Flor de Lótus-edward e Bella

22 Capítulo 21- Espelho d'àgua parte II


Notas iniciais
Olá,

Prestem muita atenção neste capítulo. Leiam sem pressa.

Obrigada às minhas últimas indicações. Grande beijo a Jessy-Bell's Coca Cola', DanyBella, Stéphanie Cruz, SiaStw,

Muito obrigada.

Capítulo Espelho d'água parte II

Quarta-feira, Edward passou a manhã incomodado em sua sala, trabalhando com papéis no automático, ansioso e com sensação de perda de tempo. Ainda pleiteava encontrar uma oportunidade em que pudesse revelar o que escondia. Entretanto, como desculpa para não fazer, continuava a dizer que não queria perder a paz. Sabia que adiar tornava-o fraco e egoísta. Afinal, o assunto desencadearia desentendimentos. Por isso, alegava como desculpa que não estava preparado para a conversa.

Não sabia quando estaria.

Com uma sensação de angústia queimando em seu peito, levantou apressado de sua cadeira, deixando uns documentos para trás, colocou o terno no braço e saiu pela porta feito um furacão, passando antes por Rachell no corredor, a quem evitava desde o casamento de Jasper.

De novo, passou em casa, trocou de roupa e foi buscar Bella na escola. Como nos dias anteriores, Bella saía com Alice mais duas amigas. Desta vez, mal ela saiu do portão, já olhou em direção ao local onde ele estava. E desta vez era Volvo preto que estava lá, com ele encostado. Sorridente, deixou Alice com a chave de seu Lótus e caminhou até ele.

“Hmmm, hoje não é o seu dia.” Disse logo que pôs os braços em volta do seu pescoço.

“Tudo bem.” Pegou uma mecha longa de cabelo e acariciou-o concentrado. “Eu só queria te ver um pouco.” Deu-lhe um selinho despreocupado com atenção externa. Como vestia roupas descoladas, podia ser que ninguém percebesse a diferença de idade.

“Já estava com saudade de mim?” Perguntou presunçosa e mordeu os lábios, adorando o modo como ele olhava e cheirava seus longos cabelos soltos.

“Sim. Eu só tenho você, enquanto você tem a escola e um monte de garotos olhando-a diariamente nessas suas sainhas curtas.” Resmungou e soou mais ciumento do que ele desejava.

“Aff, isso é algum tipo de possessão?” Censurou-o petulante.

“Não.” Arrependeu-se imediatamente. Sabia que ela não queria esse tipo de manifestação. “É carência.” Inclinou e beijou-a no pescoço. “Almoça comigo.” Pediu manhoso.

“Não dá. Ontem eu não fiquei com Peter, e hoje combinei de fazermos brigadeiro assim que almoçarmos. Ele deve estar ansioso.” Explicou carinhosa.

“Poderíamos almoçar fora e comprar brigadeiro pronto para levar para o Peter.” Sugeriu matreiro.

“E perder o gosto de brigadeiro caseiro?” Balançou a cabeça. “Não.” Negou, depois juntou as sobrancelhas, pensativa. “Vamos para minha casa?” Propôs animada.

“Acho que não.” Respondeu incerto.

“Vamos. Você é meu convidado.”

“E sua tia?”

“Ela não liga.” Balançou os ombros. “Vai gostar de ver você na minha cola.” Piscou presumida, pegou os materiais escolares que tinha colocado no capô e jogou-os dentro do carro. “Ela vai ver que você não é um simples namoradinho.” Adicionou, antes de abrir a porta e entrar.

Chegaram em frente a Mansão de Emmett, Bella desceu e apertou o interfone. Minutos depois o portão se abriu.

“Tem certeza que não vou incomodar?” Ele perguntou logo que entraram na propriedade, contornando o jardim para estacionar.

“Não. Minha tia é legal.”

Desceram e seguiram para a porta frontal. Ao entrarem, Peter atravessou apressado a sala e se jogou no colo de Bella, enlaçando as pernas em sua cintura.

“Olá, bebê!” Beijou-o no rosto em vários lugares, enquanto o apertava, dizendo estar com saudade. Peter sorria e a beijava também, com total devoção. O amor mútuo era tão explícito que Edward assistia com o fôlego preso. “Como foi o seu dia?” Bella perguntou. Peter respondeu por meio de sinais. “O tio Du veio almoçar com a gente. Fala com ele.” Colocou-o no chão, a seguir Peter foi ao colo de Edward. O garoto era muito amoroso e confiante. Reflexo do amor que recebia.

Caminharam para a mesa da sala de jantar, e Edward ainda estava meio acanhado por invadir o ambiente familiar de Bella, pior ainda sabendo que aquela era a casa de Emmett e certamente não era bem-vindo, caso Emmett tivesse a opção de decidir.

“Boa tarde, dona Esme.” Cumprimentou da porta, embaraçado ao ver a mesa posta.

“Boa tarde. Bella, você não avisou que alguém mais iria vir. Eu teria feito algo especial.” Foi até o armário na cozinha pegar um prato e pôs mais um lugar na mesa.

“Por mim, não precisa se preocupar. Eu não ia almoçar aqui. Vim de última hora.” Edward explicou sem jeito.

“Não seja tímido, Edward. Ela está fazendo charme. A comida dela é uma delícia.” Bella brincou. Esme sorriu lisonjeada.

“Então se sentem. Peter só come depois que Bella chega.” Rolou os olhos, como se achasse absurda tal dependência.

“É meu bebê.” Bella frisou brincalhona e sentou-se a mesa entre Edward e Peter. “Fui eu quem pediu para me esperar.”

Serviram-se de macarronada ao molho branco com frango desfiado. Edward comeu silenciosamente, enquanto isso Bella comia fazendo caras e bocas com Peter, rindo enquanto sugava sonoramente o macarrão. Por um segundo, Edward sentiu culpa por ter pensado em privar Peter de Bella, quando ele parecia tão feliz em sua companhia.

Em determinado instante, preocupou-se quando notou olhares curiosos de Esme em sua direção. Suspeitava seriamente que ela tivesse lembrado. Já Alice, comia quieta, enquanto acessava seu Tablet, dando alguns risinhos silenciosos.

“Agora os legumes.” Bella apontou para um refratário com cenouras e beterraba. Peter balançou a cabeça em negativa. “Vamos, Peter.” Pediu séria. “Se não você não vai ficar tão lindo e legal e inteligente e com um louro perfeito como o meu.” Disse e piscou, jogando uns fios de cabelo no ar. “A cenoura faz bem para pele e cabelo. Além disso, beterraba nos deixa mais saudáveis e alegres.” Disse e espetou o legume com o garfo, levando a boca do garoto. “Até o tio Du vai comer.” Espetou outra cenoura e virou-se para levar a boca de Edward. Ele hesitou uns segundos, olhando para o talher, depois abriu a boca e comeu. Persuadido, Peter aceitou mais algumas porções, terminaram e tomaram suco.

“Pronto, agora vamos para a diversão.” Bella chamou Peter e Edward para a cozinha, abriu duas latas de leite condensado, pôs a manteiga e chocolate numa panela, depois levou ao fogo. Peter fez sinal de que queria mexer. Bella pôs um banquinho próximo ao fogão, ele subiu e começou a mexer a colher de pau. Em nenhum momento ela tirou os olhos cuidadosos de cima dele, sempre adicionando comentários incentivadores.

“Vem aqui, tio Du, ver o Peter fazendo o melhor brigadeiro que você vai comer.” Chamou-o docemente, ele aproximou-se e ela passou a mão dele em volta de sua cintura. “Está disposto a ficar a tarde conosco?”

