Flor da meia-noite

25 O amor é a chave, ou seria o sangue?


Notas iniciais
OPAAAA, TUDO BOM? Gentneey, tô com saudade disso aqui, mas vem cá, estão bem mesmo? Espero que sim, porque eu estou RADIANTE. Caso estejam se perguntando se eu morri, acreditem, Deus tem misericórdia dos seus filhos. Haha. Morri não, eu nunca morreria sem terminar isso aqui, mas vamos lá. Essa semana passada foi meu aniversáriooooo, 19 anos com uma puta cara de 15 mas ok, ainda podem me dar os parabéns, eu deixo. Ah, e fiz outra tatuagem também, tô very very happy, fiz duas tartarugas nadando porque é minha área, então aaaaain ♥ Enfim, chega de fofocar, depois volto com mais notícias, não saem daí. Tô com saudade dos comentários de vocês, então voltem, obg dnd. Sobre a fic, eu tava pensando em terminar ela logo, mas depois lembrei que quando escrevi há um booom tempo atrás e exclui tinha mais coisa, então sou bipolar e muita água ainda vai rolar por baixo dessa ponte. Acho que é isso, se corram lendo cada palavra, a tia ama vocês, xoxo.

—Preciso que você acorde.

Os gemidos audíveis ecoavam pelo corredor. Gemidos de dor, de arrependimento, de medo. Meu coração está acelerado, e ainda penso no que acabei de presenciar. O horror de seus olhos dourados me encarando com tal ferocidade que me deixou apavorada, as presas saindo de sua boca, brilhando contra a luz forte. Bruxas se revelando. Mortos voltando a vida. O sangue nas minhas mãos. O que foi que eu fiz?

—Jamais esqueça quem você é — Sussurro ajoelhada no chão.

—Allyson, corre! — Alguém grita, o som é distante e não ouso me levantar. Não consigo parar de encarar o sangue em minhas mãos, e o corpo inerte de Jason no chão. Tudo de novo não — O que você ainda tá fazendo aí? Corre! — Sou arrastada pra fora da sala.

—A gente fez um acordo!

—Os Arcanjos não estão aqui — David. É o David.

—Eles têm que estar — Consigo me soltar e me ajoelho novamente — Me perdoa, volta pra mim. Jason, volta pra mim.

—Eles estão chegando. Corre!

—Arcanjos?

—Não, Allyson, os caídos estão vindo te pegar!

—--//---

Dias antes.

—Você sabia o tempo todo, salvou a vida da Adina — Sussurro pra Kaleesa enquanto esquento minhas mãos, as envolvendo na caneca de chá — Você sabia que tudo isso ia acontecer.

—Eu tive uma visão, e ainda tenho fé no mundo, no nosso mundo.

—Você coloca toda a sua fé em alguém que não tem a menor ideia do que está acontecendo.

—Minha fé nunca erra.

—Adam acha que vou ganhar essa guerra, mas nem sei contra que estou lutando.

—Muita gente te quer morta.

—Novidade — Deixo o sarcasmo bem evidente na minha voz e coloco minha caneca na mesa de cabeceira ao lado da minha cama lamentando de dor de cabeça — Porque?

—Você é uma fagulha de esperança. Uma ordem social foi formada há muito tempo, os anjos caídos encheram a Terra de escuridão e medo, saqueavam cidades e faziam mulheres de escravas, você já sabe a história toda. Mas teve uma época em que os nephilins se rebelaram, isso saiu completamente do controle dos Arcanjos, e eles não ficaram nada felizes com a tentativa de derrubar toda uma ordem, mesmo que isso significasse o fim da escuridão, também significaria o fim dos nephilins, o fim de uma raça que os intrigava por também nascer da luz. Sem caídos, sem novos nascimentos, e o fim de uma história longa.

—Mas porque eles precisavam dos nephlins? Porque não deixar a coisa rolar e a Terra ser limpa novamente.

—Você realmente não sabe o poder do sangue de um nephilim puro? — Kaleesa indaga, olhando pra mim com seriedade — Você não sabe de nada?

—Ninguém nunca quis me contar.

—Diziam que o sangue dos nephilins tinham capacidades mágicas para os caídos, quanto mais puro melhor, sangue de nephilim que nasceu de um caído original era o mais poderoso deles. Havia um anjo caído, que todos acreditavam ser o primeiro deles.

