Flor da meia-noite

42 XLII – Ainda estou aqui


Notas iniciais
IAEE, TUDO BOM? VAMO DAR UMAS XINGADAS NA AUTORA?

Cantei sobre o caos e a noite eterna,
Ensinado pela musa divina a me aventurar
No declínio sombrio, e subir para reascender...

— John Milton, Paraíso perdido

P.O.V. Jason

Corro pensando no que aconteceu na noite de ontem. Pensando no porquê Allyson anda tão distante de mim e tão próxima ao David, como no dia que fomos abrir a caixa de Pandora, em como ela disse que David tinha a ajudado, em como ela saiu de perto de mim e foi direto pra ele. No fundo sei que pisei na bola, que tudo bem ela ter feito o que fez, a dor estava a consumindo, que não entendia o que estava acontecendo e por consequência, não podia julgar. E quando ela precisou de mim, a mandei escolher e eu a afastei. Bom, parece mesmo que ela escolheu.

Parei, coloquei as mãos na cintura e chequei as horas no celular. Merda! Prometi encontra-la no Fosso e já devia estar lá.

♕♕

O galpão estava cheio no andar de cima, alguns nephilins conversavam e mal notavam a minha presença, afinal, eu não passava de um humano agora. Desci as escadas para o complexo e entrei em uma sala reservada para reuniões. Cheguei atrasado, então todos se viraram para me encarar, até a Allyson, que estava sentada de frente para os cinco guardiões.

— Opa, desculpa aí, podem continuar.

— Isso é ridículo – Uma mulher de meia idade no centro bate a mão na mesa – Mandar nossos melhores nephilins para uma causa praticamente perdida. Tudo o que você fez por nós até agora foi capricho e mortes. Nada que mereça realmente a nossa confiança.

— Não é uma causa perdida – Allyson explica entrelaçando os dedos. Ela parece absurdamente calma, está quase sorrindo, e isso me causa estranhamento. Suas roupas são como o resto da sala e do Conselho, completamente brancas e impecáveis. Ela leva anéis nos dedos e pela primeira vez em muito tempo, resolveu usar brincos. Parecia a Allyson que eu vigiava no colégio, porém mil vezes mais madura e com um ar adulto – Sei muito bem o que estou fazendo, ao contrário de...

— Ei cara, ainda bem que chegou, estou perdido – David me cutuca, sorrindo para mim. Me viro com as sobrancelhas arqueadas. Esse sorrisinho é para me irritar contando vantagem? Ao que parece, ele chegou bem antes de mim, então teve tempo de acalmá-la, segurar sua mão e... Meu Deus. Babaca – O que acontece nessas reuniões?

— O Conselho quer conhece-la, toda essa história de Filha da Profecia e ela querer gente para achar Darko. Tudo precisa passar por eles – Sussurro de volta – É como um teste, querem saber se podem confiar nela.

Me lembrei do que ela tinha me dito hoje de manhã por telefone, quando eu estava chegando na academia. “Vou me encontrar com o Conselho, e deixarei minha posição bem clara, eu vou lutar contra Darko, não ligo se não é o que querem ouvir.”

— Responda! – Volto minha atenção ao que está acontecendo quando um dos homens grita.

— É claro que não, meu melhor amigo está lá dentro.

— Está realmente dizendo que quer arriscar a vida da nossa gente para salvar um amigo que só causou o mal? Que matou a sua mãe? E depois, só depois vai tentar matar esse Darko?

— Isso é você que está dizendo, não eu.

— É loucura, garota! – Outra mulher na ponta verbera.

— Não acredito que estou presenciando isso – O velho ao seu lado concorda e tenho certeza que Allyson está se segurando muito para não rir da papa dele quando ele se estressa, a conheço.

— Estou pront. Tenho a espada de Darko, a Caixa de Pandora, vou garantir que ele fique preso dessa vez, reuni um grupo forte de Filhos Originais. As lendas dizem que...

— Lendas – A mulher do meio desdenha – Lendas do tempo de Adina que nunca foram de fato confirmadas. Agora ela quer que a gente baseie toda a nossa crença em lendas – Ela comenta com outro homem ao seu lado, esse, por sua vez, é barbudo e parece um pouco mais novo – O mundo dos nephilins está ruindo e você me vem com sonhos bobos, teorias, bruxas, essas suas “vozes”, criando alianças com Criaturas da Noite. Isso é inaceitável.

