Flor da meia-noite
2 II - Adina Hale?
Notas iniciais

— Ei Adam, quer uma corona? – Levanto os ósculos escuros quando avisto a figura do meu vizinho de porta caminhar até o ponto de ônibus. Ele se vira pra mim e finge surpresa.
— Allyson Hale quer me dar uma carona!
— Para de ser idiota e entra logo no carro – Sorrio e ele bufa.
— Vai me deixar na esquina pra ninguém te ver comigo?
— Sabe que não é assim, poxa.
— Eu gostava mais de você no fundamental.
— Entra, Adam – Reviro os olhos e ele desiste, tira os fones e abre a porta do conversível – É isso aí – Sorrio e ele liga o rádio na estação da cidade – Você não entende, não é?
— O que eu não entendo?
— Posso te colocar no topo também.
— Eu não quero o topo, Ally, quero andar de bicicleta com você sem que se preocupe com a sua unha, isso que você não entende.
— E de novo, não dá pra conversar com você.
— É, não dá mesmo.
Olho pros cabelos loiros do Adam ao meu lado e sorrio. Esse cara que costumava ser meu melhor amigo da rua andava estressado e sensível, sem me dar nenhuma chance de redenção. Eu não sabia mais o que fazer pra recupera-lo sem manchar meu histórico.
— Você vai assistir ao jogo de lacrosse?
— Bom, o Jake vai jogar, então...
— Claro, o Jake. Eu te vejo lá então?
— Sim! Vou torcer por você.
— Ally...
— O que?
— Me desculpe por não ter ido a sua festa de aniversário.
— Tá tudo bem, mesmo.
— Agora que você tem dezoito, tá sentindo alguma coisa estranha?
— Estranha como?
— Sei lá, só estranha.
— Sim, pra falar a verdade tem uma coisa muito estranha... – Ele me encara e eu rio – Ah, é você, você tá muito estranho.
— Ah, qual é – Adam sorri e eu junto as sobrancelhas. O que estaria acontecendo comigo que Adam poderia saber e ajudar? Eu poderia contar da sombra da janela e do vulto em meu quarto? — Quais são os planos pra tarde?
— Tenho treino, depois vou ao shopping com as meninas, organizar a festa anual da Lissa do mês que vem e aí vou pro jogo.
— Quer comer uma pizza depois?
— Pizza engorda.
— O que? Na oitava série você comia um monte de hambúrgueres.
— Na oitava série me chamavam de Ally balão. Tenho que manter a forma pro estadual.
— Que droga, Allyson.
— Se em três anos você não se acostumou, não sei mais o que faço contigo.
— Me mate! — Ele joga a cabeça pra trás e eu rio aumentando o som do carro.
//
— Foi um ótimo treino, meninas, de verdade. Hale! Mandou bem – Sorrio e guardo minhas coisas na bolsa pra colocar no armário. Tiro os esparadrapos dos dedos e bebo quase toda a água da minha garrafa.
— Valeu Ally – Kate toca meu ombro e segue com as meninas pro banho.
— Foi ótima hoje, Allyson
— Obrigada Hann – Pisco.
— É isso aí, mandou bem, piranha — Anjel sorri.
É aí que sinto, aquela sensação estranha de novo. Me viro para as arquibancadas e o noto. Jason. Ele está sentado no banco mais alto e levanta o polegar pra mim, depois sorri e percebo suas covinhas. Quem esse cara é?
— Ouvi dizer que a Senhora Johanson vai trocar ela de posição – Escuto e me viro na direção do som, mas as duas meninas que conversam estão quase n porta do vestiário, eu não conseguiria ouvi-las daqui nunca. Balanço a cabeça e pego o pano branco, passando na nuca.
— Cadê minha jogadora favorita? – Jake pergunta e eu sorrio, correndo pra pular em seus braços e o beijar.
— Você tá suado – Faço uma careta e ele ri.
— Você também, estamos quites – Jake esconde uma mecha rebelde que insiste em sair do meu rabo de cavalo atrás da orelha – Mas não deixa de ficar linda.
— Acho que você precisa parar de me mimar assim – Me afasto de seu corpo e observo seu bíceps por baixo da camiseta de treino do time, que está molhada de suor – Te espero na minha casa às três.
— Não ia sair com a Clove?
— Posso comprar roupa amanhã.
— Adorei a ideia. Ei, eu vou pro banho, a gente se vê.
— Tudo bem, te amo – Mordo o lábio inferior como uma garotinha de quinze anos.
— Também te amo, Ally – Jake me beija e eu fico um tempo parada observando ele ir embora, até que me toco e corro pro vestiário.
