Flor do deserto

11 Capítulo 10- Fachada


Notas iniciais
Olá gente. Nesse capítulo coloquei alguns termos da perícia criminal e medicina legal. Qualquer dúvida podem pesquisar na internet ou perguntem nos comentários. Boa leitura.

Com Mary ainda parada na porta, Sherlock se apressou para sair da ala. Ao chegar no corredor, ele olhou de um lado para o outro e constatou que era verdade. Em seguida Mary e John saíram. Sherlock falou para ambos:

— John, leve Mary de volta para o quarto; vou procurar Emanuelle -disse já andando em direção às escadas.

— Posso ajudar a procurá-la Sherlock! -falou John.

— Não, fique com Mary, daqui a pouco encontro vocês -falou estando já no fim do corredor, não dando chance para John retrucar.

Sherlock começou sua busca pelos banheiros, em seguida foi para a sala da emergência, depois para a ala de repouso médico, indo por último para a cantina, onde encontrou Emanuelle.

A doutora estava sentada em uma mesa no canto do saguão. Sentada à frente dela estava Molly com alguns documentos em seu colo. Sherlock se aproximou a passos rápidos, com o cenho fechado. Emanuelle estava conversando com a patologista e, quando viu que o detetive se aproximava, desviou o olhar para trás de Molly. A patologista se virou para ver quem vinha. Molly abriu um sorriso tímido e deu um “oi” baixinho, ao que Sherlock ignorou, e falou em tom severo para Emanuelle:

— Porque você fez isso?

— O que eu fiz? -perguntou, franzindo as sobrancelhas.

— Porque você sumiu?

— Eu vim beber água -disse baixando a cabeça e olhando para a mesa. Com a linguagem corporal da doutora em resposta ao que ele disse, Sherlock entendeu porque ela quis se isolar por um momento. Aos poucos ele estava rompendo o bloqueio que o impedia de sondá-la, e em breve isso não seria uma tarefa tão difícil. Mas ele queria testar a sua teoria, então arriscou:

— Não adianta você imaginar como poderia ter sido, não vai mudar o que aconteceu. Seja feliz hoje, mesmo que ontem você não tenha sido -disse num tom de voz mais ameno, enquanto olhava ao redor para as outras mesas vazias, voltando os olhos para a doutora ao terminar a frase. Depois de alguns segundos de silêncio continuou -Pensei que você tinha ido embora. Não faça isso de novo.

Emanuelle mordeu os lábios, ainda olhando para a mesa. Balançou positivamente com a cabeça. Ela respirou fundo, levantou a vista, olhando para os olhos cristal do detetive e disse:

— Me desculpe, eu não estava bem. Molly acabou me encontrando no corredor, então ela me trouxe pra cantina. Estávamos conversando.

— Ah, oi Molly -disse o detetive, parecendo só perceber a presença da patologista naquela hora- isso é o laudo que eu pedi? Ótimo! -disse, puxando a pasta do colo dela, sem pedir permissão, sentando-se à mesa com elas, folheando o relatório, enquanto comentava “interessante, isso é um bom começo”.

Molly, ao ver que foi ignorada de tal forma, respirou fundo, e falou em tom triste para Emanuelle:

— Bom, já que não sou mais necessária, acho bom voltar ao trabalho.

— Pode ficar se quiser Molly, não precisa ir -disse Emanuelle.

— Não, é melhor eu voltar. Tem muita coisa para fazer -disse dando um sorriso tristonho, levantando-se da cadeira.

— Obrigada Molly -falou a doutora em tom amigável.

— De nada, qualquer coisa estou por aqui. Até mais Sherlock -o detetive não respondeu, estava entretido examinando o conteúdo dos documentos. Molly respirou fundo e se afastou deles, saindo da cantina.

Sherlock e Emanuelle ficaram sentados por alguns minutos na cantina. Emanuelle quebrou o silêncio:

— Sabe, você não deveria tratar ela assim.

— Tratar assim quem? -perguntou enquanto discava alguns números no celular, levando-o em seguida à orelha. Estava ligando para John.

— Molly. Ela é muito gentil, e está sempre ajudando você. Não devia ignorar ela dessa maneira. Eu acho até...que ela gosta de você.

— Sentimento é um defeito químico achado nos perdedores- disse sem olhar para Emanuelle, enquanto permanecia esperando do outro lado da linha- o amor é uma desvantagem perigosa.

Emanuelle encostou-se na cadeira, pensativa sobre o que acabou de ouvir. “Sentimentos são destruidores -pensou- se minha mãe não tivesse se apaixonado pelo meu pai, ela não teria destruído a vida dela dessa forma. E todo os meus problemas sentimentais são também resultado desse erro. De fato, importar-se não é uma vantagem”.

