Flor de Lótus
4 Assassinada
Notas iniciais
As aulas, como Dayla previra, foram complicadas nas primeiras semanas. Biologia e física eram as piores matérias para alguém que não falava tão bem a língua local, mas por sorte Amanda e Stephanie estavam na mesma sala que ela e lhe passavam os relatórios para estudar, ajudando-a nas palavras que ela ainda não conhecia. E assim o mês passou, e depois o semestre, e já era quase meio do ano e Dayla estava se saindo até bem para a situação. A única coisa que ela não conseguia controlar era a curiosidade imensa que sentia toda vez que via Logan na aula de educação física. Foram seis meses e ele nunca mais falara com ela mas não deixava de ficar olhando enquanto se cruzavam e vez ou outra ela achava um dos cartões do rapaz em locais aleatórios na escola – todos com uma frase mais preocupante que a outra.
_ … E no final ainda teve a coragem de vir falar que EU copiei o estilo daquela vadia, imagina! Hey? Heeeey?? Dayla?
_ Hã? Ah desculpa Amanda eu não ouvi direito a última parte…
_ Hunf… Você nunca me ouve quando tenho uma crise, é a pior colega de quarto do mundo! Ahh mas você vai na festa do pijama da Stephanie não é?
_ Acho que não, não podemos andar por aí depois das dez.
_ Ai como você é careta! — Amanda revirou os olhos com um sorriso maldoso – Ninguém precisa saber, sua boba. Vaaaaaamos vai ser legal.
Realmente nada de legal acontecia por ali, só aulas aulas e mais aulas. Meninas como Amanda poderiam se entediar muito fácil naquele colégio, mas Dayla não era festeira e muito menos tinha noção do que era uma festa do pijama. Acabou decidindo que seria bom sair um pouco para esquecer das aulas e concordou em ir, o que rendeu mais meia hora de conversa sobre qual pijama Amanda iria vestir e o que ela levaria para a pequena festinha. O que era estranho já que a tal festa seria só na sexta feira.
(…)
_ Paul está na escuta? — A voz abafada vinha do walkie talkie preto que o rapaz sentado ao volante da picape segurava.
_ Fala controle.
_ O alvo ainda não foi liberado, espere ordens.
_ Entendo. Mas já tenho a ficha dela comigo, o que estou esperando?
_ Apenas se retire do local e espere ordens.
Paul respirou fundo e deu partida na picape azul com um belo desenho de flor nas laterais. Odiava a burocracia que tinha por trás de seu trabalho, como assim não estava liberado? Ele estava ali, tinha a ficha do alvo, era só questão de finalizar o trabalho. Sem mais o que fazer o homem arrancou o carro e deixou o Instituto Brites para trás.
(…)
Durante o almoço de quinta feira Logan parecia mais presente do que nunca. Ele não ficava tão perto do grupo nos outros dias e não andava seguindo-os durante os intervalos, mas Dayla notou que agora ele era como uma sombra para o pequeno grupo de amigos da garota. O que realmente irritou-a foi o momento depois do jantar, quando os meninos se despediram e voltaram para o dormitório e Logan continuou seguindo as garotas. Foi só então que ela pediu licença para as meninas e ficou esperando no corredor sabendo exatamente que ele logo apareceria. Como previsto ele não demorou a aparecer e parecia um pouco surpreso de vê-la parada ali.
_ Por que está nos seguindo?
_ Hã… Não posso explicar Dayla, mas você não devia ficar sozinha nos próximos dias.
_ Não ficarei. Tenho colega de quarto, lembra? Mas não me falou qual o problema.
_ Olha ruiva, apenas acredite em mim ok? Vai ser melhor se ficar no seu quarto com a Amanda o tempo todo.
_ Como você sabe o nome dela? É sério, eu vou na secretaria amanhã falar sobre essa sua mania de me perseguir. Está me assustando!
_ E o fato de estarmos sozinhos nesse corredor não assusta você?
Antes que ela pudesse responder ele se aproximou dela, colocando uma das mãos no ombro da garota enquanto se inclinava sobre ela. Paralisada pela surpresa, Dayla não saiu do lugar e nem mesmo se mexeu demais enquanto ele sussurrava em seu ouvido e, tão rápido quanto se aproximou, se afastava na direção dos dormitórios masculinos. Ela ainda ficou parada ali por alguns segundos se recuperando daquele movimento inesperado antes de voltar para o quarto.
(…)
As palavras rodavam a mente da ruiva enquanto Amanda falava sem parar, como sempre, sobre a festa de Stephanie. O que exatamente aquilo significava? O que Logan quis dizer com “A Flor de Lótus atacará ao anoitecer”? Como uma flor poderia atacar alguém afinal? Amanda não parava quieta colocando vários pijamas estendidos na cama e pedindo opinião sobre eles sem deixar que Dayla abrisse a boca antes de pular para o próximo. Tudo bem que a tal festa seria dali a algumas horas, mas a loira estava completamente surtada com aquilo e não era legal ficar no meio de tanto drama desnecessário sobre roupas.
_ E você vai vestir o que?
