Flor de Lótus
11 Cicatrizes
Notas iniciais
As chamas se alastraram muito rápido e pegou a todos de surpresa. Logan não sabia mais o que devia fazer, ao que tudo indicava iam todos morrer ali dentro; a única esperança agora que a entrada estava completamente engolida por chamas eram os fundos, mas chegar lá mais rápido que Paul talvez fosse difícil demais.
_ Sua... Acabou de condenar a todos nós!
Cego pelo ódio Paul avançou para cima de Dayla que, sem conseguir encontrar outro meio de impedir que ele lhe derrubasse, praticamente mergulhou na direção da parede e por pouco não caiu em cima de uma poça de gasolina flamejante. A rápida investida de Paul quase o lançou na porta em chamas, mas ele conseguiu restabelecer o equilíbrio a tempo. E aproveitando o momento Dayla correu na direção de Logan e juntos eles começaram a correr para o fundo do galpão.
Paul estava bem atrás dele e conseguiu alcançar Dayla antes que chegasse perto da porta, puxou seu punho e a derrubou – por pouco não levando Logan também. O chute que ele deu acertou em cheio as costelas da moça e ela sentiu seu o exato momento em que uma delas se quebrou, causando uma dor tão forte que a paralisou por completo. Logan acertou-o na lateral da cabeça com um pedaço de madeira que encontrou e conseguiu tirar Dayla do chão, porém Paul não estava interessado em deixar que eles saíssem e agarrou o calcanhar de Logan e o desequilibrou.
_ Não me interessa quem você é Logan... Se eu cair você vai comigo!
O punho de Paul acertou o queixo de Logan em cheio e o rapaz cambaleou para trás. As lágrimas já estavam embaçando a visão de Dayla quando o teto começou a quebrar alguns passos atrás de Paul. E então Dayla juntou o restante das forças que lhe restavam para acertar um chute em Paul e depois empurrá-lo. Ele deu apenas dois passos para trás, mas foi o suficiente. Quando aquela parte do teto cedeu, uma grande quantidade de madeira em chamas caiu sobre ele.
(...)
Logan estava sentado no capô do carro vendo o armazém pegar fogo e ceder por completo e imaginava se aquilo tinha sido uma coisa boa. Paul estava morto, carbonizado em meio a tanta madeira, e ele tinha infligido a única regra que o mantinha são: nunca matar. Mas pensando bem a maior parte do trabalho tinha sido de Dayla... E agora ela estava deitada respirando com dificuldade no chão do estacionamento.
Ele pegou o celular e enviou uma mensagem simples para um número qualquer, então saiu de cima do capô e começou a empurrar o carro para o penhasco. Levou muito mais tempo do que ele previra fazer aquilo estando todo dolorido mas enfim ele conseguiu jogar tanto o novo carro preto quanto o antigo carro de Paul ladeira abaixo, mas não se importou em olhar para saber se tinham sido completamente destruídos. Ao voltar para onde Dayla estava o celular dele vibrou.
_ Eles estão aqui... Não se preocupe, você vai ficar bem.
_ Eles... você... me deve explicações...
E tão logo ouviu os barulhos de pneu na estrada ela mergulhou em uma tranqüila inconsciência.
(...)
_ Dayla? Ruiva acorda, já chega. Acorda.
No começo o som difuso e distante mas logo Dayla conseguiu ouvir direito o que Logan dizia. Sentia-se tonta e o braço esquerdo doía mas ao menos as costelas não mais incomodavam e a cabeça tinha parado de doer. Ela conseguiu abrir os olhos e entendeu a dor no braço: havia uma sonda ali e algo pingando bem devagar na bolsa pendurada ao lado da cama; sua cabeça tinha sido enfaixada e ao que parece o tronco também.
_ Achei que ia dormir o resto da vida – Mesmo com as palavras ríspidas era visível o quanto Logan estava aliviado naquele momento. Aquilo a fez sorrir embora não entendesse bem o motivo.
_ Você... – Sua garganta estava seca e arranhava como se tivesse engolido areia – Está bem...?
_ Ainda não me deixam sair, tive que esmurrar dois médicos para me deixarem ficar aqui com você – Ele tentou imprimir um tom casual mas não conseguiu disfarçar que ainda sentia dor – Vou ficar bem.
Alguns segundos constrangedores se passaram sem que nenhum dos dois dissesse nada. Dayla ainda estava pensando em como trazer o assunto a tona enquanto Logan simplesmente olhava para o lençol azul.
_ Logan eu preciso de respostas. Depois de tudo o que aconteceu você me deve isso.
Ele sabia que devia. Com um enorme suspiro ele começou a organizar os pensamentos em ordem cronológica, mas algo no semblante de Dayla parecia lhe indicar que era melhor não ser muito técnico.
