Flor da meia-noite
45 XLV – Consegue me ouvir?
Notas iniciais

P.O.V. Allyson
Contemplar minha morte todos os dias diante dos meus olhos acaba fazendo com que toda a experiência nesse lugar fique entediante. Nunca me deixaram mais de dois dias inteiros na minha cela e Jason está dormindo. A capacidade dele de dormir em qualquer circunstância me admira.
Tão entediante que fico quase aliviada quando a porta é aberta, revelando Darko e o homem que Jason e eu apelidamos de capacho, é o braço direito dele, foi quem matou Apolo na praia e eu o farei pagar.
Quase aliviada.
Finjo bocejar, porque sei que isso o irrita, mas meu coração está disparado, e também sei que eles podem escutar.
— Já está na hora de novo?
Capacho vem até mim e injeta algum tipo de soro no meu pescoço. Apago quase na mesma hora.
Quando acordo, estou no quarto diferente, aquele em que sou constantemente torturada. Este não é branco, e sim cinza, todo no concreto, como se não tivesse sido revestido. Há luzes azuis na parede, apenas uma cama, uma poltrona e uma mesinha de metal que usam para colocar os brinquedinhos que testam em mim. Na minha frente há aquela “janela” de vidro que os policiais usam para interrogatórios nos filmes. Estou meio grogue, mas consigo e sentar e observar a janela.
Darko entra, inclina a cabeça, e Capacho avança para me puxar, colocar-me de pé e me sentar na cadeira dobrável de metal que trouxe com eles. Ele prende minhas mãos nos suportes da cadeira com o mesmo tipo de lacres de plástico que papai costumava usar nas roseiras do nosso jardim.
– Os pés dela também – Darko diz, e percebo que ele está com o intensificador nas mãos. Ah merda.
Estou satisfeita por ver que ele se lembra do que aconteceu da última vez.
Depois de a adolescente indefesa cercada por homens sobrenaturalmente invencíveis estar adequadamente contida, o “interrogatório” seguido pelas experiências começa. Eu costumava contar quantas vezes Darko me visitava para um dos nossos encontros que duravam dias – achando que cada vez poderia ser a última, que a paciência dele poderia se esgotar e ele finalmente me mataria, ou me manteria apenas para bolsa de sangue ilimitada –, mas perdi as contas por volta de vinte e poucos. Isso foi há semanas atrás. Eu mesma tentei me matar duas ou três vezes, mas sempre era pega antes disso, aí ganhei um vigia. Até que trouxeram Jason, e a ideia de vê-lo sofrer parecia impossível pra mim. Aquela era uma chance de me redimir, era o recado que tinha recebido muito bem, meus amigos ainda estavam lá fora, lutando por mim, e eu teria que lutar por eles.
— Onde está a espada, Allyson? – Darko diz.
— Você nem vai me perguntar como foi meu dia primeiro? Sua mãe não lhe deu bons modos?
Capacho me dá um tapa no rosto, já que diferente de Darko, ele não tem um pingo de remorso em sujar as mãos, zero importância. Minha visão embaça. Os filmes e os dias na hidroelétrica não me preparam para isso, para o quanto levar um tapa na cara realmente machuca e, de alguma forma, ainda é sempre um choque.
— Não tenho tempo para os seus joguinhos hoje – Darko diz – Onde você colocou?
— Vai ter que me matar primeiro – Eu jogo um beijo para ele da melhor forma que consigo sem usar as mãos.
Sei muito bem que, no momento em que eu contar a ele onde a única coisa que pode mata-lo está, o mundo nephilim vai ruir, todos morreremos, e Jason se tornará descartável. O fato de eu ser a única a ter essa informação e uma das únicas que pode abrir a Caixa foi o que manteve Jason e eu vivos por muito tempo. Mesmo quando eu gostaria de desistir e aceitar minha morte de uma vez, saber que agora também tenho a vida dele nas mãos me faz ficar em silêncio. Não importa o que eles façam.
E eles fazem o pior que podem.
Tenho certeza que meus gritos acordam Jason de seu cochilo no fim do corredor, mas, pelo menos, eu não abro mão de nós.
♕♕
Outro dia passa sem me deixarem ir para a minha cela de sempre. Só estou meia acordada, encarando o teto, tentando enxergar as rachaduras que sei que estão lá na fraca luz azulada vinda do corredor. Passo os dedos pelos meus novos machucados sem prestar muita atenção. Pela sensação quando os aperto com os dedos, acho que devem estar daquele vermelho-arroxeado que se parece com a roupa de cama do nosso antigo quarto de hóspedes. Mamãe sempre gostou daquela cor. Suspeito que tivesse algo a ver com a afinidade dela por um bom cabernet.
Ouço botas no corredor e franzo as sobrancelhas. Não estou com fome; já está na hora do café da manhã? Mas, não, as luzes ainda estão apagadas.
Minha porta é aberta devagar e, de novo, faço um esforço enorme para me sentar. Darko vai em direção a poltrona e se acomoda por lá mesmo. Ele cruza as pernas e fica me analisando.
— Tem ideia de como chegou até aqui, Allyson? Sabe qual é a sua história?
