Flor do deserto

18 Capítulo 17- Invasão e descobertas


Notas iniciais
Boa leitura. Não esqueçam de dar o seu like ;)

O táxi parou em frente à uma moradia simples e pequena, localizada na periferia de Londres.

A casa era cercada por uma rede de aço frouxa e um tanto enferrujada. A casa era pequena e branca, com alguns pontos descascados, sinal do tempo e da simplicidade daquela moradia na periferia de Londres. Algumas crianças brincavam na rua. O lugar era simples, mas aconchegante. A vizinhança era silenciosa, a não ser pela criançada. Uma localidade perfeita para aqueles que querem viver com um salário mínimo e de forma tranquila. Envelhecer ali não seria tão ruim.

Sherlock observava o lugar, sendo interrompido de seus pensamentos por John:

— Porque você fez isso? -perguntou o médico.

— Isso o quê?

— Você não quis falar com Emanuelle. O que deu em você?

— Vamos nos concentrar no que vinhemos fazer aqui John, sem distrações -disse, caminhando em direção à portinha de aço que dava acesso à casa.

— Distrações...-repetiu John, para si mesmo. Vendo que não convenceria o amigo a dizer o motivo da grosseria com a colega médica, resolveu mudar o assunto- e o que vinhemos fazer aqui, exatamente?

— Essa mulher, Joyce, foi a primeira que soube da morte dele. Tenho a forte impressão que ela pode nos esclarecer em detalhes como ela soube disso, e qual a relação dela com Said -disse, abrindo portinhola e se dirigindo à porta de entrada.

Ambos estavam na frente, e bateram na porta. Não houve resposta. Sherlock bateu mais forte, chamando pelo nome da mulher. Não houve resposta. O detetive tentou forçar a porta, sem sucesso. Ele desceu os degraus da porta, se dirigindo para a lateral da casa. Ele tirou o sobretudo, e se preparou para pular o cercado de madeira, para ter acesso à porta traseira da casa pelo quintal.

— O que está fazendo Sherlock? -perguntou John, ao ver o amigo pegando impulso para pular, e entregando o casaco para ele.

— Temos que entrar na casa, e você está com o braço machucado. Fique aqui, e espere eu abrir a porta da frente. Ah, cuide do meu sobretudo.

Sherlock pegou impulso, escalando na cerca de madeira, passando para o outro lado. John olhava de um lado para o outro, vigiando se alguém estava olhando, se dirigindo em seguida para a porta da frente, claramente nervoso. Sherlock caiu em cima de uma roseira, arranhando-se com os espinhos. Levantou-se, e andou lentamente pelo corredor da lateral da casa, tentava não fazer nenhum barulho. Ao atingir os fundos, o detetive avistou a porta que procurava, indo em direção à ela; mas ao dar dois passos, seus olhos captaram um movimento que fez seu corpo congelar. De dentro de uma caixa grande de papelão, na extremidade oposta de onde Holmes estava, uma sombra preta levantou-se do chão rapidamente. A criatura rosnava e babava, mostrando uma fileira de dentes brancos e letais. O animal exibia uma poderosa musculatura em sua postura de ataque. Era um rottweiler jovem e forte. Sherlock pensou rápido, sabia que não tinha chances se corresse, deveria enfrentar a fera. Um pouco à frente de onde ele estava, havia uma pequena pilha de papelões. “Perfeito”, pensou o detetive. Então, num impulso, Sherlock correu em direção aos papelões, fazendo o cão correr em direção à ele também. Por pouco, o detetive conseguiu alcançar um folha grossa de papelão, que usou como escudo contra o cachorro que saltou sobre o detetive, derrubando-o. O rottweiler mastigava o papelão, puxando-o com violência da mão de Holmes. O detetive aguentou firme à força do animal, mas por fim, o rottweiler conseguiu arrancar o escudo dele, em seguida tentou morder o pescoço de Sherlock; ao que ele se defendeu usando seu antebraço esquerdo como escudo, fazendo com que o animal o mordesse, ao invés do pescoço. Sherlock grunhiu de dor, dando um chute no animal em seguida, fazendo-o parar à certa distância. Holmes rapidamente levantou-se, protegendo o braço ferido. O cachorro pôs-se de pé novamente, esfregando a cara no chão; em seguida rosnou novamente para Sherlock, e correu em sua direção; mas antes que pudesse saltar sobre ele, uma voz feminina vindo da porta dos fundos gritou um comando em uma língua que Sherlock não identificou. Imediatamente o animal furioso parou e colocou-se ao lado da dona da voz. Em frente à porta dos fundos, estava uma mulher jovem, magra, de cabelos claros e encaracolados. Vestia botas masculinas, calça preta e camisa de soldado, parecia que iria caçar. Estava segurando uma espingarda de cano duplo, apontada para Sherlock. Sua voz era forte, apesar da aparente fragilidade de seu corpo.

