Flor do deserto
32 Capítulo 31- Perdão e morte.
Bom dia cidadãos ingleses! Começamos nosso telejornal com boas notícias. Depois da operação frustrada liderada por Harrison na manhã de ontem, o inspetor Lestrade liderou uma equipe que efetuou a prisão de pelo menos vinte suspeitos aos arredores da estação London Victoria. Segundo informações cedidas pelo próprio Lestrade, ele tomou posse ontem à noite da informação da localização dos indivíduos, agindo imediatamente. Depois da apreensão foi descoberto que os suspeitos, na verdade, eram realmente componentes do grupo terrorista Hukm Allah. Entretanto o inspetor falou que infelizmente muitos ainda conseguiram escapar, pegando um trem na estação citada e se refugiando no sul da Inglaterra. Ao conversarmos com ele sobre isso, ele disse: “obtivemos as informações da localização dos suspeitos muito atrasada, permitindo a fuga de muitos deles. Não temos idéia do número dos que fugiram, mas sabemos que foram para o sul da Inglaterra. Todos os componentes desse grupo que foram presos nada dizem no interrogatório, eles guardam fielmente uma lei do silêncio, mesmo sob o risco da condenação à pena de morte. Isso está dificultando muito nossas investigações. Por isso convoco todos os cidadãos dessa região sul que, se virem algo suspeito, por favor denunciem. Não tenham medo de ligar e informar às autoridades. Contamos com a ajuda de todos vocês para pegarmos esses delinquentes”.
Nossa equipe obteve a informação que o chefe de segurança Harrison foi retirado do cargo de chefia de toda essa operação contra o Hukm Allah. A decisão foi tomada ontem numa reunião entre principais líderes do governo e o parlamento. Não tivemos informações sobre quem está no comando agora, mas pelas apreensões da noite passada, já podemos esperar que as investigações agora serão efetivas, e logo veremos o fim desse terrível grupo que ameaçou a paz nesse período natalino.
***
O dia amanheceu. A chuva havia parado, e no lugar dela brancos flocos de neve caíam do céu. Finalmente a neve chegara na cidade. Uma fina camada de gelo fofo era formada nas ruas, e a cidade ganhava um novo aspecto a poucos dias do Natal. Emanuelle dormia no sofá preto do 221b. Sherlock estava sentado em sua poltrona de frente para a lareira. Seu olhar estava distante. Ele passava os dedos pelos seus lábios, lembrando-se da noite anterior. Mesmo com “A Mulher”, Sherlock não sentiu nada parecido com aquilo. Era algo que ardia dentro dele, e o fazia sentir-se bem. Mas ao mesmo tempo lembrou-se que aquilo o distraiu, tornando-o momentaneamente indefeso, feito cativo por aquele beijo que fez sua mente parar. Era como uma droga, que abatia seus reflexos, e destruía suas defesas; mãos dava-lhe um imenso prazer. O detetive refletia profundamente sobre tudo isso. Lembrou-se da conclusão que chegara na sala de interrogatório. E agora ele passava a acreditar nela de novo. O efeito que aquele beijo lhe causou era a prova de que ele realmente estava sentindo. Mas ele não admitiria isso, nunca. Decidiu manter segredo e ver até onde isso chegaria. Ele foi trazido de volta de seus pensamentos pela senhora Hudson que entrou no apartamento com uma bandeja com café e biscoitos. Sherlock se levantou da poltrona e colocou a bandeja em cima da mesa. A senhora trazia um jornal também, colocando-o numa mesinha perto de onde Emanuelle dormia. A Sra Hudson, ao fechar a porta quando saiu, fez a jovem acordar do sono. Emanuelle abriu os olhos e tentou reconhecer o ambiente onde estava. Ao ver que estava na casa de seu vizinho, a jovem sentou-se no sofá, tirando de cima de si o grosso lençol que a cobria. Uma violenta dor de cabeça fez ela levar sua mão à testa e resmungar. Sherlock estava de pé em frente à mesa e ao ver que a jovem despertou, encheu uma xícara com café.
—O que houve? -perguntou Emanuelle, olhando confusa para Holmes.
—Até onde você lembra? -perguntou Sherlock, indo em direção à moça levando o café forte.
—Lembro de estar bebendo com Marcus, então fui no banheiro, e depois você apareceu e…-Emanuelle pausou, arregalando os olhos quando a lembrança voltou à sua mente- ele drogou a minha bebida...maldito canalha.
—E depois?
—Saímos do bar e...estava chovendo muito...e, lembro de você me abraçando e, lembro de ter sentido meu coração quase sair pela boca...mas, porque?