—Lúcifer? — Franzo as sobrancelhas, pelo menos era que a bíblia falava, mas já era pra eu ter aprendido a não confiar em livros de história

—Não, Lúcifer caiu junto com outros oito. O nome de um deles era Darko, ele não queria seguir Lúcifer, então se instalou sozinho na Terra, por muitos anos conseguiu construir um exército, até descobrir sobre o sangue, e ter uma filha com uma humana. Ela era mais esperta que as outras mulheres, tinha sangue de bruxa correndo nas veias, pouco, mas tinha. Havia uma espada que Darko gostava bastante, era feita de um aço que ele encontrou em um pequeno vilarejo chamado Riverland, até então pouco conhecido e descuidado, mas cheio de magia escondida, ele ficou encantando e mandou forjar. Assim que Darko se descuidou, a mulher enfiou nas cicatrizes dele sua própria espada. Até então era impossível matar um caído, mas ela havia conseguido matar o pior deles, estava machucada, fraca, com fome e sede, mas conseguiu chegar até Riverland, e descobriu que estava grávida.

—Quando começam a falar de uma garota, eu aprendi a começar a desconfiar que...

—Sim, era você.

—Isso tá me dando uma dor de cabeça de infernal — Pouso os dedos sobre as têmporas e começo a massagear.

—A garota era linda, de olhos azuis e cabelos vermelhos, a mãe não conseguiu sobreviver ao parto, mas escreveu uma carta contando tudo que havia acontecido. A garota tinha o sangue de um original no sangue, era a mais pura de todas, e precisava de toda a proteção possível. Os religiosos de Riverland a pegaram pra criar, e ensinaram histórias sobre a escuridão. Construíram uma fortaleza e a ensinaram a lutar, ser uma governante gentil e forte, lhe deram o nome de Adina, ela cresceu junto com Riverland, que virou uma cidade maravilhosa, e um refúgio para nephilins de todos os lugares. Ela era tão preciosa que um ajo foi mandado pra vigia-la, mas eles acabaram se apaixonando.

—É uma pena que eu odeie ele agora então, Jason é um caído, tenho nojo de caídos, e vou matá-lo.

—Esse não é foco, Allyson. Voltando, ela era a filha de uma profecia escrita a muito tempo, que dizia que ela daria glória à sua raça, e os libertaria da prisão que seu próprio corpo lhes proporcionava.

—Mas ela não era a filha da profecia, porque morreu em batalha — Adivinho.

—A garota não, a alma dela sim. Por isso precisei protege-la até o dia de hoje, quando a verdadeira garota estivesse pronta, assim que fizesse dezoito.

—E qual é o problema todo dessa história? Darko morreu, Adina morreu, Riverland não existe mais pra conseguir aço. O que tudo isso leva a guerra hoje?

—Não ouviu uma palavra do que eu disse? — Ela puxa meu braço e coloca a mão na dobra do cotovelo — É o seu sangue, a guerra corre nas suas veias. Darko está voltando, assim como Adina voltou.

—Precisamos de um plano.

—Eu tenho um, mas você precisa prometer que vai fazer exatamente o que eu disser.

—Ok.

—--//---

Dia da formatura, horas antes do ocorrido.

—Mãe, anda logo! Vamos nos atrasar! — Grito do andar de baixo enquanto meu pai não para de tirar fotos.

—Estou pronta — Ela surge na escada e quase chora ao me ver, de novo — Nem acredito que já está formando, nem acredito que vai ficar pertinho de mim todos os dias na Ballard.

—Não me faça passar vergonha mãe, por favor.

—Peter vai estar lá? — Ela pergunta.

—Vai encontrar vocês assim que chegarmos, por isso precisamos ir — Sorrio a apressando novamente.

—Ok, digam xis — Papai posiciona a câmera em cima de um tripé e corre pra nos abraçar.

—Xis!

Na cerimônia de formatura, Clove se senta três fileiras à minha frente. Ao passar por mim, ela estende a mão para segurar a minha, dois apertos longos, dois curtos, e quando se senta, inclina a cabeça para trás para que eu veja que ela escreveu com um marcador no topo do capelo: "GRAÇAS A DEUS!" Reprimo uma risada, e ela se vira e simula uma expressão de austeridade.

