Flor de Lótus-edward e Bella

23 Capítulo 23- Morte & Vida


Notas iniciais
Olá, leitores,
Estou postando um trecho do próximo capítulo já em versão livro para que vocês apreciem e seja incitada a curiosidade.
Espero que curtam.

Capítulo Morte & Vida

Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal. Friedrich Nietzsche

Sons distantes. Atordoamento. E o perfume masculino. O familiar perfume. Queria recordar de onde o conhecia, compreender o que a voz suave e terna do homem dizia fora da barreira do vazio e escuridão.

Seus olhos finalmente se abriram, acordou do sono profundo e pôde conhecê-lo. Ele sorriu. E algo no seu olhar denunciou frustração ao perceber que não foi reconhecido. Queria lhe dizer que ele não fosse embora. Queria-o perto.

Nos dias seguintes, dias longos, notou preocupação e tristeza em seus olhos. Sabia que ele sofria por ela não conseguir se comunicar ou se lembrar dele... Será que ele se ia por causa de suas debilidades?

Ele estava sempre próximo, sempre a tocando, sempre a acompanhando nas fisioterapias. E, em sua mente entorpecida, queria enfrentar a dormência dos ossos atrofiados, a languidez do corpo adormecido para que ele não se fosse, pois seu mundo passou a existir desde que rompeu a escuridão e encontrou-o.

Via tantos sentimentos desconhecidos naqueles olhos. Afeto. Veneração.

No seu organismo, a ansiedade, fissura, ia e voltava. E fazia seu corpo tremer. Depois era acometida por sonolência. E por fim, o choro. Não sabia porque chorava. Estava perdida na memória e a única coisa a qual se apegava era a ele. Ao sorriso. Ao rosto daquele homem louro, forte, de olhos verdes.

Com o passar dos dias, os aparelhos de monitoramento não eram mais necessários. Mas os remédios, os malditos remédios, eram imprescindíveis toda vez que seu corpo se debatia e convulsionava. E só ele conseguia abrandar quando instruía a injeção daquele líquido em seu braço.

Ela olhou para o jardim, contemplando o verde e as flores, com a fisioterapeuta empurrando sua cadeira de rodas. Finalmente o encontrou. Ele usava seu habitual jaleco branco, inclinou-se na frente da cadeira de rodas e pegou sua mão. Passaram um tempo juntos, tempo em que ele falava coisas incompreensíveis, como o nome Peter, a cidade Los Angeles. Seu telefone tocou.

Percebeu a ânsia em seu rosto quando gesticulava segurando o móvel, ele olhou-a por minutos intermináveis e suspirou, com semblante infeliz. O belo anjo forte se ajoelhou novamente, tocou a mão dormente e a beijou, fazendo-a compreender só segundos depois o que queria dizer.

‒ Temos que ir para casa, meu amor ‒ sussurrou e pegou nas mechas longas e louras da paciente pensativo. ‒ Vamos ter que pintar seu cabelo de preto.

**

A sala de Inteligência era praticamente sua casa. De dia cumpria expediente. À noite, passava horas clandestinas em frente aos aparelhos de escuta, evitando levantar suspeitas de seus colegas. O que diriam quando soubessem que um dossiê, embasado em provas irrefutáveis levantadas sob autorização judicial, era juntado por um novinho nerd e invisível?

Não viu a madrugada de terça passar. Reuniu todos os arquivos que juntou, pôs em sua mochila, fechou a porta da sala de Inteligência e caminhou pelo corredor. Foi atraído ao sons de conversa que saíam da sala de Sebastian, às sete da manhã.

‒ Eu não entendo por que você quer armar isso. Você sabe que seu pai não concordará ‒ Sebastian alertou. A resposta da interlocutora foi surpreendente.

‒ Eu o quero de volta ‒ a psicóloga da Agência respondeu. ‒ O único jeito de ganhar a confiança dele é estando ao seu lado quando o mundo lhe virar as costas.

‒ E onde a prisão delas entra nisso?

‒ Eu tenho que ter estratégias para separá-los. Busque o que você tiver para incriminá-las. Implante provas ‒ determinou.

‒ Tá. E quanto a Milly? Ela não é de confiança. Ela irá para o lado que lhe render mais. Inclusive ela está com medo de nos liberar as fotos depois que o juiz ameaçou-a ‒ Sebastian alertou-a.

‒ Você não entende, Sebastian ‒ acusou nervosa. ‒ Eu tenho que me acercar de todos os meios. Se a menininha perdoá-lo por prender o irmão, com as fotos soltas, a Justiça exigirá que ele se mantenha longe dela, por ela ser menor ‒ disse maquiavélica. Ethan encostou-se na parede atento.

‒ Por quê?

Rachel respondeu com um suspiro. ‒ Eu o amo. Simplesmente isso.

‒ Seu problema é orgulho ferido por ele estar com uma menina mais nova.

‒ Mais nova? ‒ Refutou ofendida. ‒ Ela é uma fedelha. E não. Não é orgulho ferido. Eu sei que ele a está usando para atingir Aleksey. Nós somente iremos ajudá-lo no trabalho.

‒ Mas você não se importa do seu Christopher ser indiciado?

‒ Armas de guerra... De qualquer maneira, o pai dele é poderoso. Não vai permitir que ele sofra as consequências. Entretanto... ‒ sorriu diabolicamente. ‒ Serei eu quem estará lá para consolá-lo. Serei eu a psicóloga do Estado designada a cuidar dele. Coitadinho ‒ ironizou.

Sebastian sorriu com ela, mas ele tinha seus próprios planos reservas para livrar-se do chefe da Divisão.

Ethan entrou em outra sala para continuar ouvindo, o celular na mão gravando toda a conversa.

‒ Esse chip foi decodificado. ‒ Rachel disse. ‒ Nele tem todas as informações que você precisa. Consiga um mandado e espere o momento certo para prender Aleksey. Faça de um jeito que Christopher esteja presente.

‒ Okay, madame. Mas e seu pai?

‒ Ele não precisa saber por enquanto.

‒ Depois disso, você promete convencer seu pai a me deixar ser oficialmente o chefe da agência, não é?

‒ Você já é o chefe ‒ rematou com um sorriso maldoso e saiu da sala de Sebastian. Ethan deu um tempo conferindo a gravação que fez, abriu sorrateiramente a porta e saiu. Ao chegar ao seu carro no estacionamento, discou um número e esperou chamar. Ninguém atendeu. Desistiu e discou outro.

‒ Quem mandou você me ligar neste telefone? ‒ uma voz reprovadora atendeu.

‒ Era uma situação de emergência ‒ Ethan sussurrou. ‒ Não dava para conversar por e-mail.

‒ O que aconteceu?

‒ Descobri com quem está o chip. Está com Sebastian. Eles estão armando. Vão prender Aleksey ‒ informou ansioso tudo que ouviu.

‒ Tudo bem. Já esperávamos por isso. Só mudou o precursor da prisão.

A voz tranquila do outro lado da linha irritou Ethan.

‒ Estão armando para o Christopher. Pelo jeito vão descredibilizar o nome dele como agente por ter se envolvido com uma menor.

‒ Isso não importa.

‒ Importa pra mim. Ele pode ser preso.

‒ Ele procurou isso ‒ declarou incisivo.

‒ Roney, ele gosta da garota ‒ insistiu preocupado.

‒ Isso não vem ao caso agora. Ela está em coma e Aleksey está se preparando para voltar. Continue o seu trabalho. Avise quando tudo estiver pronto ‒ determinou. ‒ Aleksey realmente precisa desse teatro.

