Flor da meia-noite
5 V - Asas, magníficas... asas?
Notas iniciais

— Allyson! – Escuto a voz do Jake mas não ouso me virar. A beleza e o brilho daquelas asas prendem completamente o meu olhar, fico hipnotizada, e quando tento tocar, meus dedos passam direto.
— São só essência – Jason explica – Não penas de verdade, como de pássaros. Nossas asas estão em sentido espiritual elevado. Humanos não são capazes nem de enxergar, então se você vê, é uma prova de que é especial.
— É lindo – Sussurro extasiada, incapaz de expressar nada menos que adoração.
Me aproximo cada vez mais, a luz quase me cegando, e mesmo assim não ligo, não consigo pensar em mais nada. É isso, é de onde eu vim, é a onde eu pertenço, como se de repente me entregassem óculos limpos para enxergar o mundo a minha volta.
— Ally, cadê você? – Jason se vira de repente, acabando com toda a magia e me sinto murcha de uma hora pra outra. Ele veste a camisa e então muitas lanternas apontam pra nós – Ah, graças a Deus, que susto.
— O que aconteceu? – Hazel me abraça e continuo com um olhar confuso no rosto – Como veio parar tão longe?
— Eu tô bem.
— Ouvimos você gritar – Adam explica – Todo mundo ouviu, e mesmo assim, ainda está distante demais do acampamento.
— Eu caí – Jake me abraça também e me beija na testa depois de colocar um cobertor sobre meus ombros, só agora percebi o quanto estou tremendo – Eu juro que tô bem.
— Você tá congelando, baby. Ei, o que esse cara tá fazendo aqui? – Ele aponta pro Jason e instintivamente me vejo entrando em sua frente.
— Ele que me achou, eu estava meio perdida – Arrumo uma desculpa e de repente vejo o que aquela cena pode parecer. Jason e eu sozinhos na reserva a noite, quando todos já foram dormir – Eu só tropecei em alguma coisa e caí, não precisa fazer tanto alarde, não se preocupem, podemos voltar – Dito isso e algumas trocas de olhares depois, as pessoas começam a se dispersar, restando apenas eu, Jake, Jason, Clove e Hazel. Senhor Carter toca meu ombro e segue os outros, com a promessa de me examinar no trailer mais tarde.
— Não é possível que tenha caído – Jake adivinha – Você parecia apavorada, fiquei tão preocupado.
— O que veio fazer aqui afinal? – Hazel pergunta enlaçado meu braço no seu e me levando pra longe. Jogo um último olhar ao Jason e vou com eles.
— Ouvi alguma coisa, achei que fosse o Liam tentando alguma gracinha, mas quando vi já estava longe demais.
— Você é burra ou o que, amiga? – Ela diz sorrindo – Não assiste a filmes de terror? A loira é sempre a primeira a morrer – Rio e me aninho nos braços de Jake.
— Obrigada pela preocupação, mas eu juro, tô ótima – Fora o frio que finalmente começa a me consumir.
Já na barraca, segura e a salvo, Jake está deitado atrás de mim, com o braço ao redor da minha cintura. E depois de insistir muito, acabei vestindo seu moletom, o que veio bem a calhar, eu já estava achando que daqui a pouco ele viria com uma caneca de chá.
— Está nervosa? – Relaxo encostada nele, sua respiração faz cócegas na minha nuca, e posso sentir as batidas com passadas do seu coração nas minhas costas.
— Não mais – Fecho os olhos e acaricio sua mão até perceber que ele pegou no sono.
O que Jason tinha me mostrado teria deixando qualquer um a beira da loucura. Aquelas duas asas imensas me fizeram imaginar como seria cortar o ar do Pacífico, e tinham um tom de dourado magnífico. Mas logo a ideia de não ser humana começou a me atormentar, deixando todo o fascínio de lado. Como eu não poderia fazer parte desse mundo no qual vivi por dezoito anos?
Jake, que havia sido meu porto seguro por tanto tempo, agora parecia distante de mim, como se fizesse parte de uma outra realidade, criada pelo meu subconsciente para a chegada desse dia. Me viro e fico de frente pra ele, ouvindo sua respiração suave, seus finos cabelos loiros e a boca em uma linha dura.
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— Uma tempestade está vindo leste, então vamos ter que encerrar nossas atividades mais cedo esse semestre. Podem ir arrumar suas coisas – Nosso professor diz após reunir todo mundo, e depois de muitos murmúrios de aprovação, todos voltamos para desmontar a barraca.