—Beba, vai fazer você melhorar -disse Sherlock, dando a xícara para moça, interrompendo a busca mental dela por aquilo que ele sabia que tinha acontecido. Holmes se dirigiu à janela, observando a rua.
— O que houve depois disso Sherlock? Eu não lembro direito. Só algumas imagens borradas em minha mente, e uma sensação estranha, embora muito boa.
Sherlock engoliu em seco. Ele esforçou-se para sua voz não sair trêmula.
—Você acabou bebendo demais. Tive que carregá-la até em casa.
—Minha nossa, que vergonha -disse abaixando a vista, e acabou por ver o jornal na mesinha. Ao ver a matéria de capa e a foto lá estampada, a jovem arregalou os olhos. Sherlock ainda falava olhando pela janela. Não viu que a moça estava olhando o jornal.
— Essas coisas acontecem. Não houve nada demais além disso.
— Você tem certeza? -a moça tinha um tom de indignação na voz, chamando a atenção do detetive.
Ele se virou para a jovem, vendo-a com o jornal virado para ele, mostrando a primeira folha. Nela havia a foto dela e de Sherlock se beijando, antes da jovem perder a consciência. No título da reportagem havia escrito: “Sherlock Holmes é flagrado aos beijos com uma jovem desconhecida — será que as investigações estão mesmo sendo levadas à sério?”.
—Isso parece nada demais para você? -disse a jovem, indignada.
— Para minha defesa, foi você que me beijou.
— Ah, sério? -disse olhando para a foto- e você me respondeu.
— Queria que eu soltasse você na calçada?
Emanuelle revirou os olhos, andava de um lado para outro, nervosa.
—Não sei porque você está brava comigo, não foi eu quem tentou te drogar -disse Holmes, voltando-se novamente para a janela.
—Ah...Marcus...se eu pudesse eu dava um soco naquele canalha.
—Bom, eis aí a sua oportunidade.
Holmes vira que um carro parou na frente do prédio. Um homem desceu e bateu na porta da frente. Emanuelle foi à janela para ver quem era. Ao reconhecer o veículo de Marcus, ela rosnou uma ofensa contra aquele homem e rapidamente desceu as escadas. Marcus mal acabara de cruzar a porta de entrada, quando Emanuelle desceu e, antes que pudesse dizer qualquer coisa, ela acertou-lhe um forte tapa no rosto, e depois outro. Marcus nada disse, apenas olhava para o chão, seus olhos se enchendo de lágrimas. Emanuelle disse entredentes:
—Você é um monstro. Seu canalha! Me drogou para se aproveitar de mim, mesmo sabendo que eu não queria!
— Eu estava bêbado Manu, e eu não…
— É senhorita Goes para você! E não importa quantos Shirley Temples você tomou, isso não justifica!
— Me desculpe por isso.
— Desculpas nunca iria corrigir o que você quase fez comigo, seu monstro!
Sherlock aparecera na parte superior da escada. Da parte inferior, Marcus olhou o detetive, e olhou de volta para Emanuelle. Ele deixou as lágrimas caírem, e disse com a voz trêmula:
—Eu sei que fiz uma besteira muito grande, e que eu poderia ter estragado tudo. Sei que não há perdão pelo o que eu quase fiz...mas mesmo assim queria pedir desculpas para você, senhorita Goes, e para o senhor Holmes, pelo meu comportamento ontem à noite. Espero que me perdoem algum dia. Se você não quiser mais falar comigo Emanuelle, eu vou entender.
A médica fechou os olhos com força, e disse com extrema raiva na voz: “vá embora”. Marcus deu um longo suspiro, abrindo a porta para sair, dirigindo-se ao seu carro. Emanuelle encostou-se com as costas na porta de entrada, e olhou para Sherlock na ponta da escada. O detetive olhava impassível para a moça. Emanuelle comentou, agora mais calma:
—Não olhe assim para mim, eu fiz o que devia ter…
A jovem ainda falava, quando um forte impulso foi dado contra a porta onde ela estava encostada, seguido de um barulho de explosão ensurdecedor. Tal fora a força do impulso que a porta foi arrancada, caindo por cima das pernas da jovem, que também foi lançada para frente, caindo ao chão. Emanuelle abriu os olhos, e tudo se passava em câmera lenta. Um zumbido se instalara nos seus ouvidos. Ela viu Sherlock descer as escadas rapidamente, ele retirou a porta de cima da jovem, permitindo-a olhar para trás e ver que o carro de Marcus tinha explodido, e um corpo lá dentro, inerte, era consumido pelas chamas.
