Flor do deserto
8 Capítulo 7- Contrato
“É naquela porta ali, 221b”, disse Emanuelle quando Marcus entrou na Baker Street. Ele estacionou em frente ao prédio e desligou o carro e deu uma olhada pela janela e disse:
— Esse é um bom lugar para morar.
— É sim. Pelo menos é bem melhor do que onde eu morava antes. É menor, mas pelo menos tenho paz.
— Era na casa da sua tia que você morava, não é?
— Ela não é minha tia. É a tia de uma colega da faculdade. Ela disse que me daria total apoio aqui na Inglaterra, e que eu poderia vir sem problemas.
— Então porque você saiu de lá?
— Ela me tratava como empregada. Não que eu não pudesse ajudar com os serviços de casa, não é isso. Ela me tratava literalmente como se eu fosse a diarista dela! Me obrigava todos os dias a limpar e arrumar a casa inteira, fazer comida para o outro dia, e isso depois que eu chegava do hospital destruída de cansaço. Tinha dias que eu só dormia 3 horas por noite.
— Puxa…-respondeu Marcus, seguido de um suspiro.
— E ela vivia me ameaçando, dizendo que conhecia gente da imigração, e que se eu não fizesse o que ela mandasse, daria um jeito de me deportar. Por isso que eu saí de lá. Só fiquei alguns meses, não aguentei. Então Molly me indicou esse lugar e, graças aos céus, aqui estou.
— E as ameaças?
— Vez ou outra eu recebo umas mensagens no celular dizendo: “estou lhe avisando, volte ou vou lhe deportar”. Ontem mesmo recebi uma outra: “essa é sua última chance, volte ou você vai voltar para o Brasil”- disse, dando um suspiro e esboçando um sorriso cansado.
— E você não tem medo dessas ameaças?
— Não é que eu tenha medo, simplesmente decidi arriscar. E está dando certo até agora.
Marcus concordou com a cabeça em silêncio, então Emanuelle disse:
— Obrigada pela carona, vou descansar agora, esse dia foi muito pesado.
— É, foi mesmo. E aquele paciente que você conhecia? Ele está bem?
— Ah sim, está sim. Foi só uma luxação, não quebrou nada.
— Ótimo.
Emanuelle saiu do carro e, antes que entrasse no 221b, Marcus perguntou de dentro do carro:
— A nossa saída ainda está de pé?
— Como?
— No Pub, perto da minha casa.
— Ah, estou lembrada. Talvez um dia -respondeu dando um sorriso sem graça- boa noite Marcus, obrigada pela carona.
Tendo dito isso, Marcus respondeu com um sorriso, deu partida no carro e saiu. Emanuelle entrou no prédio.
Ao subir as escadas, Emanuelle já ouvia o violino que ressoava suavemente do apartamento do vizinho, numa melodia tão tranquila e leve, perfeita para passar a noite descansando daquele dia turbulento. Ao chegar à porta de seu apartamento, a doutora viu um bilhete preso perto na maçaneta. Estava escrito: “venha no meu apartamento se for possível. Se não for, venha mesmo assim — SH”. A jovem olhou para cima, respirou fundo e resmungou “só pode ser brincadeira isso”, em seguida recebeu uma mensagem no celular dizendo: “não é brincadeira, desça aqui- SH”. Ela olhou para a mensagem e bufou, então colocou as suas bolsas dentro de casa, trancou a porta e desceu para o apartamento do vizinho.