_ Moletom, você sabe…
_ Haaa não! Aquele moletom horroroso não! Eu te empresto um bonito, que tal esse verde? Combina com seus olhos.
O tal pijama na verdade era um baby doll composto por um short verde de pano leve uma camiseta com bordados dourados. Era bonito e parecia caro, mas também era tão curto… Deixava as pernas completamente de fora e os bracos também, por pouco não mostrava também a barriga. Era a cara de Amanda… E como não queria discutir aceitou sem pensar muito. Amanda ainda passou mais algum tempo pensando até escolher um baby doll ainda mais curto que o de Dayla, porém o dela era branco com um dragão tribal vermelho. Era lindo e deixava Amanda completamente irresistível. Acostumada a ser o centro das atenções ela com certeza roubaria a cena naquela noite.
_ Eu vou na frente para ajudar a Stephanie com os preparativos e levar os doces, você pode passar no quarto da Isabela?
_ Posso claro…
Amanda pegou uma caixa de papelão cheia de docinhos de festa de cima da escrivaninha e saiu vestindo apenas o baby doll e uma pantufa de panda. Era estranho para Dayla vestir aquela peça verde curta, mas sua mente ainda estava no enigma de Logan e não conseguiu se importar com o fato de estar com as pernas quase completamente de fora. Ela calçou o chinelo preto e foi para o corredor na direção do quarto de Isabela, que ficava quase no fim do bloco um.
(…)
_ Paul na escuta?
_ Estou comando. Alvo confirmado?
_ Sim, tudo certo. Seu alvo está sozinha agora e o sistema de segurança foi desligado. Prossiga.
Paul concordou com a cabeça e saiu do carro, respirou fundo o ar da noite e começou a escalar o muro. Finalmente, pensou ele enquanto checava mentalmente onde estavam as facas, cordas e a arma que carregava consigo.
(…)
Os corredores vazios davam um ar triste ao bloco de apartamentos femininos. A maioria das meninas já estavam dormindo ou estavam no apartamento de Stephanie para a festa, então todas as luzes estavam apagadas. Era pouco depois das onze horas e Dayla não sentia sono nenhum. Ao virar no corredor estranhou que a porta de Isabela estivesse aberta, afinal era para a loira esperá-la para irem juntas. Dayla ouviu algo caindo dentro do apartamento e se assustou, porém antes que pudesse chegar perto uma mão tapou sua boca enquanto outra puxava-a para o outro corredor, levando-a para longe da porta aberta. Dayla tentou se livrar daquelas mãos, bateu, chutou e tentou gritar, mas uma voz extremamente conhecida dizia para ela ficar quieta e por algum motivo ela acabou ficando mesmo.
_ Quieta agora! Eu vou te soltar. — A mão que tapava sua boca afrouxou e ela se virou, encarando de perto os olhos de Logan. — Se eles te ouvirem está morta!
Sem entender o que ele queria dizer, Dayla olhou para o corredor do quarto de Isabela no exato momento em que um homem de preto saía do quarto arrastando a moça pelo cabelo. Ela estava desacordada e seu pescoço estava muito vermelho, algo que mesmo com a pouca luz do lugar era perceptível pelo fato de Isabela ser extremamente branca. Assustada, Dayla voltou para a segurança do corredor que fazia esquina com o que o homem estava e olhou desesperada para Logan que apenas colocava o dedo esticado na frente da boca, pedindo silêncio.
O homem desapareceu na outra direção arrastando Isabela com ele e quase no mesmo instante em que ele sumiu Logan correu para o quarto de Isabela, olhando cada canto do apartamento como se procurasse alguma pista. Dayla ficou lá parada, sem entender nada até que o rapaz soltou o ar com força e passou a mão no cabelo.
_ Nada. Nenhuma pista. Isso não faz sentido… O alvo era para ser você….
_ D… do que… está falando… ?
_ Da Flor de Lótus. O arquivo dizia que o alvo era você, por que ele matou sua amiga?
Enquanto Logan fazia perguntas estranhas Dayla apenas tentava se controlar para não chorar. Ela tinha acabado de ver sua amiga ser arrastada pelos corredores completamente sem vida, e ele ficava ali dizendo que era para ser ela. Logan saiu do quarto levando Dayla consigo e fechou a porta, mas pouco depois de saírem o homem que arrastara Isabela voltou. E ao vê-los ali sacou uma arma com algo redondo acoplado ao cano, então os dois adolescentes correram o mais rápido que podiam e dobraram a esquina a tempo de evitar os dois disparos feitos contra a parede em completo silêncio.
Quando Paul dobrou a esquina procurando os bisbilhoteiros já não havia mais nenhum sinal deles no corredor. Ele não podia abrir todas as portas procurando por aqueles dois, então apenas praguejou em voz baixa e voltou para onde tinha deixado o corpo de Isabela. Ao sair do instituto com o corpo da loira, ele a enfiou no banco de trás da picape e ligou o celular.
_ Comando aqui é Paul. Alvo abatido com sucesso, mas preciso das informações de dois alunos. As câmeras ainda estavam gravando?
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