***
Os bombeiros logo chegaram, e apagaram as chamas que restavam no veículo. Logo depois a polícia chegou, e levaram o corpo carbonizado para o necrotério. Entre o pequeno tumulto de policiais que isolavam o lugar da explosão, um táxi parou e John desceu, seguido de Mary carregando a pequena Rosie. O médico e a esposa subiram no edifício, indo atrás de Sherlock, o encontrando na sala, junto com Lestrade e outros policiais.
—Sherlock -disse John- eu vim assim que soube. Como está Emanuelle?
—Inconsolável.
—E onde ela está?
—Lá em cima, com a senhora Hudson.
— Eu vim pronta para ficar alguns dias, como você pediu -disse a senhora Watson.
—Obrigada Mary. Emanuelle vai precisar de apoio. E eu vou estar ocupado, não vou poder ficar de olho nela.
— Ok, vou subindo então.
Mary se despediu de ambos e subiu as escadas para o 221c. Lestrade falava ao celular, não vira John chegar.
—Ah, oi John -disse Lestrade ao ver o médico na sala- Sherlock, o corpo acabou de chegar ao necrotério. Molly está chegando no hospital. Temos que ir agora.
O detetive acenou com a cabeça, desceu para buscar seu casaco. Sherlock vestira seu sobretudo preto e, quando estava colocando seu cachecol, Lestrade perguntou enquanto descia as escadas:
—Não vai se despedir de sua namorada? -Holmes estreitou os olhos para o inspetor- o que foi? Toda Londres sabe agora. Inclusive estão colocando seu compromisso com esse caso em xeque por causa disso. Procure ser mais discreto na próxima vez.
Sherlock revirou os olhos e fez cara de desprezo para Lestrade. O inspetor entrou no seu carro, e ofereceu carona para Watson e Holmes. Sherlock disse:
—Não. Vamos de táxi.
— Vocês que sabem -disse Lestrade dando partida no carro e saindo.
Dentro de alguns minutos um táxi passou pela rua e Sherlock fez sinal. Dentro do veículo o detetive permanecia calado, olhando para a janela, e de novo passava os dedos nos lábios.
John olhou com curiosidade para Sherlock, e comentou:
—“Ficar de olho nela”? Porque ela precisa ser vigiada? -Sherlock pareceu desconfortável com a pergunta, não queria falar de Emanuelle naquele momento. Queria concentrar-se no caso.
—Ela de repente pode exagerar nos remédios para dormir, ou pular de uma janela, ou qualquer outra coisa. Ela está emocionalmente instável e abalada.
—Mas ela não ficou assim desde o dia que atiraram nela?
—Dessa vez é diferente.
—Hum, sei. E isso não tem nada a ver com o que está na primeira página do jornal de hoje né? -Sherlock olhou de forma surpresa para John, perguntando:
—Porque ela ficaria abalada por causa de um beijo?
—Talvez pelo mesmo motivo que você está abalado, ela também deve ter sentimentos por você.
— Eu não estou abalado, e não tenho sentimentos por ela.
—Ah é? Então porque você não para de mexer na sua boca desde quando a gente entrou nesse táxi? Está com saudades do beijo dela? -Watson sorriu de forma a provocar holmes. Sherlock revirou os olhos, e voltou a olhar pela janela. Ele disse friamente:
— Alguém próximo à ela acabou de ser morto por terroristas que querem a cabeça dela numa bandeja. Diferente dos outros, ela tinha proximidade com esse homem. Somado ao que vem acontecendo nesses últimos dias, acho que isso é motivo suficiente para ela cogitar fazer alguma besteira.
Watson desfez o sorriso zombeteiro ao entender a seriedade da situação. Ambos seguiram em silêncio até o St Barts.
A defesa civil tinha avaliado a estrutura do prédio, e o hospital não tinha riscos de cair. O órgão autorizou o início da restauração da emergência no dia seguinte. Logo a emergência estaria funcionando de novo. Somente alguns serviços estavam funcionando no hospital, sendo um deles o Necrotério. Em cima da mesa de metal estava um corpo carbonizado. Molly mexia nele com luvas, enquanto fazia a análise do que restou da pele dele. Sherlock observava o trabalho da mulher calado. A patologista retirou as luvas, jogando-as no lixo, e pegou sua prancheta e escreveu algumas coisas. Molly parecia de mau-humor. Ela então comentou:
—O rosto está muito destruído, não permitindo reconhecimento facial. Não dá pra fazer reconhecimento pelas digitais também. Vai ter que ser por análise de DNA, pode demorar alguns dias,o significa que vou ter trabalho a mais -disse com tom irritado.