Todas nós estamos bobas, e eu nunca me senti tão próxima das meninas de Lincoln High quanto hoje, todas suando sob o sol, que brilha acima de nós como um sorriso exagerado, mesmo enquanto está quase chegando a noite, enquanto nos abanamos com os folhetos da cerimônia, tentando não bocejar ou revirar os olhos enquanto o diretor Hacket discursa sobre “a vida adulta” e “nossa entrada na ordem da comunidade”, cutucando-nos umas às outras e puxando as golas de nossas becas incômodas para permitir que um pouco de ar desça por nosso pescoço.

Familiares estão sentados em cadeiras de plástico dobráveis brancas, sob uma lona creme com bandeiras tremulantes: a bandeira da escola, a da cidade, a do estado e a nacional. Eles aplaudem educadamente cada aluna que sobe ao palco para receber seu diploma. Em minha vez, olho pela plateia, à procura de minha mãe, meu pai e Peter. Não consigo não fazer uma reverência em cima do palco pra todo mundo. Acabou bitches.

Jason está lá, eu ainda nem acredito que ele decidiu se formar, que ele decidiu vir aqui, onde prometi matá-lo. Ele só podia estar tramando alguma coisa, e como eu sempre, eu iria acabar com seus planos. David estava lá também, e meu estômago deu um salto quando o vi.

Depois, fazemos uma fila para tirar fotos individuais com o diploma. Contrataram um fotógrafo oficial, e um fundo azul foi armado no meio do campo de futebol, onde todas nós posamos. Mas estamos animadas demais para ficar sérias para as fotos. Todo mundo está se curvando de tanto rir, então tudo o que se pode ver nas fotografias é o topo de nossas cabeças. Quando chega minha vez de tirar a foto, Clove, no último segundo, pula e coloca o braço em volta de meus ombros, e o fotógrafo fica tão espantado que aperta o botão assim mesmo. Click! Lá estamos nós: estou virada para Clove, com a boca aberta, surpresa, quase rindo. Ela está bem mais baixa que eu, tem os olhos fechados e a boca aberta. Realmente acredito que havia algo especial naquele dia, algo dourado e talvez até mágico, porque, apesar de passar por outra intervenção, eu estava feliz, o efeito Allyson antiga ainda estava lá e me permiti me divertir um pouco.

Estava anoitecendo, eu sabia o que estava por vir. Encontro o olhar de minha mãe, e meu estômago se embrulha de um jeito estranho, e percebo que ela, assim como os outros, está nos dando este momento, nosso último momento juntas, antes que as coisas mudem para sempre. E as coisas vão mudar, elas já estão mudando, mesmo neste segundo. Conforme o grupo vai se desfazendo em aglomerados de alunas, e os aglomerados se desfazem em indivíduos, eu começo a pensar em elaborar o plano original.

Muitas coisas, mesmo os maiores movimentos na Terra, começam com algo pequeno. O terremoto que destrói uma cidade pode ter início com um tremor, uma trepidação, um suspiro. A música começa com uma vibração. A enchente que alagou Portland há vinte anos, após quase dois meses de chuva ininterrupta, que tomou os laboratórios e danificou mais de mil casas, arrastou pneus, sacos de lixo e sapatos velhos e fedidos, fazendo-os boiar pelas ruas como prêmios, e que deixou para trás uma fina camada de lodo verde e um fedor de podridão e decadência que durou meses, começou com uma gota de água mais fina que um dedo, lambendo as docas. E dizem que Deus criou todo o universo a partir de um átomo do tamanho de um pensamento.

Essa noite começou com um único movimento de braços, eu sabia disso.

Disse aos meus pais que precisava fazer uma coisa dentro da escola e que eles poderiam ir pra casa, implorei para que eles fossem pra casa. Kaleesa disse que eles estavam chegando, e eu tinha que estar preparada.

—Tudo pronto? — Adam pergunta quando o encontro no vestiário feminino. Tiro minha beca e jogo nele, ficando apenas com o vestido vermelho e curto — Parece que sim. Aqui, pode me agradecer depois — Ele pega uma espada de cima do banco e a coloca em minhas mãos — É aço de Riverland, foi difícil conseguir, mas isso aí vai matá-lo.

—Tudo bem, valeu.

—Cuidado, Allyson — Zack diz de braços cruzados.

—Não seja molenga, eu sempre tenho.

—Arrasa garota — Eve pega minha mão — Vamos acabar com todos esses caídos um dia, mas começaremos pelo pior deles hoje.

—Ache os Arcanjos, mate Jason Benacci.

—Isso, boa sorte.

—Não preciso de sorte.