“Acho melhor não.” Negou ainda sem jeito.

“Fique.” Acariciou sua nuca, sem nunca desviar completamente a atenção do garoto.

“E sua tia?” Sussurrou e olhou para o lado, local onde Esme guardava a comida e olhava-os furtivamente vez ou outra, enquanto uma ajudante lavava as louças. “Já incomodei demais.”

“Não seja bobo. Você é meu namorado. Além disso, ela vai sair para o curso dela.” Deu de ombros e conferiu o ponto no brigadeiro. “É bom que você passa a tarde comigo.”

“Não era minha intenção ficar. Só queria te ver um pouco.” Defendeu-se ao notar a forçação de barra.

“Mas eu quero ficar com você.” Sorriu e beijou-lhe no queixo. “Terei as pessoas que amo debaixo dos meus olhos a tarde toda.”

“Tudo bem.”

Depois que comeram a sobremesa, foram para o quarto de Bella, ela ligou a TV para Edward e espalhou seus cadernos no carpete, juntamente com os materiais de Peter. Edward sentou-se desajeitado em sua cama, pegou um livro na cabeceira e folheou-o. Bella explicava lições ao garoto, enquanto isso fazia exercícios de Matemática. Depois de um tempo, Bella avisou que iria para o jardim tocar flauta com Peter e deu-lhe um beijo atencioso. “Fica aqui lendo. Se eu tocar aqui, vai te atrapalhar. Esse livro é bom. Qualquer coisa te empresto.” Avisou e desceu.

Edward ainda leu mais dois capítulos, cansou e desceu, sentindo-se deslocado. Bella estava no jardim, entretida, de costas para a porta. Nem Peter ou Bella os viu. Edward observou-os um instante, lembrou-se porque aceitara ir lá e olhou interessado para a o laboratório de Emmett, na outra entrada da propriedade. Em passos leves, caminhou pelo canto do muro até chegar ao local onde Peter o levou dias atrás. Olhou para os lados, sentindo a adrenalina pulsar forte no pescoço, suspirou, abriu a janelinha de alumínio e enfiou o corpo dentro da tubulação, engatinhando a seguir para o local onde fora com Peter. Lá, com um ofego nervoso, desceu, apoiando o pé na mesa e, após por o pé no chão, imediatamente ligou o computador. A tela se abriu, sentou-se ansioso na cadeira e esperou-o logar. Foi com um suspiro exasperado que notou que o computador tinha senha. Fez algumas tentativas com nomes e datas, todas frustradas, passou os dedos nos cabelos e levantou-se ao ouvir um barulho de vozes próximo. Sabendo que não dava tempo de pular a mesa e voltar ao esconderijo, tomou a decisão rápida de entrar embaixo da mesa e rezou logo que a porta se abriu que estivesse escondido o suficiente para que ninguém o notasse.

Não seria nada bom ter que explicar a Bella o que fazia ali.

“O serviço tem que andar mesmo sem ele aqui.” Foi Rilley quem disse, pegou alguns pacotes e entregou na mão do ajudante, depois olhou para o computador e notou que estava ligado. Sentou-se e digitou a senha. Edward não pode ver direito pela fresta da mesa, mas notou pela posição dos dedos que era uma senha com números, seis números.

“Você acha que ele ainda demora muito?” Era o ajudante, que se sentou sobre a mesa que Edward estava embaixo.

“Não sei... Parece que está tendo complicações com adaptações, abstinência.” Explicou desinteressado e digitou algo.

“Ele tem que voltar logo.”

“Você acha que eu não sei? Tem gente grande atrás dele depois daquelas prisões que envolveram os policiais, que só ele saiu ileso... Todavia, o único policial que o preocupa é esse Cullen de merda.”

“Eu também ficaria puto se um cara como ele tivesse pegando minha irmã.”

“O problema não é esse. O problema é que o Cullen evidencia Emmett. E tudo que ele não precisa é de atenção.”

“Mas isso não muda o fato dele estar pegando a irmã... Ele está aí hoje de novo.” Apontou para a casa.

“Eu sei.” Rilley suspirou. “Coitada da Bella, se ela descobrir a fria que está... Pior que Emmett atirou no pé quando permitiu o desencadear de acontecimentos que levaram Bella a conhecê-lo.” Sorriu, trocou uma folha de anotações sobre a mesinha e passou a digitar a próxima. “Você lembra como foi fácil manipulá-lo? O Cullen é previsível. Acreditou que nós tínhamos te espancado.”

“Pior que ele pegou meu nome.” O ajudante também sorriu. E Edward cerrou os olhos, curioso, a fim de descobrir que assunto tratavam.

“Mas essa é a vantagem de ter alguém dos nossos dentro da Agência dele. Ninguém informou para ele que o David que eles supostamente salvaram era o mesmo David, ajudante de Emmett, e o mesmo David irmão do ex-namorado da Bella.”

Edward tensionou os músculos e lembrou-se da noite em que estavam em frente a Sky e um rapaz foi supostamente espancado por Emmett e russos. O mesmo rapaz que Edward impediu Michael de bater. Deveria ter deixado, pensou, indignado. Mas qual era o objetivo da armação?

“Tenho dó do meu irmão.” O ajudante disse. “Se ele soubesse que ia perder a namorada não teria ignorado ela levar o Cullen em casa aquela manhã que o encontraram na rua.”

“Bella ia terminar com ele uma hora ou outra.” Rilley deu de ombros e Edward surpreendeu-se que eles soubessem detalhes de sua história com Bella.

“Você acha mesmo que esse namoro é uma farsa para provocar Emmett?” David perguntou.

“Tá brincando? Você já viu a filha do Capitão Marcus?” Continuou digitando, referindo-se a Rachell. “Era com aquele tipo de mulher que ele andava antes. O que ele iria querer com uma menina como a Bella?”

“Rá, eu ia querer muita coisa.” Disse maliciosamente. “Ela com esses shortinhos que anda pelo quintal tira o sono de qualquer alma viva.” Edward abriu a boca e cerrou os punhos, irado. Que ousadia desse capanga. Pior, como se atreviam a comparar Bella com a sem sal da Rachell? Não tinha comparação!

Rilley continuou. “Mas pelo menos para uma coisa o Cullen vai servir. Despistar, quando Emmett precisar sair de área.” Edward perdeu o fio da meada. “Esse foi um dos motivos que não me deixou fazer nada para impedir Bella de vê-lo.”

“Eles transam?” David quis saber.

“Lógico! Ela dorme na casa dele. E pelo jeito, ele está aproveitando bastante da vingançazinha contra Emmett. Semana passada eu a vi pagando um oral nele no estacionamento vip.”

“Nossa.” David ofegou. “O Daniel disse que os dois mal se beijavam quando namoravam.”

“Seu irmão é um moleque perto do Cullen. Olha a diferença.” Ironizou. “Mas o Cullen vai dançar direitinho. Como diz o chefe, ele cavou o túmulo com o garfo.”

Edward estava boquiaberto com tudo que ouviu, sentindo presságios arrepiantes de algo muito grande. Quando a porta se fechou, apressadamente sentou-se em frente ao pc e aproveitou que ainda não tinha entrado em espera, tirou seu cartão de memória do celular e iniciou um backup, enquanto isso ficou observando as saídas, nomes de pessoas na Zona Sul que o pagavam para modificar a droga, outros supostos clientes. Entretanto, antes de chegar a 40% da cópia, ouviu vozes novamente, ejetou o cartão de memória e desligou o monitor, voltando imediatamente para debaixo da mesa. Olhou no relógio e notou ter passado cinquenta minutos desde que Bella o deixou no quarto, respirou fundo, controlando a pressão do sangue que pulsava nos ouvidos, Rilley e o ajudante pegaram mais alguns pacotes, então repetiu o processo, sentando-se em frente ao computador, graças a Deus, sem perceber a mudança de tela. Ficou mais alguns minutos lançando movimentos, conversando nesse tempo assuntos sem importância, Edward fechou os olhos e esperou o tempo passar, rezando para que Bella não sentisse sua falta.

