Flor do deserto
30 Capítulo 29- O plano de Harrison
Notas iniciais
Emanuelle estava deitada envolta em lençóis. Um barulho de algo quebrando a fez despertar e levantar-se da cama. Ela foi para a sala de seu apartamento, não havia ninguém, mas algo chamou a atenção dela. Um imenso clarão vinha da rua, fazendo com que toda a sala ficasse iluminada, apesar do céu estranhamente enegrecido. A jovem olhou pela janela e seu coração quase saiu da boca. Ela viu um grande rastro de destruição: carros capotados pegando fogo, vidros das casas e das lojas quebrados, um apartamento ao lado pegava fogo e muitas pessoas jaziam no chão, mortas. A jovem desceu para a rua, e viu mais de perto todo o terrível cenário. Ela passeava entre os corpos, procurando algum sobrevivente, até que um deles chamou a atenção dela. Deitada de cara para o chão, estava uma senhora de cabelos curtos, vestido simples e avental. Ao desvirá-la, ela viu que era a Sra Hudson ensanguentada. Emanuelle suprimiu um gemido levando a mão à boca. Ao olhar para o lado ela viu um corpo que também lhe era familiar. Ao se aproximar viu que era Lestrade, com metade da pele do rosto faltando. Emanuelle se levantou e saiu correndo de volta para o apartamento. Ela gritava por Sherlock e por John. Ao entrar no 221b ela gritou. John estava deitado no centro da sala. Metade do seu corpo estava carbonizado, seus olhos bem abertos, sem vida. E, sentado numa poltrona virada para a lareira, estava Sherlock. Seus olhos cor cristal refletiam o brilho do fogo, e de seu peito uma grande mancha de sangue se destacava na camisa social branca. Filetes de sangue desciam da boca semi-aberta do detetive para o pescoço, sujando as abas de sua camisa. O detetive estava inerte, sem vida. Emanuelle perdeu as forças nas pernas, se ajoelhando perto da poltrona. “Não.. -disse num gemido de dor- o que aconteceu aqui?”. De repente, Sherlock virou o pescoço e olhou para ela. Emanuelle levantou-se num salto do chão, gritando de susto. Ele levantou-se e agarrou o pulso dela com força. Seus olhos destinavam ódio, ele disse entredentes “Você é a responsável. Nos mataram por causa de você”. Emanuelle olhava apavorada para o morto-vivo, quando sentiu seu outro pulso sendo agarrado com força. Ela se virou para ver quem era, dando de cara com Watson. “Por causa de você” ele disse. Ela gritava e puxava com força para que a soltassem. Emanuelle começou a ouvir um murmúrio repetitivo vindo da rua, aguçando a audição ela ouviu “por causa de você” e em seguida os corpos que jaziam mortos na rua adentraram o 221b e seguraram Emanuelle, arrastando-a para a rua. Todos repetiam essa mesma frase. A jovem gritava com todas as forças que seu pulmão aguentava. Ela estava apavorada e chorava como uma criança. De repente todos se calaram, e abriram espaço para um homem passar. Holmes e Watson continuavam a segurando. Quando ela viu quem era que vinha em sua direção, ela gritou e se debateu com as forças que lhe restava para se desvencilhar. O chefe do Hukm Allah, encapuzado e com a mesma roupa que aparecera no vídeo da televisão, foi em direção da doutora com uma amolada faca de caça nas mãos. Ele encostou a faca no pescoço da jovem fazendo-a parar de se sacudir. Ele encostou a boca no ouvido dela e disse “você deveria ter se entregado...pouparia tantas vidas...mas agora é tarde. Mas, pensando bem, sentir seu sangue quente correndo por minhas mãos será muito prazeroso”. Ele se afastou um passo e, num golpe preciso, cortou a garganta da doutora.
Emanuelle acordou e saltou da sua cama, batendo com os cotovelos no chão do seu quarto, murmurando de dor. Ela estava molhada de suor e todo seu corpo tremia. Ela levantou-se, vencendo uma tontura súbita. Ela apoiando-se nas paredes chegou até a sala, soltando um suspiro de alívio quando viu que o dia era claro, apesar da pesada chuva que ainda caía. Ela foi em direção à janela para observar rua. Encostada com a testa no vidro, ela observava o movimento da rua. Sorriu discretamente, aliviada por aquilo ter sido apenas um pesadelo. Ela olhou para o relógio. Já estava de tarde. Após Sherlock ter queimado os papéis, Emanuelle se retirou do apartamento. Queria descansar e tomar um banho quente. Tinha sido uma noite bem difícil. Ela sentiu a barriga roncar, decidiu preparar algo para comer.