O som do violino estava mais alto, e a melodia estava admirável . A doutora parou na porta e ficou por alguns instantes ouvindo e aproveitando a música. Então finalmente resolveu bater na porta. Uma voz grave respondeu lá de dentro: está aberta! Emanuelle lentamente girou a maçaneta, abriu a porta e, hesitante, entrou. A sala estava desarrumada do mesmo jeito quando ela a viu pela primeira vez, a diferença é que a lareira estava acesa, dando ao ambiente um aspecto um pouco mais aconchegante. De frente para a janela, voltado para a rua, estava o Holmes mais novo, com seu roupão de dormir e tocando violino. Seus olhos estavam fechados, mas quando Emanuelle fechou a porta atrás de si, ele parou de tocar, se virou um pouco para a jovem, e indicou com o arco do violino um envelope de cor parda em cima da mesa, e falou sem nem ao menos olhar para ela:
— Isso pertence a você .
Dito isso, ele se voltou para a janela e voltou a tocar. Emanuelle pegou o envelope e o abriu, encontrando as fotos e os documentos, e comentou baixinho: “então foi assim que você descobriu”. Quando ela achou o jornal com sua foto enquanto folheava os documentos, ela levou à mão à boca e pousou os outros papéis na mesa, focando somente nesse documento. Seus olhos encheram de lágrimas, fazendo algumas caírem, e aquela péssima sensação na boca do estômago voltou com toda a força. Lembranças daquele episódio de sua vida voltaram à sua mente, fazendo a doutora suprimir um soluço. Então ela recolheu os demais documentos, e comentou baixinho, mais para si mesma, do que para Sherlock:
— Porque você fez isso comigo?
— Não consigo -respondeu Sherlock parando de tocar, mas ainda voltado para a janela.
— Como? -Sherlock então se virou, e olhou para a jovem, respondendo:
— Hoje no necrotério, você disse para eu decifrá-la...eu...não é tão fácil assim te decifrar.
— Espera, como assim? Eu lembro o que você disse quando me viu pela primeira vez, sabia até que tinha um gato na minha casa antiga!
— Sim, essas coisas básicas eu sei -disse abanando a mão- mas eu não consigo saber quando você fala a verdade ou quando mente, não consigo saber se esconde alguma coisa. Enfim, não tenho facilidade em decifrar o que se passa dentro de sua cabeça. E isso me incomoda, por isso fiz isso.
— Então -disse ela lentamente, levando à mão à cintura- por você estar incomodado com a minha pessoa, foi que você me “desmascarou”.
— Não é “sua pessoa” que me incomoda. Pelo contrário, sua mente é um desafio para mim, e eu adoro um desafio -Emanuelle corou instantaneamente- por isso que eu me interessei em buscar aquilo que eu não sabia sobre você, e sabe de uma coisa? Eu acredito que ainda faltam mais informações.
Nesse momento Sherlock se aproximou alguns passos da jovem, fazendo com que uma distância, antes, de metros, virasse apenas centímetros, enquanto falava lentamente, apertando os olhos:
— O que eu ainda não sei sobre você?
Emanuelle como reflexo, andou para trás e escorou na parede, tentando aumentar o curto e incômodo pouco espaço entre os dois. Sentiu seu corpo estremecer, borboletas voavam a toda força em seu estômago. “Esses olhos” ela pensou. Então, insegura, respondeu:
— E se eu não quiser falar?
— Você precisa me dizer.
— Porquê?
— Tenho que conhecer bem os fatores que envolvem meu caso, e como você se tornou um deles, preciso saber de tudo.
— Nem todas as informações são relevantes para “seu caso”.
— Isso sou eu quem julgo -falou, inclinando levemente a cabeça para frente.
— Veremos -respondeu Emanuelle, dando um empurrãozinho no detetive, para poder conseguir sair da parede. Em seguida, pegou o envelope com os documentos, pôs a mão na maçaneta e falou “boa noite sr Holmes”, e então saiu.