Ethan desligou o telefone e deu partida no carro, chateado por ter que esconder de Christopher. Só recentemente soube quem eram os contatos e seus planos. Não podia voltar atrás.

***

Três dias. Setenta e duas horas corroído por culpa, saudade. Christopher queria poder se esconder, ruminar a dor. Mas vê-la, somente vê-la, abrandava a dor. Era conveniente para ele estar perto de pessoas. Peter, por exemplo, era uma lição de confiança. Agia como se Beckye estivesse somente dormindo. Quando uma vez presenciou Carolyn xingando, ralhou com ela, levantando o dedinho, e disse que não podia xingar perto do bebê porque a mamã iria acordar e brigar. Reclamou, fazendo os presentes rirem, que ela devia lavar a boca com sabão. Carolyn riu comovida, pegou o menino no colo e o abraçou.

O garoto não sabia a gravidade da situação, por isso deitava na maca com Beckye e, vez ou outra, conversava, chamava, perguntava quando ela iria acordar. Carolyn também montou acampamento no quarto e, na maioria do tempo, fazia as unhas de Beckye com desenhos artísticos, depois tirava e tentava outro desenho, sempre conversando. Isso quando não reclamava do tamanho do cabelo de Beckye ao passar a escova nele, dizendo que, se fosse ela, cortaria curto. Outras vezes passava maquiagem sempre dizendo que ela tinha que ficar apresentável porque iria receber muitas visitas.

‘Deus me livre de receber pessoas com essa cara pálida, Beckye’. Ela dramatizou certa hora, enquanto colava umas estrelinhas prateadas nos cantos dos olhos de Beckye. ‘Se um dia eu estiver numa mesma situação que você, por favor, me deixe bem maquiada’. Instruiu depois fungou, chorou e voltou e passar batom no corpo imóvel. ‘Você vai sair dessa, prima’. Encorajou. ‘Alek tá voltando para cuidar de você’.

Até ouvi-la falar sobre isso, Christopher não tinha ponderado sobre a conversa que ouviu no dia anterior a respeito da volta de Aleksey. Só mais tarde centralizou as ideias, abordou a ruiva Carolyn e perguntou-lhe a que ela se referia quando disse que Aleksey sabia como acordar Beckye.

‘Você não sabe?’, ela franziu o cenho. ‘Aleksey desenvolveu um remédio para acordar pessoas em coma. Por isso ele viajava para o México’.

Desde então, desafiando o que era lógico, Christopher respirou aliviado em saber que ele voltaria, assim ela teria mais chances. Suas dúvidas sobre as atitudes de Aleksey eram aos poucos modificadas. Restava saber o que fazer quando este chegasse, ou melhor, quando Beckye acordasse...

Seria tão complicado como imaginava?

A princípio, a prioridade era que ela acordasse. O resto pensaria depois.

Deus, o que faria se ela não acordasse?

Terça-feira à tarde, Peter aproveitou a saída da enfermeira e voltou a deitar-se na cama de Beckye. Christopher aproximou a cadeira da cama, pegou a escova de cabelo que Carolyn deixou sobre a mesinha e desfez as tranças que Carolyn tinha feito.

‒ Você precisa voltar logo, amor ‒ disse melancolicamente. ‒ Essas maquiagens de Carolyn estão acabando com você ‒ sorriu forçado, com as emoções, represadas desde sábado, ameaçando explodir. ‒ Gosto mais das suas maquiagens rosas e patys, não estas que parece que vai para uma festa drag-queen ‒ deixou a escova de lado, pegou um algodão e limpou a sombra verde florescente 3-D que Carolyn tinha terminado de passar.

‒ O que é dag quin, tio Chris? ‒ Peter perguntou, atento.

‒ É a tia Carol ‒ respondeu distraído.

‒ A tia Carol é dag quin?

‒ Não ‒ negou ao se dar conta do que disse. ‒ Ela está mais para chapeleiro maluco ‒ adicionou divertido, terminou de limpar e pôs a delicada mão de Beckye dentro da sua.

‒ O chapelero maluco da Alice no País das Maravilhas? ‒ Peter insistiu, interessado. Christopher percebeu a fria que entrou com o menino esperto e balançou a cabeça.

‒ Escuta, Peter. Eu não disse isso.

‒ Disse sim ‒ teimou.

‒ Não tem drag-queen, não tem chapeleiro maluco. A tia Carol é uma ruivinha doce e boazinha como a Moranguinho e a Ariel da Pequena Sereia ‒ consertou zombeteiro.

‒ Eu ouvi isso ‒ Carolyn apareceu na porta, acompanhada de Samuel.

‒ Que você é doce? ‒ perguntou de costas para a porta, mantendo a atenção em Beckye.

‒ Que eu sou doce e boazinha como essas personagens ‒ entrou e jogou a bolsa no sofá de canto. ‒ Eu ouvi a ironia. Eu sou boazinha, sim.

‒ Meu irmão que o diga ‒ Christopher deu de ombros.

‒ Uh, doce? Muito docinha essa menina ‒ Samuel brincou e pôs a mão em sua cintura. Ela se afastou com um sorriso no canto dos lábios.

‒ Você pode correr o risco de ter um diabetes ‒ comentou petulante.

‒ Você realmente se acha. Só por que me convenceu que é legal, acha que eu tô caidinho ‒ ironizou.

‒ E não? ‒ ela fez um bico. Christopher suspirou ignorando a nova discussão dos dois.

‒ Não. Você não é tão legal assim ‒ torceu os lábios. ‒ Tem o nariz que não combina com sua personalidade. É pequeno, igual de esquilo, e tem sardas. Tinha que ser grande, com uma verruga na ponta ‒ explicou com uma careta falsa.

‒ Você acha? ‒ tocou o nariz em dúvida. ‒ Tem pessoas que gostam das sardas.

Samuel sorriu provocador e olhou-a da cabeça aos pés.

‒ Tem gosto pra tudo. Mas tudo bem. Seu corpo de sereia, metade mulher e metade baleia, diminui o foco do seu sardento nariz.

Ela abriu a boca e olhou-o ameaçadoramente, ofendida com a brincadeira. Ela era magra, não era? 55 kg em 1,65cm de altura obviamente era de pessoa magra. Ou não?

‒ Vai bater ou vai me comer com essa boca grande aberta? ‒ ele arqueou a sobrancelha. ‒ Tô tremendo de medo ‒ gracejou, tremendo os dedos no ar.

‒ Eu te odeio ‒ insultou-o, irritada.

‒ Eu sei. O ódio é o outro lado do amor ‒ piscou. ‒ E você quer dizer é que me ama ‒ provocou-a matreiramente.

Ela abriu a boca incrédula de sua presunção.

‒ O quê? Eu não amo você ‒ protestou.

‒ Não. Mas vai me amar ‒ puxou-a pela cintura e a beijou. Essa era uma cena que Christopher já estava familiarizado. Brigavam, brigavam, daqui a pouco ele a beijava. Esse não era seu irmão. Não era o respeitado e sério promotor Samuel Adams. Esse era a versão mal feita de um garoto de doze anos implicando com a garota que gostava.

‒ Eca, tio Chris ‒ Peter franziu o nariz. ‒ Beijo na boca é nojento ‒ fez uma careta, apontando para Samuel e Carolyn.