***
John estava sentado na poltrona, de frente à TV. Tinha acabado de assistir ao telejornal. Ele comentou com Sherlock, que dedilhava algumas notas no violino:
—Esse Harrison parece ser o maior babaca.
—Ele é isso é muito mais. O idiota incompetente está fazendo exatamente aquilo que os terroristas querem.
— Emanuelle me contou que ele ameaçou vocês. Como seu irmão também é um dos grandes do governo, ele não poderia resolver isso?
— Vocês acham que Mycroft já não tentou?
— “Vocês”?
— Se tivesse algum jeito, de eliminar esse babaca, meu irmãozinho rato do parlamento já teria feito. Harrison é um pé na saco do meu irmão desde sempre.
— Você já ligou para ele? As coisas podem ter mudado Holmes, quem sabe ele possa ajudar.
— Definitivamente não. Não preciso da ajuda dele para lidar com esse almofadinha.
Sherlock se dirigiu para a janela com seu violino. Ele observava a rua. De repente ele viu um carro preto parar de frente ao seu apartamento. Quatro homens desceram dele. Um deles Sherlock reconhecia muito bem. O detetive comentou “falando no diabo…”. Watson foi até a janela e viu os quatro homens batendo na porta.
—Quem é? -perguntou John.
—Harrison e sua gangue -disse Sherlock de forma apreensiva.
—Mas porque vieram aqui? Da última vez que vieram eles…
—Sim, você já sabe da história. Não dê nenhuma palavra sobre Emanuelle. Ele não sabe que ela mora aqui.
John olhou preocupado para Holmes. Então o médico teve uma ideia. John pegou seu celular e correu para o banheiro já com ele na orelha. Sherlock retirou o paletó, ficando com sua camisa social, pegou sua arma da gaveta da mesa e a pôs propositalmente na cintura, à mostra. Então ele pegou uma adaga que recolhera em um dos seus casos e a colocou estrategicamente escondida no tornozelo. Em seguida sentou-se na sua velha poltrona e esperou. Demorou cerca de cinco minutos para o chefe de segurança subir as escadas e adentrar no apartamento sem bater na porta. O homem entrou seguido de três agentes. Sherlock permanecia sentado, com as mãos à frente do rosto.
—Ora, ora. Se não é Holmes mais novo.
—Ora se não é o incompetente que sobrevive de favores.
Harrison remexeu o lábio inferior num tique nervoso. Sherlock levantou-se, se aproximando alguns passos. Holmes continuou:
—O que você quer?
—O que eu quero... -Harrison resmungou baixo, enquanto coçava a cabeça- quero esclarecimentos. Você sabia que hoje não fizemos nenhuma prisão? Os nomes que me passaram , nenhum deles estava em casa; e ainda perdi dois dos meus agentes, porque alguns desses malucos deixaram armadilhas plantadas nas casas.
—Esclarecimentos? -Sherlock riu debochado, ficando sério em seguida. comentando em tom de desprezo- você nesse jogo estúpido para aparecer na mídia, acabou por alarmar todos eles desde quando essa operação ridícula começou. Você espantou as baratas antes de jogar o veneno. O único esclarecimento que posso dar é que você é muito despreparado e arrogante para alguém que ocupa o seu cargo.
Harrison ficou rubro de raiva. Ele fez sinal para dois dos seus agentes segurarem o detetive. Um deles viu a arma na cintura de Sherlock e a retirou, não revistando o detetive, julgado tê-lo desarmado totalmente. O agente deu a arma para Harrison. O homem a apontou para a cabeça do detetive, e disse em tom de ameaça:
—Você pode até ter razão senhor Holmes, mas já deveria saber que homens como eu sempre tem uma carta na manga. E essa carta consertará as coisas, isso não tenho dúvidas...onde está a jovem Emanuelle?