_ Eu... Bom existem duas organizações grandes no mundo, as duas controlam o país. A polícia não pode nos prender, as leis não se aplicam a nós, nada... A primeira organização é a Flor de Lótus que eu lhe expliquei antes, e a segunda é a Purple. Os integrantes da Purple são conhecidos como “guardiões” por que fazem exatamente o oposto da Flor de Lótus. Nós ajudamos os ameaçados a sobreviverem aos assassinos da Lótus.
Ele continuou explicando que o criador da Purple já foi integrante da Lótus e era o melhor hacker do mundo e até hoje o sistema que ele desenvolveu era usado para copiar secretamente as fichas da Lótus. Disse que ele não era o mais querido dos guardiões e que já tinha encontrado Paul outras vezes, mas que fora a primeira vez que ele tentara matá-lo. Explicou que o nome, foto e dados dela estavam nos arquivos e que não havia nada sobre Isabela. Depois de mais ou menos meia hora dando detalhes sobre a corporação para a qual trabalhava e também respondendo perguntas tudo estava dito. Ainda haviam pontas soltas… Ainda haviam perguntas. Mas como responder a todas elas? Logan parecia precisar de uma boa noite de sono e para falar a verdade Dayla também. Então só havia uma coisa a perguntar depois de tudo aquilo.
_ E agora? O que acontece?
Logan tomou alguns segundos para pensar.
_ Agora você fica boa e volta para casa – E por maior que fosse o sorriso que enfeitou o rosto dele, Dayla não se sentiu convencida.
(…)
Ela não sabia dizer quantas semanas passou naquele quarto de hospital. Se é que era um hospital de verdade. Ao fim do que pareceu uma eternidade enfim seu corpo estava completamente recuperado dos ferimentos e seus olhos estavam vendados enquanto o carro avançava pela cidade. Aquela droga de Purple era tão secreta que nem mesmo a deixavam saber onde estava… Mas ela não reclamou, não queria ter mais nada a ver com esse mundo. Estava agradecida por tudo enfim ter terminado mas não tinha tanta certeza quanto a voltar para casa e encontrar seu pai.
Logan um dia lhe disse que o nome de sua mãe já estivera nos arquivos deles. Isso só podia significar que a Lótus a tinha matado e, sabendo a motivação daqueles assassinos, fora a mando de seu pai. Sentia que não queria olhar nos olhos dele pois não sabia se conseguiria se conter. Era engraçado pensar que ele não mais a assustava, ela não se sentia mais uma garotinha assustada em um país estrangeiro. Sentia-se… Diferente.
Quando o carro parou e a venda foi retirada ela percebeu que estava não muito longe do aeroporto. Fora-lhe explicado que não poderiam levá-la até muito perto e lhe deram dinheiro e roupas para a viagem, mas apesar da excitação que sentia pelo fim daquele inferno tinha algo que a incomodava: Logan não estava lá. Ela nem mesmo conseguiria se despedir.
_ … tome o taxi e peça para ficar no portão dois, de lá sairá seu vôo. Entendeu?
_ Sim – Mas ela não prestou atenção – Obrigada.
O homem que a acompanhava sorriu e disse um “então boa sorte” antes de arrancar o carro. Ela estava bem perto de um ponto de ônibus em uma rodovia movimentadíssima e não era difícil encontrar um taxi, porém nenhum deles parava. Estavam todos ocupados com clientes atrasados para uma infinidade de coisas e Dayla ficou cinco minutos ali sinalizando para os taxi que passavam sem sucesso. Até que finalmente um deles parou, e ela rapidamente enfiou a mochila no banco de trás e fechou a porta.
_ Para o portão dois do aeroporto, por favor.
O motorista concordou com a cabeça sem se virar para ela e arrancou o carro. Imaginar o quanto tinha acontecido desde o começo do ano fez Dayla sorrir. Ninguém jamais acreditaria se ela contasse. E como estaria Amanda agora? Provavelmente magoada pelo sumiço repentino dela, ou talvez alguém tenha dado uma desculpa qualquer e ela talvez não se lembrasse mais dela. As possibilidades eram infinitas nessa vida, apenas algumas semanas – talvez meses – ela estava sendo perseguida e agora estava voltando para casa. Sentia saudades de Leila e Ana.
Enquanto se sentia nostálgica algo estranho passou pela sua consciência quase como um borrão. O taxi tinha passado do aeroporto, já estavam uns bons 500 metros a frente do aeroporto e por ali só havia um retorno, que o taxista não pegou. Ela olhou pela janela trazeira do veículo e soltou um longo suspiro.
_ Senhor, passamos do aeroporto.
_ Eu sei – E ao ouvir aquela voz cada pelo do corpo de Dayla se arrepiou – Mas não estamos indo para lá, não é ruivinha?
Incapaz de esboçar qualquer reação, Dayla o viu retirar o quepe e exibir a cabeça coberta coberta por cicatrize de queimadura e quando ele se virou para lhe lançar uma piscadela uma ainda pior pôde ser vista na parte esquerda do rosto de Paul.
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