Rilley finalmente saiu, fechando a porta atrás de si, após vinte minutos de tensão. Edward tomou uma grande lufada de ar, subiu imediatamente na mesa e impulsionou-se de volta ao duto, engatinhando até sair no mesmo local que entrou.

Já de volta a segurança, respirou fundo várias vezes, segurando na parede para conter o fluxo de adrenalina no cérebro, ofegou e caminhou de volta a casa, andando pelos cantos, até passar pelos jardins e chegar até o fundo, local onde Bella estava.

“Hei, onde você estava? Fui lá em cima e não te achei.” Sorriu e inclinou-se sobre o desenho que Peter fazia, um transformes.

“Er, estava tomando um ar. Não queria atrapalhar vocês.” Explicou passando as mãos no cabelo, nervoso.

“Você sabe que não atrapalha.” Piscou carinhosa e bateu na esteira ao seu lado para que ele sentasse. “Já viu como Peter desenha bem?”

“Eu já vi, sim.” Sorriu para o garoto, agora mais calmo. “Muito bem, para ter só seis anos.”

“Está no gene e convivência.” Disse e deu um belisco na coxa do garoto que estava deitado de bruços, sobre o desenho. “Puxou a mãe.” Piscou presunçosa.

“No caso, você.” Edward puxou-a, envolvido por sua alegria e beijou seu cabelo.

“Quem mais?” Fingiu-se de ofendida.

“Só você. É a única mãe que ele tem.” Bajulou sentindo-se um crápula por, de novo, ter mentido para ela e usado sua confiança para tentar descobrir algo que pudesse ter a seu favor. Entretanto, estava numa luta sem chance. Emmett tinha os trunfos. Tinha ela... Ele não tinha nada. Como provar para Bella que Emmett fazia parte de um esquema que colocava drogas nas ruas? As mesmas drogas que ela tentava recuperar viciados, junto à pastoral. A mesma droga que matou Rosalie. Como provar para Bella que estavam sendo monitorados e manipulados pelo seu irmão?

“Eu não queria ter te deixado tanto tempo sozinho.” Foi tirado das argumentações internas por Bella, que acariciava seu rosto. “De qualquer maneira, Peter precisa dormir um pouco e eu posso ficar um tempinho com você.” Sussurrou em seu ouvido. “Vamos subir e colocá-lo na cama? Depois podemos assistir um filminho.” Insinuou.

“Boa ideia.” Respondeu ainda branco como papel de tensão, levantaram-se no chão, chamaram Peter e subiram.

Bella deixou Edward no quarto assistindo TV, preparou um lanche enquanto Peter tomava banho, depois lancharam no quarto e Peter foi dormir no quarto ao lado.

“Por que você ficou tão estranho de uma hora para outra?” Deitou-se em sua cama solteirão com Edward e abraçou-o, com a cabeça dele abaixo de seu queixo, enquanto acariciava seus cabelos.

“Nada não. Só estou cansado.” Bella iria perguntar cansado de quê, já que ele não trabalha. Porém ele foi mais rápido com a próxima pergunta. “Bella, qual a data de nascimento de Peter?”

Ela estranhou o interesse repentino, mas respondeu. Ele gravou mentalmente. “E o seu?” Ela também respondeu, surpresa que ele perguntasse, quando bastava somente fazer as contas. Ele deu um suspiro e decidiu que em outra oportunidade testaria datas no computador de Emmett. “Bella, se eu te pedisse uma coisa você faria?”

“Depende.”

“Eu não queria que você andasse pelo quintal com esses seus shortinhos.” Pediu ciumento. Lembrando do comentário de David.

Ela sorriu alto.

“Não.” Contrapôs teimosa. “Eu gosto dos meus shortinhos. Você também.”

“Okay. Eu já sabia.” Resmungou resignado, abraçou-a mais e aconchegou as pernas entre as dela. Fechou os olhos um pouco deprimido e curtiu a sensação de paz que ela lhe transmitia, enquanto inspirava o perfume acalentador de seu colo.

No fim daquela tarde, após ficarem abraçados, Edward avisou que iria embora. Queria muito, precisava, passar na agência para pedir algo a Erick.

“Por que vocês são tão protegidas e neste portão não tem guarita?” Perguntou quando ela o acompanhava até o portão para abri-lo no controle remoto.

“Não sei. Tem uma guarita na outra entrada. Por aqui, Emm só pôs câmeras e elas são controladas pela guarita da frente.”

“Tem câmeras por aqui?” Olhou em volta, sobressaltado.

“Sim. Em toda a propriedade.” Abriu a porta para se despedir. Ele ficou no carro, ainda olhando em volta, procurando os pontos. Ela percebeu sua apreensão, julgando ser por terem se arriscado na semana anterior e adiantou-se em esclarecer. “Se está preocupado com aquele amorzinho embaixo da árvore, lá foi o único ponto daqui que não tinha cobertura.” Disse maliciosamente.

“Ah...” Ele ofegou, porém essa não era sua real preocupação. Temia que sua visita ao laboratório tivesse sido filmada. Merda, era um agente treinado ou um saco de batatas? Como pode não ter visto as câmeras? Aborrecido, inclinou-se para receber o beijo de despedida que ela lhe oferecia. “Até amanhã.” Avisou. Ela estudou-o desconfiada com o que o mantinha tão distante. Ele tentou sorrir, ao notar a suspeita. “Eu te pego na escola, para pintarmos.” Forçou um sorriso, ela sorriu concordando e desceu do carro.

Edward foi direto para Agencia conferir o fim do dia e treinar, e lá pediu que Erick lhe conseguisse um aparelho decodificador de senhas. Erick estranhou o pedido, disse que conseguiria para alguns dias à frente, e Edward trancou-se na sala de Inteligência para tentar acessar os dados que conseguira. Entretanto, eram muito pouco. Somente movimentação contábil. Nada de nomes. Nada de provas. Sentia que nadava contra uma maré. Ia morrer na praia.

Restava a aceitação da derrota.

Dias se passaram, e uma nova rotina foi estabelecida. Todas as reuniões e expedientes eram resolvidos pela manhã. Edward envolveu-se somente em serviços burocráticos, deixando que Laurent continuasse gerindo as equipes externas. Isso o livrava de transtornos. Com Bella, os finais de semana seguiram do mesmo modo. E durante a semana, um dia Bella passava à tarde no apartamento dele e no outro, ele passava a tarde na casa dela. Lá, lia sempre algum livro enquanto ela e Peter faziam lições, depois assistia TV, cochilava abraçado a ela, mas nunca deixou de tentar, com muito cuidado, outra chance de copiar mais arquivos, fosse inserindo opções de datas, fosse esperando Rilley entrar e deixar o pc logado.

O que não aconteceu.

Foi quando faltava uma semana para o aniversário de dezessete de Bella, resolveu tomar uma atitude drástica para não perdê-la para as mentiras que era sua vida. Decidido, e, já, sem saída, convidou-a para visitar a casa do seu pai, e lá revelaria toda a sua vida.

