Flor de inverno

1 Capítulo único - Flor de inverno


Notas iniciais
Olá! Sou Cherryuki, prazer! Espero que apreciem está one-shot que escrevi! Fiz ela baseada em dois desenhos, a primeira foi a imagem que está na capa, e a segunda, uma imagem que meu amigo Felipe desenhou, e a pedido dele, escrevi essa one-shot. Sei que ela não ficou tão bem descrita, e por isso estou avisando que foi baseada nas características físicas dos personagens da capa para que vocês leitores possam ter uma imagem em mente.
Essa one já era para ter sido escrita há muito tempo ( no caso, ano passado) mas a pessoa aqui perdeu o manuscrito! Pois é... Bem, ela ficou diferente, mas achei que ela tem um brilho especial, espero que apreciem o enredo.
Felipe, essa one foi escrita para você, então eu espero que goste dela! Um pequeno presentinho de aniversário atrasado!
Sem mais delongas,boa leitura!

There is but one truth that connects us to an eternity…

A noite estava fria. Podia ter sido uma noite especial como fora as anteriores. Por tantos anos eu amei aquela noite que marcava o começo da primavera... Apesar de ser uma noite gelada e com precipitações de neve, a árvore de cerejeira do meio da floresta insistia em florescer. O mais interessante naquela árvore é que as flores duravam apenas até o amanhecer.

Essa característica tão peculiar da árvore fazia com que diversos boatos circulassem na aldeia. Alguns diziam que era uma árvore sagrada, outros diziam que ela foi amaldiçoada, mas a história que eu mais gostava era a que falava sobre o nosso adorado deus das águas, Shei.

A história se resumia ao amor de Shei por uma garota do vilarejo, o deus plantou aquela árvore para que pelo menos uma vez por ano, apenas quando a árvore florescesse, eles pudessem se encontrar, mas antes que o desejo dos amantes pudesse se realizar, a jovem acaba de adoentando e falecendo. Por causa disso, a árvore continuou a florir ano após ano, mas Shei nunca voltou a rever sua amada.

Mesmo que existissem tantas histórias sobre a árvore, o dia que ela florescia era extremamente importante, logo era celebrado com um belo festival cheio de música, dança, comida e teatro.

Mas esse ano, a árvore não floresceu.

Todos do vilarejo ficaram desesperados, Reuniram as pessoas para rezar ao deus das águas, fizeram oferendas de alimentos... Nada adiantou.

Até o dia em que o sacerdote da vila teve uma espécie de visão em que o deus Shei ansiava por uma noiva.

Aquilo soou como algo ridículo para mim, mas os demais aldeões agradeciam pela resposta oferecida, o que me fez ficar calada sobre o assunto.

Então, eu fui escolhida...

Aquela notícia me fez perder o chão que existia sob meus pés.

Os dias se passaram e aos poucos, minha veste ficava pronta pelas habilidosas mãos de minha mãe e suas lágrimas. A roupa poderia ser considerada perfeita, se não tivesse aquele propósito. A esperança se esvaía de mim.

A cerejeira ficava no meio da floresta depois de um grande lago. Para chegar até ela, havia dois caminhos. O primeiro era subir as escadas do templo que levava ao lago e depois atravessá-lo chegando até a árvore. A segunda era bem mais complicada, dar a volta em torno do lago, o que demoraria cerca de dois dias devido ao relevo.

Quando o dia finalmente chegou, eu podia ver o rosto de minha mãe sem expressão e os olhos de meu pai sem brilho. Meus irmãos apenas ficaram em silêncio. Era como se estivessem de luto...

Um luto antecipado.

Subi as escadarias com elegância apesar de todo o peso daquelas roupas e acessórios desnecessários. Cheguei ao lago levemente ofegante. E pensar que aqueles eram meus últimos momentos...

A angústia me calava de tal forma que eu não tinha mais reação. Talvez minha alma tivesse deixado meu corpo de sacrifício.

Fui colocada em um barco rústico de madeira e me entregaram uma vara comprida para guiar o barco até o outro lado.

Não olhei para trás para me despedir de ninguém, e muito menos de meus pais. Eu não tinha lágrimas para chorar naquele momento.

Subi no pequeno barquinho e de pé, comecei a guiá-lo em direção á outra margem. Eu sabia que minha família chorava, eu podia ouvir minha mãe gritando meu nome.

“Nadeshiko!”

Aquilo amoleceu meu coração e lágrimas começaram a escorrer por minha face. Grandes gotas de lágrimas insistiam em cair e me deixar sem visão.

Então o vento começou a ficar mais forte enquanto eu chorava. Quando notei, um grande dragão feito de água havia se erguido ao lado do humilde barco e ele me encarava.

Aquele era meu fim...

Dei um último suspiro. Uma última lágrima.

Até que fui engolida pela água.

.

.

.

Senti algo gelado em minhas pernas, parecia que estava sendo banhada pela água. Essa era a sensação de estar morta? A claridade estava me incomodando. A luz incomoda um morto?

Abri os olhos e vi um céu azul com algumas nuvens e mais ao longe outras nuvens mais escuras. Parecia que ia nevar...

Levantei-me devagar e notei que estava no chão, à margem do lago. Estava viva e nem um pouco machucada. Devagar me levantei, mas não entendia o porquê de não ter ninguém do outro lado da margem. Onde estavam todos?

Lembrei-me do dragão e algo me afligiu. Será que aquele monstro havia matado a todos? Meu coração se apertou e então corri pela beira do lago tentando procurar algum corpo, mas não havia nada.

