Flores
5 Mudança de planos
Notas iniciais
A terceira estação do trem de Yotõn já estava fora de funcionamento há anos. Com o tempo, a ferrugem já tomava conta dos trilhos e das catracas de ferro. Os insetos se proliferaram e os fungos, auxiliados pela umidade, dominavam os bancos e tudo que era feito madeira. A maioria das paredes já estavam caídas, o que deixava a neve entrar e se amontoar nas bordas do lugar. Este que, bastante amplo e sem muitos obstáculos íntegros, foi escolhido por Mervin para o teste final por ser o palco perfeito para uma luta corpo-a-corpo. A sua frente, sua aprendiz, Rolva, tentava manter sua postura firme, para não transparecer seu cansaço físico e mental, proveniente de testes anteriores. Ao perceber sua tentativa, Mervin sorriu discretamente e lembrou-se do motivo pelo qual ele a treinava. Ele gostava do jeito que ela, apesar de muitos problemas na vida, nunca se deixou abater por eles. Sempre procurava se adaptar para combatê-los, tornando-se uma garota madura e forte para os seus poucos dezessete anos.
— Tudo bem, garota. Seu objetivo no teste de hoje será muito simples. Eu tenho duas facas em minhas mãos. Você terá que pega-las antes que elas acabem cravadas no seu pescoço. Alguma dúvida?
— Você realmente me esfaquearia?
Causando risos no seu tutor, que ela mesma definia como “a personificação do mau humor”, Rolva também se deixou levar por aquele momento de descontração. Recompondo aos poucos sua seriedade costumeira, Mervin deu sua resposta.
— Você sabe que sim, garota.
Enchendo-se de confiança, Rolva firmou sua postura de combate, do jeito que seu mestre havia lhe ensinado. Pôs os pés estrategicamente afastados para chutes rápidos e esquivas ágeis. Suas mãos, abertas e firmes, colocavam-se de forma que ela conseguia proteger seus pontos vitais e ao mesmo tempo deixa-las livres para o desarme.
Mervin ficou parado por breves segundos, observando o posicionamento de sua aprendiz. Quando finalmente se moveu, partiu em direção a ruiva com bastante rapidez e vigor. Aproximando-se do seu corpo, aplicou combos que misturavam golpes perfurantes e cortantes, sempre mirando a cabeça dela. Rolva ia se esquivando e, ao mesmo tempo, desferindo chutes contra ele. Com isso, ela foi, estrategicamente, moldando as ações de seu corpo para que ele aplicasse o golpe exatamente onde ela queria. Assim aconteceu. Mervin tentou aplicar um golpe fatal, levando a lâmina para baixo em alta velocidade, porém ela desviou e conseguiu imobilizar seu braço esquerdo. Torcendo-o, ela ameaçou quebrar o osso daquela região. Mervin largou a faca, deixando que Rolva completasse o desarme. Finalmente, com uma das lâminas em suas mãos, ela girou para acertar um golpe mortal na cabeça do seu mestre. Este, porém, agachou-se rapidamente, esquivando-se por muito pouco. Enquanto ainda se abaixava, ele, dando um chute forte em seu abdômen, jogou a ruiva para longe, interrompendo sua sequência de movimentos.
Rolva foi arremessada contra uma cabine. O choque do seu corpo com a estrutura frágil fez com que esta desmoronasse. Pedaços de madeira podre, concreto e vidro se espalharam. Vendo o estrago, Mervin compreendeu que tinha exagerado na força daquele chute, entretanto, ele conhecia a força daquela garota e sabia que não podia pegar leve com ela. Por isso, sem esperar qualquer reação, ele correu e se aproximou dela mais uma vez, disposto a recuperar sua faca. Entretanto, para alguém que ainda estava no chão sentindo muita dor, Rolva age incrivelmente rápido, se esquivando de um golpe e o afastando com um chute no rosto. Deixando Mervin atordoado com o chute, Rolva ganha tempo para se levantar. Enquanto seu mestre recupera os sentidos, ela tenta recuperar o folego.
Tentando mover-se novamente, a ruiva sente muita dor e, automaticamente, cai de joelhos, levando suas mãos a região atingida. Tateando suas costelas por baixo da roupa de tecido grosseiro, ela sente que algo está fora do lugar. Neste mesmo momento, Mervin recobra seus sentidos e nota o estado da garota. Ela está chorando de dor. Percebendo a seriedade do caso, ele volta a sua posição normal e, dirigindo-se a ela, diz:
— Acabamos por aqui. O treino está encerra...
— Não ouse! — grita Rolva, estendendo a faca em posição de ataque.