Jake estava fazendo alguma brincadeira idiota com os meninos do time, porque riam e empurravam uns aos outros. Hazel ajudava Clove com a nossa barraca já que deixou Hanna arrumando a delas com a ajuda de Zack. Eu podia dar a desculpa de ter machucado a mão na queda de ontem, então fiquei apenas observando todo mundo ao meu redor.
É engraçado o modo como as pessoas agem quando não fazem ideia de que estão sendo vigiadas. Volto minha visão periférica ao redor e pego Adam me fitando, ele fica com vergonha, acho que o jogo virou, dessa vez eu é quem estava sendo observada. Levanto a mão pra acenar e consigo arrancar um sorriso da figura séria que ele tenta parecer.
— Você não pode contar pra ninguém – Jason surge atrás de mim e eu dou um pulo na cadeia com o susto.
— Pra quem eu contaria? Ninguém ia acreditar mesmo – Volto a arrumar minha mochila e bufo tirando alguns fios de cabelo do rosto – Eu também não iria anunciar pra escola toda que sou uma aberração.
— Isso é um dom. Você é alta, te ajuda no vôlei, além de agora começar a ficar com os sentidos aguçados, visão, audição, corre mais rápido e é mais forte.
— Até eu atacar a bola tão forte e machucar alguém porque não tenho controle. Ah é, esquecemos a parte de que querem me matar!
— Vai ficar tudo bem – Ele pega minhas mãos e o gesto espalha um calor acolhedor pelo corpo, e também aquela sensação, como se estivéssemos ligados. Olho para as nossas mãos juntas e pigarreio, ele se toca e as solta – Sinto muito, é o costume.
— Você nunca pegou a minha mão.
— É, tem razão, vou nessa — Ele se levanta, mas seguro a manga de sua blusa de frio.
— Algo acontece quando toco você, então suponho que ainda tem muito a explicar.
— Tudo tem seu tempo, Flor, mas por enquanto é melhor se contentar com o que já tem, e se concentrar em descobrir suas habilidades.
— Ally! – Hazel me chama e Jason aproveita a deixa pra sair de cena. Me levanto e pego minha mochila, colocando-a nas costas – Terminamos por aqui, podemos ir pro ônibus.
— Tudo bem – Ajeito a touca na cabeça e calço as luvas.
— Ei, qual é a do Jason, se ele continuar com o que está fazendo, Jake não vai gostar nada.
— O que ele está fazendo? – Encaixo minhas coisas no porta-malas e me sento, agradecida por Hazel ter conseguido fugir do outro carro pra ficar comigo.
Ela era exoticamente linda, com longos cabelos castanho-escuros, pele morena e olhos cor de mel. Seu nariz era perfeitamente pequeno, não era redondo nem pontudo demais, e a pele a fazia parecer recém-saída de um comercial da Neutrogena.
Hazel sempre a foi mais compreensiva, tanto pra mim quanto pra todos os outros. Mas fiquei apreensiva porque todos sabíamos como Jake era comigo, se algum garoto tivesse a audácia de falar comigo sem a intenção de amizade ou se não era do grupo, nunca acabava bem.
— É, ele fica olhando pra você toda hora, é tão estranho, e ontem...
— Eu nunca trairia o Jake.
— Eu sei! Claro que não faria isso.
— Ouvi um barulho e fui ver o que era – Explico pela milésima vez, mas coloco um complemento – Acabou que era ele conversando com alguém, tropecei numa raiz de árvore com o susto e caí. Juro que foi só isso.
— Eu acredito em você, só toma cuidado, Ally, sei de muita gente que só está esperando a oportunidade certa pra te sabotar.
— É, tô sabendo – Por mais que eu anseie e comece achar que as coisas estão finalmente mudando, alguém me lembra aquilo que eu me tornei, Allyson Hale. Meu nome passou a ser uma marca registrada, impossível mudar. Eu sempre vou ser essa menina, a megera soberana, a vadia master, a capitã do time, a namorada de Jake Miller. Eu só queria que todos esses estigmas parassem, que eu voltasse a ser somente Ally – Hazel?
— Oi linda.
— Acha que é possível... mudar?
— O que você quer dizer? – O ônibus começa a andar e observo a massa cinzenta no céu, uma tempestade vindo do leste. Não deixo de pensar que a tempestade já chegou pra mim, vinda de todos os cantos.
— Mudar a forma como eu sou vista, sabe, acabar com toda essa besteira, será que consigo?