Se ela pudesse sentir a sua dor, talvez, só talvez, ela entendesse e o perdoasse.

http://www.youtube.com/watch?v=Lv8-MCoiPcM

N/A: Ouçam a música. Ela vai dar o clima. Tema da fic. Angel.

Estacionou em frente à mansão do pai por volta de duas da tarde de sábado. E naquele dia Bella estava elétrica, contando com muita animação o que aconteceu na pastoral pela manhã. Disse que sua amiga Jéssica, interna da casa de recuperação, finalmente reencontrou o namorado Mike, depois de anos separados. Então contou suspirando que os dois passaram a manhã conversando e chorando sob uma árvore, reconciliando. Disse que nunca se sentiu tão realizada e que foi ela e Daniel quem tinha conseguido localizar o rapaz. Alice incentivou-a durante todo o caminho de Beverly Hills a Malibu. Já ele, por instantes, teve ciúme da atividade dela. Principalmente por esta ser desenvolvida em companhia do ex-namorado.

Com outras preocupações prioritárias, desceu do carro, deu uma olhada em volta e suspirou nostalgicamente, sentindo-se estranho em estar de novo lá. Tudo parecia ter mudado nos últimos seis anos. Nas poucas vezes que veio aqui depois do que aconteceu, sempre veio à noite e limitou-se a entrar pelo portão da frente, passar poucas horas na casa e sair imediatamente.

Bella notou sua tensão, pois sentia sua relutância em vir ou falar daqui, e também suspeitava das lembranças que o lugar evocava, por isso, ao descerem do carro, aproximou-se dele e deu-lhe a mão.

“Bonita sua casa.” Comentou e olhou em volta, notando que a propriedade parecia meio abandonada. Certamente foi construída para uma família grande, deduziu, com três andares, pintada de branco e cinza. A lateral e frente eram rodeadas de cercas artesanais de madeiras, com lanças em formato de leões a cada dois metros. Alguns coqueiros faziam sombra na frente da propriedade, e o barulho de ondas batendo nas pedras trazia um clima de solidão. Bella suspirou e levantou o rosto recebendo o raio de sol e vento na pele. Estava feliz que ele lhe desse mais um pedacinho de seu mundo. Era mais uma conquista.

“Era mais bonita antes.” Ele ofegou ansioso e segurou na mão de Peter para subirem os três degraus que dava acesso à porta da frente, local onde Carlisle e Jasper os esperavam.

“Como vai, Bella?” Carlisle a cumprimentou estendendo a mão. Ela adiantou-se e o abraçou efusivamente, deixando o homem mais velho encabulado.

“Vou bem. E o senhor?”

“Ótimo. E você, Alice, já ganhou um pouquinho de juízo?” Desviou-se para a pequena que veio mais atrás.

Alice sorriu sem jeito, retribuindo ao cumprimento, e Jasper pôs-se ao seu lado, pondo a mão sobre o seu ombro. Ela afastou-se um pouco, mas ele não a deixou escapar.

“E esse garotinho aqui?” Carlisle apontou para Peter, que segurava na mão de Edward. “Também é filho da dona Esme?”

“É meu filho.” Bella disse orgulhosa.

“Seu?” Fez uma careta, incrédulo.

“É o filho do Emmett. Ela o cria.” Edward encerrou o assunto, tenso, com um olhar discreto de advertência ao pai, com um pedido mudo para que ele não comentasse o assunto. “Depois te explico, pai.” Passou por ele na porta e puxou Bella para dentro.

Bella adiantou-se animada para conhecer a casa, atravessou duas salas e parou encantada em frente a um quadro de Van Gogh.

“Quem gosta de quadros por aqui?” Tocou na moldura fascinada.

Ele deu um sorriso fraco. “Minha mãe.”

Ela seguiu adiante e parou em frente a um lindo quadro de uma mulher pintado a mão, localizado acima de uma lareira, posicionado entre dois brasões. Parecia um pequeno santuário. Edward adiantou-se em explicar quando viu os olhos curiosos. “Este é o símbolo dos Masen.” Apontou para o brasão à esquerda do quadro, com uma cobra enrolada numa taça. “Família da minha mãe. Tradição em cientistas e farmacêuticos.” Depois mostrou o outro brasão. “E este é o símbolo dos Cullen. Tradição em juristas.” O brasão era um leão segurando uma balança nos dentes. A seguir, encarou o quadro da mulher, pensativo. “E esta era minha mãe.” Apontou, com a voz contida.

Bella não comentou as explicações ao notar seu humor e parou em frente a outro quadro, um Delacroix. “Meu Deus.” Ofegou. “Isso explica você não querer trabalhar. Vocês têm dinheiro ao ponto de ter um Van Gogh e Delacroix em casa!” Estudou os detalhes de expressões e sentimentos na tela. Ele torceu os lábios em uma careta e decidiu que não suportava mais tanta mentira. Precisava livrar-se imediatamente desse fardo.

Ansioso, pegou sua mão e subiu uma das duplas escadarias rumo ao segundo andar. Bella não perdia nada da decoração, à procura de mais tesouros. Olhando do alto das escadas, observou o luxo ostentoso da casa, mas algo nela denunciava que fora reformada e redecorada. Os móveis, assim como no apartamento de Edward, eram cinza, branco e preto. Bem masculinos.

“É tão espaçosa.”

“O quintal é que é grande.” Comentou mais animado ao ver sua empolgação. Era bom dividir-se um pouco com ela. Dar algo, quando ela lhe dava tudo. “Temos até um lago artificial, lembra que eu te falei?”

“Sim.” Assentiu, captando a tristeza em sua voz. A casa podia ser magnífica, no entanto tinha ausência de calor.

“Vem. Vou te mostrar meu antigo quarto.”

Só Peter os acompanhou, enquanto Alice ficou para trás com Jasper. Carlisle olhou-os subir e suspirou, jogando-se depois no sofá negro de couro, logo na primeira sala. Estava preocupado com o filho. Erick tinha lhe dito o que vinha acontecendo na Agência e isso o preocupava. Sabia que de algum modo a imprensa estava beirando sua família, desde o rompimento de Jasper e Maria. Então, precisavam ter um conversa hoje. Se ele se negasse a ter responsabilidades, ameaçaria-o com algo que parecia se importar muito: falar para a garota quem ele era e o porquê de ter se envolvido com ela.

“Não imaginei que seu quarto fosse assim?” Bella sorriu quando alisava os diversos carrinhos transformes, mini helicópteros, aviões. Um típico quarto adolescente. Tinha uma guitarra no chão, CDs antigos, dois pôsteres atrás da porta, um computador velho no canto, cama de solteiro com uma colcha preta.

“E o que pensou encontrar aqui?” Sentou-se na cama, olhando em volta, com a dor da saudade comprimindo o coração.

“Pensei que ia ter uns armários brancos com cinza, paredes brancas, nenhum brinquedo, nenhuma foto, nenhuma informação sobre você.”

“É assim que é meu ap?”

“Era assim antes.” Sentou-se na cama e deu dois pulinhos, testando. “Antes de eu invadi-la.” Sorriu e aproximou-se dos pôsteres. “Nossa, o que é isso!? AC/DC e Metálica?” Abriu a boca, incrédula. “Nunca pensei que você gostasse disso!” Dramatizou.

“Ah, Bella, qual é, eu tinha dezesseis anos quando coloquei esse pôster aí.” Sorriu sem jeito. “Foi só uma fase. Influência.”

Ela aproximou-se e sentou-se em seu colo. “Como era seu corte de cabelo quando você tinha dezesseis anos?” Acariciou seu cabelo e deu beijinhos nos lábios, aproveitando que Peter estava distraído com os brinquedos.