Surpreendentemente, ela ergue seu olhar feroz. Mervin vê em seus olhos de cores diferentes uma vontade avassaladora. E, apesar deles não conseguirem conter suas lágrimas de dor, neles estava nitidamente estampado a sua garra e determinação.
— Não ouse terminar está frase!
— Eu quebrei sua costela, garota. Você não pode se mover, poderia ter seu pulmão perfurado. Sabe que eu admiro sua força de vontade, mas você não está mais em condições de lutar.
— Covarde!
Agora, também lutando contra a dor, Rolva se esforça e parte pra cima de seu mestre com uma rapidez assustadora. Pego de surpresa pela sua velocidade anormal, Mervin precisa agir rápido para evitar seus golpes. Ambos, agora armados, travam um duelo rápido e minuciosamente calculado, pois qualquer falha pode ser fatal.
— Você não pode continuar, garota! — dizia Mervin, enquanto Rolva permanecia atacando freneticamente.
O som agudo das facas ao se chocarem ecoava pela grande estação, assim como, em seguida, os gritos de dor da pequena ruiva, quando Mervin a imobilizou e acertou uma joelhada e seu abdômen. Rolva caiu e não demonstrou mais nenhum sinal de que iria levantar novamente.
— O teste acabou.
— Não! — disse Rolva, gemendo de dor. — Só vai acabar quando um de nós perder!
— Então que assim seja.
O velho mestre relaxou e, a pedido da própria aprendiz, iria finalizar o teste. Porém, antes de acabar, iria puni-la por sua desobediência.
Abaixando-se, chegou mais perto do seu corpo e foi, lentamente, aproximando a faca do seu rosto. Agarrando seu braço, ela tentava resistir, mas não tinha forças. Tudo que conseguiu fazer foi retarda-lo. Vagarosamente, Mervin faz um corte no lado esquerdo do seu rosto, levando a faca da sua testa até sua bochecha. Enquanto o fazia, Rolva gritava de dor, sentindo sua pele arder intensamente à medida que ia sendo lentamente rasgada. Finalizando, Mervin vê o estrago que fez. Para acabar imediatamente com aquilo, ele leva sua mão em direção à faca que estava com ela. Tentando pegar, ele percebe que ela ainda a segura, relutando em se entregar. Olhando pra ela novamente, ele é recebido com um soco direto em seu nariz. Após retira-lo de cima de si, Rolva, mais uma vez, se levanta e vai em direção a Mervin. Sem tempo de reação, ele recebe um chute bem colocado em sua cabeça, caindo instantaneamente de cara no chão, deixando a faca cair.
Após virar a cabeça, ele vê Rolva de pé, segurando as duas lâminas com uma postura imponente. Devidamente derrotado, ele se levanta com as mãos para o alto. Ela o acompanha com o olhar alerta. Ao observar o rosto dela coberto de sangue, Mervin lembrou-se de tudo pelo que a fez passar e, mais uma vez, reforçou sua fé na pequena garota de cabelos ruivos.
— Você me perguntou uma vez por que eu tinha tantas cicatrizes no meu rosto, lembra? Na FAT isso significa uma punição para quando você desobedece a uma ordem. As cicatrizes são feitas para que todo mundo veja que você é um mal soldado, uma desonra para sua nação. Em todos os meus anos servindo às forças armadas de Turon, eu ganhei exatamente oitenta e quatro cicatrizes. Nunca houve soldado mais desobediente que eu. Mas então eu encontrei você. Pus essa marca em seu rosto para que quando você olhasse para ela novamente você se lembrasse de quão insolente e desobediente você é.
Socos, chutes e facadas poderiam doer, mas nada durante todo aquele intenso treinamento foi mais forte que as palavras de Mervin. Rolva entristeceu-se, mas não perdeu a postura firme. Continuou ouvindo seu mestre.
— Por muito tempo eu fui menosprezado pelos meus companheiros e por todos os habitantes de Turon. Porém agora que eu vejo que estava errado o tempo todo. A desobediência e a insolência nem sempre são coisas ruins. Essas duas palavras também podem ser sinônimos de coragem. Coragem para continuar, mesmo que todos digam para parar. Essa marca que fiz em você significa coragem. Com ela, você foi capaz de continuar e vencer. Você é a filha da mãe mais corajosa que eu já vi, garota.
Vendo o um pequeno sorriso se formar nos lábios do seu mestre, Rolva também se abre com um sorriso esperançoso.
— De agora em diante você será chamada de Vermelha.
***
No deposito do abrigo, Aiden via-se sem a menor noção do que estava acontecendo. Com uma expressão de dúvida estampada em seu rosto, ele alternava seu olhar entre a ruiva e seu amigo, pensando de que forma uma ruiva baixinha vestida com a armadura da FAT estaria ligada a Helle. Este, sentado em uma caixa no centro do deposito, não conseguiu conter o riso ao ver a cara de Aiden. Rolva, logo a frente da porta, permanecia com um semblante sério e imponente.