‒ É mesmo ‒ Christopher concordou, torcendo os lábios com uma nostálgica inveja. ‒ Não olha para eles. Eles são nojentos ‒ deram as costas para os dois.

Após a discussão, Samuel e Carolyn saíram pelo corredor do hospital e seguiram para o jardim do térreo.

Christopher caminhou de um lado para o outro no quarto para que as horas passassem, sentou-se novamente ao lado da cama. No lado oposto em que Peter cochilou, deitou a cabeça apoiada no braço e fechou os olhos. O tempo parecia não passar. Estava sem rumo. Sem perspectiva. O centro do seu mundo estava naquele quarto.

Sobressaltou-se ao sentir um movimento de dedos dentro de sua mão. Levantou o tronco e observou o que parecia ser um espasmo da mão de Beckye, sua primeira reação física em três dias. Comentou com o médico. Horas depois, após alguns exames, a família foi chamada para ouvir o novo quadro.

‒ Quanto mais profundo o coma, menos funções cerebrais. Mas desde que o juiz pediu que pessoas que ela gosta ficassem perto, o quadro vem mudando.

‒ Então há chances de ela acordar? ‒ Christopher adiantou-se ansioso.

O médico assentiu brevemente.

‒ É uma possibilidade. Meu lado otimista diz que sim. Por outro lado, existem casos de pessoas que, mesmo depois de tirar o respirador, permanecem meses, até anos, sem acordar. E, quando acordam, todos os processos cerebrais podem ficar confusos. Por um tempo talvez ela fique incapaz de realizar tarefas que exijam coordenação motora, mas com o tempo as funções mais complexas retornam gradativamente.

‒ O que me consola é que essa é a Rebecca. Ela sempre me surpreendeu nas recuperações ‒ Olga comentou esperançosa.

‒ Sim. Essa paciente é um caso à parte. Ela já surpreendeu a medicina por estar viva após tantos minutos dentro d’água. Portanto, ela vai ficar bem ‒ concluiu e saiu do quarto, acompanhado pelo séquito de enfermeiras e residentes.

Christopher respirou fundo e jogou suas costas na cadeira, aliviado. Ao vê-lo mais contente, Peter sentou-se em seu colo. ‒ Beckye já vai acordar, tio Chris?

Christopher abraçou-o e sorriu. ‒ Sim. Ela vai ‒ bagunçou seu cabelo. ‒ Temos que continuar com ela, chamando-a, igual você estava fazendo. Quanto mais nós chamarmos, mais rápido ela vai acordar ‒ levantou-se do sofá com a criança e instalaram-se novamente próximos à cama.

Aos fundos, ouviu-se risinhos e cochichos de Carolyn e Samuel, num empurra-e-puxa descarado. Thomas levantou-se do sofá e fez um comentário ardiloso.

‒ No meu tempo, se casava com a mulher que não se podia tirar a mão de cima ‒ piscou para os dois, enfatizando a piadinha pessoal e olhou brincalhão para Olga. Carolyn fez um bico rebelde, empurrou Samuel e saiu do quarto.

‒ Obrigado, pai ‒ Samuel reclamou e foi atrás dela.

Olga balançou a cabeça, desentendida, avisou que iria à lanchonete e deixou Thomas e Christopher a sós. O barulho dos rabiscos no papel feitos por Peter era o único som que se ouvia. Christopher dedilhava traços concêntricos na palma da mão de Beckye.

‒ O que você sentiu, pai? ‒ quebrou o silêncio.

‒ Com o quê? ‒ Thomas questionou, sentado no sofá logo atrás.

‒ O que você sentiu quando elas se foram repentinamente? ‒ elaborou.

Thomas suspirou e encostou a cabeça na parede em um gesto cansado.

‒ Foi como se um pedaço de mim tivesse sido arrancado brutalmente ‒ revelou pesaroso.

‒ Mas não pareceu. Você mostrou-se tão frio.

‒ Porque não sei externar emoções.

‒ Você não parecia gostar dela ‒ acusou-o sem mudar o tom. ‒ Até teve um caso com a mãe do Ethan quando minha mãe estava viva.

‒ Eu tive diversas namoradas, não só ela ‒ disse honestamente. ‒ Você é homem, deveria entender... Meus sentimentos se foram muito antes dela morrer.

‒ Por quê? ‒ olhou-o de canto. O sonho de qualquer jovem adolescente é que sua família nunca se desfaça. Esse era o seu, na época.

‒ Sua mãe matou aos poucos meus sentimentos, Christopher. Ela me expulsou da vida dela. Casamos muito novos e fomos pais muito cedo. Ela não viveu quando jovem e queria viver depois de adulta. Além disso, ela não aceitava que o tempo estava passando. Por isso envolveu-se tanto em pesquisas de cosméticos.

‒ Pesquisa essa que Aleksey roubou a fórmula ‒ completou desanimado.

‒ Aleksey não roubou, filho... ‒ balançou a cabeça, pronto para a revelação. ‒ Eu cedi.

Christopher arregalou os olhos, incrédulo. ‒ Por quê?

‒ Porque ele precisava de uma fórmula para lançar o nome dele no mercado. Precisava fazer o nome e eu ajudei. Aleksey era como um filho para mim.

‒ Mas ele se envolveu com minha mãe ‒ teimou, mas a dor antiga do assunto não doeu.

‒ Ele não se envolveu com a sua mãe. Sua mãe se envolveu com ele.

‒ Você age como se fosse compreensivo ‒ torceu os lábios, censurando. ‒ Como pôde aceitar isso?

‒ Nosso casamento já estava falido há tempos... E tudo não passou de coisa da cabeça de sua mãe. Ser atraente para um rapaz mais novo era uma forma de driblar a idade... Eu só lamentava por Christine ter que presenciar as cenas.

Christopher passou um tempo pensativo, contrapesando a narrativa vista por seu pai, o que trazia um ângulo diferente às verdades que construiu.

‒ Pior que era complicado ‒ raciocinou. ‒ Quase todo o tempo em que Aleksey não estava estudando, estava no laboratório com minha mãe.

‒ Por isso a Christine tinha tanto ciúme ‒ adicionou o pai, compassivo.

‒ Eu os vi beijando ‒ contou amargo.

‒ Certamente foi cena dela ‒ garantiu.

‒ Eu só não consigo entender o que realmente aconteceu no dia que morreram ‒ Christopher lembrou, sentindo-se impotente.

‒ Eu também não ‒ Thomas levantou-se e tocou seu ombro. ‒ Mas tenho certeza de que Aleksey está fora de suspeita. Ele amava sua irmã... E respeitava Lisandra.

‒ Só Christine poderia dizer, se tivesse sobrevivido ‒ Christopher comentou pensativo.

‒ Só Christine ‒ admitiu pesaroso.

Cortinas beges bloqueavam a luz do sol da manha. O silêncio era total. Christopher dormia sentado, a cabeça no braço do sofá. Peter dormia na maca abraçado a Beckye.

Um som rouco e fraco despertou o sono leve de Christopher.

‒ Hei, você tá aqui, bebê ‒ sibilou baixinho. Atordoado, Christopher arregalou os olhos e pulou do sofá.

‒ Beckye! ‒ segurou seu rosto nas duas mãos, incrédulo. Fez uma leitura silenciosa de seu estado. ‒ Beckye, querida ‒ a pele era translúcida, os olhos rasos e frágeis, o lábio ressecado... Mas estava viva! Voltou para ele.

‒ Olá ‒ chiou fraco, com dificuldade. A cabeça doía com os movimentos. Ela estremeceu dolorida ao toque ansioso dele.

