerem, foi com uma solene timidez que falou:
—O seu braço... O que houve?
Como que desperta de um sonho, Aura Collins sufoca ela própria um grito que teimou em querer sair ao ouvir uma voz estranha, desconhecida. A surpresa, contudo, não era mais forte que a vergonha; a humilhação assustada por ter sido encontrada em seu estado mais frágil. Mas todos aqueles sentimentos sumiram ao deparar-se com o menino do rosto machucado.
Ela ouvia o som da chuva lá fora e dos pingos de água escorrendo do garoto parado à porta em meio ao seu próprio coração martelando, temeroso, contra seu peito. Enxugou os olhos apressadamente, como quem está limpando a evidência de um crime. Mas não sentiu medo daquela criança de cabelos dourados.
Assim como a casa, ela entendeu que aquela pessoa era nua e desolada.
E, quem sabe por causa disto, pode responder com mais segurança do que esperou:
—Eu caí...
Os olhos azuis do garoto sem nome estreitaram-se somente um pouco, adquirindo um ar maduro que ia muito além dos que Aura Collins via nos grupos de meninos correndo pelas ruas, das janelas de sua casa. Eles, entretanto, não pareciam encará-la com violência ou desgosto – apenas com qualquer coisa parecida com compreensão.
—Ah... – foi o que disse, somente uma única palavra, como se aquilo resolvesse a questão.
A menina encolheu-se, sem que se desse conta. A verdade é que contou uma grande mentira, e soube por instinto que aquele menino não acreditou nela.
Ele via através dela, com os olhos do hematoma em seu rosto.
—Você... Também caiu? – ela perguntou, com a voz do hematoma de seu braço. Os olhos dela estavam, sem conseguirem se concentrar em outra coisa, fixos no rosto magro e inchado do garoto. Eles estavam falando uma língua que só os dois conheciam, ela descobriu.
Ele sorriu um pouco. E Aura Collins o achou agradável a partir daquele instante.
—É, eu também caí.
A chuva inundava o mundo como se o quisesse levar embora, mas para aqueles dois, era como se o mundo já houvesse desaparecido muito antes. A poeira esquecida da mansão Courtenay pareceu envolvê-los, como se os convidassem a ficar. O menino dos olhos tão azuis que cegavam pareceu perceber isto, também. Ele deu um passo à frente.
—Escuta. Será que... Será que eu posso sentar aí? É que essecostuma ser o meu lugar. – ele mentiu. Seu lugar era nas escadas, mas a garota não precisava saber disso.
Uma vida sendo avisada que não devia conversar com garotos, ou aproximar-se deles se pudesse evitar, não impediu Aura Collins de assentir ao garoto que caía do mesmo jeito que ela, ainda limpando de seu rosto envergonhado os resquícios criminosos de lágrimas.
—É claro que pode.
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