— Que merda é essa? O que tá acontecendo?
— Relaxa, cara! Senta aí.
Desconfiado de que aquilo pudesse ser uma armadilha, Aiden ignorou a recomendação de Bremen e redobrou sua atenção, ficando atento a qualquer movimento. Terminando de tragar seu cigarro, Helle recompôs sua seriedade e começou a lhe explicar a situação.
— Lembra que eu disse que nós tínhamos alguém observando as outras nações? Este “alguém” é ela. — disse Helle, apontando para Rolva. — Rolva Lenorya Klaus é a nossa espiã. Ela que entra e sai das nações sem que ninguém suspeite, nos trazendo informações valiosíssimas. Ela acaba de voltar de viagem e tem muitas coisas pra nos contar, não é, Vermelha?
— E ele vai ficar aqui para ouvir? — disse Rolva, olhando para Aiden com desaprovação.
— Já falamos sobre isso! Aiden é um dos nossos agora.
Depois de, com tanta firmeza, afirmar que agora Aiden fazia parte do grupo, Helle sentiu que todas as desavenças que tivera no passado com o cara robusto agora eram apenas boas historias das quais eles, ao recordarem, iriam rir. Após esta afirmação, os dois se olharam e acenaram com o olhar.
— Pode começar. — disse Aiden, fazendo pouco caso da ruiva.
Ao observa-lo, Rolva vê seu olhar provocativo. Logo de cara, Helle percebeu que ambos não iriam se dar bem. Mediando a troca de olhares perigosos, evitando uma briga entre os dois seres de pavios curtos, Helle pronunciou:
— Bem, agora vamos ao que interessa. O que você descobriu, Rolva?
— A situação não está nada boa na Nação Dourada. A má administração do rei Ignis fez com que Thonis entrasse em colapso econômico. Os Meninos Ricos cresceram assustadoramente e se tornaram maioria da população, formando 90% do total.
— Meninos Ricos? — perguntou Aiden.
— É como são chamados os habitantes pobres de lá. — respondeu Rolva. — Juntando a falta de comprador de seus recursos únicos com a péssima administração do rei, a economia da nação está completamente destruída. O ouro, que era unidade monetária de lá, está sendo tratado como lixo pelos Meninos Ricos. A moeda do país agora são tampinhas de garrafa.
Boquiabertos, Aiden e Helle não conseguia assimilar a ideia de Thonis, uma nação que foi, desde sempre, reconhecida por sua riqueza, chegar ao ponto de usar lixo como dinheiro.
— Vejam isto.
Rolva pegou a bolsa que estava ao seu lado e dirigiu-se até a caixa que Helle estava sentado. Aiden a acompanhou. Lá, ela tirou algumas fotos da bolsa e as jogou sob a caixa.
— Este é o centro de Thonis, onde fica situado o castelo do rei. — disse Rolva, apontando para uma foto que mostrava um castelo dourado de torres cilíndricas.
— Parece normal pra mim. — disse Aiden.
— E está normal. Esta foto foi tirada quando Celosia, pai de Ignis, ainda estava vivo, governando a nação. Agora vejam esta.
Rolva pôs sobre a mesa uma foto que mostrava um pequeno grupo de pessoas firmando uma bandeira no centro de um amontoado de entulhos. A bandeira mostrava o emblema de Thonis, um leão de ouro numa pose imponente, com a palavra “igualdade” pichada em vermelho.
— Este é o castelo hoje.
— Puta merda... — murmurou Helle.
— Os Meninos Ricos pegaram todo o ouro que encontraram e derreteram. Eles tomaram a nação e estão caçando todas as autoridades políticas que restaram. As ruas estão um verdadeiro caos.
— O povo de Turon sabe sobre isso? — perguntou Aiden.
— Ainda não. Mas isso não importa. A Síndrome de Prata está deixando Nimrod louco e sedento pela cura, assim como o resto dos habitantes afetados.
— O estado de saúde dele piorou, não foi? — indagou Helle.
— Piora todos os dias. Ele fica confinado em seu quarto no castelo real. Quando estava lá, eu, todos os outros soldados e os empregados do castelo, podiam ouvir seus gritos de dor de qualquer lugar.
— Está morrendo... — concluiu Aiden, com um sorriso no rosto.
— Provavelmente. Mas essa não foi a melhor coisa que encontrei por lá.
Rolva retirou da bolsa um envelope e o jogou sobre a mesa.
— A lista com o nome de todos os espiões envolvidos no projeto de supervisão da FAT.