‒ Desculpe ‒ ele sentiu seu mal-estar. Não sabia onde tocá-la sem que a incomodasse. Inclinou-se sobre ela, segurou a mão pálida na sua e beijou-a. ‒ Que susto você me deu ‒ ralhou carinhoso, emoção e fadiga nítida em sua voz.

‒ Eu estou bem ‒ prometeu. ‒ E o Peter? Está bem? ‒ mudou devagar na cama e acariciou com mão trêmula o cabelo do menino adormecido.

‒ Sim ‒ sorriu. A sensação em seu peito é de que iria explodir. Limpou a lágrima no canto do olho.

‒ Ele sabia nadar ‒ ela tossiu e, embora debilitada, havia orgulho na voz.

‒ Sim. Sabia... Beckye, er... ‒ hesitou, ganhando tempo. Tinha que revelar que fora ele a ensinar Peter.

‒ Olá ‒ uma enfermeira rechonchuda e baixa entrou no quarto para trocar o soro. ‒ O que está acontecendo aqui? ‒ olhou inquisitiva aos dois. ‒ Oh! ‒ notou. Tocou a testa de Beckye. Estava febril. ‒ Como vai, mocinha?

Beckye apontou para garganta e pigarreou.

‒ A garganta dói? ‒ questionou e dirigiu-se ao telefone. Segundos depois, Beckye foi levada para exames.

**

Samuel e Carolyn chegaram ao hospital e aguardaram o resultado dos exames na lanchonete.

‒ Eu acho que agora você pode voltar a Nevada. ‒ Carolyn dispensou-o. ‒ Sua licença já está terminando e você pode adiantar os papéis da nossa separação ‒ disse tranquila. Por trás da fachada escondia a verdadeira apreensão.

‒ Foi isso que você decidiu? Não está disposta mesmo a tentar, sei lá, sair casualmente, namorar, talvez ‒ pôs a exame, paciente.

‒ Não sei se você percebeu, mas temos saído muito casualmente esses dias. Aliás, estamos nos impondo muito a presença do outro por causa da Beckye.

‒ Não é só por causa da Beckye e você sabe disso. Gosto de você, pestinha.

‒ Que doce você é ‒ ironizou.

Ele riu. ‒ Você me faz bem. Eu gosto de sua companhia ‒ declarou aberto.

‒ Mas eu não gosto da sua ‒ mentiu. ‒ Você não é meu tipo, é velho e colou em mim como uma sarna.

‒ Você não achava isso ontem ao quase transarmos no carro aqui, no estacionamento do hospital ‒ comentou maliciosamente e deu mais uma mordida no sanduíche, tranquilo.

‒ Eu estava vulnerável por causa da Beckye e você se aproveitou de mim ‒ acusou insolente.

‒ Não estava, não. Você praticamente me atacou. Diga-me, Carolyn, por que não quis? Por que desistiu?

‒ Não vou falar ‒ fez um biquinho e virou o rosto.

‒ Fale ‒ pediu carinhoso.

‒ Não.

‒ Por favor.

Ela levantou, jogou o saquinho de sanduíche no lixo e olhou-o dramaticamente. ‒ Já era noite, eu passei o dia sem tomar banho e minha bota estava com chulé ‒ sorriu. ‒ Não quis porque estava chovendo e tínhamos que manter os vidros fechados. Imagine o cheirinho ‒ zombou e saiu correndo.

Samuel gargalhou divertido. Talvez, só talvez, não precisassem divorciar-se, afinal.

**

Três horas depois de Beckye ter sido levada para a sala de exames na cadeira de rodas – não sem antes perguntar por que eu não posso ir andando? –, ela voltou ao quarto. Dr. Roger explicou a Christopher e familiares que a febre por causa da pneumonia estava controlada, o corpo respondia bem a comandos e aparentemente não ficaria sequelas. Provavelmente quinta-feira, ao meio dia, ela teria alta.

A dor de cabeça ainda não cedera, os músculos do corpo seguiam rígidos e doloridos, a garganta queimava, entretanto a garota recusava-se a revelar ao médico ou a quem fosse. Queria voltar logo para casa.

Ela observou silenciosa os olhos aflitos de Christopher enquanto relatavam seu estado. Evitava pensar sobre o acidente. Para ela, o que passou, passou. O importante era estar viva. Tinha uma nova chance de viver e viveria intensamente.

Antes que o médico se fosse, ela insistiu que tirassem a sonda e, por conseguinte, precisou usar o banheiro. Sobretudo, todas as vezes que foi sozinha, dispensando a ajuda de Christopher ou Carolyn, perdia o centro e tinha a sensação de que iria cair. Então se obrigava a equilibrar-se, respirava fundo e, segurando no andador, ia sozinha. Não estava acostumada que as pessoas cuidassem dela... E matava Christopher de preocupação.

‒ Quase houve uma guerra para acompanhar você ‒ Christopher noticiou divertido ao encontrar-se só com Beckye, no quarto. Apoiou o antebraço na cama, os ombros doloridos de cansaço. ‒ Depois da intervenção do meu pai, sua tia cedeu o lugar para nós ‒ sorriu. Beckye segurava um espelho na mão trêmula, conferindo a maquiagem leve que Carolyn fez há pouco. ‒ Sua prima ficou competindo comigo para ver quem tinha mais serventia ‒ fez uma careta. ‒ Eu perdi. Acho que vou ter que fazer um curso para aprender a te maquiar.

‒ Eu prefiro acordar e ver você a acordar bonita ‒ defendeu letárgica. ‒ Numa escala de prioridades, eu escolheria você... Sempre você ‒ declarou com olhos intensos, cheio de ternura. Ele beijou o dorso de sua mão livre.

‒ Por que tem uns buracos na minha cabeça? ‒ ela tocou o cabelo com os dedos.

‒ Rasparam para fazer exames.

Ela sorriu fraco.

‒ Que bom que não fiquei careca ‒ gracejou rouca. ‒ Dos males, seria o pior. Dramatizou divertida.

‒ Realmente seria trágico ‒ ironizou, rolando os olhos. ‒ Ainda assim, você continuaria sendo você. A florzinha mais linda do meu jardim ‒ bajulou.

‒ Como estamos românticos ‒ brincou, depois ficaram um tempo olhando-se, em silêncio. Ele suspirou.

‒ Você não me pareceu surpresa ao ver Peter falando.

‒ Eu já sabia que ele falava. Tem um tempo que ele falava mama, tio Chris, lembra? ‒ respirou longamente, cansada.

‒ Mas agora ele fala frases completas ‒ esclareceu.

‒ Pelo menos o acontecido tirou um pouco da manha, como diria o Alek ‒ concedeu, suavizando a conotação do ocorrido.

A menção ao nome de Aleksey alimentou a ansiedade. Segundo Carolyn, ele fora avisado e já estava a caminho. Agora Christopher tinha que esperar ela estar completamente curada para terminar a conversa que começou na casa do pai.

‒ Não fale assim tão naturalmente do acontecido ‒ voltou a dizer, chateado. ‒ Não teve nada bom nisso. Você quase...

‒ Não aconteceu ‒ ela interrompeu-o obstinada. ‒ Eu estou bem. Isso é o que importa ‒ encerrou o tema.

Ele fechou os olhos, ignorando sua tentativa de banalizar o acontecido.