“Era grande” Admitiu envergonhado. “Nos ombros.”

Ela sorriu. “Puxa, eu perdi isso! Queria ver. Me mostre fotos.” Caminhou animada até um aparador. Edward adiantou-se, tenso, escolheu algumas fotos no álbum e entregou-lhe em sua mão. Preveniu-se de modo que ela não visse fotos de Emmett, já que ele esteve em muitas desde seus treze anos. “Você era fofo.” Sorriu para as fotos que repassava de Edward com a guitarra, de Edward nadando na piscina, pegando onda no mar. “Mas eu prefiro agora.” Pôs os braços em volta do seu pescoço. “Acho que gosto mais do Edward homem.” Adicionou maliciosamente. “Tem fotos da sua mãe?”

“Tem.” Ele pegou o álbum e escolheu algumas. Bella as estudou, tranquila.

“Puxa, como ela era bonita!” Comentou, admirada. Era loura, alta, jovem, parecia propaganda de cosméticos. “Que idade ela tinha aqui?”

“Aí trinta e cinco. Morreu com quarenta.”

Lutando contra a covardia, pois sabia que hoje seria o dia em que revelaria toda a história a ela, tirou uma foto de Rosalie e lhe entregou, hesitante.

“Essa era ela quando era mais nova?” Bella cerrou os olhos, estudando os olhos azuis, o nariz bonito.

“Não.” Respondeu num tom monótono.

Ela olhou novamente para a foto na mão e observou confusa, inexplicavelmente com a pulsação acelerando. “Alguma ex-namorada sua?”

“Não.” Balançou a cabeça, retesado, pensando que não havia meio de explicar por que evitou tanto tempo falar sobre Rosalie sem falar sobre Emmett. “Vamos ali, Bella.” Virou-se para Peter, que brincava silencioso com suas miniaturas de brinquedos. “Peter, você pode ficar com esses brinquedos, se quiser.” Avisou, pegou na mão dos dois e desceram as escadas. Bella não entendeu sua inexplicável ansiedade, mas acreditou que hoje deveria passar por uma montanha russa, já que parecia que a casa despertava nele uma série de emoções. “Alice, fica com Peter um pouco para nós.” Edward pediu logo que passaram por Alice e Jasper na cozinha.

Saíram apressados para a parte de trás da mansão, e o que primeiro lhe chamou atenção foi uma piscina seca ao lado da casa, com marcas de rachadura, sinal de que não era usada há anos. A mesma piscina da foto em que Edward nadava e fazia pose, sorrindo. Bella sentiu uma fisgada no peito ao pensar na dor daquela família, que fora devastada com uma morte. A seguir, passaram por algo que parecia ter sido um dia uma imensa estufa de flores, mas que hoje somente tinha folhas secas. Continuaram num caminho sinuoso de pedras e a menina estremeceu quando atravessaram uma pequena ponte de madeira sobre um lago artificial. Notou que Edward desviou o olhar para o outro lado ao seguirem o caminho ao lado do espelho, e ela lembrou automaticamente dos pesadelos que ele tinha com esse lago. Pelo modo como ele apertou sua mão, percebeu o tremor nele. Devia estar muito dolorido voltar aqui. Foi muita coragem.

Ela não tirou os olhos do espelho d’água, em todo tempo repassando as lembranças de quando ele disse que sua mãe morreu ali. Afogada. Um novo arrepio de presságio transpassou sua nuca, seguiram caminhando e ela vislumbrou silenciosa uma cachoeira artificial de pedras.

Sua atenção foi desviada para uma casinha colonial, aparentemente habitada, no fim da propriedade de mais de cinquenta mil metros quadrados. Também notou que no meio do espaço tinha uma construção em formato retangular branca, abandonada, com janelas brancas e uma porta.

“Quem mora ali?” Apontou em direção à casa colonial aos fundos.

“Dona Kebi, lembra dela?” Tentou aliviar a tensão. “Ela cuida de tudo por aqui também.” Pararam em uma sombra onde o lago começava, na lateral esquerda, uma fonte rodeada por árvores. Ele deu um suspiro acre e sentou-se ao chão, com ela ao seu lado, parecendo muito tenso.

“Acho que ela esqueceu os jardins.” Bella criticou como se fosse uma ofensa ter negligenciado.

“Certamente foi meu pai que deu ordens de ignorá-los.” Deu de ombros, aproximou-a dele e a abraçou, pondo o rosto na curva de seu pescoço. “Bella, eu preciso te falar algo muito importante.”

“Sou toda ouvidos.” Gracejou, não deixando o humor dele contaminar o seu.

Ele respirou fundo e a apertou no abraço, sentindo o conflito em seu interior, com as antigas e amargas emoções aflorando em torrentes, nutridas pelo lugar, lembrança.

“Você foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida.” Sussurrou, melancólico.

“Por que está me falando isso?” Levantou o rosto, suspicaz.

“Eu quero que você saiba.” Segurou seu rosto nas mãos. “Eu tenho muitas coisas para te falar.”

“É sobre a menina da foto?” Adiantou-se.

“Também.”

Bella suspirou. “Você mentiu para mim.”

“Sim.” Levantou um pouco o rosto e observou-a. Ela não mudou a expressão.

“Você a amou.” Conjecturou.

Ele sempre afirmou que nunca teve uma namorada, que não amou ninguém. Por isso ela nunca o pressionou para que a amasse. Mas agora, imaginar que ele já teve um grande amor, mudava tudo.

“Er, sim.” Respondeu confuso, sem saber por que ela tocava nesse assunto como se já soubesse de tudo.

Bella torceu os lábios e acariciou seu rosto, compassiva. “É por isso que você fechou seu coração. Por isso você não permitiu ninguém entrar?”

“Também... Foi tudo muito difícil... O que aconteceu congelou uma parte de mim.”

“Eu sou paciente, Edward. Posso fazer você me amar também.”

“Hei, não...” Afastou-a, só então notando que ela estava entendendo tudo diferente. “Ela não era minha namorada. Eu disse isso lá dentro.” Balançou a cabeça, atordoado.

“Não?”

“Não, Bella. Eu não menti nisso. Você foi minha única namorada... Aquela era minha irmã.” Despejou de uma vez.

“Irmã?” Fez uma careta, surpresa.

“Sim.”

“Por que nunca me falou dela?”

“Por quê?” Afastou-se, levantou e deu as costas, finalmente tendo coragem de ficar de frente ao lago. Talvez, se enfrentasse o problema, mitigasse esse desgosto profundo e cruento. “Pelo mesmo motivo que eu não queria vir aqui. Pelo mesmo motivo...” Ajoelhou-se, perturbado. As lembranças que o lago evocava oprimindo-o. “Existe uma dor continua na minha vida nos últimos anos, você sabe disso. A culpa, saudade, impotência.” Bella aproximou-se, pôs a mão em seu ombro e ajoelhou-se ao lado dele, tentando lhe passar algum conforto. “Eu não imaginei que vir aqui me quebraria tanto... Mas como não? Minha mãe morreu aqui dentro, só Deus sabe como, e eu não pude fazer nada...” Sua voz quebrou e ele respirou fundo, controlando a ansiedade. “E aquela garota que você viu na foto é a irmã que eu perdi para uma overdose no mesmo dia que perdi minha mãe.” Deixou os ombros caírem derrotado, sentando-se sobre as pernas.