— É incrível o quanto vocês sabem pouco da própria história, e agora estão aí, decidindo o futuro de milhares tão ingenuamente.

— Peter, controle sua filha. Essas... teoria dela estão fugindo do senso – A carrancuda do meio bate na mesa mais uma vez – Você sabe que ela ainda não está pronta pra assumir essa responsabilidade, ela é uma criança.

— Com todo o respeito, Beth... – Peter começa e ouço Kaleesa conversar baixinho com a Hazel.

— Beth é completamente amargurada porque Peter sempre foi apaixonado pela Marie, e não por ela. Aí desconta tudo na Ally.

— Amores não correspondidos são a melhor coisa para se assistir – Então elas riem.

— Vocês é que não estão prontos, não enxergam um palmo a frente do nariz. Eu vi o que Darko planeja fazer conosco – Fiquei contente pelo modo que minha Flor enfrentou aquele pessoal mesquinho. As bruxas fizeram dela uma verdadeira princesa de gelo, que enfrenta ao invés de correr como era antes de ela partir. Ela engoliu em seco, visivelmente tentando se recompor, mas suas bochechas ainda ardiam, coradas pela afronta. Allyson olhou em volta, furiosa, com hostilidade cega – Até um ano atrás, literalmente, eu era uma garota normal, com desejos normais, e então tudo virou de cabeça pra baixo, uma bomba caiu no meu colo e constantemente sou arrastada para uma série de acontecimentos ruins porque nasci com esses malditos olhos azuis de Filha da Profecia, todos os dias me disseram o que eu devia fazer, que era tudo destino. Então eu fui a Riverland sem ao menos me despedir dos meus pais, suportei bruxas torturando meu sangue só porque sabia que era o certo, participei de mais conflitos do que eu posso contar, matei gente, matei caídos, morri milhares de vezes até resultar no que sou agora. Perdi pessoas que amo. Então nossa, me desculpe por querer dar o meu melhor para dar um fim nisso, e me desculpe por ser a única com coragem de agir.

— E se isso resultar em um homicídio em massa? E se...

— Ouça Beth... posso te chamar de Beth? Não importa. Eu parei de me preocupar com o “e se” há muito tempo, parei de me preocupar quando simplesmente apagaram minha memória para me fazer gostar de outras pessoas para então tirá-las de mim.

— Quando isso aconteceu? – Perguntei a Hazel e ela engoliu em seco.

— Deixa ela te contar.

— Então acho que tenho total conhecimento dos riscos, e assumo total responsabilidade.

— De quantos precisa?

— Não muito – Allyson respondeu.

— Muito bem – Beth diz e os cinco começam a cochichar entre si. Flor torce as mão, visivelmente nervosa com a possível resposta. Depois de um tempo, volta a falar – Está nas suas mãos, Filha da Profecia. Você jura por quem?

A boca de Beth se torna uma linha fina, ela está se divertindo com a situação, mas não pode demonstrar de jeito nenhum. Allyson cruza os dedos mais uma vez e respira fundo.

— Juro pelo Anjo – Essa pequena frase arranca suspiros de mais da metade da sala, menos de David e Clove. Jurar pelo Anjo é como um juramento de sangue, jamais poderá ser desfeito. Se quebrar uma promessa para o Anjo, coisas ruins acontecem. Basicamente, se a Allyson não cumprir o que disse, ela morre – Nada vai acontecer com os Nephilins que eu levar comigo.

Depois de um tempo, os Guardiões do Conselho deixam a sala e Ally solta um suspiro de alívio que eu poderia ouvir do fim do corredor.

— Que povo chato – Clove quebra o silêncio e se levanta.

— Você foi espetacular, acho até que gostaram da sua coragem. Não sabia que sua língua era afiada assim, Flor – A abraço de lado e deposito um beijo carinhoso em sua testa. Olho para David, mas ele não está nem aí. Como alguém pode fingir tão bem?

Allyson deu uma risada que saiu pelo nariz.

— Então, o que vai fazer agora? – Hazel pergunta pegando o casaco e saímos da sala branca da dor. Apenas fazendo uma analogia à 50 tons.

— Eles me torturaram por quase duas horas a procura de um furo na minha história e no final eu ganhei.