Ao entrar em casa, Emanuelle se jogou no sofá, e levou as mãos à cabeça. “Que dia foi esse”, resmungou a doutora. Pensou no que tinha acabado de ouvir. Se perguntou porque ele não conseguia decifrá-la, ela era tão difícil assim? Sem falar naquela aproximação repentina dele. Aqueles olhos cor cristal, destacados ainda mais pelo ambiente iluminado pela lareira, olhando fixamente nos olhos dela, e se aproximando. Emanuelle por um momento sentiu-se hipnotizada ao lembrar daquela cena, deixou-se envolver por aquele olhar intenso; mas foi trazida de volta de seus pensamentos por aquela péssima sensação na boca do estômago que voltou com toda força. A mesma frase que ecoou mais cedo pela sua mente, ecoava de novo: “não, a solidão me protege”.
Ainda no sofá, lembrou-se do Pen Drive, então ela o retirou do bolso e o olhou. Era simples, pequeno e sem nada de especial. Pensou por um momento se deveria ter contado a Lestrade ou a Sherlock sobre esse objeto, poderia ser fundamental ao caso, dependendo do conteúdo. Só haveria um jeito de descobrir: abrindo os arquivos no computador. “Mas eu mereço um banho quente primeiro”, pensou.
Depois de um longo banho quente, a doutora colocou seu pijama e, ainda com os cabelos molhados, abriu seu notebook e inseriu o Pen Drive. Ao clicar sobre a única pasta que tinha salvo nele, a tela de repente ficou preta e um conjunto de números e letras verdes dançavam sobre o fundo preto. Estava criptografado. “Ótimo”, resmungou a doutora, cruzando os braços. “Isso deve ser realmente importante”, pensou. Decidiu que assim que tivesse a oportunidade iria contar para seu vizinho. Ma ela cogitou que ele iria ficaria furioso por mais uma mentira. “Não, deixa para lá. Vou ver até onde isso vai, se for realmente necessário eu conto. Talvez eles consigam resolver até sem esse Pen Drive” falou a doutora para si mesma.
Emanuelle fechou o computador, retirou o Pen Drive, e o guardou na caixinha de jóias. Depois disso, tomou uma xícara de leite quente e foi dormir. O dia tinha sido, de fato, exaustivo.
***
Era madrugada, e a mesa estava cheia de garrafas de cerveja, e a fumaça dos cigarros enchia o ambiente. No fundo de um bar na periferia de Londres, um grupo de homens urravam, cheios de álcool, torcendo para outros dois que disputavam uma “queda de braço”.
Um homem se aproximou do grupo, e observava a disputa. Um dos competidores era um homem de meia idade, de barba mal cuidada, fisicamente forte, e estava com alguns curativos recentes. Ele estava em vantagem sobre o oponente, que continuava resistindo. O grupo berrava e sacudia no ar algumas cédulas, torcendo pela sua aposta. O jovem que estava ali assistindo tudo, lembrou do soco no seu estômago que recebeu mais cedo, que ainda doía, como da promessa que fizera ao mais velho: “eu vou recuperar o Pen Drive, eu juro”. De súbito, o cara das cicatrizes abaixou o braço do oponente na mesa, ganhando o jogo. Todos gritavam pornofonias e xingamentos, enquanto o vencedor recolhia algumas células dos espectadores. Ao avistar o jovem, se aproximou dele. O jovem disse:
— Sempre bebendo, não é Wilson?
— É um meio de vida, não é? E o que você quer rapaz? mais um dos meus serviços? — Já faz um bom tempo que você não me contrata.
— São tempos difíceis, temos que ser discretos em tudo.
Como que entendendo o recado, Wilson olhou para os lados e disse baixinho para o jovem: “vamos conversar lá fora”. Quando o eles se afastaram do grupo, o homem que tinha perdido, puxou Wilson, que estava de costas, pela gola da camisa dizendo: “ei idiota, não vai escapar de mim tão fácil”. Wilson se virou de repente, ao que o perdedor ainda acrescentou, em tom de desafio: “o jogo ainda não acabou seu verme”, e cuspiu no sapato do ganhador; o homem estava claramente bêbado. Wilson rapidamente puxou uma pequena pistola e apontou para a cabeça do seu agressor, que recuou alguns passos atrás, e o grupo de homens que assistia tudo também se afastou. “Eu é que decido quando o jogo acaba”, e tendo dito isso, abaixou a arma e saiu.