Ela passou um tempo diluindo a repentina informação. E ao ver seu rosto aflito, expôs o que pensava. “Você não pode voltar atrás e consertar isso.” Disse complacente. “Aconteceu.”

“Aconteceu, mas a dor continua. Era para sermos uma família normal.”

“Você não pode se lamentar a vida toda por isso, Edward. Seu pai seguiu em frente. Seu irmão seguiu em frente. Você também deveria seguir.”

Ele deu um suspiro, sentou-se borboleta e acariciou o seu rosto. “Era exatamente isso que eu precisava ouvir... Eu quero seguir em frente, Bella.” Declarou veemente. “Você me faz querer esquecer tudo. E ainda que a dor exista, você suaviza.” Pegou sua mão e acariciou-a circularmente na palma, obrigando-se a continuar. “Bella, você suspeita que seu irmão faça coisas ilícitas?”

Ela franziu o cenho, confusa, não entendendo a mudança repentina de tema, e ficou tensa uns segundos, pensativa, para depois responder. “Sim.”

“Por quê?”

Ela abaixou o olhar e quando resolveu falar, sua voz era cheia de tristeza. “Porque às vezes a polícia prende amigos dele.”

“E você não o condena?”

“Eu não sei o que falar. Penso que a pessoa boa e humana que existe nele é maior do que a que faz coisas erradas. Ele contribui para uma casa de recuperação. Foi ele quem me incitou a entrar na pastoral. Ele me apóia nisso. Então não tem o coração mal. Talvez ele tenha entrado nisso por necessidade.”

“Então você não o condena.” Não era mais uma pergunta.

“Quem sou eu para julgar alguém? A lei às vezes erra. Um exemplo disso somos nós dois. Você pode ser prejudicado se alguém resolver nos perseguir e te entregar. No entanto, por qual motivo você se envolveu comigo?” Deixou a pergunta no ar uns segundos. “Certamente porque gostou de mim, de algum modo. Talvez por carência, afeição, atração. Não tem como explicar. Só tinha que acontecer. Ninguém programou nada, mas aconteceu. Tenho certeza que eu não sou a menina que você escolheria, mesmo assim aconteceu. Quem são as pessoas para julgar o que fazemos ou sentimos? No entanto, isso não deixa de ser crime aos olhos dos outros.”

Edward ficou sem palavras com a capacidade argumentativa e mudança de assunto. Ela nunca iria entender seus reais motivos para ter se aproximado, pensou frustrado, e seu olhar foi atraído para Peter que vinha correndo, sem camisa em direção a eles.

“Tio Du.” Gritou, a seguir gesticulou: ‘Seu pai está te chamando.’ Moveu os dedos eufórico. Edward olhou em direção a casa e seu pai estava ao telefone, movendo as mãos freneticamente, como se discutisse, e caminhava em sua direção. No instante a seguir, os olhos dos dois se encontraram, Carlisle sinalizou austero, chamando-o, e Edward levantou preocupado.

“Bella, dá um tempinho aqui.” Tirou a grama da bermuda, agitado. “Daqui a pouco eu volto.” Andou apressado até o pai, que mesmo à distância parecia estar alterado. Parou ao seu lado e Carlisle levantou a palma no ar, com olhar severo.

“Não deixe isso vazar.” Avisou sisudo. “A menina é menor. É crime expor menor. Lembre-a disso.” Desligou o telefone e encarou Edward, com advertência no olhar. “Gostou do que ouviu?” Respirou fundo e apertou a fronte. “Você andou transando com Bella na varanda de seu apartamento?”

“O quê?”

“Isso mesmo que ouviu!”

“Pai, er...” Esfregou a testa, disposto a explicar. “Sempre sou discreto. Evito beijá-la publicamente.” Moveu as mãos no ar, exasperado. “Mas é lógico que na minha casa temos intimidade.” Confessou , como se tivesse quatorze anos e fosse surpreendido bolinando as filhas da vizinha.

“Tinha que ser na sacada?” Criticou cético. “Agora vou ter que impedir que esse tipo de foto vaze. Sabia que tem fotos de um sexo oral num estacionamento também?” Inquiriu carrancudo e pôs a mão na cintura, sério. “Meu filho, que idade você tem?”

Edward passou as mãos no cabelo, com a respiração acelerada, e sentia como se um polvo com várias mãos estivessem sufocando-o. Tudo acontecia de uma vez. Será que podia piorar?

“O que o senhor vai fazer?” Perguntou humildemente, caminhando lado a lado para frente da casa, ambos preocupados, levantando alternativas para resolver.

Bella tirou o protetor solar da bolsinha que carregava, inclinou-se em frente a Peter e espalhou em seu corpo. “Por que você tirou a blusa?”

‘Calor.’ Abanou a mão no ar. ‘Alice está andando na areia da praia. Eu quero ir também.’

“Não. Fica aqui com a Bella. Olha, tem peixinho aqui.” Ajoelhou em frente ao espelho d’água, buscando distraí-lo. “Olha aqui.” Apontou para a água transparente e alguns peixinhos se movimentavam entre as pedras.

Bella entreteve-se um pouco com a pequena flor que enfeitava o canto do lago, tentando nesse tempo captar detalhes para guardar em sua memória fotográfica, para que futuramente viesse a pintar, já que o quadro que tinha começado fora concluído. Como pretendia encher de cores a casa de Edward, aquela flor era uma boa opção.

Distraída, nem percebeu que Peter afastou-se e tinha rodeado o espelho d’água.

“Mamã!” Chamou-a sonoramente, a seguir, levantou os dois braços e jogou-se dentro da água. Bastou um segundo para que Bella registrasse o que ocorria. Nem ao menos pensou, ou hesitou. O instinto protetor impulsionou-a a fixar-se no lugar em que ele caiu, respirou fundo e jogou-se na água, na mesma direção dele, com roupa, bolsinha e tudo.

O deslocamento levou-a direto ao lugar onde ele estava. Entretanto, no instante em que o alcançou, segurou o seu corpo e afundou de imediato, travando a seguir uma luta com a água. O susto foi substituído por pânico. A agua devia cobri-la, pelo menos, dois metros e não sabia nadar. Sequer pensou nisso ao jogar-se. Tudo que pensou foi em salvar Peter.

Lutando contra a água, debateu-se e subiu, buscando ar, impulsionando-se cegamente para cima, tempo em que prendia Peter pelo quadril. O menino debatia-se para soltar-se, afundava-se junto a ela e subia novamente, tentando ficar livre, com instinto de auto-preservação impulsionando-o, mas a mão segurando-o o impedia de nadar.

Ela ouviu seus gritos, mas o intenso terror a impedia de assimilar sua intenção, tudo que notou era que ele gritava, tossia e ofegava. Tinha que fazer algo para salvá-lo. Empurrá-lo para a borda. Segurá-lo até alguém encontrá-lo... Peter não. Não podia perder Peter. Negava-se.

Tudo acontecia muito rápido. O ar que conseguia inspirar quando se impulsionava a superfície, se reduziu a inaladas úmidas e escassas. Sentiu as forças abandonarem as pernas e não conseguiu mais subir para respirar sem que usasse Peter como apoio.

Desesperada, percebeu, para seu horror, que não adiantava mais se debater contra a fria água com aquela sensação de atordoamento vertiginosa alastrando em sua mente. Notou com pesar que, com os olhos arregalados e várias bolas prateadas de ar saindo do nariz e boca, Peter lutava, chorava, tentando empurrá-la com o pé; e ao mesmo tempo em que tentava fazê-la soltar suas pernas, puxava teimoso o braço dela para cima.

Ele parecia querer salvá-la.