—Essa é a minha Allyson — Adam sorri — Agora não me decepcione.

—Espero que não.

—Eu não queria que matasse ele agora, precisamos esperar, mas já tá na hora de tomar suas próprias decisões.

Balanço a cabeça e começo a andar, mas algo me diz que preciso aguçar a audição.

—Acha que ele vai acorda-la? — Eve questiona.

—Claro que não, ela passou por uma intensificação hoje, se ela acordar, toda a minha glória estará perdida.

Coloco a espada nas costas e ando pelo corredor escuro. Ainda ouço gritos de animação lá fora, que logo se tornariam gritos de agonia e medo. Eu, a contrário deles, sabia o que estava por vir, e precisava estar pronta.

Mas mesmo assim, meu coração não volta ao ritmo normal. Sei que estou em um vídeo game gigante, onde o único objetivo é matar os inimigos e salvar toda uma raça. Mas ainda assim, tenho a sensação de estar tentando resolver uma equação muito complicada: "Uma garota está tentando caçar um caído ao mesmo tempo que precisa impedir que quarenta grupos com mais ou menos quinze caídos famintos, espalhados por um raio de 5 quilômetros invadam a cerimônia para catar nephilins. Se ela precisa ser rápida o bastante para as duas tarefas, qual a probabilidade de estar morta pela manhã? Por favor, sinta-se a vontade para arredondar pi para 3,14"

Fico atenta quando ouço sussurros vindo de uma sala no fim do corredor.

—Allyson Blake, sei que é capaz de me ouvir, venha me buscar.

—Quem é?

—Alguém que acabou de voltar do inferno.

Saco minha espada e a posiciono diante do corpo, andando devagar e esperando qualquer ataque repentino. Há uma fresta de luz passando passando por debaixo da porta fechada. A abro devagar e me deparo com a lousa, com uma frase escrita:

"Surpresa! Bem-vinda ao nível 3"

—Mas que palhaça...

—Sentiu saudade? — A voz atrás de mim era inconfundível, assim como a pele morena perfeita e os cabelos ondulados caindo nos ombros. Hazel parecia ainda mais bonita do que da última vez que a vi.

—Caramba, ninguém fica realmente morto nessa cidade?

—Alguém gosta muito de mim la em cima — Ela diz se aproximando — E esse alguém precisa muito de você aqui em baixo.

—Posso te matar de novo — Corro em sua direção, mas uma luz branca e forte emana dela e caio pra trás. O sangue escorre pelo meu rosto quando percebo que bati a cabeça na quina de uma mesa.

—Ah, esqueci de contar que recuperei meus dons? Não pode matar sua anjo de luz.

—É impossível.

—Engraçado que enquanto eu estava eu estava agonizando de dor naquela maldita cadeira, pensando em como você virou meu próprio namorado contra mim, eu só conseguia imaginar sua morte, de todas as maneiras possíveis, e pela primeira vez não me senti mal por isso. Você pode se livrar dessa prisão, mas é covarde demais pra lutar, então a culpa é sua.

—Eu não sou covarde! — Forço meus joelhos a saírem do chão, mas eles não me obedecem. Por um momento minha visão embaça e minha mente trava, em um milhão de pedacinhos — Hazel, me perdoa, eu não quero... — Consigo dizer antes de voltar pra total escuridão. Escuridão? Eu estou ótima — Tolice!

—Ally, tem gente que precisa de você.

—Informação irrelevante.

—Socorro! — Ouço um grito, e nós duas nos viramos na direção do som.

—Eu adoraria ficar mais um pouco pra conversar — Sorrio e pego minha espada — Mas tenho alguns caídos para matar.

—Vamos trabalhar juntas, afinal.

—Eu não... — Paro e penso sobre o que ela diz. O inimigo do meu inimigo é meu amigo, certo? — Vai pelo sul, eles não estão esperando uma resistência, eu pego pelo leste, a Eve está no norte.

—Ótimo, senti falta de um bom cerco.

—E Hazel? — Chamo e ela se vira — Não se acostume, ainda vou te matar depois disso tudo.

—Mal posso esperar.

Hazel corre e eu começo a fazer meu caminho também, mas algo me chama a atenção. Há uma luz azul brilhante vinda da biblioteca, logo sei que é o sinal da Kaleesa e ando devagar até lá.