Os dois homens saíram do bar noturno, e foram para a calçada do outro lado da rua, ao que foi Wilson que quebrou o silêncio:
— Certo, o que você quer?
— Quero que você recupere um objeto para mim.
— Que tipo de objeto?
— Um Pen Drive. Segundo a informação que me passaram, ele foi deixado com essa moça.
O jovem deu para Wilson duas fotos: uma de Emanuelle entrando no carro de Marcus no estacionamento do St Bart’s, e a outra era a mesma foto, só que ampliado no rosto dela. Wilson olhou as fotos e comentou:
— Nossa que belezinha. Eu sei quem é. Ela me atendeu nesse hospital da foto hoje pela manhã. Briga de bar. É só isso o que você quer?
— Não. Quero que você mate-a também. Ela pode se tornar um problema. Segundo meu chefe, é um risco que precisa ser eliminado.
— Onde eu acho ela?
— O endereço está atrás dessa foto.
— Entendi. Bom...isso vai sair caro meu amigo.
— Caro quanto?
— Cinco mil pratas.
— Só tenho dois mil, e é isso o que você vai aceitar.
O homem robusto deu uma gargalhada rouca, e em seguida perguntou em tom de desafio:
— Quem você pensa que é, moleque? Já esmaguei moscas maiores do que você!
Nesse momento, o jovem abriu o zíper do casaco, mostrando uma bomba presa ao seu peito, e apontou uma pistola para Wilson, que recuou dois passos. O jovem lançou um olhar desafiador e falou tranquilamente:
— Acredito que nenhuma das outras “moscas” tinha a coragem de estourar uma bomba no seu peito, matando seu “esmagador” também.
Wilson começou a rir nervosamente, e, suando frio, com um sorriso nervoso no rosto falou:
— Calma, calma meu amigo...Não precisamos recorrer à isso...dois mil está ótimo para mim.
O jovem vagarosamente guardou a arma e fechou o zíper do seu casaco. O velho robusto, agora mais aliviado, continuou:
— Alguma recomendação especial para apagá-la?
— Não. Só faça com que pareça um assalto, ou algo do tipo. Faça parecer um desses crimes comuns.Só não chame a atenção da polícia com isso. Estamos combinados?
— Sim, sim. Diga ao seu patrão que não tem com o que se preocupar.
O jovem assentiu com a cabeça, e puxando um envelope, o entregou. Wilson abriu, contou rapidamente o dinheiro que tinha dentro e disse:
— Aqui só tem mil -falou Wilson.
— Mil agora, e mais mil quando você me entregar o Pen Drive. Vejo você daqui a três dias.
— Como acho você?
— Mesma hora e local de hoje.
— Entendi.
Acenando com a cabeça, o jovem se despediu e se virou para ir embora, ao que Wilson se apressou e disse:
— Espere! Depois de todos esses meses eu ainda nem sei o seu nome. Como devo chamá-lo? E o seu Chefe?- o jovem parou, e sorriu, respondendo:
— Nos chame de “Lawrence da Arábia”
***
Deserto, areia até perder de vista. O sol brilhava forte no céu. Emanuelle podia sentir o calor no seu pescoço. Ao seu lado, apareceu sua mãe. Ela estava de pé, com a garganta cortada e muito sangue descia pela sua roupa. Sorria gentilmente para a doutora, enquanto dizia:
— O que você está fazendo aqui filha? Pensei que tinha mandado você para sua avó.
— Mãe...estou com saudade...