O sorriso se formou automaticamente no rosto dos três. Aquela lista era um dos melhores recursos que eles poderiam conseguir naquele momento.
— Isso é ótimo! Com essa lista nós podemos ter certeza absoluta sobre em quem vamos confiar. —disse Helle.
— Exato. Mas existe uma coisa curiosa com relação a isso. Quando me entregaram, eles ordenaram que isso fosse entregue na “Casinha da Vovó”.
— Casinha da Vovó? — perguntou Aiden.
No momento em que escutou aquele nome, ele parou por alguns segundos. Teve a estranha sensação de já ter o escutado. Após repetir essas palavras várias vezes em sua cabeça, ele finalmente lembrou-se de onde tinha ouvido aquilo.
— Ei! Eu já ouvi falarem sobre isso. Há uns dias atrás eu desobedeci a um dos soldados da FAT. Após isso, um deles cogitou me levar para esse lugar.
— Levar? — perguntou-se Helle, pensativo.
— Pode ser uma base ou um centro de comando que eles têm aqui em Yotõn. — disse Rolva.
— Seja lá o que for, temos que ficar atento quanto a isso. — completou Helle. — E em Dohan, como estão as coisas?
— Do mesmo jeito. O povo de lá já sofre com a pobreza e com a miséria, eles não ligam para a crise em Thonis, para a epidemia em Turon ou a ditadura em Yotõn.
— Entendo.
Após raciocinar tudo aquilo, Aiden sentiu uma nova esperança se formar. Eles tinham tudo para pôr a revolução em prática e já não tinham nada a perder.
— É isso! Agora nós podemos agir, de verdade!
— Como assim? — perguntou Helle, sem entender sobre o que Aiden quis dizer com “de verdade”.
— Chega de espera, Helle. Agora nós podemos formar uma revolução e livrar Yotõn dessa ditadura.
— Não, não podemos. — replicou Rolva. — É dessa forma, somente dessa forma, que podemos acabar com a ditadura em Yotõn. Silenciosamente. Nós não podemos pôr a vida de pessoas inocentes em risco.
— Ela tem razão, Aiden. Pessoas morrem em revoluções. Nós já conversamos sobre isso.
Aiden já não conseguia mais entender os motivos pelos quis eles ainda queriam esperar. Sua expressão de indignação deixou isso bem claro para Helle e Rolva. Misturando impaciência com indignação, ele começou a falar:
— É sério que vocês ainda querem seguir por esse caminho? Será que vocês ainda não perceberam? Não existem mais diferenças entre o meu jeito e o seu, Helle. A FAT pegou dez pessoas inocentes e as transformou em cobaias. Elas estão infectadas pelo Vírus de Prata e já estão correndo risco de vida!
Naquele momento, Rolva e Helle se entreolharam. Silenciosamente, assumiram um para o outro que aquele ponto de vista fazia sentido.
— Há algumas horas atrás eu vivi um dos piores momentos da minha vida. A sensação de impotência tomando conta de mim. Quando a minha mãe morreu em meus braços eu senti a mesma coisa. Eu não quero me sentir assim nunca mais.
Todos permaneceram em silêncio. Helle lembrou-se do momento em que a FAT selecionou as cobaias, recordando a aflição que viu no rosto das pessoas ao seu redor. Interrompendo sua contemplação, Aiden falou novamente:
— Se quiserem continuar dessa forma, foda-se. Eu não vou mais. Cansei de esperar.
Finalizando sua sentença, Aiden deu as costas para os dois e dirigiu-se até a porta com passos pesados.
— Aiden, espera! — gritou Helle.
Parando seus passos, virou-se e viu Rolva se aproximar.
— Ela tem que te levar de voltar para não levantar nenhuma suspeita.
Rolva colocou novamente a viseira em seu rosto e pegou a lanterna.
— Vamos.
Helle os viu ir embora. E quando finalmente ficou só, ele se pôs a pensar sobre revolução. Bem no fundo de sua ponderação, por mais que detestasse admitir, ele viu que Aiden tinha certa razão. Mesmo que mínima.
— Eu vejo razão no que ele diz. — falou Helle para si mesmo. — Mas ainda assim, acho revolução uma péssima ideia. E, pelo o pouco que lhe conheço, ele não vai desistir dessa ideia. Isso me preocupa.