Depois de um tempo, finalmente atenderam a ligação do detetive, ao que esse falou:

— Pode descer, achei Emanuelle, encontro você na cantina.

— E Mary? -perguntou Watson.

— Emanuelle já está subindo para ficar com ela. Seja rápido.

Tendo dito isso, desligou. Ainda teclando algumas coisas no celular, falou com a doutora sem tirar os olhos da tela:

— Vá para o quarto ficar com Mary, John já está descendo, já perdemos tempo demais.

Emanuelle concordou com a cabeça e andou em direção à saída da cantina, sem se despedir de Holmes. Ao se distanciar alguns passos do detetive, ela parou e se virou, e disse:

— Você disse que não podia me “ler” -disse fazendo um sinal de aspas com os dedos- mas como adivinhou o motivo que eu saí da sala?

— Talvez eu esteja me alfabetizando quanto à você.

— Ah...então tá -Emanuelle deu de ombros e continuou- bom, contanto que você pare de invadir minha casa, por mim tudo bem.

Sherlock, que até o momento permanecia sério, reagiu ao comentário da doutora com um sorriso malandro, ao que a doutora sorriu também. Emanuelle virou-se, e acenou de costas para o detetive, enquanto se distanciava.

***

— Então, o que você planeja exatamente? -perguntou Watson enquanto descia o último degrau da escadaria da entrada do hospital.

— No momento vamos fazer uma visita à casa do nosso amigo falecido -disse Sherlock enquanto estendia a mão para um táxi.

O táxi parou na frente da entrada do hospital, e os dois entraram no carro. Do outro lado da rua havia uma praça pequena, com alguns bancos de madeira. Sentado num dos bancos, de frente para o hospital, estava um homem de aparência idosa, com um saco de pipoca nas mãos. Ele estava alimentando os pombos, que o rodeavam em grande número. Ele olhou rapidamente para o táxi, como alguém normalmente olharia. Assim que o veículo saiu e dobrou a esquina, o homem pegou do seu bolso o celular e passou uma mensagem: “ele saiu do hospital, está acompanhado.”, em seguida escreveu a placa do carro, seguido de um “diga qual será minha próxima localização”.

***

Emanuelle subiu até o quarto onde Mary estava internada, de forma que a sra Watson a recebeu deitada, com um largo sorriso no rosto, e disse:

— Você vai ficar como minha babá hoje?

— Sim vou sim, enquanto os rapazes correm atrás de pistas -disse, enquanto arrastava uma cadeira para sentar-se perto da maca que Mary estava- e como você está? e as suas costelas?

— Depois que saí da sala de parto, tiraram um raio X do meu tórax. Não foram duas fraturas, foi somente uma costela que fraturou, mas não se deslocou do seu eixo, ou seja, só a imobilização e analgésicos resolvem. Com o tempo vai sarar.

— Ah, ótimo. Menos mau.

— Por enquanto vou ter que ficar com esse sutiã esquisito -Mary mostrou uma faixa que passava por cima de seus seios, rodeando seu tórax, fazendo pressão, para que o osso cicatrizasse no lugar certo.

— É esquisito, mas é necessário.

As duas ficaram caladas por um tempo, até que Mary rompeu o silêncio:

— Você nos preocupou mocinha, principalmente o Sherlock. Precisava ver a cara dele quando soube que você tinha sumido.

— Eu o encontrei na cantina, ou melhor, ele me encontrou. Ele não estava muito feliz não, devo ter irritado ele...bom, foi uma vingancinha pelo que ele fez comigo ontem -disse dando um sorriso triste, olhando para o chão.

— Eu sinto muito pelo o que ele fez querida -disse Mary amigavelmente- Watson acabou me falando, se você não se importa.

— Tudo bem -disse a jovem, olhando para Mary- alguma hora alguém ia acabar descobrindo. Não se pode guardar um segredo para sempre -lembrou-se imediatamente do pen drive, respirando profundamente, tentando afastar o pensamento.

As duas ficaram em silêncio por um tempo. Emanuelle então falou:

— Ele é sempre estranho assim?

— Depende da situação. Porque pergunta?

— Desde ontem, quando voltei para casa, ele está agindo estranho -disse Emanuelle, baixando o tom de voz.

— Estranho como? — perguntou Mary, se sentando vagarosamente na cama.