— Já me contaram tantas histórias que está difícil reconhecer as falsas. Mas a essência é que você dormiu com Micaela e aqui estou eu.
— Isso é fascinante – Ele sorri – Você não sabe do porquê que é tão poderosa, na verdade nem sabe a magnitude do seu poder.
— Eu sou a Filha da Profecia, por isso herdei os poderes.
— É muito mais que isso. Sabe o que são os Jaguar? – Balanço a cabeça. Ele se levanta, pega uma tigela de porcelana de cima da mesinha e me entrega. Parece que há uma sopa dentro, e o cheiro é ótimo. É a primeira vez que como algo decente desde que cheguei aqui – Eles são aberrações que o universo não consegue explicar. São criados ao invés de gerados, é preciso todo um ritual. São... uma junção de Caídos com Bruxos. Só que você, como sempre, contrariando todas as expectativas, nasceu. Uma mulher Jaguar.
— Ah, não me venha com essa, eu sou nephilim.
— Você é uma ameaça para todos lá em cima. Nunca se perguntou por que te privam tanto do seu destino? Por que nunca te contam nada? Os Arcanjos, Peter. Nunca se perguntou por que não é a única nephilim original?
— Miriel tem poderes como eu, ele...
— Você não é nephilim, Allyson, tem muito mais poder correndo nas veias do que qualquer um deles, Kaleesa, Nick, Miriel, Holland.
— É mentira, não tem nenhum jeito de eu ser como você, em nenhum... tipo de universo paralelo que você criou na sua cabeça. Eu sou uma pessoa boa, eu não mato gente.
— Você sabe que sua alma tente um pouco quando o assunto é escuridão. Negue para todos, mas não negue sua natureza a si mesma.
— É isso que está fazendo comigo? Usando-me para criar homens Jaguar?
— Estou criando para você. Escute, Ally – Darko se inclina na poltrona e eu me afasto na cama, assustada com toda essa história – Você pode escolher o que quer ser, Caída, bruxa ou nephilim, sabe o quão especial isso é? Podemos dominar o mundo desse jeito.
— Você vai matar os nephilins, vai matar o Peter, Miriel, Kyla, todos eles.
— Tem que entender que eles são um efeito colateral, não é pessoal.
— Não quero matar – Deixo a tigela na mesa e abraço minhas pernas – Não quero ser como você.
Darko revira os olhos e sai da sala, espero que dessa vez ele tenha cansado e me deixe em paz. Nunca matarei meus amigos de novo, nunca serei como ele. Posso ter a escuridão correndo nas minhas veias, mas não a deixarei me consumir.
Nos tempos de escolas, quando eu fingia ser alguém que não era, havia momentos rápidos que eu quase não percebia em que eu gostava da sensação de humilhar as pessoas, gostava da sensação do poder em minhas mãos. Alguns momentos em que eu me deixava levar pelo teatro. A não ser que não fosse teatro, a não ser que... não! Não sou com ele.
Darko volta em alguns instantes segurando um copo de isopor nas mãos.
— Quero que beba – Examino o conteúdo e me assusto ao ver aquela coisa vermelho escuro e pegajosa. O cheiro me causa náuseas.
— Não.
— Beba! – Ele empurra o copo na direção da minha boca e me força a beber o sangue.
Quando aquilo chega à minha garganta, penso que vou vomitar, mas na verdade é o contrário. É como se tudo de bom que já comi na vida se misturasse em uma explosão de sabores a cada segundo. É a melhor coisa que já bebi. Me esqueço que já tive medo de sangue, não me contenho e lambo a superfície do copo até não restar mais uma gota.
— Esse nephilim, tenho que admitir, estava delicioso – Arqueio as sobrancelhas e sinto vontade de morrer pelo que acabei de fazer. Acabei de beber o sangue de alguém — Como eu disse, pode negar tudo, menos a sua natureza.
— Eu quero mais – Sussurro envergonhada e levanto a cabeça. Respiro fundo, tentando controlar a sede que chega cada vez mais – Eu quero mais!
— Finn! Arranje mais sangue para a nossa convidada.
Me olho na janela novamente, tentar identificar meu próprio reflexo e foco nos olhos, eles agora estão oscilando entre o vermelho, o azul e o verde, como se não decidissem o que querem ser. E para ser sincera, nem eu.
— O que acontece agora? Como vou sobreviver a isso? Meu corpo... sinto-me diferente. Para falar a verdade, como nunca precisei disso antes?
— Seu corpo bastava para te manter estável, por causa do sangue do Peter. É uma das maravilhas de ser você, só que agora que experimentou, vai ansiar por mais. Pense nisso como um ritual de três fases, você acabou de completar a última.
— Não vejo como vou sobreviver a isso, Darko – A escuridão já está me tomando, eu sinto ela, negra como a noite, passando por mim, m enchendo de raiva.
— Vou chamar o Finn de novo, isso é sede.
Quando a porta se abre, o tal do Finn cai duro no chão, com algum tipo de dardo alojado no pescoço. Então Adam entra sorrindo com uma arma esquisita no ombro. Darko mal tem tempo para reagir porque cai também, então Nick aparece lá atrás e sorri debochada pra mim. Ok, tenho que agradecer depois e aguentar as piadinhas dela.
