Flor da meia-noite

6 VI – Vic House e alguns caídos pra acompanhar, obrigada.


Notas iniciais
OPA, TUDO BOM?

— Terra para Ally – Clove me chama, balançando a mão diante do meu rosto – O que foi?

Encaro o mar de grama e os alunos que cercam o palco onde estamos sentadas. Esfrego o polegar no rótulo de plástico da garrafa de água que estou segurando, fazendo-o enrugar.

— Você acha que Jake gosta mesmo de mim? – Clove franze a testa.

— É uma pergunta séria? Porque achei que ele já tivesse deixado isso bem claro muitas vezes.

— É que sei lá, as vezes parece que é só porque fazemos parte do mesmo grupo.

— Ele te ama, todo mundo sabe disso.

— Ok – Tento me concentrar na leitura do mês da senhora Grunwald. Clove diz que tem algo pra fazer e me deixa sozinha até Hazel chegar com os outros e eu me sentir uma idiota completa com eles por conta das brincadeiras de mau gosto, o que vem acontecendo por toda essa semana.

Jake acaba se juntando a nós depois de um tempo, com o cabelo molhado por causa do banho recente depois do treino. Ele passa todo o intervalo abraçado a mim, e me beijava sempre que podia. De repente me senti uma boba por levar em consideração as afirmações de um completo estranho. Eu amo Jake, e ele me ama, tudo ótimo.

— Como hoje é sexta-feira e faz tempo que não saímos, eu estava pensando em ir na Vic House— Zack sugere e eu logo me animo.

— Falou em Vic, eu tô dentro.

— Essa é a Ally que conheço – Ele estende a palma da mão pra mim e eu bato sorrindo – Jake?

— Se minha garota vai, eu vou.

— Não perco por nada – Hazel me joga um olhar malicioso e eu rio já imaginando o porquê daquilo.

O resto do grupo começa a concordar e logo estamos planejando a divisão dos carros. A Vic House era a balada mais monstra que conhecíamos, todos se encontravam na Vic, quer dizer, todo mundo que era alguém na nossa pacata cidade se encontrava lá.

Olho pro lado tomando um gole da minha água e avisto Jason sentado sozinho mexendo no celular. Anjos tem celular? Decido assumir minha outra personalidade e ir até lá. Tiro o papel de minha bolsa e coloco na sua frente. Consigo atrair sua atenção e me sento.

— É de Jane Austen, orgulho e preconceito – Explico sorrindo, notando a expressão confusa em seu rosto – Bom, eu imprimi porque não ia arrancar a página da minha edição especial de capa dura. Mas essa aqui – Aponto com o dedo – É a parte que ela conhece o Senhor Darcy, e logo embaixo, quando ela percebe que está apaixonada por ele. São as minhas partes favoritas.

— Obrigada.

— Imaginei que pudesse colar na parede do seu quarto.

— Vou colar sim – Ele sorri e dobra cuidadosamente a folha, guardando em seu caderno.

— Nós vamos à Vic hoje.

— Que que tem?

— Se você é meu anjo da guarda, tem que andar comigo, né? – Jason ri um pouco e assente, mas em um piscar de olhos fica sério como nunca vi.

— Não, espera, tem que ficar longe, consigo proteger você a distância.

— Ah, qual é, senta ali com a gente – Toco seu braço e aquilo acontece de novo, por um breve momento me sinto uma pessoa diferente, em uma época diferente, e então volto pra minha realidade, ou pro que acho ser realidade – O que foi isso?

— O elo tá começando a se quebrar. É sério, Allyson, fica longe de mim – E então ele se levanta, levando a bandeja consigo.

Ainda fico atordoada, sem saber o que pensar. Jason acabou de dispensar minha amizade? Que elo está se quebrando? Porque ficar longe de mim? O que mais Jason Benacci me esconde? Quando o sino toca, meus ouvidos quase explodem com a intensidade que o som chega até mim, como se a campainha estivesse do meu lado, na altura máxima. Merda de habilidade nephilim.