— Vamos lá suas vadias fedidas, sem moleza, quero todo o equipamento guardado em vinte minutos! — Grito e sorrimos derrotadas depois de um treino cansativo.
//
Há uns duzentos anos atrás, Benjamin Franklin compartilhou o segredo de seu sucesso com o mundo. Ele disse “nunca deixe para amanhã o que você pode fazer hoje”. Esse é o cara que descobriu a eletricidade. Então é normal achar que a maioria de nós iria ouvir o que ele fala… Eu não tenho ideia porque a gente fica adiando as coisas, mas se eu tivesse que chutar, diria que tem muito a ver com o medo. Medo do fracasso. Medo da dor. Medo da rejeição. Às vezes, o medo é de apenas tomar uma decisão, porque e se você estiver errado? E se você fizer um erro que não dá pra desfazer? Seja lá do que a gente tem medo, uma coisa é sempre verdade: com o tempo, a dor de não ter tomado uma atitude fica pior do que o medo de agir. Acaba parecendo que a gente está carregando um tumor gigante. E, não, eu não estou falando metaforicamente.
Ficar na cama com o Jake depois de uma tarde de sacanagem parecia a melhor coisa a se fazer pra Ally da semana passada. Mas alguma coisa está realmente acontecendo comigo, não no sentido figurado, eu sinto meu corpo diferente, melhor.
Até meus pensamentos me levarem para os olhos escuros de Jason. A forma como ele parecia me encarar em todos os momentos que eu me pegava olhando pra ele poderia ser considerado no mínimo estranho, pra não dizer pior.
— Você tá muito distraída – Jake diz enrolando um fio de meu cabelo em seu dedo.
— Ah, são as provas, elas me deixam tensa.
— Mas você nunca fica tensa com as provas, e mesmo assim sempre garante nota.
— Talvez você não tenha percebido antes – Tento sorrir e pouso a cabeça no seu peito nu – A minha mãe vai chegar daqui a pouco.
— Claro, tô indo.
//
Naquela noite, o campo estava envolto em sombras que faziam lembrar espíritos fugitivos. O ar estava gélido, cortante, e um fino tapete de névoa pairava por cima da grama. Os Tubarões de Lincoln High estavam se preparando para o jogo contra o maior rival das equipes da nossa escola, seria épico, eu sentia isso, só não sabia dizer se era bom ou ruim.
— Acha que eles vão ganhar? – Mamãe pergunta enquanto ajeito minha toca.
— Não sei, hoje o Adam volta pro primeiro time, então temos uma chance.
— E o Jake? — Meu pai pergunta.
— Ele só se preocupa em derrubar os oponentes, jogo que é bom, nada.
— E em arrumar o cabelo, não se esqueça – Ouço a voz da Hazel e ela senta do meu lado esfregando as mãos – Oi Senhor e Senhora Hale, como vão?
— Oi Hazel! Estamos muito bem.
Depois de um tempo o jogo começa. A princípio o técnico deixa o Adam de fora ainda por falta de confiança devido ao machucado que ele teve uns jogos atrás, mas depois de um tempo ele entra e o jogo começa a ficar interessante.
Jake já derrubou três adversários e quando me dou conta, já estou de pé torcendo e batendo palmas. No intervalo eu e Hazel descemos as arquibancadas pra falar com os meninos e dar um pouco de apoio moral.
— E aí, como estou? – Jake pergunta tirando o capacete e dando um jeito no cabelo.
— Você foi ótimo – Sorrio e meu olhar encontra o do Adam, eu aceno mas ele revira os olhos.
— Sério, Ally? O Adam? – Hazel sussurra no meu ouvido e eu dou de ombros.
— Ele é meu amigo.
— Nós somos seus amigos – Zack surge atrás do meu namorado e dá um soco de leve no meu ombro, tento sorrir como sempre mas não dá muito certo.
— Ei, você – Puxo um cara que estava passando por ali quando Jake foi atrás do técnico – Quer ser meu escravo hoje?
— O que eu ganho com isso?
— Você é idiota ou o que? Escravos não ganham nada. Pega um refrigerante pra mim?
— Claro, Allyson, tudo o que você quiser — O menino diz em uma voz de tedio e refaz seu caminho até as barraquinhas. Volto minha atenção ao campo, mas uma voz me tira dos meus devaneios.
— Allyson... – Me viro na direção do som, mas não vejo ninguém – Sei que pode me ouvir.
— Tá ouvindo isso? – Pergunto pra Hazel e ela balança a cabeça, distraída nos braços do Zack.
— Atrás das arquibancadas – A voz de novo. Dou um giro de 360 graus, mas meus olhos não avistam absolutamente ninguém falando comigo – Vamos Adina... – É nessa hora que eu gelo.