— Ah, não sei, estranho, entende? Olha, ele mal falava comigo, aí ontem ele me chamou para o apartamento dele e me devolveu os documentos -Emanuelle se lembrou da aproximação repentina de Holmes, fazendo ela corar- depois colocou travesseiros na lateral da minha cama, para eu não cair e dar de cara no chão- ao ouvir isso Mary fez uma expressão de confusa- e ele fez o meu café hoje pela manhã, e por último ainda pagou o táxi.

— Uau…- disse a sra Watson, arqueando a sobrancelha, ao que continuou -sabe, talvez ele esteja tentando se redimir pelo que fez.

— Ele simplesmente não poderia pedir desculpas?

— Ah querida -disse, com um sorriso gentil- ele nunca pede desculpas a ninguém. É muito mais fácil para ele nunca admitir que está errado. Ou, se acontecer esse milagre, ele tenta demonstrar arrependimento de outras formas.

A doutora balançava positivamente a cabeça, compreendendo o que Mary disse. A sra Watson, com um sorriso matreiro, comentou ainda:

— Mas você diz isso porque está achando ruim, ou porque está achando bom?

— Não entendi -mentiu, sabia muito bem o que Mary quis dizer.

— Percebi como você ficou vermelhinha quando disse que foi no apartamento dele.

Emanuelle ficou vermelha como um tomate, ao que Mary deu uma gostosa risada da reação da doutora. Ela acabou rindo também, com o rosto entre as mãos, envergonhada. Ao se recuperar, a doutora comentou:

— Não posso negar, ele é de uma beleza estonteante. E aqueles olhos, nossa…-Emanuelle deixou a frase no ar, mas em seguida seu sorriso sumiu, dando lugar à um rosto angustiado. Olhando para o piso, continuou- mas não posso, não quero. Nem ele, nem ninguém. A solidão me protege.

— Protege você do que? -perguntou Mary, preocupada com a repentina mudança de ânimo da jovem; ao que ela respondeu, olhando para a mulher:

— Dos monstros.

As duas foram interrompidas por uma moça que chegou na porta, arrastando um carrinho cheio de comida. Era a hora do lanche dos pacientes e acompanhantes. Mary decidiu não tocar mais nesse assunto, pelo menos não por enquanto. Ainda planejava terminar essa conversa com ela. Então ambas comeram em silêncio.

***

O táxi parou em frente à um predio simples, no subúrbio de Londres. A construção não tinha mais do que três andares, e em alguns lugares o reboco estava descascado, ficando alguns tijolos à mostra. Enquanto subia as escadas da entrada, Watson falou para Sherlock:

— Pelo menos me diga porque estamos aqui.

— Incoerências.

— Como?

— Leia isso daqui, você vai entender.

Sherlock entregou a Watson os papéis do laudo oficial da necrópsia, ao que este os folheava com certa dificuldade por causa do braço limitado. Não havia dados novos além daquelas que Sherlock tinha falado no necrotério, menos por duas novas informações: dos cinco tiros que o jovem levou, dois a bala ainda estava no corpo. Um tiro na frente, e os outros quatro pelas costas. Ao avaliar os projéteis, Molly constatou que não vinheram da mesma arma, pois ambas tinham arranhões que não coincidiam com a mesma arma usada: “Rastro de escoriação não coincidentes”, leu John para si mesmo. Outro dado que chamou a atenção dele foi que somente um dos tiros tinha “halo de tatuagem”, o que evidenciava um disparo por arma de fogo à curta distância, enquanto que os outro 4 orifícios tinham somente “orla de escoriação”, evidenciando disparo à longa distância. Watson releu as informações, para ter certeza que não deixou passar nada, ao que comentou com o detetive:

— Você viu isso?

— O que? Que foram duas balas diferentes e que um disparo foi de perto e o resto de longe? sim, eu já sabia desde ontem -disse enquanto subia o último lance de escada para o apartamento.

— Se você já sabia, porque pediu o laudo?

— É sempre bom saber que estou certo -disse enquanto saia do último degrau, indo a passos rápidos para o fim do corredor.

Watson, parou no último degrau e meneou a cabeça. Seguiu em direção de Sherlock, e aproximando-se, perguntou:

— Porque estamos aqui então? -Sherlock revirou os olhos, sem se virar para John

— Vamos Watson, pense! Não deixe que a vida de casado destrua seus neurônios -John, respirou fundo para não perder a paciência com o amigo. Ele estava com dor, dormiu mal numa cadeira de hospital, e ainda tinha que fazer adivinhações. John resmungou um palavrão baixo contra Sherlock, ao que este ouviu e, voltando-se para ele, respondeu em tom zombeteiro:

— Nossa John, não precisa ser tão grosso. Vou contar para Mary -John acabou por rir cansadamente do comentário do detetive.