— Oi gente – Cody, o segurança da boate sorri e estende a mão pra nós, pedindo a identidade.

— Ah, qual é, você nos conhece – Zack resmunga colocando a mão no bolso.

— Instalaram câmeras aqui fora também, foi mal – Cody tinha 1,90 de altura, se eu não o conhecesse, ficaria assustada, assim como o primeiro dia que eu vim aqui. Seus olhos eram de um castanho intenso e usava o cabelo bem curto – Clove, não vai entrar enquanto não me mostrar isso – Cody cruza as mãos na frente do corpo quando percebe que minha amiga entra no meio dos meninos pra não ser vista por ele.

— A última vez que te deixei ver alguma coisa, você não me ligou por três dias – Ele se encolheu.

— Você nunca vai superar isso, vai?

Ela jogou a identidade em Cody, que a segurou contra o peito. Ele deu uma olhada no documento e depois o devolveu, me encarando com expectativa. Passei minha carteira de motorista pra ele.

— Ei, achei que tinha desistido daqui – Ele sorri pra mim e me devolve o documento, dou de ombros.

— É uma longa história – Respondi, guardando minha habilitação no bolso traseiro. Minha calça jeans era tão apertada que fiquei surpresa por conseguir enfiar algo ali atrás além da minha bunda. Cody abriu a enorme porta vermelha, e Clove sorriu com doçura.

— Obrigada, gato.

— Te amo. Seja boazinha.

— Eu sempre sou boazinha – Ela deu uma piscadela.

— A gente se vê quando eu sair do trabalho?

— Aham – Ela me puxou porta adentro depois de todos entrarem.

— Vocês são o casal mais esquisito do mundo – Falei por sobre a música. O som estava zumbindo em meu peito, e eu estava quase certa de que cada batida fazia meus ossos tremerem.

— Aham – Clove disse mais uma vez. A pista de dança já estava lotada de estudantes e universitários bêbados e suados. O semestre de outono estava a todo vapor. Hazel foi até o bar e parou no fim do balcão. Josie piscou para ela e já lhe entregou um "Sex on the beach", o de sempre.

— Vem cá, Hazel, e o meu sexo na praia? – Zack pisca e eu saio de lá rindo, a procura de uma mesa nos braços de Jake.

Pouco tempo depois os meninos chegam com várias bebidas diferentes. John me entrega um buttery nipples e eu sorrio agradecida, pronta pra começar minha noite.

Jake me puxa pra dançar depois de ter bebido algumas e eu praguejo por ele ter escolhido justamente esse momento, quando eu mal conseguia ficar de pé. O modo como ele passava a mão em mim me deixava nas alturas, como se esquecesse que estávamos em público. Meu namorado com certeza manteria a promessa de me ter em sua cama hoje.

Quando abro os olhos novamente, e minha visão se ajusta às luzes multicoloridas eu vejo Jason em um canto isolado, com uma garrafa de cerveja na mão, me observando, sempre me observando. Me afasto de Jake com o susto e ele sorri perguntando o que houve.

— Preciso ir ao banheiro – Arrumo o cabelo e me recomponho. Subo as escadas pro camarote por ser mais vazio e tranco a porta assim que entro.

Coloco as mãos esticadas na pia e olho meu reflexo no espelho. Pareço pálida e sem vida mesmo por baixo da maquiagem pesada. Meu cabelo começou a ondular e eu respiro fundo pra tentar me acalmar. Sinto meu coração batendo no meu peito, escuto as batidas rápidas e descompassadas ainda pelo momento íntimo há poucos minutos atrás. Minha visão embaça e depois volta ao normal, porém consigo notar uma pequena mancha no canto inferior direito do espelho, pequena não, minúscula. Pisco e então ela desaparece.