Arranquei aquelas roupas extras e aqueles acessórios extravagantes que me deixavam pesada. Olhei novamente para o céu e depois para a cerejeira.

“Então estou realmente morta?”

Andei até a árvore e notei que os botões estavam prestes a florescer. Tudo havia se resolvido então...

Encostei-me a árvore e algumas lágrimas começaram a escorrer.

“Então mortos também choram?” falei enquanto limpava o rosto.

“Quem disse que a senhorita está morta?” falou uma voz masculina.

Olhei para os lados sem avistar ninguém.

“Quem está ai?” falei assustada.

Mas nada me respondeu. Fiquei algum tempo apreensiva até que senti um toque em meus braços, o que me fez dar um leve pulo e me afastar. Assim que olhei para trás notei um belo homem de cabelos negros que sorria gentilmente para mim.

“Nadeshiko” ele chamou meu nome, mas continuei olhando assustada para ele.

“Venha para mim, minha bela e adorável, Nadeshiko.”

Ele estendeu uma de suas mãos para que eu a segurasse, mas não o fiz.

“Quem é você?” perguntei desconfiada.

O homem a minha frente pareceu desapontado por alguns instantes, mas recuperou-se logo.

“Shei” ele falou com um sorriso.

Ao ouvi-lo meus olhos se abriram assustados e me curvei diante dele. Que falta de respeito a minha. Ouvi-o se aproximar de mim e em seguida se abaixar.

“Por que se esconde de mim?”

Shei segurou meu minha mão, me fazendo levantar o rosto levemente.

“Sinto muito a minha falta de respeito, grande senhor das águas.”

“Nadeshiko, olhe para mim.”

Fiz o que o deus me mandou e olhei para ele. De alguma forma, por que ele parecia tão triste? Aquilo fez meu coração estremecer.

“Cada ano que eu te esperei foi pior que minha eternidade.” Ele disse com aqueles olhos tristes.

“Por que me esperou? Você não tinha uma noiva?” perguntei impulsivamente.

Shei sorriu e acariciou minha face.

“Isso só você sabia.” Ele falou calmamente. “Eu te mostrei sobre a noiva.”

Piquei algumas vezes tentando entender o assunto.

“Mas ela morreu, não é?” perguntei tentando confirmar a história.

E novamente o deus riu.

“Isso foi você quem inventou.”

“Eu?” falei incrédula.

Ele confirmou ainda rindo de mim.

“Eu me apaixonei por você há alguns anos, Nadeshiko. Você não podia me ver, mas vinha ver as flores dessa cerejeira com um sorriso no rosto.”

Por alguns instantes fiquei sem graça.

“Eu... Gostava dessa árvore.” Falei baixinho.

Shei olhou em meus olhos e ficou sério.

“Não gosta mais dela?”

Assim que ouvi aquela pergunta balancei a cabeça com força, negando.

“Jamais!”

Shei sorriu novamente.

“Não se preocupe com isso, eu apenas iria tirá-la daí.”

“Não pode!” Falei desesperada.

“Por que não?” Ele me questionou.

“Por que todos na aldeia amam essa árvore!”

Ele me olhou sério.

“Mas te sacrificariam no lugar dela.” Pude sentir um leve tom de irritação em sua voz.

“Não os entenda errado.” Falei baixando o olhar.

“Claro.” Ele levantou meu rosto para me olhar.

Aquele gesto do deus das águas estava me deixando envergonhada e meu coração batia loucamente. Que pecado o meu... Amar o grande senhor das águas de forma tão impura.

Notei que ele se aproximava de mim lentamente, o que me fez fechar os olhos. Até que senti um toque delicado e quente em meus lábios. Quando voltei a abrir os olhos me deparei com Shei me beijando, o que me surpreendeu.

Ele voltou a se afastar de mim e me olhou nos olhos. Parecia... Apaixonado. Assim como eu provavelmente estava por ele...

“Eu te esperei por todo o ano para que despertasse, fiquei surpreso quando a vi de pé. E mais surpreso ainda por ser justamente nesse dia.”

“Que dia é hoje?” Perguntei curiosa.

“Dia do festival.”

Fiquei surpresa e me levantei indo até a beira do lago e olhando para a margem do outro lado, avistando as pessoas felizes. Até que todos pararam e começaram a se dirigir até o lago com algumas lanternas de papel e as colocando no lago.

O lago estava tão iluminado que parecia mais um céu estrelado do que qualquer outra coisa. Lembrei de Shei e olhei para trás, ele me observava com um sorriso, até que fez a cerejeira florescer. O espetáculo mais lindo que eu poderia ver...

Shei combinava tanto com flores, neve e luz...

Ele andou até mim e segurou minhas mãos.

“É hora de irmos.”

“Para onde?”

“Para o seu lugar comigo. Ao meu lado.”

Sorri e assenti. Era a minha vez de ser feliz...

[...]

Do outro lado da margem, onde os aldeões soltavam as lanternas em homenagem a jovem que se sacrificou ,por alguns instantes, todos puderam avistar o grande senhor das águas e a adorável jovem Nadeshiko juntos, até se transformarem em pétalas de cerejeira lentamente e voarem pelos céus com o vento e a neve que caia lentamente.

Notas finais
Obrigada a aqueles que leram essa pequena one-shot! Se puder, por favor, deixe um comentário, me faria muito feliz saber que alguém leu!
Beijos,
Cherryuki.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!