***
Dias se passaram desde que a FAT selecionou as dez cobaias no abrigo Saint. Mas, apesar de seu anseio de obter a cura o mais rápido possível, eles precisavam fornecer a Trindade toda uma estrutura adequada para que eles iniciassem os testes. Foi depois daquele período de sete dias que os soldados negros voltaram, novamente, a lotar a ala médica do abrigo, especialmente o segundo andar. Lá era onde ficava o CTI, centro de tratamento intensivo. Naquela área, os pacientes, vítimas de graves infecções, eram tratados. Nós últimos anos o espaço era o mais movimentado do abrigo graças ao Vírus de Prata. Os soldados mais debilitados pelo vírus e alguns habitantes de Turon eram tratados lá. O local também servia para que a Trindade pudesse fazer seus testes em busca da cura para a ameaça biológica mais devastadora dos últimos cem anos.
Adar Fler Donavan, membro acidental de uma das famílias mais tradicionais de Turon era agora líder do notório grupo de cientistas de Yotõn e carregava o peso da responsabilidade de conseguir uma cura eficiente. Milhares de vidas dependiam de seus esforços. Porém, naquele momento, ele apenas se preocupava com as cobaias do abrigo. Em sua sala ele recuperava-se do acesso de fúria que tivera mias cedo ao ver os corpos dos novos infectados. Os testes ainda nem haviam começado e eles já haviam constatado quatro mortes. Tentando esquecer-se do horror que havia presenciado, tirou seu jaleco e ficou de pé em frente à janela do seu escritório. Após acender o décimo cigarro do dia, ele apenas pôs-se a observar o horizonte a sua frente, vendo nada mais que árvores altas e neve.
Sua contemplação acaba sendo interrompida quando escuta alguém bater em sua porta.
— Entre. — ele ordena.
Era Chell que adentrava sua sala, já abanando o rosto com a mão para espantar a fumaça do cigarro marrom.
— De novo com isso? — pergunta Chell.
— Você sabe que eu sempre fumei. — diz Adar, sem desviar seu olhar da janela. — O que veio fazer aqui?
— Ver como está. Você me deu um susto quando deu um soco no capitão Pan. Eu sei que você odeia a FAT mais do que qualquer pessoa que eu conheço, mas você é, geralmente, bem calmo.
— Eu perdi o controle.
— Imaginei. Afinal, é muito difícil tê-lo com tudo isso que está acontecendo.
Chell parou por uns instantes e em meio a risos continuou:
— Você deve ser o único cara que ficou vivo após humilhar publicamente um soldado negro! O nome “Donavan” realmente tem poder.
— Não pronuncie o nome nojento do meu pai em minha presença. — disse Adar, finalmente virando-se com um semblante intimidador.
— Perdão. — disse Chell, num tom amedrontado.
— Mudando para um assunto não mais agradável, como está a situação lá em baixo?
— Nito e Rin continuam cuidando das cobaias que restaram. Quando iram começar os testes?
— Assim que a FAT deixar tudo pronto. Presumo que isto aconteça rápido, pois eles também querem acabar o mais rápido possível com isso.
Interrompendo a conversa entre os dois, a moça baixinha de cabelos purpura entreabriu a porta do escritório de Adar, surpreendendo os dois com sua presença.
— Rin? O que faz aqui? — perguntou Chell.
— O senhor Robert deseja lhe ver sua sala, Chell. Quer sua ajuda para verificar alguns papeis. Adar, precisamos de você na enfermaria.
— Tudo bem. — disse Adar, vestindo seu jaleco novamente. — Vamos.
Saindo da sala, os três seguiram pelo corredor até o elevador. Adar e Rin despediram-se de Chell ao saírem no terceiro andar. Seguiram juntos pelo extenso corredor, tendo que lidar com o olhar atravessado dos soldados que lá estavam. No fim do local, os dois entraram na sala de recepção. Lá, Nito e Helle brincavam com Luke, irmão adotivo de Rin. As gargalhadas do pequeno a contagiaram e logo ela encheu-se de alegria. Aproximou-se já entrando na brincadeira, fingindo ser o monstro da cosquinha.
Era raro presenciar uma cena de divertimento tão espontânea e tão inocente quanto aquela sob as dadas circunstâncias. Mais raro ainda era fazer parte de algo assim. Apesar de ter a expressão mais fechada que alguém poderia ter, Adar estava sorrindo por dentro. Deixou que o momento durasse o quanto fosse necessário.
Enquanto ainda observa a brincadeira, Adar percebe quando alguém se posiciona ao seu lado, também observando a cena.
— Legal terem momentos assim, não é?
Ele olhou para o lado e viu um homem alto e robusto. Nunca havia o visto antes. Retomando sua contemplação, ele disse secamente:
— Sim.
— É uma pena que não dure muito.
Percebendo que Adar estava ali, Helle se recompôs, seguido de todos os outros. Nito tomou Luke nos braços e Rin ficou ao seu lado.
— Oi, Adar. Este é Aiden, o novato de quem eu falei.
Olhando novamente para o homem, Adar o vê estendendo a mão para cumprimenta-lo.