Sherlock parou de frente para uma porta velha de madeira, que estava lacrada por fitas de isolamento.

— Droga, a polícia já veio aqui -resmungou Sherlock enquanto partia a fita e tentava arrombar a porta. John até levantou o dedo para opinar, mas desistiu. Sherlock continuou com certa irritação na voz -eles devem ter estragado tudo! Malditos comedores de rosquinha.

Por fim, Sherlock conseguiu abrir a porta e adentrou no apartamento. O lugar era simples, havia apenas um quarto com uma cama de solteiro, uma cômoda branca com um abajur azul bebê, uma estante com alguns livros da literatura popular de Londres, com uma gramática. Havia ainda uma cozinha apertada, com uma pia de inox limpa, e uma sala de estar com um sofá vermelho de dois lugares, sem mesa de centro, e uma estante baixa onde estava uma televisão antiga, e um porta retrato. O ambiente estava muito organizado e limpo. Sherlock observou os lençóis da cama, estavam bem dobrados e a cama bem arrumada, pareciam novos. A mesma sensação ele teve ao observar a cozinha e os utensílios. Tudo parecia intocado.Os lixeiros da casa estavam vazios, “a perícia deve ter pego todos para analisar”, pensou. A não ser pelo porta retrato em cima da estante da televisão, com uma foto do jovem numa beca de formatura, a casa parecia nunca ter sido habitada. Watson após algumas voltas pela casa falou:

— Esse lugar parece novo, até cheiro de novo tem.

— Correto. Até que seu cérebro não está tão degenerado assim -disse enquanto analisava o porta retrato com a lupa. John ignorou a gracinha.

Sherlock então guardou a lupa, se ergueu e pegou o celular e fez uma ligação. Estava discando para Lestrade. Ao segundo toque ele atendeu:

— Você mandou seu pessoal para a casa do nosso amigo terrorista e nem me avisou?! -Lestrade do outro lado da linha respirou fundo, e respondeu:

— Se eu chamasse você, isso iria levantar suspeitas de meu pessoal, você entende? -falou quase num sussurro.

— Quero acesso a tudo que vocês tiraram da casa dele.

— Assim que o resultado de todo material sair, você será o primeiro a saber.

— Eu quero os materiais, não quero esperar idiota nenhum fazer a análise, eu mesmo faço isso.

— Não posso fazer isso Sherlock! -disse indignado- o que eu vou dizer para o meu pessoal?

— Você vai arrumar uma boa desculpa, é bom nisso. O endereço você já sabe, mande tudo para lá -Sherlock ouviu Lestrade bufar e praguejar do outro lado da linha- isso só vai funcionar se você me passar tudo que você descobrir. Pelo menos me avise antes de seus brutamontes fardados sujarem a minha cena do crime.

Sherlock desligou o telefone sem dar chance para Lestrade responder. Em seguida o detetive retirou um fino saco plástico do bolso e colocou o pequeno porta retrato dentro dele, o colocando no bolso interno do sobretudo. Watson perguntou:

— O que descobriu?

— Ele não morava aqui.

— Vinhemos para o endereço errado?

— Não John -disse com certa impaciência- olhe ao redor! tudo novo! Parece que nada aqui foi tocado ou movido de seu lugar original. A não ser por essa foto.

— Então porque tem no registro esse endereço?

— Contas em banco, contratos, carteira assinada, compras online; para tudo você precisa ter um endereço. Ele não poderia dar o endereço de onde ele realmente vivia, para que não fosse alvo fácil de qualquer investigação, como está sendo agora. Ele precisava de um endereço que “não levantasse suspeitas”, um endereço de fachada -Sherlock olhava ao redor, estavam na sala de estar, e os olhos do detetive percorriam cada canto, esquadrinhando tudo que sua vista alcançava- Provavelmente o imóvel é alugado -comentou por final.

Sherlock saiu do apartamento a passos rápidos, pegando John de surpresa, de forma que ele apressou o passo para acompanhá-lo. Logo ele estava descendo as escadas em direção ao primeiro andar. Uma moça latina tinha acabado de entrar no prédio. Sherlock sorriu do modo mais gentil possível, e foi falar com a jovem:

— Com licença madame, a senhorita saberia informar se existe algum apartamento nesse prédio para alugar? Acabei de me divorciar e preciso de um lugar para começar de novo -disse abaixando os olhos ao chão, e em seguida olhando de forma triste para os olhos escuros da latina. John chegou nesse momento, ao lado do detetive, ao que Sherlock o apresentou como sendo seu primo, entretanto a moça mal deu atenção ao John.