— Vamos dar o fora daqui, Hale.
Minha boca fica seca, e minha língua de repente parece grande demais para ela. Era isso que eu estava esperando. A forma de sair. Mas então porque não estou nem um pouco entusiasmada com a ideia?
— Espera, precisamos ir atrás do Jason – É isso, talvez se eu conseguir tirar o Jason primeiro, tenho tempo para pensar.
— Ele está lá em cima. Depressa.
— Não, ele está aqui! – Insisto.
Fico em pé de um salto e minhas pernas estão surpreendentemente fortes abaixo de mim. Corro em direção a minha cela, ignorando os berros de protesto vindos de Adam. Depois de um tempo batendo na porta de Jason, ele vem até mim.
— Qual é Ally.
— Abra, ele está aqui.
Ouço o chacoalhar de uma chave e Adam entra na minha frente. O entendimento cai sobre mim como aquela onda maldita na praia de East End que tirou o ar dos meus pulmões: estou prestes a ver Jason de novo.
Adam enfim consegue abrir a fechadura e empurra a porta, e tudo perde velocidade até o silêncio entre cada batida do coração em meus ouvidos ficar longo e ensurdecedor. Mas não há ninguém lá dentro, apenas uma grande sala branca vazia.
— Viu? Eu disse que ele estava lá em cima.
— Não, você está mentido. Darko o pegou!
— Ally, eu juro que ele está lá em cima te esperando. Aqui, veste isso – Ele me entrega um moletom preto.
— Não posso ir – Ando de um lado para o outro mexendo no cabelo. Estou suando agora, nervosa, sem controle – Se eu sair, vou te matar. Vou ficar aqui.
Entro em minha cela e fecho a porta, mas meu amigo é mais rápido e me puxa lá de dentro. Então me abaixo para pegar a faca em seu tornozelo e encaro o brilho doentio na lâmina.
— Ally... – Adam levanta as mãos como se fosse se render.
— Se abaixe – Atiro a faca e ela corte o ar, parando exatamente no ombro de Darko, que vi vindo até nós cambaleando pelas paredes.
— Meu Deus – Adam geme, então percebo o que acabou de acontecer, a faca está em Darko, mas meu melhor amigo também está ferido. Se eu tivesse mirado no coração dele...
— Não...
— Sério que vou precisar fazer isso? – Nick desdenha e me segura pelo moletom enquanto injeta o mesmo soro em mim.
♕♕
— Eu quero parar!
— Se parar não vai aprender nunca – Meu pai sorri segurando o banco da bicicleta enquanto pedalo.
— Não quero andar.
— Ah, quer sim, estou segurando você.
— Tô com medo, pai, coloca a rodinha de novo.
— É só pedalar, Ally.
— Vai Allyson! – Adam grita lá da frente e mostro a língua pra ele.
— Não estou pronta
Percebo que ele já me soltou quando sua voz se torna distante. Então eu caio e Adam ri.
— Tudo bem – Meu pai diz caminhando até mim – Eu trouxe curativos, materiais cirúrgicos e chamei um helicóptero.
— Você tá debochando de mim – Choro mais um pouco.
— Não meu amor, juro que estou debochando de mim – Ele limpa meus olhos e abre a caixinha de remédios da mamãe – Porque não há nada pior do que ver a filha cair andando de bicicleta sem rodinhas pela primeira vez, sabia? Prontinho – Diz quando termina de colocar o band-aid no meu joelho.
— Eu vou morrer?
— Olha, eu diria que as chances de sobrevivência são de cem por cento, soldado.
— E você vai morrer?
— Ok, venha aqui – Papai pega minha mão e caminhamos até minha bicicleta rosa caída no chão não muito longe de casa – Todo mundo morre um dia, Ally, mas ainda vou ficar aqui por muito tempo, tudo bem?
— E se você morrer e eu continuar aqui?
— Bom, aí você já vai estar crescida e não vai mais precisar de mim – Levantamos a bicicleta e voltamos pra casa.
— Sempre vou precisar de você.
♕
— Allyson, são duas da manhã!
— E daí? — Grito indo para a cozinha e ele me segue — Meu Deus, quanta chatice.
— Chatice?
— É pai, chatice! — Tiro os fones e reviro os olhos — Eu estava em uma festa com o Jake, então releva um pouco aí.
— Quer mesmo ficar de castigo com dezesseis anos?
— Isso mesmo, me coloque de castigo — Jogos os braços para o alto e pego um copo de água — Não falta mais nada né.
— Já para o seu quarto.
— Meu deus, eu te odeio.
— Isso, muito bom, jogue todas as suas frustações em cima de mim, não sou seus amigos, Allyson.
— Tanto faz.
Subo as escadas e caio na cama bêbada, e com a consciência latejando de culpa. Me levanto, desço as escadas e o encontro dormindo com o rosto no balcão. Peço desculpas amanhã.
Deus, como eu queria ter pedido desculpas aquele dia.
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