— Quem é você e o que quer?- disse a mulher, destravando a arma. Estava pronta para atirar.

— Você é Joyce?

— Eu é que faço as perguntas aqui! Quem é você e porque invadiu minha casa?

— Joyce, preciso conversar com você sobre Said -ao ouvir o nome do rapaz, as feições da moça assumiram uma intensa tristeza. Seus olhos lacrimejaram e sua voz ficou rouca.

— Não sei de quem você está falando!- disse sacudindo a arma- vou dar dez segundos para você me dizer quem é, se não estouro seus miolos e dou para meu cachorro comer! dez...nove...oito...

Antes que a moça chegasse ao cinco, ela sentiu um cano gelado sendo colocado em sua nuca, ao mesmo tempo que ouviu seu cachorro rosnar. Uma voz masculina falou atrás dela:

— E você tem três segundos para abaixar essa arma, se não serão seus miolos que serão comidos.

Era John. A moça respirou fundo, abaixou a arma, e a colocou no chão. Em seguida deu outra palavra de ordem, ao que seu cachorro voltou para a caixa grande de papelão, sentando-se. Com a voz trêmula, a moça perguntou:

— O que vocês querem?

— Apenas informações -respondeu Sherlock, se aproximando dela, ainda segurando seu braço machucado- não vamos fazer mal a você, queremos apenas levar à justiça o responsável pela morte do Said, e acredito que você tenha informações que nos ajudará a fazer isso -lágrimas começaram a correr pelo rosto da moça, que tentava ainda manter a postura de durona.

— Estamos aqui para ajudar, mas você precisa nos ajudar primeiro -completou John, ainda apontando a arma para a nuca da moça.

A mulher mordeu os lábios e disse entredentes :

— Se é para colocar esses desgraçados na cadeira elétrica, eu digo tudo o que eu sei.

— Ótimo! pode abaixar a arma John -disse o detetive, em seguida estendeu a mão para a moça, se apresentando- Sherlock Holmes.

— Joyce -disse, apertando a mão de Holmes. Em seguida se virou, apertando também a mão de John.

— John Watson...ah sim, sua chave, estava debaixo do tapete -disse o médico, entregando a chave para a moça.

— Ah...então foi assim que você entrou -disse a moça, olhando para a chave em sua mão- bom, vamos conversar lá dentro então.

Os dois homens seguiram a mulher pelo interior da casa, até a minúscula sala de estar. O ambiente era mobiliado com alguns móveis de madeira antigos, com um sofá velho e gasto pelo tempo. A escadaria que dava para o andar de cima, estava com alguns brinquedos espalhados e lápis de cor pelo chão. A jovem trouxe uma toalha e entregou para Holmes, dizendo:

— Tome, vai ajudar a estancar o sangramento no seu braço — em seguida puxou uma cadeira, e sentou-se de frente para os dois, que estavam sentados no sofá. Então continuou a falar- Como me acharam?

— Minhas fontes me informaram que Said passou a frequentar muito esse lugar nos últimos meses, e também soube que você foi a primeira pessoa a saber da morte do Said -disse Holmes- qual era a sua relação com ele?