A jovem abraçou a mãe, e lágrimas corriam pelo seu rosto. Quando ela soltou o abraço, a mãe caiu no chão, morta. A doutora chorou intensamente enquanto tentava reanimar a mãe e puxá-la de volta do chão, pois a areia a estava engolindo. E então a mãe da doutora sumiu. Emanuelle chorava feito uma criança, enquanto cavava na areia em busca da mãe. De repente, alguém a puxou pelos cabelos e a levantou do chão, fazendo-a gemer de dor. Era um homem num cavalo preto, vestido de uma túnica árabe da mesma cor. Ao olhar para o rosto do homem, Emanuelle prontamente o reconheceu: era seu pai. Ele a soltou no chão, descendo do cavalo em seguida, e a segurou novamente por seus cabelos a arrebatando do chão, e em tom de ameaça disse, na sua língua materna: “pensa que vai escapar dessa vez? Sua prostitutazinha. Vai cumprir com seu dever! Vai me obedecer!”. Dito isso, o pai da jovem passou um braço em volta do pescoço dela, e o outro segurou seu tronco, a imobilizando no chão. Então ela viu, surgindo da areia, um homem vestido em roupas também árabes, com o rosto coberto. O homem colocou-se sobre a doutora e forçou seu corpo contra o dela. Emanuelle entrou em desespero e começou a se debater e a gritar com toda a sua força, lutando para se desvencilhar dos braços do pai, que assistia à tentativa de abuso e ria maleficamente. Num golpe de sorte, a doutora acertou o rosto do agressor, descobrindo-o do pano que o cobria. Havia uma cabeça, mas não havia um rosto. Somente um dizer em árabe, escrito repetidas vezes, naquilo que deveria ser um rosto. Estava escrito Hukm Allan. A doutora se debateu com toda a força e gritou a plenos pulmões ao observar o “rosto” de seu agressor, que prosseguia forçando o seu corpo, como se as tentativas de Emanuelle não fizesse diferença nenhuma sobre ele. De repente, então, ela sentiu como se estivesse caindo e a luz ofuscante do deserto foi se escurecendo; quando finalmente voltou a si, percebeu que estava no chão, do lado de sua cama, em seu quarto, no 221c. Percebeu que tinha sido um pesadelo, e que tinha caído da cama.
Emanuelle estava confusa, seus olhos cheios de lágrimas . Ela estava molhada de suor. Viu que não caiu sobre o chão duro, mas sim sobre vários travesseiros que estavam no chão. Ela se perguntou, confusa: “como esses travesseiros vieram parar aqui?”, e ouviu baterem em sua porta logo em seguida. Zonza e cambaleando, ela correu para abrir a porta, sem nem se quer acender as luzes de casa. Quem estava na porta era a sra Hudson.
— Minha querida, está tudo bem aí? -perguntou a gentil senhora, que vestia um roupão de oncinha.
— Está -mentiu, com a voz trêmula- porque? E que horas são?
— São duas da manhã. E você estava gritando e chorando alto e chamava pela sua mãe -disse num tom terno e amoroso.
Emanuelle, não conseguiu segurar mais o choro, e desatou em lágrimas e soluços. A gentil senhora a levou para dentro do apartamento e a sentou no sofá, que era o ponto mais iluminado do cômodo, visto que a lua estava cheia e o sofá ficava perto da janela.
— Me desculpe -disse Emanuelle entre soluços- foi um pesadelo horrível. Eu acordei a senhora?
— Não, não minha querida. Eu já estava acordada, meus quadris estão doendo e não me deixam dormir, foi quando ouvi você e subi para ver se estava bem.
Emanuelle concordou com a cabeça. Depois que a doutora se acalmou, a sra Hudson continuou:
— O que lhe aflige tanto? -a doutora respirou fundo, então respondeu:
— Fantasmas de um passado sombrio. Lembranças que matam aos poucos minha alma. Não sei o que Sherlock falou à senhora sobre mim, não sei a história que ele contou; mas a minha realidade foi muito mais difícil.
— Minha querida, a história que ele disse sobre você não importa. Porque você não me conta a sua história?
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