— Aiden Arius.
Sem dizer uma palavra ou mudar sua expressão, Adar o cumprimenta. Após isto ele dirige suas palavras para seus companheiros pesquisadores:
— O que estão fazendo aqui?
— Dando um tempo. — disse Nito. — A FAT ainda não terminou de montar os laboratórios e nós deixamos as cobaias em boas mãos.
— E vocês? — perguntou, desviando seu olha para Helle e Aiden.
— Eu e meu amigo queríamos esclarecer algumas dúvidas quanto ao Vírus de Prata. — disse Aiden.
— Isso tem muito a ver com o nosso plano, Adar. Acho que as coisas podem mudar, dependendo das respostas que vocês vão nos dar.
— O que quer dizer com “mudar”?
— Digamos que, assim como você, Aiden é cabeça dura. — disse Nito.
— Ele acha que nosso método de esperar não funciona mais. — completou Rin. — Também acha que já tivemos muitas perdas e que ficar parado só vai piorar a situação.
— É isso aí, cara. — Aiden falou, quebrando o tom de seriedade. — Tudo o que eles falaram é verdade. Se continuarmos parados não vamos conseguir nada. Revolução é a resposta para essa ditadura. Temos tudo para começar.
Adar já havia percebido há algum tempo que a espera não estava dando bons resultados. Aquela possível cura era o único vínculo frágil que o prendia ao plano paciente de seus amigos. Interessando-se pela ideia, ele continuou.
— O que vocês querem saber?
— Quantas das últimas cobaias ainda podem sair vivas? — perguntou Helle.
— Não posso responder esta pergunta. Tenho que lhes mostrar a resposta. Sigam-me.
***
A sala 20 da enfermaria era o local onde os corpos das quatro cobaias mortas jaziam. Estavam no centro da sala em cima de macas, coberto por lençóis brancos. Eles serviriam para que a Trindade explicasse tudo o que Aiden e Helle precisavam saber para terem noção da letalidade do vírus. Entretanto, antes dos esclarecimentos, o grupo de cientista vestiu-se com as roupas de proteção adequadas e exigiu que os outros dois também colocassem o macacão de borracha, as luvas e as máscaras. Após a preparação, escolheram um corpo aleatório para analisar.
— Acho que eu vou vomitar. — queixou-se Aiden, preocupado com a seriedade de sua hipótese.
Tal preocupação não era para ser levada na brincadeira, afinal, a sala inteira estava com o cheiro incessante de carne podre que partia dos cadáveres infectados.
— Eles fedem mais quando queimam. — ironizou Nito.
— Tudo bem. Vamos começar. — disse Adar. — Como já devem saber, a Síndrome de Prata é uma doença infecciosa causada pelo Vírus de Prata, um agente biológico de origem ainda desconhecida. Ele é transmitido por contato direto, como uma gripe. Se o vírus entrar em contato com alguma superfície mucosa do nosso corpo ou, melhor ainda, com o sangue, você já está infectado.
— É por isso que todos os soldados da FAT que estão em Yotõn usam aquela máscara com a viseira. — disse Rin.
— Uma vez dentro, ele começa a produzir uma substância letal que nós chamamos de Argônia. — disse Nito. — Com a ajuda de uma enzima, ela se espalha pelo corpo e começa a “confundir” as células de defesa do nosso corpo e, de acordo com o progresso lento da doença, elas atacam os tecidos do nosso corpo, começando pela pele. E agora, senhores, eu espero que tenham estômagos fortes. — falou Nito, com um sorriso mal-intencionado no rosto.
Sem terem tempo de entender o aviso, Aiden e Helle quase colocam seu almoço pra fora quando Nito retira o lençol de um dos corpos, revelando aquele amontoado de carne totalmente desfigurado com aspecto petrificado. O mau cheiro se intensifica, ficando cada vez mais difícil de permanecer na sala. Nito e Rin não conseguem conter o riso ao ver a reação dos dois.
— Merda... — disse Helle, demonstrando repulsa.
Aiden pensou em vários xingamentos, mas preferiu não fala-los, pois tinha total ciência de que se abrisse a boca iria expor sua refeição da tarde. As gargalhadas dos dois cientistas brincalhões logo foram contidas pelo olhar sério de Adar. Retomando o silêncio, ele continuou.
— Esta carapaça cinzenta que toma conta dos tecidos é uma consequência indireta da doença, uma resposta do nosso corpo tentando impedir o ataque dos leucócitos. Sem sucesso, pouco a pouco, essa couraça vai se alastrando pelo corpo inteiro, até chegar aos tecidos internos. Chega a um ponto que até respirar se torna doloroso.