Holmes olhou nos olhos de Harrison. O olhar cristalino do detetive assumiu um tom ameaçador contra aquele homem. Sherlock entendera que Harrison tinha a intenção entregar Emanuelle para aplacar a fúria do povo, recuperando assim sua imagem diante dos ingleses. Holmes permaneceu calado, encarando o homem. Harrison destravou a arma de Sherlock, encostando o cano na testa do detetive. “Onde ela está Holmes?”, disse o chefe. Holmes esboçou um sorriso debochado, comentando em seguida: “está sem balas, é inofensiva”. Harrison ficou calado e, usando o revólver, bateu com força na boca do detetive. Raios de dor percorreram a mandíbula do detetive, fazendo-o curvar sua cabeça e deixar escorrer saliva com sangue. O homem deu de ombros e comentou “engraçado, ela não parece tão inofensiva assim. Se você não quer perder nenhum dente, sugiro que me diga onde Emanuelle está”. Sherlock ainda com a cabeça curvada e os lábios pegando fogo respondeu “ela não está mais aqui. Saiu hoje pela manhã”. “Isso é o que vamos descobrir”, disse fazendo sinal para um dos seus fazer uma busca pela casa. Enquanto o agente percorria o apartamento, Harrison provocou Sherlock dizendo “fique tranquilo meu jovem...quem sabe eu nem a entregue. De repente eu e ela podemos conversar e ela pode se mostrar colaborativa para atender minhas exigências” Holmes levantou a cabeça para olhar para Harrison. Ele sorria de forma pervertida, continuando seu discurso “não fique surpreso detetive, não é a primeira vez que faço isso. Não acreditaria no que uma jovem desesperada é capaz de fazer para sobreviver nesse mundo selvagem...e ela é tão bonita…”. Holmes olhava ameaçadoramente para aquele homem. Seu olhar assassino sondava o corpulento homem à sua frente, analisando onde ele poderia acertar. Sua mente estava à mil. O agente que fora sondar a casa, voltou à sala com John sob a mira de seu revólver. “Quem é esse?” Perguntou Harrison. Antes que John falasse algo, Sherlock se interpôs dizendo “é meu encanador, o vaso sanitário entupiu e ele já estava de saída -Holmes se virou para John- sr Watson, por favor saia que estamos resolvendo pendências aqui”. Watson olhava assustado para o sangue na boca do detetive, até que Sherlock falou um conjunto de palavras sem sentido, que todos ficaram confusos no momento, menos Watson. Ele sabia que aquilo significava que ele deveria fazer exatamente o que o detetive disse, e que tinha tudo sob controle. Watson obedeceu e foi escoltado até a porta da frente. O agente subiu as escadas e comentou com Harrison que, fora aquele encanador, não havia mais ninguém ali. O homem mal terminara de falar, quando do apartamento de cima se ouviu um barulho de vários copos de vidro se quebrando. Enquanto preparava o almoço, Emanuelle bateu no escorredor de copos fazendo vários deles caírem. “O que foi isso?” Perguntou Harrison olhando para o teto. Sherlock respondeu “é o meu vizinho. O idiota só vive derrubando as coisas dentro de casa. É totalmente sem coordenação motora”. Harrison estreitou os olhos contra Sherlock, ordenando ao homem que acabara de voltar ao apartamento para ele ir verificar no andar de cima. A mente de Sherlock fervilhou. Ele sabia que teria que agir naquele exato momento. Então, controlando a respiração e retraindo seus músculos, seu corpo se preparava para lutar, ele estava apenas esperando o sinal. De repente um grito feminino foi ouvido, era o sinal. Sherlock pisou no pé de um dos agentes, fazendo-o gemer de dor e soltar o detetive. O outro que ainda o detia recebeu um forte soco de Sherlock, indo ao chão. O agressor pisado, retirou um bastão de choque do paletó, e tentou usar contra Sherlock. O detetive se esquivava com dificuldade. Harrison também partiu pra cima de Holmes, e enquanto o detetive desviava das investidas do chefe, o agente acertou a arma na parte lateral do abdômen de Holmes, fazendo-lhe rosnar de dor e se ajoelhar. Sherlock aproveitou o momento para pegar a adaga que estava em seu tornozelo, embora com bastante dificuldade pois o agente continuava a dar-lhe choque no abdômen. Num golpe rápido, Holmes transpassou a adaga na mão do agente, que soltou a arma e em seguida desacordou o homem com um soco de direita. Sherlock estava fraco por causa da agressão elétrica, no que Harrison se aproveitou e agarrou o detetive ainda ajoelhado pelos cabelos, batendo sua cabeça contra a mesa de centro. Sherlock foi ao chão, tonteado. Mas antes que Harrison pudesse dar outra investida, Holmes chutou a barriga do homem, fazendo-o se curvar, e rapidamente levantando, pegou seu revólver, que estava caído no chão, e deu uma coronhada em Harrison, o desacordando. Holmes estava zonzo, mas vencendo a tontura, subiu as escadas para resgatar Emanuelle. O detetive ao adentrar no apartamento viu algo que o fez sentir vontade de rir. O agente estava caído no chão, desacordado e em pé, perto dele estava Emanuelle com uma frigideira na mão.