A moça baixou a cabeça, ficou em silêncio por um tempo. Resolveu então responder, enxugando uma lágrima que escapou de seus olhos:

— Eu conheci Said na faculdade. Ele fazia engenharia química e eu estudava literatura. Nos apaixonamos e namoramos por um tempo. Infelizmente as coisas não deram certo para mim, e tive que sair da faculdade. Ele também estava ficando esquisito, e acabou por terminar o relacionamento comigo, eu não entendia o motivo. Eu descobri depois que estava grávida dele, mas resolvi não dizer nada. Nunca mais nos vimos desde então. Alguns anos depois de nossa filha nascer, eu consegui um emprego na biblioteca, e advinha quem estava vendendo cachorro quente em frente à biblioteca? era ele. Começamos a conversar e nos víamos todos os dias. Novamente meu amor por ele começou a aflorar, e o dele por mim também. Resolvemos retomar nosso relacionamento, foi quando eu contei que ele tinha uma filha. Eu pensei que ele ia ficar furioso, ou nunca mais querer me ver. Mas foi o contrário, ele chorou muito, e me pediu desculpas por ter acabado comigo, resolvendo revelar o verdadeiro motivo dele ter acabado comigo- a moça ficou em silêncio, hesitante em continuar.

— Qual foi o motivo?-perguntou John.

— Ele tinha se envolvido com o grupo terrorista Hukm Allah, e achou melhor terminar o relacionamento comigo, pois eu era uma distração, e estava o desviando da missão que Allah o tinha dado. Eu fiquei muito assustada no momento, mas ele disse que percebeu que o que fazia não estava certo, sua consciência dizia que aquilo era errado. Ele estava pensando em deixar esse grupo. Mas quando ele decidiu finalmente sair, aconteceu o que aconteceu.

— E o que é que ele fazia? -perguntou Sherlock

— Bombas. Ele era responsável pela fabricação dos explosivos. Ele estava envolvido em um projeto novo, algum tipo de bomba nova...ele era engenheiro químico, sabia mexer com essas coisas.

— Ele falou mais alguma coisa sobre esse projeto novo?- perguntou Sherlock.

— Não. Ele evitava falar disso comigo. Dizia que quanto menos eu soubesse era melhor. Foram poucas coisas o que ele me contou.

— Joyce -disse Sherlock, sentando na ponta do sofá, e se inclinando para a garota- nós precisamos que você nos diga tudo o você sabe sobre o Hukm Allah. Tente lembrar ao máximo, isso é muito importante -a moça assentiu com a cabeça, olhou para o teto, tentando resgatar da memória tudo aquilo que Said tinha dito, então falou:

— Eles o obrigavam a fazer muitas coisas erradas. Said trabalhou por um tempo numa fábrica de fertilizantes, sendo que lá tinha toda a matéria prima para a fabricação das bombas, então mandavam ele roubar alguns produtos para fabricar os explosivos. A direção descobriu e demitiu ele.

— Se ele sabia que era errado, porque fazia?-perguntou John.

— O mestre do grupo. Said me falou dele uma vez. Não é o tipo que você gostaria de enfrentar. Ele tinha medo desse homem.

— Ele falou o nome dele? -perguntou Sherlock

— Sim...era…-a moça fechou os olhos com força, tentava se lembrar- Carl Robin, sim Carl era o nome dele -John arregalou os olhos ao ouvir o nome, então pegou seu celular, e começou a teclar rapidamente. A conversa continuou.

— Então esse chefe Carl foi quem matou Said?

— Carl não é o chefe. Ele é o mestre. O chefe manda as ordens para Carl, e ele executa...quem é esse chefe? ninguém sabe, pelo que Said falou pouquíssimos do grupo sabem quem ele é.

— Então foi Carl quem matou o Said?

— Não, foi o filho dele -a moça respirou fundo, lutando para segurar o choro, fazendo a voz ficar trêmula- Said marcou um encontro com Carl no Parque Olímpico Rainha Elizabeth...ele estava mesmo decidido a sair. Ele disse para mim por telefone: “Joyce, estou com medo, não estou com um bom pressentimento. Se o pior acontecer, não posso deixar cair nas mãos deles todos os meus documentos e as minhas pesquisas dos explosivos. Por isso, antes de ir para o parque, vou gravar todos os documentos do meu computador e colocar num Pen Drive e passá-los para você na biblioteca. Se eu não sair vivo, leve-os para a polícia, que eles cuidam do resto.