— Você parece ter tido uma péssima noite de sono -comentou Lestrade. Molly sorriu daquele jeito que ela sempre fazia, quando queria esconder a vontade de socar alguém.
— Ah mas minha noite foi muito boa. Somente recebi algumas notícias que não me deixaram muito feliz. Você leu o jornal Sherlock?
— Ah, por favor! vocês vão continuar comentando isso até o fim do ano que vem? -disse Sherlock revirando os olhos e andando entre as mesas de metal- deixem essas questões para depois, e vamos nos concentrar no caso.
Molly balbuciou alguma coisa que Lestrade ouviu como se ela estivesse imitando o detetive debochando dele. O inspetor, ao ver que o clima ali poderia esquentar, agradeceu a Molly pelo auxílio, e saiu, arrastando a dupla consigo.
***
Emanuelle olhava pelo lado de fora de sua janela, com a cabeça encostada no vidro, observava a neve cair. Os olhos estavam inchados do tanto que ela chorou naquela manhã, só conseguindo parar pela boa dose de calmantes que ingerira . Mary estava sentada no sofá com a senhora Hudson. A mulher mais velha explicava os acontecimentos da noite e da visita da manhã para Mary. Fora Sherlock quem passara a sra Hudson todos os detalhes, e agora ela repassava para a sra Watson. Ao terminar, Mary deixou Rosie com a mulher mais velha e se levantou, indo falar com Emanuelle.
—Querida, venha almoçar. Você precisa se alimentar -disse Mary, colocando uma das mãos no ombro da jovem. Emanuelle estava dopada, por isso respondendo de jeito monótono:
—Ele veio aqui para se desculpar, sabia? Veio pedir perdão para mim e para Sherlock...mas eu estava com tanta raiva...eu não quis perdoá-lo. Ele ficou tão triste. E agora ele...ele…
Emanuelle escondeu o rosto entre as mãos, começando a soluçar. Mary a abraçou, acalmando a jovem. A sra Watson a levou até a mesa da cozinha, sentando-a. Mary esquentou água e fez um chá quente. A doutora parou de chorar, e tomou o chá em silêncio. Mary olhava de forma gentil para a jovem. Delicadamente ela falou:
—Sabe minha querida, você ficar se culpando por não tê-lo perdoado naquele momento não vai trazê-lo de volta.
—Eu sei…
— O que você pode fazer é lembrar-se de quem ela era, e que ao final da contas reconheceu que estava errado, independente do seu perdão. E você tem o coração bom, eu acredito com toda certeza que você o perdoaria depois. Mas quem não ficaria com raiva? Você agiu como todo mundo agiria numa situação assim. Não se martirize por isso.
Emanuelle respirou fundo. Aceitava sem resistência ao que Mary dizia. A jovem assumiu uma feição preocupada, perguntando:
— Você acha que a nossa saída ontem foi a causa…
— Do que? Dos terroristas terem atacado ele? Não minha querida. Se eu entendi bem a história, o nome dele também estava no prontuário de atendimento de Said. Eles poderiam ter pego ele a qualquer momento, o que infelizmente aconteceu essa manhã. A culpa não foi sua.
A jovem balançava a cabeça afirmativamente. Ela comentou:
— Mas isso não tira a dor que estou sentindo.
— Eu sei, não tira. Mas é um bom consolo. Eu lembro da forma que ele lhe tratou no quarto do hospital. Você gostava dele?
— Não. Eu descobri isso ontem. Ele tentou me beijar, mas eu desviei. Quando ele se aproximou de mim, eu senti medo, diferente do que eu senti quando o Sherlock chegou perto.
— Espera, o Sherlock já tentou beijar você antes?
Emanuelle olhou para Mary arregalando os olhos. Ela não contara para a sra Watson o que aconteceu algumas noites atrás.
— Foi na noite que o chefe do Hukm Allah fez Sherlock de refém. Depois de tudo o que aconteceu, eu estava sentada perto dele. Nós nos aproximamos e quase nos beijamos, mas a sra Hudson nos assustou. O que senti na hora foi algo que nunca senti na vida. Parecia que meu coração ia sair pela boca e que meu estômago flutuava, mas apesar disso tudo é algo muito bom...eu não lembro direito o que aconteceu ontem, mas lembro que o senti me abraçando e meu coração acelerado e algo flutuava no meu estômago -Emanuelle se esforçava para lembrar, franzindo a sobrancelha- senti o rosto dele colado ao meu, e nada mais.
Mary sorria, como se tivera acabado de descobrir um segredo.
—O que foi? -comentou a jovem.
—Tenho boas ou más notícias para lhe dar.
— Como assim “ou”?
— Vai depender de como você vai encarar isso.