Allyson falava com a Hazel, mas olhou fixamente para David, então passou os dedos debaixo dos olhos. Meu braço se afrouxou nos seus ombros e vi um lampejo de alguma coisa na expressão dela que não conseguia definir. Convicção? Confiança? Ou talvez confissão declarada.

— Vou beber para comemorar.

— Falando em beber, não me lembro de quase nada da noite passada – David introduz o assunto, mas é cauteloso, como se tentasse pescar alguma coisa. Flor encara Hazel de canto de olho e a amiga retribui. Ok, alguma coisa aconteceu naquele bar e ninguém me contou. O que diabos Holland fez?

— Deve ter sido isso, David, bebeu demais – O sorriso dela tremulou e me pareceu complacente, imediatamente percebi que algo não estava se encaixando, e isso me colocou na defensiva.

— Ei Flor – A puxo pelo braço até uma sala e fecho a porta atrás de mim. É completamente branca, como as outras. Até onde o Fosso realmente se estende?

— Você e eu sozinhos em salas assim me fazem pensar que essas situações geralmente não acabam bem, e tirei essa conclusão com apenas um teste – Rio e ela se senta em uma das mesas, balança os pés no ar em seguida – Vai me dizer do que se trata ou ficar me olhando com essa cara? Tentando flertar comigo?

— Esperta – Me aproximo um pouco mais e cruzo os braços – Sabe o que percebi esses dias?

— O que?

— Que nunca tivemos um primeiro encontro apropriado.

— Você disse mesmo “apropriado”? – Allyson ri, mas depois fica séria e engole em seco – Jason, eu...

— Eu sei, fui um completo idiota no dia do parquinho, se eu te amo, Flor, eu tenho que lutar por você, e sei que prometi lutar, mas fui fraco de novo. Vou te apoiar em tudo a partir de agora, e vou te amar como você nunca foi amada antes.

— Tem certeza disso?

— Mais que tudo no mundo – Acabo com a distância entre nós e me encaixo no espaço entre suas pernas e fico aliviado quando ela levanta os braços e enlaça meu pescoço – Movo céu e Terra por você, Flor, devia saber disso.

— Eu sei.

— Pego você em casa depois que sair com as meninas, vamos ao Seasons.

— Ei pombinhos! – David entra na sala e Allyson quase cai da mesa. Eu também devia saber que ele ainda causa efeitos nela, culpa minha porque assisti isso acontecer e não fiz nada – Vocês vêm ou não?

— Claro, já estamos indo – Ela gagueja.

— Tudo bem – Franzo as sobrancelhas – Pode me explicar o porquê de ele nos chamar de pombinhos e estar super de boa com isso?

— Talvez eu tenha... convencido ele a viver uma vida bem longa e feliz sem mim.

— Usou Persuasão nele?! – Me afasto tentando entender toda aquela situação e de repente tudo ficou claro, como água – Fez isso por nós?

— É... claro!

P.O.V. Allyson

Jason consegue ter dez centímetros a mais que eu, ele se move como fumaça e seus olhos são escuros e impressionantes. O som da voz dele, baixa, grossa e sexy, é capaz de me derreter em questão de segundos. O pior era que ele sabia disso.

Quando o normal e eu pegamos caminhos diferentes, não achei que viver como antes seria possível. Mas aqui estou eu, em um restaurante normal, com pessoas normais, um parceiro normal – ou quase normal – em um encontro normal, percebo que estava errada.

E quando Jason sorri para o garçom, pedindo nossas sobremesas, sinto uma onda de calor. Pela primeira vez na vida não sinto medo do que pode acontecer. Algo parece se abrir dentro de mim, se espreguiçar, como um gato tentando se aquecer ao sol, e quero muito que se repita.

Sua voz está infinitamente suave. Seus olhos são carinhosos e cheios de luz, como o sol se derretendo como manteiga pelas árvores em uma noite morna de outono.

— Allyson? – Seus dedos contornam minha mandíbula e tocam brevemente meus lábios – Ouviu uma palavra do que eu disse?

É então que acontece.