John parou de teclar, e ele e Sherlock se olharam, e olhando de volta para a moça, Holmes perguntou:

— E porque ele não entregou o Pen Drive para você?

— Ele estava a caminho. Estava no telefone comigo conversando, quando ele viu um carro se aproximando rápido, entendeu o que estava prestes a acontecer. Said mandou eu permanecer na linha, e colocou o telefone ligado no bolso. Eu... ouvi tudo -a moça colocou o rosto entre as mãos e começou a chorar ao ponto de soluçar. Uma voz de criança surgiu na ponta da escada: “mamãe?”. Todos se viraram para ver. A menininha deveria ter seus 5 anos. Estava de pijamas e segurando um ursinho panda. Os cabelinhos escuros e bagunçados estavam presos num rabo de cavalo folgado. Ela correu em direção à mãe, abraçando-a. Joyce segurou a filha pelos ombros e disse:

— Sofia meu amor, termine de arrumar suas roupinhas, que daqui a pouco mamãe sobe para ajudar, está bem? -a menina olhou assustada para os dois homens no sofá, ao que a mãe continuou, tirando a franjinha dos olhos da menina- eles são amigos, mamãe está conversando, volte lá pra cima, está bem? — a menina concordou, ao que a mão deu um beijo na testa dela, e a pequenina rapidamente subiu as escadas.

Joyce esperou a menina subir a escadaria para continuar. Limpou as lágrimas do rosto, respirou fundo e continuou:

— Eles o obrigaram a entrar no carro. Dentro estava o filho de Carl, com uma arma apontada para Said. Pelo que pude ouvir, o grupo já desconfiava que Said estava querendo cair fora. O chamaram de covarde. Said disse que preferiria morrer a ter que continuar a fazer aquilo, e os ameaçou, dizendo que se o matassem, todos cairiam com ele, pois tinha documentos e provas para afundar todos. Ouvi alguns murmúrios, então eu ouvi um disparo, depois um barulho de porta de carro se abrindo...eu acho que atiraram nele, e o Said abriu a porta do carro e saltou, para escapar. Logo em seguida, eu ouvi a sirene da polícia e ele ofegante, deveria estar correndo. Então ouvi outros disparos, ouvi o Said ofegante no chão. Daí escutei passos, alguns comentários, como “sabe o que fazer agora”, “vamos...St Barts”, “lá ele resolve isso”, “cale-se Trevor, ou te mato também”. Depois não ouvi mais nada. Entendi o que aconteceu, e voltei para casa assustada. Não fui à polícia, tive muito medo que soubessem de mim, que me achassem.

O silêncio reinou entre os três. Sherlock estava com as mãos juntas em frente ao rosto, na sua clássica posição de reflexão. A jovem então quebrou o silêncio:

— Eu tenho família no interior do país, Vou passar alguns meses lá, até as coisas acalmarem por aqui. Eu tenho muito medo que eles descubram sobre mim e sobre nossa filha...vocês não sabem do que eles são capazes de fazer. Eles estão em todos os lugares. Polícia, escolas, hospitais, sempre tem alguém deles. Por isso vou fugir, para minha própria segurança.

— Tem mais alguma coisa que você lembre? -perguntou Sherlock

— No momento não.

— Ótimo -disse o detetive se levantando do sofá- muito obrigada por suas informações. E quanto ao Pen Drive, a polícia o recuperou, e pode ter certeza que ele está em boas mãos. Se lembrar de mais alguma coisa, ligue para mim.

Sherlock entregou para ela seu cartão de visita, ao que ela agradeceu e comentou:

— Já ouvi falar muito do senhor, sr Holmes; espero que sua reputação seja verdadeira.

— Pode ter certeza que os responsáveis por isso vão ser levados para a cadeira elétrica, nem que eu mesmo tenha que eletrocutá-los até a morte. Obrigada pela colaboração, boa sorte em sua viagem.

— Não há de quê, e...me desculpe pela mordida no braço. O cachorro foi um presente do Said, foi treinado para guardar a casa.

— Fez um bom trabalho -disse Holmes, apertando o ferimento.