A porta se abre ao meu lado e quando estou prestes a dizer que está ocupado me lembro que tranquei. Não consigo nem ao menos gritar quando um braço forte passa pelo meu pescoço me enforcando na hora.

Consigo me soltar e tento correr até a porta mas ele me puxa pela blusa e sou jogada no chão.

— Socorro! – Grito, mas o único som que sai é minha voz fraca e rouca.

Me arrasto pelo chão em uma súplica patética, mas sou puxada e jogada contra a pia. Ele estava vestido totalmente de preto e misturava-se a noite, dificultando dizer como ele era. De primeira eu não consegui distinguir nenhum traço facial, e então eu percebi que ele estava usando uma máscara de esqui, os braços são fortes e ele é alto, muito alto.

Consigo desviar de um soco que vem como um raio e sua mão quebra o espelho atrás de mim em mil pedaços. E então ele aperta meu pescoço novamente. Nossos olhos se conectaram através dos buracos na máscara. Um sorriso letal pareceu crescer nos lábios dele.

— Me dê seu sangue, filha de Peter Blake! – Ele grita e sua voz, um rosnado metálico desafinado, me faz tremer de medo. Tateio a pia atrás de mim e acho um caco de vidro grande, o golpeio contra seu rosto o mais forte que consigo, fazendo um corte profundo na bochecha – Sua...

— Allyson! – Escuto uma voz conhecida e quase choro de alívio quando esse monstro é tirado de cima de mim. Jason o mantém no chão e me encara – Vai embora daqui! – Mas não consigo me mexer, minha garganta dói, queima, e meus olho ardem com a chegada das lágrimas – Anda! Sai logo daqui!

Consigo recobrar os sentidos e ando a passos lentos pelo caminho até minha mesa. Ninguém parece me notar, mas o sangue escorre pelas minhas mãos.

— Ally? – Hazel me chama e eu me viro na direção do som. Ela está agarrada com Zack e se assusta ao me ver – Meu Deus, o que aconteceu com você? — Balanço a cabeça sem responder e começo a chorar. Ela me leva pra onde os outros estão e ensopo seu vestido com o sangue da minha mão mas ela parece não ligar – Jake, me ajuda aqui.

— Preciso ir pra casa – Sussurro, mas quando o faço minha garganta dói.

— Me conta o que aconteceu.

— Allyson, o que... – Jake corre e coloca as mãos no meu rosto, me analisando minuciosamente – Quem fez isso com você? Temos que chamar um segurança, te levar pro hospital.

— Não – Engulo em seco e me obrigo a continuar ignorando a dor – Preciso ir pra casa. Um cara... entrou no banheiro e começou a me ameaçar.

— Conseguiu ver quem era? – Hanna pergunta pegando minha mão e analisando. Suprimo um grito quando ela derrama vodka no local ferido – É pra não infeccionar.

— Não, estava com uma máscara, não vi nada. Jake, me leva pra minha casa.

— Tá bom, vem – Ele passa o braço pela minha cintura e me faz me apoiar em seu ombro – Meu Deus, Ally, quem faria isso com você?

— Eu não... eu não sei – Aqueles olhos não saíam da minha cabeça durante todo o caminho pra casa. E eu repassava toda hora o momento que Jason havia me salvado daquele monstro.

Meus pais já estavam dormindo quando cheguei Jake me ajudou a estancar o sangramento e faz um curativo. Minha garganta melhorou um pouco e tive que morder seu braço pra não gritar quando ele usou quase todo o álcool de casa no local machucado.

Depois de muito pedir, ele foi embora e eu sorri, mais que agradecida, quando ele me jogou um último olhar de dor por me ver daquele jeito antes de arrancar com o carro.

Naquela noite eu mal conseguia dormir, assim que fechava os olhos a cena me vinha a cabeça e eu tentava expulsar, mas era como um carma. E naquela manhã quando acordei, Jason estava dormindo na poltrona do meu quarto e a janela estava aberta.