Registrou por fim o que Peter queria. Ele gritava com ardor: solta, solta, e só então deduziu que ao invés de salvá-lo, estava afogando-o. Já sem vigor pelo pouco oxigênio e com o pulmão doendo nos poucos segundos em que sua mente ainda funcionava, soltou Peter do abraço, ele afastou-se debatendo e nadando, ela impulsionou-se mais uma vez para cima com o pé no fundo do lago, já muito debilitada e tossindo, tomou uma lufada curta, tentou ainda debater os pés uns segundos, mesmo sabendo que a luta era vã e, aceitando a densa escuridão que gelava seus sentidos, piscou longamente e, tranquila, deixou-se cair.

Peter salvou-se, pensou com os sentidos amortecidos... De alguma maneira surpreendente ele sabia nadar, sorriu para a pressão que lhe sugava as forças.

Tinha lido antes em algum lugar que morrer é fácil. Viver é mais difícil. Agora provava isso. Podia arder os pulmões, doer a garganta. Mas não era difícil aceitar. A necessidade de ar embaçou suas vistas, seus ouvidos tiniam, entretanto o desespero havia passado. A aceitação tornou tudo fácil.

Iria morrer.

No fundo da mente, esperou que a qualquer momento aparecesse uma luz em algum lugar no fundo lodoso do lago. Tinha sido uma boa menina. Pensava ter cumprido sua missão. Amou Peter, como nada nesse mundo. Deu-lhe o amor que uma boa mãe daria.

E agora ele tinha Esme.

Alice tinha Jasper.

Edward voltou ao lar e perdoou o seu passado... Oh, Edward, será que ficaria bem? Amava-o tanto. Agora sabia que o amou desde sempre.

E Emmett? Pobre do seu irmão. Queria que ele fosse feliz. Que sua alma encontrasse paz.

Já lhe disseram que nos últimos segundos vitais, um filme sobre a vida repassava na mente. Mas era estranho. Não tinha do que se arrepender ou pedir perdão. Sabia que fez o certo. Se doou ao máximo para as pessoas. Amou intensamente. Naquele instante, só preocupava-se com os outros. Não queria que eles sofressem por ela.

Não doía morrer.

A inconsciência aos poucos enegrecia sua mente em capas e capas de lassidão. E não adiantava lutar contra essa névoa que obscurece os sentidos. A água ocupou seus pulmões por completo, levando-a ao entorpecimento total, a dor se foi para sempre, fechou os olhos, fez uma oração pedindo que o Ser Eterno cuidasse dos seus e finalmente foi preenchida por paz.

“Pai, eu não sei o que fazer para ficar longe dela.” Edward dizia ao seu pai, implorando que ele entendesse, ainda olhando para o mar, que parecia revoltado em ondas altas, batendo nas rochas à frente. “Simplesmente não consigo.”

“TIO DU, TIO DU!” Peter atravessou toda a propriedade como uma bala, gritando desesperado, chamando atenção de todos que estavam em frente a casa. “Mamã caiu!” Verbalizou com dificuldade, frenético e ansioso, enquanto gesticulava e chorava ao mesmo tempo. “Mamã caiu!” Tentou novamente e saiu correndo, ansioso que o seguissem. Edward foi o primeiro a correr atrás de Peter, sendo seguido por Jasper e Alice. Antes de segui-los, Carlisle já ligava no 911, premeditando pelo frenesi e pânico do garoto que algo muito trágico aconteceu.

Edward seguiu o menino e paralelamente olhava em volta, procurando ver à distância onde Bella poderia estar caída pelo quintal. Foi com um choque que registrou o exato instante em que Peter pulou no lago e nadou desesperado para o centro.

Suas pernas começaram a parar por conta própria antes de chegar à beira do lago. Seus joelhos perderam as forças e caiu ajoelhado. A partir daí, tudo passou a acontecer em câmera lenta. Como se assistisse a um filme, viu com a mão na garganta e o ar sufocando-o, Jasper correr tirando os sapatos e se jogar na água, indo fundo.

Olhou atordoado para a água rodeada de flores e um soluço alto brotou em sua garganta. Sabia o que viria a seguir. O pesadelo se repetiria. O mesmo pesadelo que o atormentou durante todas as noites. Olhou insistentemente para a água, como em seu sonho, ainda ajoelhado, implorando que não fosse verdade.

Deus, não.

Antes que terminasse de pedir, o cabelo louro de Bella foi o primeiro a emergir devagar entre as vitórias régias na lentidão do seu cérebro atordoado. Jasper apareceu logo atrás, empurrando-a para fora d’água.

“Eu preciso de ajuda aqui!” Jasper gritou. Edward deixou seu corpo cair para trás e sentou-se no chão, assistindo petrificado as pessoas em volta prestarem socorro desesperados.

Congelado, deduziu pela seqüência de atos qual seria o fim do pesadelo. E numa rejeição óbvia ao que acontecia, seus sentidos claros não respondiam. Ficou suspenso no transe, vendo Alice chorar, implorar que Bella respondesse, e massageá-la, apalpando-a, comprimindo seu tórax conforme as instruções de Jasper, enquanto ele tentava restabelecer a respiração.

Desviou o rosto, incapaz de ver o rosto sem vida. A pele habitualmente rosada, agora se encontrava azul, roxeada. O corpo gracioso que sempre se movimentava hiperativamente, agora estava flácido, imóvel na grama.

Os atos seguidos repetiram-se iguais anos antes, obrigando-o a reviver a devastação emocional de outrora, quando ouviu sirenes tocarem e os paramédicos descerem e agirem frenéticos, prestando socorro. Fechou os olhos para o déjà vu, seu corpo respondeu a dor com tremores e um espasmo no estômago o fez ofegar, vomitando a seguir na beira do lago, enquanto profusas lágrimas de impotência banhavam seu rosto, num pavor que enregelava a alma. Não podia ser verdade. Ela não. Abraçou o próprio corpo e sofreu mais um espasmo seguido de vômito. O desespero era tanto que nem percebeu que palavras contritas eram verbalizadas em sua boca.

Em completa ruína e miséria humana, virou em processos lentos o rosto e deparou-se com seu pai do mesmo modo de anos atrás, contemplativo, com uma expressão de pesar e incredulidade no rosto. Seus punhos fecharam-se e seu corpo todo tremia numa nova rajada aguda que atravessava seu estômago, enquanto imagens dela cheia de vida repassavam em sua mente. Foi aí que não agüentou repetir o pesadelo, saiu do estupor e caminhou angustiado, a passos rápidos, em direção ao corpo no chão.

“Não!” Segurou a cabeça com as mãos, e seus olhos realizaram um inventário receoso nela. No corpo amado que conhecia cada vértebra. “Você, não.” Gemeu, ajoelhou-se no chão e deitou o rosto em seu peito, tentando ouvir algum som. “Por favor, minha Bella, você é forte...” Beijou o corpo flácido, chorando, ignorando os pedidos ansiosos do médico para que se afastasse. “Lute, por favor, meu amor... Volta pra mim... Eu preciso de você.” Banhou-a com lágrimas.

“Tire-o daí, Jasper!” Carlisle bramiu sério. Jasper aproximou-se hesitante e tocou seu ombro.

“Ela tem que ir.” Avisou pesaroso.

“Não... Por favor... De novo, não.” Teimou como criança, esmorecendo aos poucos, conforme Jasper soltava cautelosamente suas mãos em volta de Bella.