‒ Sabe o que é pior... ‒ comentou amargo, agora com o polegar deslizando em seu rosto pálido. ‒ Eu não consegui... ‒ cessou as palavras com uma mudança súbita de expressão para sombria e raivosa. ‒ E-eu não consegui fazer nada! ‒ sua voz saiu rosnada, numa torrente interior de autorrecriminação. ‒ O Samuel teve que pular para te salvar... Se dependesse de mim... ‒ deixou a frase morrer, com a postura rígida. ‒ Eu nem ao menos pulei, como fiz quando foi com minha mãe. E-eu congelei. Fui inútil. Miseravelmente inútil ‒ sussurrou, numa onda corrosiva de consternação. Ela esperou-o. Ele suspirou e seu semblante se suavizou. ‒ Você vai me perdoar?

Ela sentiu o coração apertar ao ver sua dor.

‒ Eu estou aqui, não estou? Não tenho do que perdoar ‒ virou o rosto e beijou seus dedos. ‒ Você podia ir pra casa ‒ sugeriu.

‒ Você tem que me prometer que vai entrar numa aula de natação ‒ pediu enérgico, ignorando a mudança brusca de assunto. ‒ Não quero passar por isso de novo.

‒ Eu prometo ‒ sorriu em tom apaziguador. ‒ Agora quero que você vá embora cuidar de você.

Ele deu um sorriso sem jeito e olhou para sua roupa surrada, que encontrou no velho guarda-roupa da casa do pai. ‒ Estou assim porque não fui em casa esses dias ‒ explicou.

‒ E quem colocou água para minhas plantinhas do apê? ‒ argumentou, prevendo um meio de fazê-lo ir para casa descansar.

Ele balançou a cabeça, incrédulo. Tanta coisa para ela se preocupar, foi se ater logo a isso!

‒ Dona Keila. Ela deve ter ido lá ‒ deu de ombros.

‒ Eu quero que vá para casa se cuidar. Amanhã vamos ter tempo para ficar juntos. Além disso... ‒ tocou na mão dele, carinhosamente. ‒ Eu tô com sono.

Relutante, ele enrolou os dedos nos seus cabelos. ‒ Quero ficar com você ‒ pediu manhoso.

‒ Por favor, vá ‒ insistiu meiga. ‒ Você tá acabado ‒ brincou. ‒ Tire o resto da tarde para fazer a barba, cortar o cabelo. Não quero um namorado feio ‒ condenou dramática.

Ele sorriu. ‒ Melhor ouvir isso do que não ter você ‒ fingiu-se de ofendido.

‒ É sério. Se você não aparecer aqui como o namorado lindo que você é, sobre o que as enfermeiras vão comentar depois? ‒ gracejou novamente. ‒ Eu vou ficar bem com elas ‒ prometeu. ‒ Tenha uma boa noite de sono, amanhã você volta e me busca ‒ persuadiu-o, com ternura.

Ele fez uma careta, sentou-se na beirada da cama e inclinou-se sobre ela. ‒ Eu senti muito sua falta. Por isso não quero ir... Mas tudo bem. Vou somente esperar você dormir.

‒ Não. Não se preocupe comigo.

Ele deixou cair os ombros. ‒ Tudo bem, coisinha teimosa. Amanhã eu te pego ‒ inclinou-se sobre ela e beijou longamente sua testa. ‒ Bom sono.

Afastou-se e caminhou cabisbaixo para a porta, a familiar sensação de perda de tempo comprimindo o seu peito. Mas o que poderia fazer? Falar agora sobre Aleksey?

‒ Hei... ‒ Beckye chamou-o quando ele cruzava a porta e uma enfermeira entrava. ‒ Eu amo você ‒ murmurou baixinho, pegando-o de surpresa. Ele abriu a boca sem palavras, intimidado pela presença da terceira pessoa. ‒ Sonhe comigo ‒ ela completou e jogou um beijo no ar.

‒ Sempre ‒ sorriu e saiu.

Após passar num salão e cortar o cabelo, chegou em casa, pôs o celular que estava sem bateria desde domingo para carregar e tomou um demorado e relaxante banho. Teve uma noite longa e tranquila de sono depois dos dois dias dormindo poucas horas.

Não teve sonhos ou pesadelos.

**

‒ Ele deve estar lá ‒ Roney disse a Aleksey. ‒ Não sai nem para comer.

‒ Deve ser o remorso ‒ Aleksey lavou as mãos no lavabo de seu laboratório, depois enxugou o rosto cansado. ‒ Como aconteceu? Samuel não disse quando ligou.

Roney explicou sobre o acidente, Aleksey ouviu ansioso e seguiram pelo jardim rumo ao estacionamento, ainda falando sobre todos os acontecimentos.

‒ Ela se recuperou naturalmente ‒ Roney adicionou. ‒ Anteontem, terça-feira, começou as mudanças no quadro.

‒ Que bom. Ligue para o Samuel e peça para o Chris sair de lá porque eu vou vê-la. E é bom que ele não esteja por perto. Se encontrá-lo, vai dar briga.

Roney acompanhou-o até o Land Rover, Aleksey entrou e Roney apoiou-se na porta. ‒ E ela? Está bem?

‒ Sim. Na medida do possível ‒ deu de ombros, com um sentimento desértico de insatisfação no rosto.

‒ Foi ideia do Samuel ligar. Eu não queria atrapalhar ‒ justificou-se.

‒ Foi por minha irmã. Eu tinha que vir. Só não aguentaria passar por tudo de novo ‒ suspirou cansado. ‒ Que bom que ela saiu dessa sem intervenção química.

Aleksey girou a chave na ignição. Roney manteve-se parado, relutante em deixá-lo com o tanto de assunto que tinham a tratar. Aleksey estava impaciente. Sua prioridade era ver a irmãzinha.

‒ Você sabe que daqui pra frente um furacão será iniciado ‒ Roney lembrou, mudando de assunto.

‒ Mais cedo ou mais tarde iria acontecer ‒ pôs o cinto, com olhos sombrios. ‒ Depois disso vou cair fora. O tempo que ficarmos esquecidos vai servir para despistar. E quando as pontas finalmente caírem, eu não serei acusado de rato. Afinal, eu também terei caído.

‒ E ela? Onde ela está? ‒ insistiu, mesmo percebendo a ansiedade de Aleksey em partir.

‒ Num lugar seguro... Lugar onde poderá ficar por um tempo enquanto resolvo minha vida com a Justiça.

**

Christopher acordou renovado, lanchou, molhou as plantas, foi ao supermercado fazer compras e, mais tarde, a caminho do hospital, comprou um bouquet de flores. Só então se lembrou de ligar o celular. Dezenas de mensagens, supostamente da operadora, chegaram de uma vez, ao que, desinteressado, selecionou todas e apagou antes mesmo de ler.

Chegou ao hospital às onze da manhã. Encontrou Carolyn no corredor.

‒ Christopher, Aleksey está lá dentro ‒ avisou, aflita, impedindo-o de ir adiante. Christopher congelou, tenso e impotente.

‒ Quando ele chegou? ‒ ouviu sua própria voz perguntar repleta de terror com o iminente confronto.

‒ Hoje.

‒ Por que você não me avisou?

‒ Eu te liguei, Samuel ligou, mas seu telefone caiu na caixa ‒ explicou ansiosa.

Christopher se lembrou do porquê. Talvez Ethan também tivesse tentado alertá-lo.

‒ Merda ‒ praguejou e esfregou o pescoço, desorientado. Não podia entrar no quarto e correr o risco do antagonismo dos dois ser exposto. Mas queria vê-la.