— Tenso... — concluiu Helle.
— Eu tenho uma pergunta. — disse Aiden, erguendo a mão. — Por que essa casca varia do cinza mais claro para o mais escuro? E por que uns apresentam mais cicatrizes que outros?
— Isso está ligado à imunidade da pessoa. — esclareceu Rin. — Quanto mais baixa a imunidade, menos leucócitos vão ser afetados pela Argônia. Estas pessoas tendem a formar uma carapaça cinza mais clara. Neste caso elas sofrem menos e morrem depressa, já que os tecidos internos são atingidos rapidamente. O inverso ocorre com pessoas de alta imunidade. Elas sofrem mais com a doença.
— Estas são as de carapaça quase preta?
— Sim. E com mais cicatrizes também.
Após assimilarem toda explicação, Aiden e Helle concluíram que seria extremamente difícil alguma cobaia sair viva daquela atrocidade. Ao olhar para o rosto do amigo, raciocinando rapidamente, Bremen percebeu que a revolução era algo inevitável, pois com todas as condições favoreciam a visão de Aiden. Ele com certeza conseguiria convencer outras pessoas a apoia-lo e assim daria início a uma guerra. Porém, só de pensar em alguém tão instável mentalmente quanto ele comandando uma revolta, Helle via o movimento como um gigantesco suicídio e agravador de problemas.
Entretanto, desde sua infância, Helle Bremen guardava um dos sábios ditados do seu tio: “Situações ruins só tendem a piorar.”. Ele lembrou-se daquela frase automaticamente quando Aiden, irrompendo o silêncio da sala, disse:
— Podemos ver as cobaias? Preciso ver com meus próprios olhos.
— É claro. Vamos. — disse Adar.
Helle já tinha informações do estado atual dos infectados. Sabia que o estado deles não era nada animador. Àquela altura as esperanças do habitante de Turon já estavam perdidas.
***
As cobaias, ou ratos de laboratório, como a FAT gostava de chamá-los, estavam alojados na quinta sala do corredor sob uma rigorosa atenção médica. Se um deles desse um espirro, algum enfermeiro vinha atendê-los imediatamente, trazendo lenços e diversos remédios. Tal atitude de supervisão não era considerada um exagero, afinal, em um período de sete dias só restavam seis corpos aptos para testes.
Entrando na sala, Aiden vê três corpos de cada lado. Próximos as suas respectivas macas, alguns aparelhos médicos trabalhavam, indicando a frequência cardíaca e respiratória. Um enfermeiro estava de plantão no momento em que eles chegaram. Assim que notou a presença da Trindade, foi até lá.
— Senhora Murata. — disse o enfermeiro que carregava uma prancheta nos braços.
— Sim? — disse Rin.
— Aqui estão os dados que a senhora pediu. — o enfermeiro entregou a prancheta em suas mãos. — Eles foram obtidos durante a manhã. Agora à tarde nós fizemos outra releitura.
— Algo ruim? — disse Rin, conferindo os papeis.
— Péssimo, senhora. Infelizmente a frequência cardíaca de todas as cobaias, exceto a sete, caiu drasticamente.
— Não me diga que... — interrompeu Aiden, esperando o pior.
— Não, elas não estão mortas. Ainda não. Porém os dados evidenciam altas chances de não sobreviverem por mais uma semana.
Ouvindo aquilo, a fúria subiu novamente a cabeça de Adar. Para ele as coisas estavam num ciclo onde nada podia dar certo. Entretanto, sua revolta foi facilmente interrompida quando, em meio a um sorriso otimista, Rin tomou sua mão e olhando em seus olhos disse:
— Vamos dar um jeito nisso!
Em seguida, olhou para Nito e chamou-lhe acenando a cabeça. Os dois, seguidos pelo enfermeiro, foram checar o que poderia ser feito. Helle e Aiden já esperavam que as coisas não estivessem boas, porém foi uma surpresa, e susto, enorme quando eles souberam que apenas uma cobaia se mantinha firme.
— Qual é a cobaia sete? — indagou Aiden.
— Kain Manthis. O ultimo da direita. — disse Adar, indicando sua localização.
Aiden foi lentamente caminhando até lá. Logo atrás, o líder da Trindade e Helle iam o seguindo. Este observava o seu amigo com uma preocupação incomum. Para ele, seu amigo estava assustadoramente calmo, nem parecia ser um maluco com ideias revolucionárias. Após chegarem próximo ao corpo, Aiden pode vê-lo deitado, coberto pelo lençol dos pés a cabeça. Imaginou que estivesse dormindo profundamente. Sem poder ver seu estado, ele voltou seu olhar para as outras cobaias e tentou ver o grau de gravidade da doença. Todas já estavam com a pele repleta de cicatrizes e completamente tomada pela carapaça cinzenta.