— Joyce -disse John- quando isso tudo acabar, seu depoimento vai ser essencial. Mantenha contato conosco, e o que precisar de ajuda, pode falar.

— Muito obrigada sr Watson, manterei contato com vocês.

Então os três seguiram em direção à porta da frente, e se, despedindo da moça, John e Sherlock desceram a rua, Sherlock em silêncio. John teclou alguns números no celular, e apertou o botão da chamada. Estava ligando para um antigo colega militar.

***

Emanuelle estava cochilando. Apesar de ter ficado inconsciente por três dias, ainda sentia um leve cansaço; deveria ser o efeito dos analgésicos que estava tomando. Ela foi despertada pelo toque do celular de Mary.

— Ah, desculpe querida, deveria ter colocado no silencioso -Mary olhou o visor do aparelho- ah, é a sra Hudson, deixei a Rosie com ela. Volto já.

Mary levantou-se para sair do quarto, quando um homem de olhos verdes e presença marcante, vestido com um jaleco branco apareceu na porta, dando duas batidinhas de leve antes de entrar. Era Marcus.

— Posso entrar?

— Marcus…-disse Emanuelle, esboçando um sorriso cansado.

— Ah, claro pode -respondeu Mary- vou atender à uma ligação e volto já. Cuide dela para mim, ok?

— Ok, pode deixar que eu cuido -disse, abrindo um sorriso, olhando pra médica.

Marcus puxou uma cadeira e se sentou ao lado da cama onde ela estava. Pegou o prontuário e deu uma olhada.

— Aqui diz que a bala pegou sua veia subclavia, mas não pegou nenhuma artéria -disse Marcus- nas você vai ter que ficar em casa por um tempo.

— Quanto tempo?

— Três semanas.

— Três semanas?! Marcus não posso ficar em casa todo esse tempo! Tenho uma carga horária para preencher! Se não vou ter que emendar com o ano que vem sem férias.

— Duas semanas então?

— Uma semana! E nada mais além -disse, cruzando os braços, ainda deitada no leito.

— Emanuelle...-disse o médico num tom consolador, como se estivesse falando com uma criança pequena que acabou de derrubar o sorvete- você é cirurgiã e sabe que precisa se recuperar; que seu pescoço precisa cicatrizar.

— Justamente por isso que eu sei que posso estar de volta em uma semana.

— Ok, façamos um trato...eu deixo você voltar em uma semana, mas você vai ficar só em atendendo em ambulatório. Cirurgia so depois de duas semanas. -Emanuelle ia falar para protestar, mas o colega levantou o dedo, fazendo sinal negativo- é pegar ou largar.

— Emanuelle olhou para o outro lado, respirou fundo, soltando o ar lentamente e se virou novamente para o doutor, perguntando:

— Ambulatório é?

— É

— Por uma semana...

— Isso...como é ambulatório você vai ter que vir todos os dias, mas é meio período só. Você escolhe manhã ou tarde.

— Está bem...eu aceito essa proposta.

— Ótimo, o Charles vai gostar de saber.

— Ai, o Charles...ele deve ter ficado uma arara com isso.

— Ele ficou bem orgulhoso na verdade, você impediu um assalto.

— Pois é, impedi né -"do que ele está falando? Que história é essa?" , pensou a doutora. Emanuelle estava bem confusa, mas tentava não demonstrar. Levando em conta que ela estava no meio de uma reunião sigilosa, imaginou que mentiriam para o pessoal da emergência, sobre o que realmente aconteceu. Marcus continuou- Pelo menos foi o que o inspetor disse.

— O inspetor?

— Sim, Lestrade, acho que era esse o nome dele.

— É ele mesmo.

— Foi ele que trouxe você para cá, junto com um outro homem que entrou correndo, carregando você nos braços, seguido de um baixinho loiro.

— Me carregando?

— Sim, um de cabelos escuros e olhos claros, pelo menos foi o que Charles me disse.

— Você não estava aqui no hospital no dia?