‒ A Beckye teve febre novamente ‒ Carolyn disse ao ver a determinação em seu rosto. ‒ É melhor que ela não passe por emoções fortes.

‒ E o que você sugere que eu faça? ‒ perguntou, quase com desespero. Agora, mais do que nunca, conscientizou-se de que a areia do tempo escorreu de suas mãos.

‒ Ligue para ela mais tarde ‒ respondeu cautelosa.

Olhou para o corredor que levaria ao quarto com a coragem duelando contra o medo; deu um suspiro de derrota e entregou vencido as flores para que Carolyn entregasse.

Passou na Agência para matar o tempo, já que desde segunda não aparecia. Sentou-se à mesa e deparou-se com o acúmulo de papéis precisando de sua assinatura. Leu só os expedientes mais complexos, assinou todos e passou para a próxima pilha.

Não se lembrou de comer, até que quatro da tarde seu telefone tocou.

‒ Olá ‒ Beckye saudou.

‒ Olá, Florzinha ‒ sorriu animado. ‒ Está melhor? Carolyn disse que você teve febre.

‒ Estou bem ‒ ela limpou a garganta. ‒ Tive alta. Por que não foi me buscar? Por que nem ligou? ‒ cobrou triste.

Ele suspirou, envergonhado. ‒ Porque você tinha visita. Eu não queria atrapalhar. Afinal, já tinha meses que vocês não se viam.

‒ Você podia ter ido lá para eu te apresentar para ele ‒ insistiu.

‒ Teremos outra oportunidade ‒ evadiu-se, subitamente aborrecido consigo por enganá-la. ‒ Já está em casa?

‒ Sim. Estou sendo mimada ‒ sorriu fraco. ‒ Acho que não estou acostumada com isso. Sabe quando sua mente manda, mas seu corpo não quer obedecer? É assim que eu me sinto. Me sinto molenga ‒ reclamou.

‒ É normal. Devem ser os remédios.

‒ Mesmo assim eu já me dei um prazo. Só vou aceitar essa moleza até amanhã.

‒ Você tem que parar de ser teimosa, mocinha. Precisa se recuperar completamente antes de voltar à rotina ‒ ralhou brincalhão.

‒ Não. Eu não fico doente. A mente domina a matéria ‒ recitou solenemente.

‒ Mas você não está doente ‒ adulou. ‒ Seu corpo passou por um acidente. Seu pulmão infeccionou-se. Isso não é sinal de fraqueza. Pelo contrário, mostra que seu corpo é forte. Está combatendo as bactérias.

‒ Hummm, você está tentando me adular ‒ sorriu manhosa. ‒ Sinto sua falta. Queria ir para nosso apê. Mas com Aleksey aqui vai ser meio difícil.

Christopher moveu-se na cadeira nervoso, tentando soar tranquilo quando perguntou. ‒ Er, você falou com ele sobre nós?

‒ Não. Estou esperando o dia em que você venha me visitar para te apresentar e falar... Sabe, ele está tão sorridente. Vai registrar mais uma patente. Ele também está muito mais carinhoso com o Peter. Estou até com ciúmes.

‒ Não precisa ter. Seu amor é insubstituível para o garoto.

‒ Você está tão bajulador ‒ observou, em tom jocoso.

‒ É porque sinto sua falta. O apê está muito quieto e organizado sem você. Não estou nem ficando lá muito tempo.

‒ E onde você está? ‒ quis saber curiosa. Ela poderia ter deixado essa passar.

‒ Enrolando por aí ‒ apertou os dentes, incapaz de contar mais uma mentira.

‒ Quando eu ficar boa, não vou deixar você soltinho por aí ‒ brincou carinhosa.

‒ Eu não quero ficar soltinho. Quero ficar amarradinho em você ‒ envolveu-a em seu carinho e encerraram a ligação sorridentes e melosos. Ele voltou a dedicar-se aos seus papéis, chamou Alissa e pediu que ela encaminhasse os documentos aos seus devidos lugares. Para o departamento de serviços sociais, área de Cynthia; para o departamento psicossocial, área de Rachel; para o departamento de registros e autorizações para pesquisas de drogas; e, por fim, daria seguimento a documentos que seriam enviados para o Juiz.

Livrou-se dos papéis, treinou um tempo na academia da Divisão e voltou para casa.

Naquele mesmo dia, Rebecca obrigou-se a praticar yoga para acelerar a total recuperação. Sua melhora foi nítida no telefonema do dia seguinte à noite.

Sexta-feira, Christopher tentou os meios possíveis para conversar com Aleksey. Ligou em seu celular, mas sempre dava fora de área. Ligou no laboratório duas vezes, mas em nenhuma das vezes ele estava lá. Por fim, às onze da manhã daquela sexta-feira, passou em frente ao laboratório e o carro dele não estava lá. Na ocasião, ponderou aproveitar o ensejo e visitar Beckye, já que, aparentemente, Aleksey não estava em casa. Entretanto temeu que ele chegasse repentinamente e uma cena entre os dois fosse presenciada por Beckye.

À tarde, Ethan entrou com uma embalagem de Donuts em sua sala e sentou-se em sua frente.

‒ Que cara é essa, chefe?

‒ A de sempre ‒ resmungou mal-humorado e continuou a ler superficialmente inquéritos.

‒ A menina do Aleksey está melhor?

‒ Sim ‒ respondeu monossílabo, indignado por Ethan não ter parado ainda de chamar Beckye de menina do Aleksey.

‒ Aleksey chegou, né? ‒ Ethan insistiu no diálogo, mesmo percebendo a indisposição do chefe.

‒ Sim.

‒ Eu tentei te avisar antes, por ter interceptado uma conversa, mas seu telefone estava caindo na caixa. Depois te mandei umas mensagens, você não retornou ‒ Ethan explicou enquanto comia biscoitos. ‒ Você recebeu?

‒ Que mensagens? ‒ Christopher finalmente levantou os olhos.

‒ De que o juiz recebeu a denúncia contra Aleksey. A qualquer momento será expedido mandado de prisão preventiva.

‒ O quê? ‒ desencostou as costas da cadeira, alarmado.

‒ Isso mesmo. Parece que já temos provas suficientes para incriminá-lo.

‒ Quem levantou essas provas? ‒ abriu a boca aturdido com a complexidade da situação.

‒ Na maioria, você ‒ elucidou como óbvio.

‒ Eu? ‒ apontou para si.

‒ Sim. Foram juntadas suas provas de investigação de dois anos. Também teve as evidências de que ele estava sempre nos locais de troca de mercadorias. E, por fim, teve aquele chip que tinha se perdido, lembra? Alguém nos fez um favor de achar e pedir para os colegas da Inteligência decodificar ‒ explicou, depois sorriu. ‒ Você finalmente vai poder prender Aleksey ‒ levantou-se sorridente. Não entendeu o semblante de choque do chefe.

Christopher suspirou, perturbado, mas conseguiu enfim falar.

‒ Quando chegar o Mandado, você me avisa ‒ preveniu, com os pensamentos distantes.

‒ Okay. Mantenha os celulares ligados ‒ o oriental saiu, batendo a porta atrás de si.

Tudo tinha saído de controle. Não estava mais ao alcance de suas mãos. Restava esperar. Não era mais hora de estar indeciso. A justiça seria feita. Não foi para isso que integrou o quadro da Narcóticos?