Com uma seriedade intimidadora em seu rosto, Aiden olhou atentamente para Helle. Este, sem se sentir amedrontado, também o encarou. Já sabendo que a partir daquele dia ele não conseguiria mais convencer o amigo a esperar, preparou-se mentalmente para mudar seus planos. Ainda olhando fixamente para os olhos castanhos de Bremen, Aiden lançou sua pergunta:
— Todas as cobaias já estão correndo risco de vida?
— Sim. — disse Adar.
— Quantas podem sair vivas?
— Acabamos de ver que são poucas.
— Alguma previsão para começar os testes?
— Não.
Agora, retomando a sua expressão normal de indignação novamente, Aiden diz:
— E até lá, se não fizermos nada, mais pessoas ainda vão morrer, não é?
— Essa é a tendência.
Após aquele diálogo tenso, um silêncio perturbador se firmou. Por nenhum segundo os dois pararam de se encarar. Para acabar com aquilo de uma vez por todas, Aiden falou novamente:
— Pessoas já estão morrendo, Helle. Isso não vai parar. A questão aqui é: nós ficamos parados, esperando um milagre acontecer, ou vamos lutar para livra o povo desta ditadura, acabando com o responsável por este caos?
— Eu...
Antes que pudesse concluir sua resposta, Helle é interrompido pelo som de uma risada amedrontadora que ecoa pela sala. Aquele som arrepiante trouxe um tom ainda mais tenso para o ambiente. Seguindo-o, Adar constatou que ele vinha de Kain.
— O que foi isso? — perguntou Nito alarmado, aproximando-se cautelosamente juntamente com Rin.
— Veio dele... — disse Aiden.
— Kain? Você está bem? — perguntou Adar, tentando retirar o cobertor do seu corpo.
Percebendo que ele ainda segurava o cobertor com muita força, Adar continua fazendo perguntas.
— O que houve? Podemos te ajudar?
Sua risada se intensificou, tomando um aspecto ainda mais sombrio. Após alguns segundos, ele finalmente falou:
— Ninguém pode. Nem o seu amigo herói.
— Eu quero ajudar a todos do meu jeito, livrando todos dessa ditadura. — afirmou Aiden. — Era o que minha mãe faria.
— Faria? Ela não faz mais?
— Ela morreu. No dia do festival entre as nações.
— Que coincidência. A minha também morreu neste dia. Queimada viva. — novamente ele começa a rir. — Eu a vi queimar até sua pele derreter! E depois o meu pai! Em seguida a minha casa em chamas caiu!
— Traga o sedativo! — percebendo que sua agitação só crescia, Rin deu a ordem para o enfermeiro.
Tarde demais para que aquela medida fosse tomada. Kain surtou completamente e, pulando da cama rapidamente, partiu com suas mãos no pescoço de Aiden. Pego de surpresa, o homem robusto é facilmente derrubado no chão. Recobrando a consciência, ele vê o rosto de Kain, assim como o resto do seu corpo, completamente tomado por uma carapaça preta, repleta de cicatrizes na face. Suas duas mãos, revestidas pela couraça dura e áspera, apertavam o pescoço Aiden. Sufocando, ele não conseguia reagir.
Imediatamente, Helle e Adar, que estavam próximos, mobilizaram-se e agarraram Kain, tentando afasta-lo. A difícil tarefa só conseguiu ser cumprida quando Nito juntou-se a eles. Finalmente com as mãos dele fora do seu pescoço, Aiden inspirou profundamente, recuperando-se dos longos segundos sem ar. Devidamente contido, porém ainda agitado, Kain gritava.
— Você está se enganando! Você está enganando todos eles! Você não quer paz ou liberdade! Não! Nós queremos a mesma coisa! Vingança!
Aiden não tinha dúvidas de que ele estava louco, porém ele percebeu naquele momento que até nas curvas da loucura existiam verdades bem diretas.
Com a seringa contendo sedativo em suas mãos, Rin pede para que eles abram sua boca. Colocando a agulha abaixo da língua de Kain, ela plica o sedativo. Aos poucos ele vai ficando sonolento e seus músculos vão relaxando.
— Soltem. — ordenou Rin.
Finalmente contido, sob o olhar de todos ao seu redor, Kain respira devagar e ainda estampava um sorriso doentio em seu rosto.
— Meu Deus... — diz Aiden, horrorizado com a cena.
— Deus? Que coincidência. Eu também acreditava em um. Mas ele foi embora, levando todos que eu amava. — dizia ele, com voz mansa. — Por isso, se ainda existe um Deus, esse desgraçado vai ter que implorar pelo meu perdão...
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