— Não, não estava.Foi Charles quem atendeu você. Ele disse que você estava junto com o cara que te trouxe nos braços, então um bandido tentou assaltar uma senhora na rua e você viu e tentou impedir. Mas ele reagiu e atirou contra você. -Marcus se levantou e, apoiando as mãos sobre o leito, ficou levemente inclinado sobre a doutora, e falou de forma gentil -Sinceramente Manu...por mais que eu ache sua atitude heroica, acho que foi uma estupidez. As pessoas são feitas de carne, e mesmo que tenha um motivo justo, não faz você ser à prova de balas.

— Tem razão...as vezes fazemos coisas estúpidas, e as vezes fazem coisas estúpidas conosco.

— Não entendi.

— Deixa pra lá -disse, sacudindo a mão, sorrindo.

— Prometa nunca mais fazer isso, está bem?- disse, apalpando o curativo e, subindo a mão, segurou o rosto da doutora.

— Emanuelle colocou a mão por cima da dele, inclinando a cabeça, apoiando-a sobre a mão do colega.

— Tudo bem, prometo -disse, sorrindo.

— Era isso o que eu queria ouvir -disse, se inclinando ainda mais sobre Emanuelle e, abaixando-se, beijou a testa da doutora.

— Emanuelle sentiu seu pescoço e seus braços se arrepiarem. Marcus sempre mexera um pouco com a médica, mas dessa fez ela sentiu seu coração quase sair pela boca. O momento foi interrompido por Mary, que entrou no quarto. Marcus se levantou rapidamente da posição que estava, e gaguejava. A sra Watson, achando graça da situação, esboçou seu sorriso sapeca e comentou:

— Estou atrapalhando alguma coisa?

— Não, não, nada, só estávamos conversando -disse Emanuelle, que à essa altura ja estava vermelha como um tomate.

— Se quiserem, eu vou dar uma passada na cantina para vocês poderem terminar a conversa.

— Não, nós já acabamos -disse, desconcertado e colocando as mãos para trás- bom Manu, vou repassar para Charles que você vai ficar nos ambulatórios então. O horário você decide e me diz depois. Até mais tarde.

Disse rapidamente, andando rápido até a porta. Antes de sair, Marcus se virou e sorriu, acenando com a mão para a jovem, que respondeu também com um aceno de mão.

Depois dele ter saído Mary fechou a porta e olhou curiosa para a doutora. Emanuelle ainda estava vermelha, e perguntou, segurando o riso:

— O que foi Mary? porque está olhando para mim assim?

— Era com ele que você ia sair naquela noite?

— Bom...era, era sim.

— Puxa...eu tenho que oficialmente pedir desculpas a você. Por minha causa você deixou de jantar com um partidão desse.

Emanuelle soltou o riso. Estava claramente envergonhada pela situação. Sentiu-se uma adolescente conversando com uma amiga sobre os “gatinhos” da escola. Entretanto o passado ainda deixou suas marcas, de forma que Emanuelle rapidamente desmanchou o sorriso largo, dando lugar à um riso cansado, desgastado e triste. Mary percebeu a mudança e, puxando uma cadeira, sentou-se ao lado do leito. Emanuelle desviou o olhar para a janela. Queria evitar encarar a sra Watson. Mary, então arriscou:

— Querida, quer conversar sobre isso?

— Isso?...isso o que?-disse tão baixinho que Mary quase não ouviu.

— Minha querida, posso não ser Sherlock, mas está bem claro que você tem problemas com relacionamentos amorosos.

— Puxa...está tão claro assim? -A sra Watson balançou a cabeça afirmativamente. Emanuelle soltou o ar, continuando- eu não sei se quero falar sobre isso agora...é um tanto delicado, sabe?

— Não tem problema. Só quero que você saiba que estarei aqui quando quiser falar, pode contar comigo.

— Obrigada Mary.

O silêncio pairou no quarto. Mary então, de maneira animada propôs assistirem televisão. Emanuelle concordou, pedindo para Mary levantar um pouco a cabeceira da cama. Depois de atendida,a jovem se endireitou na cama, e Mary ligou a TV. Ambas não demoraram muito para entender o que estava passando naquele canal. Mas ao compreenderem o conteúdo e do que se tratava, ambas congelaram diante da tela.