— Ally, sei que você não é o que mostra no colégio, mas você mesma vive nos dizendo: Predador ou presa. Não acho que acabar com isso vá resolver, nós somos predadoras, nada vai mudar esse fato, se você não estiver no controle, outra pessoa vai estar, e com certeza ela não vai estar fingindo.
— Tem razão, eu só não queria que vissem desse jeito.
— Todo mundo sabe que você é uma ótima pessoa.
— Tá, mas eu só falo dessas coisas com você.
— Dá pra ver nos seus olhos – Hazel sorri e pouso a cabeça em seu ombro, pegando no sono algum tempo depois.
//
— Mãe, cheguei! – Aviso assim que abro a porta. Ela surge do escritório com o óculos torto no rosto e olheiras enormes – Você dormiu?
— Fiquei corrigindo uns trabalhos a noite toda.
— Certeza que é isso? Porque eu juro que tô bem, não aconteceu nada.
— Certeza – Ela sorri, mas parece cansada, muito cansada – Você se divertiu?
— Foi legal, mas agora tenho um relatório enorme pra entregar.
— Se precisar de ajuda é só me chamar – Mamãe coloca a mão no meu ombro mas percebo que ela precisa mesmo dormir, então sorrio e dispenso sua ajuda.
Ela é professora de história na faculdade estadual perto do nosso condado, ama o trabalho, mas às vezes parece que ama demais porque vira a noite fazendo pesquisas, e agora essa história de aparentemente eu não ser humana está acabando com o resto de energia que sobrava dela, e eu não estava gostando nada disso. Meu pai é geneticista, então não sei como os dois dão certo já que ela é super "humanas" e ele contrapõe qualquer argumento com "Genes especializados, mutações e aprimoramento do genoma humano".
Subo para o meu quarto e abro a porta exausta, pronta pra colocar o ipod no máximo e começar o trabalho, em pleno domingo.
— E aí – Ouço uma voz e automaticamente me viro pegando alguma coisa pesada pra usar como arma.
— Ai meu Deus! – Mas é só o Jason, então o anjinho de pedra que Jake me deu cai no chão e eu rio com a piada do que aquilo pode significar agora – Tem que parar de entrar no meu quarto desse jeito, já está ficando sem graça.
— Você me pareceu bem assustada.
— Só... usa a porta da próxima vez – Pego a escultura do chão e devolvo pra escrivaninha – Tá fazendo o que?
— Vim ver como você estava – Jason se levanta da poltrona ao lado da minha cama e caminha a passos firmes, como se nada pudesse detê-lo, e tinha razão.
—E essa fascinação pelo meu quarto? — Coloco a mão no peito, ainda tentando controlar a respiração.
— Gosto da decoração, mas me responde uma coisa, porque cola páginas de livros na sua parede? Isso não é meio psicótico?
— Gosto da sensação de ler de novo algo que eu gostei, então colo as partes que fizeram eu me sentir bem, é bom relembrar coisas boas então...
— É uma ideia incrível, acho até que vou fazer isso na minha casa.
— Nossa, achei que morasse no céu – Jason me olha como se eu fosse louca e eu suspiro sorrindo, esse cara não entende uma piada – É brincadeira. É sério ou tá zoando com a minha cara? Meus amigos acham uma bobagem.
— Seus amigos é que são uns bobos – Concordo e tiro a touca, guardando na gaveta – Se forem considerados seus amigos de verdade.
— É claro que eles são.
— Por conveniência.
—Pode ser que eles pareçam isso e tal, eu também achava, mas a Hazel e a Clove, por baixo de toda aquela coisa de...
— Vadia – Ele completa pra mim e eu rio balançando a cabeça.
— É, elas são pessoas boas.
— E Jake?
— Que que tem o Jake?
— Ele é um bom namorado?
— Sim, ele é ótimo. Pra que o interrogatório?
— Ok então, Allyson— Ele diz ignorando completamente minha pergunta e eu rio – Me parece que nessa vida você tem duas personalidades, pelo que pude perceber.
— Nessa vida?
— Isso, então, tente demonstrar apenas a Ally que cola páginas de livros na parede, aposto que todo mundo gostaria mais dessa – Jason sorri e vai em direção a janela, pulando logo em seguida.
— Eu disse pra usar a porta! – Grito mesmo sabendo que ele não pode mais me ouvir, e reparo em uma flor branca em cima da minha cama. Só me faltava essa.
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