—Você o desacordou com isso? -perguntou Holmes
— Sim -deu de ombros- ele queria me levar. É um dos agentes de Harrison né? Ele está aqui?
Sherlock fez que sim com a cabeça, e disse para a mulher com urgência:
—Você precisa sair daqui agora, Harrison quer te entregar para o Hukm Allah. Pegue um táxi e vá para a casa de John.
Emanuelle concordou e foi no quarto buscar seus documentos. Assim que ambos abriram a porta para sair do 221c, deram de cara com Harrison com a testa ensanguentada apontando uma pistola com silenciador para o casal. Ele entrou no apartamento fechando a porta atrás de si. O casal deu alguns passos para trás, sendo acompanhado por Harrison. O chefe comentou:
—Tenho que admitir que o senhor é um lutador exemplar, mas não vai ficar com o prêmio. Me entregue a moça.
—Isso é insano Harrison! Dar o que eles querem não resolve os problemas -disse Sherlock.
—Mas pode amenizá-los e recuperar a minha imagem. Pela última vez, me entregue a moça -repetiu o homem, destravando a pistola e apontando para Sherlock.
— Não -disse Holmes, puxando Emanuelle para trás de si, protegendo-a.
— Você fez a sua escolha.
Harrison colocou o dedo no gatilho fazendo força. Entretanto, na hora certa, uma voz surgiu atrás de Harrison:
—Porque você não briga com alguém do seu tamanho?
O chefe se virou, fazendo uma carranca, reconhecendo a voz. Na porta estava Mycroft e do lado Watson, eles estavam acompanhados de alguns agentes do serviço secreto. Os homens apontaram as armas para Harrison, mandando ele soltar a pistola. O chefe de segurança rosnou para Mycroft:
—Isso não é assunto seu Mycroft! Não se meta, eu sou o chefe dessas investigações!
—Não mais -disse Mycroft, retirando do bolso uma carta assinada pela própria rainha.
Harrison leu a carta. Nela havia a recomendação da rainha para a substituição de Harrison por Mycroft concernente às investigações do grupo terrorista Hukm Allah. O chefe de segurança fez uma careta ao ler, olhando para Mycroft com desprezo. Com um sorriso provocativo, ele alfinetou:
—Você pode ter me tirado dessa jogada senhor Holmes. Mas não esqueça que eu sei o nome da queridinha dos terroristas.
— E não se esqueça que, como você mesmo hipocritamente disse em rede nacional, que quem revelasse o nome seria condenado por traição. E isso também se aplica a você -o homem desfez o sorriso- tirem ele daqui.
Os homens do serviço secreto escoltaram Harrison e seus agentes até a rua. Mycroft disse para John:
—Obrigada por ter ligado senhor Watson.
—Como você conseguiu essa carta da rainha tão rápido?
—Já estava pronta. Decidimos isso na reunião com o parlamento hoje pela manhã, depois do ataque ao hospital e o vídeo que foi ao ar, os governantes…
—Que vídeo? Eles colocaram outro vídeo? -perguntou Emanuelle assustada.
Holmes e Watson se olharam, como se avaliassem se era uma boa idéia mostrar o vídeo para ela depois de tudo que ela passou nas últimas horas. Watson então respirou fundo, tirou seu celular do bolso e abriu o vídeo e entregou o celular para a jovem. Emanuelle sentou-se no sofá e assistiu. Ao terminar ela comentou:
—“Já sabem o que fazer” -disse com a voz trêmula- parece que eles desistiram de esperar pelo povo e resolveram me eliminar com as próprias mãos. Emanuelle baixou a cabeça fechando os olhos. Não disse mais nada, também não chorou, não aguentava mais chorar, estava esgotada do estresse dos últimos dias, queria desaparecer. Ela somente respirava lenta e profundamente. Mycroft comentou:
—Eu posso conseguir uma autorização para moradia temporária fora do país. Quem sabe se…
—Não -interrompeu Sherlock- se eles quisessem matá-la já teriam feito. Se ela sumir, eles vão sumir também e perderemos a chance de pegá-los.
—A bomba do hospital não pareceu de mentirinha irmãozinho. Ela poderia ter morrido.
—Mas não morreu.
—Holmes isso não é brincadeira! Estamos com uma crise nacional nas mãos e você só pensa em seu caso! Se é ela que eles querem, então vamos atraí-los para fora do país, tirando o alvo de nosso povo.