O certo, depois de lutar tanto para que Aleksey pagasse pelo que fez, era que tivesse certeza. No entanto, estava cheio de dúvidas. Não por Aleksey, pois sabia que ele merecia pagar. Mas pela repercussão. Pelo que a prisão desencadearia. Pelos reflexos que teria em sua vida.

Estava confuso e com medo. Muito medo.

Sábado pela manhã, dormia um sono profundo. Por entre a névoa do semiadormecimento, sentiu beijos lânguidos no pescoço. Abriu os olhos assustado e deparou-se com cabelos louros caídos sobre seu pescoço.

‒ Bom dia! ‒ beijou-o novamente no pescoço. ‒ Vim buscar meu presente de boas-vindas e convidá-lo para um jantar hoje à noite em minha casa.

‒ Seu presente? ‒ levantou o tronco sonolento, piscando para acostumar-se com a claridade.

‒ Sim ‒ enfiou a mão dentro do pijama, maliciosamente. ‒ Quero você ‒ beijou-o na orelha. ‒ Tenho uma hora antes de ir para a casa de recuperação, então vim fazer amor.

‒ Por que presente de boas-vindas? ‒ questionou confuso.

‒ Porque voltei a viver! ‒ anunciou abrindo os braços animada. ‒ Vamos celebrar a vida!

Ele se espreguiçou, focou-a com um só olho aberto e levantou-se alongando enquanto ia para o banheiro. Quando estava na porta, instruiu, com a voz rouca de sono. ‒ Tire a roupa e me espere ‒ apontou para ela com um gesto indolente. ‒ Não quero que vá toda amassada para a casa de recuperação.

Ela sorriu divertida e obedeceu. Cinco minutos depois, ele saiu com o cabelo molhado, o rosto desamassado, e Beckye sorria nua e cheia de charme, pousando como uma sereia sobre a cama.

‒ E o Peter? Não veio? ‒ perguntou ele.

‒ Não. O pai dele pediu para ficar com ele... Cinquenta e dois minutos agora ‒ cronometrou, olhando no relógio.

‒ Não pressiona, Beckye ‒ ele olhou para o próprio quadril ao deitar-se lado a lado com ela. ‒ Assim não funciona. Vamos conversar. Como você está? ‒ iria aproveitar esse tempo.

Ela afastou-se para frente e beijou-o na garganta, ignorando suas tentativas de diálogo. ‒ Estou bem. Saudável. Me sinto quente, viva, novinha em folha... ‒ lambeu-o sedutoramente na curva do pescoço, com diabólica pretensão, o que resultou nele um arrepio na coluna.

O olhar dele percorreu lentamente os seios fartos, a cintura fina, os quadris bem feitos, detendo-se no triângulo entre suas pernas e sentiu uma descarga de tensão na pélvis, tornando desperto o seu membro.

Rebecca desceu o olhar curioso e sentiu-se realizada com seu poder feminino, consciente do quanto sua nudez o agradava. A boca manteve-se mordiscando sua garganta, desejosa e impaciente, então desceu para o peito largo, de um jeito doce e irresistível.

A mudança súbita na atmosfera deixou ambos ofegantes, excitados, ele desceu a mão e acariciou-a na cintura. Ela moveu-se com descarado oferecimento ao encontro dele, que sorriu, com orgulho masculino por ser ele a domar-lhe o viço e satisfazer o corpo jovem e disposto.

‒ Senti sua falta ‒ disse ele com um gemido de rendição quando cobriu o seio com a palma da mão, a luxúria ampliando-se nele, em sintonia com a dela. Tinha duas opções: sentá-la na cama, mandá-la ficar quieta e falar sobre Aleksey... Ou descer a boca até os seios e mordiscá-los até ela se contorcer, depois descer mais, sugar e saborear seu gosto de mulher...

Não restou dúvida se escolheu o certo quando ela emitiu um som profundo e indefeso ao assalto de sua língua no centro nervoso de prazer. Não restou dúvida ao senti-la tremendo em sua boca.

Poderia parar depois de vê-la satisfeita... Não obstante, movendo-a para sentá-la sobre ele, concluiu, quando penetrou no extraordinário calor, que Deus sabia que resistir era impossível. A luta era desonesta. Ele precisava, necessitava estar assim dentro dela novamente, ser abraçado por sua calidez, ser comprimido por sua vida, pulsado pelo sangue que corria nela.

Ela estava viva!

Hummm, maravilhosa. Ouviu-se gemer. Não posso parar, disse enquanto rolava os olhos na órbita, com ela movendo nele, as unhas fincadas em seus braços.

Precisava novamente ouvir esses arquejos, ver o sangue disparar nela e a respiração sair quente e ofegante – isso depois de quase vê-la morta ao afogar-se.

Abraçou-a emocionado, fascinado por seu charme, paixão e segurança feminina. Ergueu a mão e tocou sua nuca, tonto de luxúria.

‒ Abrace-me forte ‒ ele rugiu e puxou-a para mergulhar sua boca com a língua, tremendo. Ouviu o som rouco de êxtase na garganta dela e estabeleceu que precisava disso, precisava sentir de novo o prazer dela envolvendo-o, abraçando-o, precisava estremecer junto a ela... E os dois foram levados juntos pelo redemoinho de satisfação.

Mais tarde, ele iria pensar sobre o tempo de conversa que perdeu.

Esse mais tarde foi quando beijava sua nuca, o corpo dela de bruços sob o seu, saciado e lânguido; e ele, ao invés de curtir o torpor da realização, suspirou e a pressão invisível voltou a atormentá-lo, pulsando medo nos ouvidos.

‒ Fica comigo ‒ ele sussurrou, persuasivo, descendo beijos por sua coluna.

‒ Não posso. Tenho responsabilidades ‒ disse e girou o pulso para olhar as horas. Restavam cinco minutos para começar a se arrumar, de modo que podia sair às oito horas.

‒ Você vem almoçar? ‒ ele tentou outra vez. ‒ Posso fazer uma reserva num rest...

‒ Não ‒ interrompeu-o preguiçosa. ‒ Eu preciso ir ao salão fazer unha, depilação, uma hidratação. Quero estar bonita novamente para você. Meu cabelo está sem vida devido ao tanto de remédio que tomei ‒ tocou o cabelo desgostosa.

‒ Pra mim você já é linda ‒ deu outro beijo em sua coluna, a mão acariciando a nádega.

‒ Eu sei. Mas como decidi fazer a festa de última hora, quero organizar as coisas ‒ ronronou de olhos fechados, curtindo as últimas carícias. ‒ Se tivéssemos tempo eu queria mais.

Ele riu. ‒ Você é uma Florzinha insaciável.

‒ Argh, não me chame de Florzinha na cama ‒ reprovou dissimulada e moveu o quadril sensualmente ao encontro dele. Ele lhe beijou os braços, a mão ainda fazendo círculos na carne arredondada.

‒ O nome de uma planta carnívora seria mais sexy?

‒ Talvez. A planta que come sua minhoquinha ‒ brincou, com intimidade despreocupada.

Ele abriu a boca cético, fingindo-se de ofendido. ‒ Minhoquinha, é?! ‒ fez cócegas nela, que se contorceu rindo. ‒ Pega aqui na minhoquinha pra você ver ‒ brincou e esfregou-se nela.

Ela riu e sorriu gostosamente, os cabelos espalhados na cama, olhos perdidos de satisfação e boca vermelha de mulher bem usada e satisfeita. Ele não podia tirar os olhos dela e mãos dela. Ela era seu tudo.