Jason está lutando pra tentar por um tipo de barreira na porta, isso que está gerando a luz toda vez que ele força a saída. Ele está de costas pra mim, e parece concentrado demais pra conseguir me notar. Sorrio internamente, agradecendo o presente que Kaleesa havia me dado, eu não podia desperdiçar essa chance.

Eu, pelo contrário, consigo entrar, testo e também consigo sair. Deve ser algum tipo de barreira que impeça a passagem de seres que carregam a escuridão consigo. Quando vou entrar novamente, vejo Jake correndo na minha direção, com uma expressão de medo no rosto, ele me puxa para o corredor ainda arfando.

—Não faz isso.

—Me dê apenas um motivo.

—Eu poderia estar cheio de vingança também porque ele roubou você de mim, eu te amava e assim que você achou que eu morri, se apaixonou por outro. Mas você nem era minha pra começar, você sempre foi dele, Allyson, você ama ele, não faz isso.

—Eu não amo ninguém, me solta.

—Adam me transformou em um monstro, e ele vai fazer o mesmo com você.

—De novo essa conversa? — Reviro os olhos — Que monstro Jake?

—Esse aqui — Grito quando quando presas enormes saem de sua boca e seus olhos assumem um tom macabro de dourando. Coloco a mão em sem ombro quando ele tenta se aproximar de mim.

—Mas o que...

—Me prometa que vai ficar dentro do círculo, tá um inferno lá fora — A voz de Jake saiu estranha por causa das presas, e eu continuei me afastando, com medo. Como Adam fez isso com ele? — Eu vou ajudar os outros, mas tem que me prometer que ficará aí dentro e ficará segura.

—Eu vou ficar aqui — Sorrio — Meu alvo está lá dentro, e depois vou terminar o que foi designado pra mim.

—Se você fizer isso já era.

—Eu sei — Ando de costas até passar pela barreira, ele não consegue me seguir.

—Allyson! — Jake grita, o que chama a atenção de Jason.

—Flor? Tá fazendo o que aqui? — Ele pergunta e eu respiro fundo, me viro pra ele e sorrio — Você veio me matar.

—Eu prometi, não foi? Tolo da sua parte aparecer aqui — Abro os braços e inclino a cabeça pro lado.

—Eu precisava te ver.

—Essas são as sua última palavras?

—Não.

—Allyson? — Kaleesa me chama — Tem que ser agora, não temos tempo

—Eu sei — Dou um giro e Jason me acompanha, sempre de frente pra mim, com as mãos pra cima em sinal de rendição.

—Você vai deixar? — Jake pergunta indignado — Ela vai matar ele.

—Ela precisa fazer isso

—Eles estão chegando! — Ouço uma voz.

Jason se vira pra porta pra saber de quem é e então aproveito a deixa pra enfiar a espada em suas costas. Sorrio quando ele cai de joelhos e ando pra ficar na sua frente e encarar seus olhos, com aquela expressão assustada e desacreditada.

—Missão cumprida — Me sinto em paz comigo mesma enquanto observo ele entrar em desespero, agonizando com a espada atravessada em seu peito — Posso imaginar a sua dor, seu tórax queimando, gritando por um pouco de ar — David entra na biblioteca e começa a me puxar pelo braço, mas quero ficar, quero ver quando ele fechar os olhos e se for pra sempre, quero me certificar dessa vez — Você não parece tão invencível assim nessa posição, vulnerável. Mas me diga, Jason, quais são as suas últimas palavras afinal?

—Eu... — Ele fecha os olhos com força e depois torna a abri-los — Eu te amo, e eu... te perdoo — Ele diz antes de cair pra frente.

É aí que tudo desmorona. Caio de joelhos sentindo as bordas da minha visão ficarem escuras. Estou perdendo o controle sobre meu corpo e coloco as palmas das mãos estiradas no chão. Minha mente fica anuviada e eu percebo tudo o meu redor. É isso, o amor é a chave de tudo. Começo a sorrir por sair daquele aperto. Até olhar pra baixo e o desespero tomar conta de tudo dentro de mim.

—Não! Por favor, não!

Me arrasto pelo chão e coloco sua cabeça em meu colo e choro desesperadamente. Jamais me esquecer de quem eu era, foi a única coisa que me pediu pra fazer e eu o desapontei. Seu corpo continuava sem vida, e esse não foi o acordo que eu fi, não foi.

—Preciso que você acorde.

Os gemidos audíveis ecoavam pelo corredor. Gemidos de dor, de arrependimento, de medo.