— Ah...eu acho que tem sim. Tem uma pessoa que aluga alguns apartamentos no último andar, ainda deve ter algum vago.

— Isso é ótimo -disse, abrindo um largo e sedutor sorriso para a jovem, fazendo-a rir de volta.

— Eu vou lhe dar o numero do telefone dele -disse enquanto tirava uma caneta e um pedaço de papel da sacola que carregava, e escreveu uma série de números- tome, este de cima é o dele. E o de baixo é o meu número, caso você precise conversar -disse a jovem dando uma piscadela.

— Muito obrigada -disse pegando o papel das mãos dela, e em seguida beijou a mão da moça, com a pose de um cavalheiro. Passou então adiante, saindo do apartamento, com John em seu encalço. Ao sair, John riu-se da cena que acabara de ver, e comentou com o detetive:

— Realmente... você daria um excelente ator -disse enquanto caminhavam pela rua.

— As pessoas são manipuladas muito facilmente; basta alguém chegar com um sorriso no rosto e uma fala macia. Não se engane John, o mal usa muitas máscaras, sendo a pior delas a máscara da virtude.

John não falou mais nada, e seguiram boa parte do percurso em silêncio. Então o doutor rompeu o silêncio depois de um tempo:

— Emanuelle não parece ser uma pessoa que está embaixo de seu poder de manipulação -Sherlock parou de andar, abruptamente, fechando o cenho.

— Porque falou isso?

— Ora vamos Sherlock, você demorou mais de meses para descobrir quem ela era, enquanto algumas pessoas não duram nem sequer alguns segundos diante do seu cérebro mecânico.

— Emanuelle não é o foco do assunto no momento, vamos nos concentrar no que vinhemos fazer aqui -disse voltando a caminhar a passos rápidos.

Ah...claro -disse, tentando acompanhá-lo no ritmo da caminhada- sabe o que eu acho?

— Não sei, não quero saber, tenho raiva de quem sabe.

— Acho que você não consegue lê-la do mesmo jeito que consegue com todo mundo, por isso que você mal falava com ela -Sherlock parou de andar de novo, e John, se colocou na frente dele, fazendo sinal com a mão boa, para ele permanecer no lugar, ao que o detetive reagiu virando os olhos e respirando fundo, com ar de impaciência- não sou tão bobo assim Holmes, você não consegue lê-la, não é verdade?

Sherlock respirou fundo, e passando a olhando os prédios à sua frente, respondeu sem olhar para John:

— É verdade, mas com o tempo não vai mais ser.

— Ha-ha, eu sabia! -disse John, com um sorriso de triunfo no rosto- sabia que tinha algo a mais! -Sherlock revirou os olhos, dizendo:

— Podemos continuar?

— Espera -John passou a mão no queixo enquanto olhava para o chão, pensativo- a única que fazia isso com você, pelo que me lembro, era “A Mulher”. Será que... -apontando o dedo para ele, perguntou- você, por acaso, está apaixonado por Emanuelle, Sherlock? -O detetive fez uma careta como se tivesse acabado de ser ofendido, ao que prontamente respondeu:

— Sentimentos são para idiotas John, meu cérebro não processa essa química nociva.

— Ou talvez, por ser estranho para você, não esteja conseguindo entender nem interpretar os sinais químicos processados nessa cabecinha. É como um vírus contra o qual um computador não tem proteção, por não ser conhecido pelo antivírus instalado. Logo todo seu sistema fica infectado, e o processamento da máquina começa a dar erro -Sherlock olhou para o chão por um momento, e prontamente respondeu, erguendo o olhar em tom desafiador:

— Se esse “vírus” causa dano ao sistema como você disse, porque acha que eu deveria alimentá-lo? Eu não quero meu sistema danificado, então preciso eliminar o vírus -Dito isso, Sherlock voltou a caminhar a passos rápidos.

— Algumas vezes perdemos algumas coisas na vida para ganharmos outras melhores Sherlock! -disse John,tentando acompanhar os passos do detetive- você que sabe, pode estar perdendo a chance de, finalmente, um dia ser feliz.

Sherlock e John continuaram caminhando rua abaixo, cruzando no caminho com uma senhora idosa, curvada pela idade, que vestia uma roupa florida com um lencinho cobrindo os rasos cabelos. Ao se afastar uma distância razoável deles, a senhora tirou um celular da bolsa, e mandou uma mensagem : “Indivíduos seguindo a pé, terei que manter cauteloso contato visual. Aguarde novas informações”.