— Quais são as notícias?
— Você está apaixonada pelo nosso querido detetive.
— O quê? Claro que não estou -disse, abrindo um sorriso nervoso, corando em seguida.
— Ah, mas está sim. Você é médica, sabe muito bem que um conjunto de sintomas fecha um diagnóstico, e seu diagnóstico é apaixonite aguda.
Emanuelle encostou-se na cadeira, pensando. Ela respondeu:
— Tá, mesmo que isso seja verdade, que diferença faz? Ele é um sociopata, frio como mármore e calculista. Mesmo que eu estivesse gostando dele, eu nunca seria correspondida e um relacionamento assim só faria me machucar.
— Você tem certeza disso?
— Sim. Mesmo que de alguma forma, eu esteja nutrindo algum sentimento, um relacionamento só me faria mal.
A pequena Rosie começara a chorar, chamando a atenção de ambas na mesa. Antes de se levantar, Mary disse:
— Bom, se você tem tanta certeza disso...só perceba o seguinte: esse pequeno minuto de conversa sobre o objeto de sua paixão, a fez esquecer por um momento a dor do seu luto. Pense um pouco nisso.
Emanuelle permanecia encostada na cadeira. Odiava admitir, mas Mary tinha razão no que acabara de dizer.
***
Lestrade andava de um lado para outro na sua sala, nervoso. Watson e Sherlock permaneciam de pé.
—Nenhum deles fala nada. Não conseguimos nada nos interrogatórios! -bufou Lestrade- Eles obedecem à uma maldita lei do silêncio. Não dizem nada nem sob tortura ou ameaça de condenação à cadeira elétrica -Watson olhou surpreso para Lestrade- o que foi? Temos nossos métodos de interrogatório, nada que fira os direitos humanos; mas nada está funcionando.
— E a lista de passageiros da estação? -perguntou Lestrade.
— Já recolhemos ontem à noite, mas não ajudou em nada. São mais de trezentos passageiros indo para as várias cidades do sul. Demoraríamos semanas para rastrear cada um deles, e de qualquer forma busquei na lista algum nome que também estivesse na lista, mas…
— Você não achou nenhum -interrompeu Sherlock- claro que eles iriam usar documentos e nomes falsos.
Os três ficaram em silêncio. Sherlock então perguntou:
— Descobriram quem anda pagando as contas da fábrica?
— Sim e não. Uma conta na suíça é que faz o depósito. Eu já entrei em contato com o consulado, estou esperando a resposta. Mas conseguimos rastrear o sinal do último vídeo que o Hukm Allah mandou, ele veio da fábrica de fertilizantes que você visitou outro dia. Já emiti o mandato, estou esperando só a sua autorização.
Lestrade ainda falava, quando chegou um fax para ele, com a autorização da invasão da polícia da fábrica, e o recolhimento de provas.
— Ótimo! -disse Lestrade- vamos até lá ver o que achamos. É bom vocês se agasalharem, está caindo bastante neve desde de manhã cedo.
O detetive olhou para o relógio, viu que a hora do jantar se aproximara. Então comentou com Lestrade:
—Eu não aconselho a vocês irem hoje.
— Mas porque não?
— A estrada vai estar cheia de neve. Vocês vão, mas não vão conseguir voltar. E não tem porque a pressa. Não vão prender ninguém lá.
— Como você tem tanta certeza disso?
— Porque eu já fui lá. Descobri um de seus esconderijos, e só se eles forem muito idiotas de voltarem.
Os três ficaram em silêncio. Lestrade avaliava o argumento do detetive. Sherlock tinha razão. Ele então apontando o dedo para os dois, disse:
—Está certo. Mas só porque não quero ter que dormir num carro da polícia no meio do nada. Mas amanhã de manhã bem cedo estarei indo para lá com minha equipe. Estejam prontos.
Sherlock acenou com a cabeça, e saiu da sala, seguido de Watson. “Ótimo, pelo menos terei uma noite de sono decente”, comentou Lestrade consigo mesmo.
Holmes e Watson saíram da Scotland rapidamente. O frio os tomou, fazendo-os procurar por um táxi. Uma grossa camada fofa de neve estava sobre a calçada, e na pista uma camada de gelo se formou, e os carros passavam com dificuldade. Logo mais à frente, um táxi se aproximara, fazendo John sinal para que parasse. O táxi vinha em baixa velocidade e, ao frear o veículo, o carro patinou na pista, colidindo levemente com o veículo da frente. Os dois motoristas desceram do carro, e discutiam. John saiu de fininho, indo para o lado de Sherlock, e comentando “É, eu prefiro ir caminhando para casa”.
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