Meu coração está acelerado, e ainda penso no que presenciei alguns minutos antes. O horror de seus olhos dourados me encarando com tal ferocidade que me deixou apavorada, as presas saindo de sua boca, brilhando contra a luz forte. Bruxas se revelando. Mortos voltando a vida. O sangue nas minhas mãos. O que foi que eu fiz?

—Jamais esqueça quem você é — Sussurro ajoelhada no chão.

—Allyson, corre! — Alguém grita, o som é distante e não ouso me levantar. Não consigo parar de encarar o sangue em minhas mãos, e o corpo inerte de Jason no chão. Tudo de novo não — O que você ainda tá fazendo aí? Corre! — Sou arrastada pra fora da sala.

—A gente fez um acordo!

—Os Arcanjos não estão aqui — David. É o David.

—Eles têm que estar — Consigo me soltar e me ajoelho novamente — Me perdoa, volta pra mim. Jason, volta pra mim.

—Eles estão chegando. Corre!

—Arcanjos?

—Não, Allyson, os caídos estão vindo te pegar!

—É tarde demais — Kaleesa diz quando Kyla aparece do seu lado — Eles já estão aqui, estão te caçando, é como eu disse, você é um farol agora.

—Então o que vamos fazer?

—Fique dentro da barreira.

—Não posso ficar aqui pra sempre.

—Eu fico aqui com você o tempo que precisar — David me abraça de lado e pela primeira vez em muito tempo eu o vejo de verdade. Ah David!

—Meus pais? Peter?

—Fiz um feitiço na casa deles essa tarde antes de vocês saírem — Kaleesa diz convicta e faço que sim com a cabeça. Quando tudo começou a sair do controle desse jeito?

—Chame Zack aqui — Continuo acariciando o cabelo de Jason — Preciso desfazer toda a merda que eu fiz, e não conte ao Adam que eu voltei, ainda posso ganhar esse jogo.

Alguns minutos depois Hazel chegou, ela correu pra me abraçar, e lentamente o horror tomou conta de seu rosto quando viu o corpo de Jason, sem vida, largado no meu colo. Agora, olhando todos os que estavam ali por mim, pra me ajudar, percebo que temos sim uma chance, se fizermos tudo certo dessa vez.

Jake estava com as mãos espalmadas na barreira, era invisível, mas onde ele tocava ficava aul, ele olhava pra mim em uma súplica silenciosa. Kyla estava com um sorriso mínimo reprimido, sabe quando você tá com raiva de alguém e aí essa pessoa te faz rir, mas você não pode perder a pose? Era exatamente isso. Ela sabia que tragédias tinham acontecido, mas no fundo estava feliz por termos uma chance. Eu quase nunca a vi falar, mas aquele gesto significou mais que mil palavras. Kaleesa me olhava com orgulho, mesmo que não admitisse, ela tinha que manter aquele olhar de "Eu sou a pessoa mais responsável e sábia daqui, não posso me misturar com essa gentalha". Hazel tinha olhar sanguinário e naquele momento eu soube que podia contar com ela pra todos os trabalhos sujos, não porque ela era minha anjo de luz, mas porque ela sentia o mesmo que eu, e eu a amava por isso. David estava ao meu lado também, como prometeu que faria pra sempre, ele me encara com tanta intensidade que quase me desfiz no chão. Zack chegou e eu iria consertar tudo que Adam me obrigou a fazer, ele iria me pagar por tudo.

Hazel fungou tirou a espada das costas do meu amor. Eu tinha a equipe perfeita pra me vingar, e dessa vez o plano iria funcionar, zero falhas. Aprendi a como agir com uma assassina. Aprendi a ser fria e iria usar isso ao meu favor.

Uma lâmina afiada de tristeza me atravessa, profunda e rapidamente. Acho que isso ia acabar acontecendo, mais cedo ou mais tarde. Eu sempre soube que aconteceria. Todo mundo em quem confiamos, todos aqueles com os quais pensamos que podemos contar, com o tempo acabam nos decepcionando. Quando se veem livres para fazer o que querem, as pessoas mentem, guardam segredos, mudam, desaparecem, algumas atrás de um rosto ou uma personalidade diferente, outras atrás de uma densa névoa matutina junto a um penhasco.

Uma lágrima minha cai em seu rosto já frio. E então...

—Oi Flor.

Notas finais
E aí? Digam alguma coisa little liars