Ali, em um restaurante chique fora dos limites da desastrosa Ellicot, com o mundo inteiro sucumbindo ao meu redor, ouvindo Jason dizer todas essas besteiras que me fazem rir; todo o medo que carreguei desde que isso tudo começou, desde que me disseram que, no fundo, havia algo errado comigo, algo que precisava ser suprimido; desde que me disseram que eu estava a um passo de ser arruinada, se desfaz de uma vez. Aquilo, meu âmago mais profundo, o mais íntimo do meu ser aumenta e se desdobra ainda mais, subindo como uma bandeira: fazendo com que eu me sinta mais forte do que nunca.

Abro a boca e digo:

— Fique comigo.

— O que?

— Fique comigo. Sei que tudo na vida é incerto, mas às vezes a gente tem que sair pela porta e torcer para que não haja um ônibus.

— Você é uma figura, Hale.

— Isso é um sim?

— É, pode se dizer que é um sim bem grande – Jason ri, se inclina por sobre a mesa e me dá um beijo.

É exatamente esse beijo, doce, como eu me lembrava, que desperta tudo em mim, tudo que estava dormindo antes. É como se meu coração se enchesse de luz, essa luz transborda, emana de mim. Esse amor tão forte que chega a doer, que me despedaça e depois me monta de novo, repetidamente, constantemente. Eu me desfaço, então refaço.

Mas com isso, as vozes também voltam, o desespero, as visões, elas me afogam. Tento me levantar, mas sou puxada para a água de novo. Tentei disfarçar, mas não consegui e bati com o punho cerrado na mesa.

— Flor?

O pensamento passa tão rápido e claro quanto uma corrente elétrica, trazendo a dor ardente de volta. Fecho os olhos com força, abaixo a cabeça e rezo para que ela passe. Mas não sei pra quem rezar. De repente não consigo lembrar uma palavra, não consigo pensar em nada além de estar em uma igreja quando era pequena, em uma visita às antigas religiões sancionada pelo governo. Lembro de observar o sol brilhando e depois sumindo atrás dos vitrais, e ver toda aquela luz morrer, deixando para trás nada além de painéis inexpressivos de vidro colorido barato baratos e que aparentam não ter substância.

Culpa sua, Allyson.

Os nephilins mortos, culpa sua.

Quando eu estava viva, não havia outro homem, só existia o Jason.

Que desperdício de poder, que desperdício.

Destino.

Culpa minha!

­— Flor, é sério, alguma coisa errada? – Jason pega minha mão e levanto a cabeça. Queimei parte do pano que cobria a mesa.

— Estou, é... as meninas voltaram, Amberly não está muito feliz e Ayla me acusa de não ser boa o bastante.

— Isso porque... eu te beijei? Meu Deus, nossos beijos são sempre tão amaldiçoados?

— Não importa – Tento sorrir, mas outras vozes chegam iradas e respiro fundo – Só precisamos sair daqui.

♕♕

— Bom dia, flor do dia! – Clove diz quando atendo o celular e coço os olhos – Feliz aniversário! Espero que esteja pronta e tomando café, vou te buscar para irmos ao armazém arrumar a maior festa que Ellicot já viu, afinal, você continua sendo Allyson Hale.

— Não tô em casa – Troco o telefone de orelha e tiro algumas penas de fronhas de cima de mim, puxando o edredom até o queixo e checando Jason ao meu lado – Estou em algum motel perto de East Bay, não sei bem as coordenadas.

— Você quer acabar comigo?!

— Clove, se eu quisesse acabar com você, eu diria que todas as lojas Prada fecharam, então você mesma se mataria – Mexo no meu cabelo e tiro outra pena de travesseiro de lá.

— Pensando por esse lado, você tem um pouco de razão – Ela fica em silêncio por um tempo, esperando eu dizer alguma coisa, mas pela primeira vez minha mente está vazia – Olha, se você não estiver em casa em duas horas, eu faço o tema da festa ser country, é você quem sabe, Filha da Profecia.

— Você foi bem clara – Eu rio e ela desliga – Bom dia – Digo ao Jason quando percebo ele se espreguiçando e pouso a cabeça em seu peito, ele me abraça e me beija na testa.

— Feliz aniversário, Flor, se entendi bem, recebemos um ultimato da Clove, e isso quer dizer que vamos morrer se não cumprimos.

— Isso aí.

— Então vamos embora bem rápido antes que percebam o que fizemos e nos cobrem pela bagunça no quarto.

— Eu concordo – Sorrio e me levanto, mas ele puxa o cobertor de mim.

— Esse com certeza vai ser um dos dias bons.

— Jason!