Sentou-se no chão, derrotado, com a cabeça nas mãos, soluçando, no instante em que o corpo era levado a ambulância, uma dor antiga revivendo e queimando em seu peito. Morrer alguém com o brilho diáfano de Bella era um absurdo atroz. O que seria o mundo sem ela? Era tudo tão triste, sombrio e absolutamente miserável. Sentia tanta dor, angústia e impotência.

Em meio à sensação de perda e derrota, diante dos choros histéricos de Alice, a solicitude de Jasper e contemplação serena do pai, o que o fez voltar a vida foi uma pessoinha desolada na beira do lago, que por um tempo esqueceram-se dele. Peter encontrava-se molhado, tremendo em um canto e chorando, abraçado aos joelhos, balançando pra frente e pra trás.

Lutando contra a letargia e mortificação, Edward arrastou-se até onde Peter estava, puxou-o para o seu colo e fechou o seu corpo em bola no seu, tendo que lutar contra o próprio desespero para lhe passar conforto.

“Mamã caiu.” O menino chorou desconsolado, apontando para o lago. “Peter queria mostrar sabia nadar e mamã caiu.” Disse atrapalhado, ao mesmo tempo tentando gesticular. E só então Edward notou que ele surpreendentemente falava silabicamente, não somente em gestos. O choque imediatamente foi sobrepujado por uma névoa de dor... Foi ele. Foi culpa sua. Foi ele quem tinha ensinado Peter a nadar escondido de Bella.

A culpa sobrepôs horror e desgosto em seu interior, um outro refluxo de náusea o obrigou a ranger os dentes, travou a garganta para conter a bile e apertou o abraço em volta de Peter. A alegria de saber que Peter venceu as barreiras cognitivas e começou a falar, rivalizava com remorso e pesar.

Uma nova onda de choro convulsivo brotou em sua garganta, apertou Peter forte, apegando-se a única coisa que tinha de Bella, e um arrepio atravessou suas costas quando a ambulância passou atrás deles, com a sirene ansiosamente ligada. Essa foi a primeira diferença de hoje e seis anos atrás. Seis anos atrás, a ambulância saiu silenciosa.

“O estado dela é delicado...” Carlisle aproximou-se e explicou. “Mas pode ser que a falta de oxigênio não tenha afetado o cérebro.” Disse com pesar, depois se ajoelhou e tocou na água. “A água está fria. Isso ajuda.”

“Como sabe?” Perguntou teimoso, ainda com o corpo fechado em bola segurando Peter.

“Eu estudei todas as possibilidades na época de sua mãe.”

Edward levantou o rosto e encarou-o, surpreso com a revelação, quando sempre acreditou que seu pai nem mesmo lera o laudo. Carlisle continuou. “Eu irei para o hospital e entrarei em contato com a tia dela.” Informou solenemente, e ao vê-lo ainda trêmulo, com Peter nos braços, olhou-o com determinação e autoridade de pai. “Vamos Edward, reaja! Não vai repetir!”

“Eu também quero ir ao hospital.” Resmungou baixo, derrotado.

“Não.” Determinou impaciente. “Você tem que cuidar do garoto.” Ditou, vendo que assim teria uma chance de distraí-lo. “Dê um banho nele e faça-o comer algo. Daqui a pouco eu te ligo e informo o quadro.” Inclinou-se e passou o braço em volta do seu ombro. “Tenha fé, filho. Não vai acontecer com ela. Ela vai viver.” Prometeu e o abraçou, algo que há anos Edward não permitia.

Dois dias depois, as emoções de Edward até então entorpecidas, ameaçavam explodir novamente ao ouvir o quadro diagnóstico.Não podia estar acontecendo de novo. Não. Só podia ser sina, castigo. Estava sendo testado ao limite do insuportável ao ter que passar por isso de novo.

Primeiro o afogamento. Agora o coma.

O quadro relatava que o funcionamento cerebral de Bella não respondia a estímulos, devido ao tempo que o cérebro ficou sem oxigenação, com chances de adquirir seqüelas irreversíveis em caso de recuperação, com agravante de não ter previsão de, quando ou se, ela sairia do coma. Encontravam-se tensos na sala de espera, a cada segundo Edward ficando mais introspectivo, com uma vontade imensa de gritar, correr, bater em algo... Mas não podia. Peter estava em seu colo.

Evitou, no tempo em que o relatório era explicado, encontrar os olhos do pai. Conhecia sua opinião sobre coma. Fora ele mesmo a autorizar que desligassem os aparelhos de Rosalie. Nem Emmett, como namorado, foi capaz de impedir. Além disso, Carlisle, como juiz, sempre teve uma opinião expressa e pública. Sempre decide positivamente sentenças arroladas por familiares que desejam desligar os aparelhos de humanos em estados vegetativos. Não obstante, ele que não ousasse sugerir algo assim. Deixaria a rixa de lado e imploraria Emmett, se fosse preciso, que não permitisse, como familiar e responsável, que os aparelhos fossem desligados.

No mesmo instante que pensou isso, a lembrança dos telefonemas de Emmett, seis anos atrás, implorando que ele, Edward, como familiar, impedisse que desligassem os aparelhos de Rosalie, eclodiu diante dos seus olhos. Época em que foi intransigente. Nem mesmo quis atender os telefonemas.

Hoje passava pela mesma dor.

E a dor era incrível. Parecia ter algo carcomendo suas entranhas, como se um animal selvagem cravasse as presas e garras nele, rasgando-o de dentro pra fora. Respondia no autômato somente as tentativas de comunicação gesticuladas de Peter, já que este depositava nele toda a carência e afeto.

Peter era um meio de obrigá-lo a reagir, Carlisle percebeu isso antes de qualquer um. E atendendo a um pedido de Carlisle, Esme permitiu que o menino ficasse desde sábado com Edward, Alice e Jasper, dormindo na casa de Carlisle, enquanto os dois, o juiz e a tia, revezavam no hospital.

“Podemos ir agora, Esme?” Rilley chamou-a. Desde sábado fora solícito e a pedido de Esme não avisou Emmett do estado de Bella, de modo que não o desviasse de seus propósitos.

“Pode deixar que eu a levo em casa.” Carlisle adiantou-se. Rilley assentiu.

Alice, que chorava em um canto, quando viu que Rilley ia sair, atravessou a pequena saleta e parou em sua frente.

“Você tem que ligar pra ele...” Pediu chorosa e pôs a mão em punho na boca, abatida.

“Ele está ocupado.” Disse com pesar. Emmett não poderia voltar agora, a não ser que...

“Ele tem que vir.” Tremeu, num choro convulsivo. “Ele sabe como acordá-la.”

“Ele não vai.”

“Ela é irmã dele, merda!” Teimou.

Por um instante, Rilley hesitou ao ver a expressão quebrada da rebelde e prepotente Alice.

“Não é tão fácil assim.” Explicou atencioso, ignorando a platéia. “O processo demora. E não é certo. Além disso, ela teria que ser transferida. Os EUA não aceita o método. É melhor que ela se recupere naturalmente. Se não o corpo dela pode ficar dependente químico.”

“Não é o melhor.” Relutou obstinadamente. “Você não ouviu o que o médico falou? Nem ele tem esperança!” Disse num tom mais alto, e Jasper aproximou-se para contê-la.

“Hei, fica calma.” Abraçou-a ao seu peito, carinhoso. “Eu vou ligar para o Emmett.” Encarou Rilley, com olhar enigmático. “Pode ir, cara. Deixe que eu fale com ele.”

Notas finais
Aviso importante: Eu tirei do ar o restante da fic. Quem estiver lendo, pode me mandar um email que eu envio a fic por e-mail com o maior prazer.

Obrigada por ler.

Bia Braz