—Ah, então seu plano é usá-la como isca? E eu pensando que você estava preocupado com a vida dela.
—A questão é maior que essa Holmes. A permanência dessa moça em solo britânico está ameaçando a vida de todos, mesmo que eles só a estejam usando como bode expiatório.
—Lá fora não posso protegê-la nem prosseguir com esse caso!
—Ela não precisa de sua proteção!
—Chega Holmes!! -disse Emanuelle para os dois irmãos, levantando-se do sofá- vocês falam como se eu não estivesse presente aqui, então vou fazer com que minha voz seja ouvida. Eu não quero servir como isca senhor Mycroft, mas também não quero ser tratada como uma foragida em cárcere privado senhor Holmes. Lutei muito para chegar até aqui, e vou continuar nessa cidade e prosseguir com minha residência. Estou cansada de sentir medo e fugir a minha vida inteira. Não aceito mais ter a minha vida afetada por esses desgraçados. Eu fico, e permanecerei viva até o dia que Deus quiser. Essa é minha decisão. Com licença.
A jovem saiu da sala e foi ao quarto, fechando a porta com força. Mycroft e Sherlock se encaravam, até que um dos agentes de Mycroft o chamou e comentou algo baixo com ele. Mycroft falou para o irmão:
—Espero que você não se arrependa do que está fazendo irmãozinho. Você não está sendo racional.
Dito isso, Mycroft saiu do apartamento. Sherlock olhava pela janela da sala o irmão entrar no carro preto e sair. John comentou:
—Sherlock, você não acha que Mycroft pode ter razão?
—Não. A melhor chance que temos de pegar Carl e o chefe é com Emanuelle aqui. Se ela for embora eles somem também.
—Você criticou Mycroft, mas indiretamente também está fazendo Emanuelle de isca. Nenhum de vocês dois está preocupado com a segurança dela!
—Ela está segura comigo. Eu não posso defendê-la em outro país, ela estaria por conta própria. E isso nunca vai acabar até o caso estar resolvido.
O telefone de Sherlock tocou, indicado que ele acabara de receber uma mensagem. O detetive olhou a tela do celular e guardou o aparelho. Em seguida ele se dirigiu à porta para sair.
—Ei, o que foi? Vai pra onde?
— Colher informações. Vá para casa descansar John. A pequena Rosie deve estar com saudades.
Dito isso, saiu do apartamento. John respirou fundo, e foi até o quarto ver como Emanuelle estava. Ele bateu na porta, perguntando se Emanuelle estava bem. Ela disse que sim, ainda com a porta fechada. John perguntou se ela queria ir para casa com ele, passar um tempo com Mary e ele, para esfriar a cabeça. A jovem agradeceu, dizendo que não precisava, e que preferia descansar em casa. Watson insistiu um pouco mais, obtendo a mesma resposta. Ele então se despediu da moça e também saiu do apartamento.
Depois de todos saírem, o lugar ficou em pleno silêncio. Emanuelle estava sentada no chão de seu quarto, encostada na porta fechada, e podia ouvir sua respiração. Ela repassou em sua mente os acontecimentos dos últimos dias. Um calor tomou o seu peito, ela sentia que ia explodir em lágrimas novamente. Então ela se levantou e foi no banheiro tomar um remédio para dormir. Ela engoliu as medições e foi deitar-se. Ela perdeu a fome novamente. Até as medicações fazerem efeito, ela procurou afastar as lembranças ruins dos últimos dias. Apegou-se a uma em particular. Lembrou-se da noite que ela salvara Sherlock do terrorista chefe. Lembrou-se de Sherlock bem perto de seu rosto, a respiração, seus lábios quase se encostando. Emanuelle lembrou-se do que sentiu naquele momento, algo bom, algo que ela nunca sentiu na vida, nem com a aproximação de Marcus. Emanuelle certa vez se perguntou se Sherlock estaria apaixonado por ela, mas agora a sua dúvida era se ela estaria sentindo algo pelo detetive. Essa possibilidade a fez estremecer, Emanuelle sentiu o medo invadir seu peito, ao cogitar ser isso verdade. Ela não queria terminar como sua mãe, resolvendo fechar-se para qualquer tipo de sentimento amoroso que crescesse em seu coração, vivendo assim por um longo tempo. Mas agora as coisas estavam diferentes; de alguma forma Sherlock abalou a moça, enfraquecendo o muro que ela construiu todos esses anos. Aos poucos o sono chegou, e sob essa reflexão Emanuelle adormeceu.
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