‒ Já que você não quer nomes carinhosos na cama, quero dizer que você virou uma ninfeta insaciável, uma safadinha ‒ comentou com solene afetação e deu-lhe um tapa estalado no bumbum, o rosto descansado em seus cabelos.

‒ Você gosta ‒ soprou.

‒ É minha criação ‒ admitiu orgulhoso.

Ele pediu novamente para ela ficar o resto da manhã. Ela se deu conta do horário, deu um pulo da cama e recolheu às pressas a toalha para tomar um banho rápido. Ao sair, voltou a falar sobre a festa.

‒ Eu preciso ir para convidar uns amigos da pastoral. Vamos comigo? ‒ convidou enquanto penteava o cabelo.

‒ Não. Obrigado ‒ negou rapidamente. Ela aceitou, sem insistir.

‒ Meu dia tá cheio. Mais tarde, quero acompanhar de perto o trabalho do Buffet, ver as músicas para o DJ. Então realmente não posso ficar.

‒ Você não disse que seria só um jantar? ‒ apoiou-se no braço, ainda deitado na cama.

‒ Sim. Mas é minha primeira festinha na vida. Não fiz festa de aniversário, lembra? ‒ ela sentou-se com movimentos apressados para calçar o tênis e sorriu. ‒ Eu estou viva, não estou? ‒ disse animadamente. ‒ Tenho motivo pra comemorar. Será um encontro de ação de graças com meus amigos da escola, da pastoral, da casa de recuperação, com minha família e com você.

Ele sorriu com sua animação, embora internamente temesse. Perder essa oportunidade de conversa foi uma inescusável tolice, ainda que fosse um tempo impagável de amor.

‒ Você hoje vai conhecer meu irmão, seu covardezinho. ‒ ela apertou sua bochecha e deixou-o em movimentos acelerados. Ninguém diria que há poucos dias esteve em coma.

Ele foi à Carolina Herrera, em Beverly Hills, comprou dois vestidos, um negro e um creme, e mandou entregar no endereço dela. Depois foi ao laboratório de Aleksey. Mal estacionou em frente à guarita, viu que o Land Rover de Aleksey não estava. Resolveu descer mesmo assim e conversar ao menos com seu ajudante, Roney. Identificou-se como Agente da Narcóticos aos dois guardas no portão e foi recebido por Roney na recepção.

‒ O que trás o Agente Especial da Narcóticos aqui no nosso humilde laboratório? ‒ comentou com um sorriso de mofa.

‒ Cadê o Aleksey? ‒ deixou as evasivas de lado.

‒ Não sei se isso é da sua conta, mas saiu com o filho. Foram ao shopping.

‒ Que horas ele chega? ‒ deu uma olhada em volta, observando as diversidades de amostras de produtos. Era uma boa fachada. Mas ele sabia o que tinha lá dentro.

‒ Não tenho ideia... Mas o que é? Você tem alguma autorização judicial desta vez para fazer suas investigações?

‒ Quê? ‒ franziu o cenho ante o seu tom de acusação.

‒ Você sabia que pode ser processado por invadir domicílio?

‒ Sobre o que está falando?

‒ Você sabe ‒ ironizou, apontando para o laboratório.

Christopher percebeu alarmado ao que ele se referia e entrou na defensiva.

‒ Você está me ameaçando? ‒ questionou sério. Roney deu um para trás, divertido.

‒ Oh, não. Não mesmo. Só estou avisando. Você devia cumprir a lei. Não burlá-la.

Christopher encarou-o perplexo com seu ar debochado, deu as costas e caminhou para a porta, disposto a ignorá-lo.

‒ Avise para o Aleksey que eu estive aqui e preciso urgentemente falar com ele. Acho que ele sabe do que se trata. Nenhum de nós dois quer perturbar Beckye hoje à noite com nossas diferenças.

Saiu de lá sem rumo, dando voltas nas ruas. Comprou almoço e voltou para casa. No meio do caminho, recebeu uma ligação cheia de entusiasmo de Beckye. Passou a andar em marcha lenta pelas ruas.

‒ Hoje foi muito legal na casa de recuperação. ‒ contou animada. ‒ Acho que agora eu tenho muito mais palavras de ânimo para dar aos resgatados. Eles ficaram tudo em minha volta para ouvir minha experiência ‒ disparou. ‒ Temos que identificar e aprender com os planos de Deus. Se vocês tivessem me salvado alguns segundos depois eu teria morte cerebral. Estou tão feliz pela segunda chance. Você viu que dia lindo, que sol lindo! ‒ aumentou o tom, emocionada.

‒ Eu vi ‒ sorriu contagiado com sua alegria e conferiu, olhando o céu.

‒ Estou com a capota levantada, ouvindo música. Nada me deixaria mais feliz hoje. Sou uma garota realizada.

‒ Que bom.

‒ Sabe, eu estava pensando uma coisa: diante de muitas religiões, se eu tivesse morrido, eu não iria para um lugar bom ‒ divagou, e Christopher passou a dirigir ainda mais devagar na avenida, recebendo algumas buzinas de protesto.

‒ Por quê? Você é tão boa com todos.

‒ Eu iria morrer sem saber ou conseguir perdoar ‒ segredou. ‒ Eu nunca perdoei minha mãe. Tenho horror em pensar vê-la. Posso ler sobre perdão, estudar sobre ele, mas não consigo esquecer o que ela fez de mau para mim.

‒ Pode ser que quando você ficar mais velha, você aprenda a ver as coisas de outro ângulo.

‒ É, talvez ‒ concordou pensativa. ‒ Ah, chegou uma nova internada tão estranha na casa de recuperação ‒ mudou de assunto bruscamente. ‒ Uma mulher linda de longos cabelos negros e olhos azuis. Tão bonita ela, mas tão pálida e magra. Deve pesar uns quarenta quilos e está numa cadeira de rodas ‒ continuou, reflexiva. ‒ Eu passei horas olhando para ela incomodada com algo. Queria fazer a pergunta que sempre faço a um cuidando: o porquê de ter entrado para drogas. Mas ela não fala. Perdeu a memória com uma overdose que teve.

‒ Eu comprei um presente para você. ‒ desviou o tema, não dando margem ao assunto. ‒ Espero que goste. Mandei entregar na sua casa ‒ avisou sorridente.

‒ Ah, por que você não esperou para me dar hoje à noite? ‒ questionou manhosa.

‒ Porque eu quero que você use.

‒ Hummm, então tá bom.

‒ Vem almoçar comigo ‒ ele tentou de novo. ‒ Comprei comida japonesa. Dá para dois.

‒ Não. Eu sei que um almoço com nós dois, sem o Peter em casa, vai terminar comigo em cima da mesa. Eu que vou ser almoçada ‒ riu maliciosamente. ‒ E não tenho tempo. Tenho que estar no salão uma da tarde. Vou comer rapidinho e sair. Mas... ‒ interrompeu intencionalmente, para criar expectativa. ‒ Se você convencer Aleksey hoje na festa de que me quer bem, dormirei com você mais tarde. Prometo.

‒ Okay, eu te ligo ‒ respondeu, subitamente mal-humorado.

‒ Seis horas lá ‒ exigiu. ‒ Se você não for, eu não te perdoo.

‒ Okay.

Notas finais
Olá, leitores, Flor de Lótus virou livro. Será lançado em outubro. Para maiores informações ou o restante da fic, entre em contato comigo pelo e-mail bialopes30@gmail.com ou acessem meu blog no perfil aqui do Nyah.
Obrigada por ler.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!