Não é segredo pra ninguém que eu sou adotada. Meus pais biológicos me entregaram pra minha família pouco antes de morrerem. Mas era segredo o meu nome de batismo original, antes de virar Allyson Hale, e se alguém sabia dele além dos meus pais na arquibancada, só podia significar problema.
//
— Ouvi alguém chamar meu nome hoje – Comento desenrolando o cachecol assim que chegamos em casa.
— Vi muitas pessoas chamarem seu nome.
— Não, mamãe, meu verdadeiro nome, de batismo.
— O que?
— É sério, eu ouvi, não tô ficando louca – Junto as sobrancelhas ao notar o olhar no rosto dos meus pais.
— Lanna, está na hora – A forma como meu pai pronuncia as palavras fez os pelos da minha nuca ficarem eriçados.
— Ok, ninguém vai mesmo me contar quem chegou?
— Só... vai dormir, Ally, amanhã conversamos sobre isso — Papai coloca a mão me meu ombro e tanta sorrir. Bom, não deu certo.
— Eu quero saber agora, parece que viram um fantasma. Se diz respeito a mim, eu preciso saber.
— Amanhã – Minha mãe insiste e eu bufo subindo as escadas pro meu quarto.
Acho que "Estranho" se tornou a nova palavra favorita do meu dicionário mental, e a mais usada da minha vida.
Mas assim que jogo minha toca longe, em algum canto do quarto escuro, meu olhar se dirige à janela, tem uma sombra ali, e mesmo depois de eu ter visto, ele não se mexe, como se realmente sua intenção fosse ser descoberto. Ligo a luz o mais rápido que posso e reconheço o rosto de Jason antes de ele andar de costas até o cercado de alabastro da minha sacada e pular até o gramado. Eu corro até lá, mas ele já sumiu.
Naquela noite eu estava com dificuldade para dormir, a imagem de um garoto estranho da escola aparecer na minha janela ainda preambulava pelos cantos mais obscuros da minha mente. Eu não conseguia parar de pensar que estava ficando louca, que assisti tanto American Horror Story a ponto de precisar de um psiquiatra.
Embora eu tenha certeza do que vi, parecia bem real, ele tinha forma, respirava, além de ser impossível imaginar ou esquecer olhos tão escuros quanto aqueles que me encaravam. Eu estava obcecada por Jason Benacci?
Assim que consegui dormir, tive um sonho.
Era uma noite chuvosa, eu fazia parte do sonho, mas ninguém era capaz de me ver, estava apenas observando. Avistei quatro pessoas empoleiradas de baixo de um toldo em um beco escuro. Reconheci meus pais na cena, com grossos casacos, eles conversavam com um outro casal. Experimentei chegar mais perto para ouvir a conversa e notei de repente que eu estava completamente ensopada.
— Nos disseram que ela está livre da maldição que a persegue por milhares de anos — Um homem começa, mas seus lábios tremem.
— Por favor, cuidem dela até que seja seguro — A outra mulher choraminga — Adina está livre para amar, para viver, mas seu destino continua perigoso.
— Perigoso como? — Papai pergunta preocupado.
— Consegui fazer um acordo — Um garoto surge das sombras e eu reconheço os olhos, Jason cruza os braços e franze as sobrancelhas — Mas os Arcanjos não são muito receptivos comigo.
— Nem imagino o porquê — O homem loiro resmunga mas Jason ignora.
— Concederam a guarda dela pra mim, e eu a protegerei com a minha vida, mas ela... nasceu diferente dessa vez, uma nephilim, e quando fizer dezoito...
— Tudo vem a tona — Mamãe adivinha balançando a cabeça.
— Os caídos virão atrás dela. Só preciso que cuidem dela até o aniversário, depois é comigo, Adina não vai passar mais uma vida fugindo.
— Nós vamos nos vingar — O homem diz — Ela vai comandar comigo.
— Ela não vai comandar nada.
— Ela é minha filha!
— Adina foi minha antes mesmo de você achar que tem algum direito, ela não vai te conhecer, não vou deixar coloca-la em perigo.
— Não vou coloca-la em perigo, anjo – O modo como a palavra anjo sai de sua boca parece repulsa.
— Nós concordamos — Meu pai interrompe — Vamos cuidar dela.
— Ótimo, aviso quando voltar, não posso me envolver demais nisso de novo. Como vão chama-la nessa vida?
— Allyson, o nome dela será Allyson — Minha mãe diz segurando a mão do meu pai e eu sou puxada pra realidade de novo.
— Ally, escola!
//
— Que sonho estranho, sério, muito estranho – Hazel comenta assim que termino de contar sobre noite passada, menos a parte de Jason supostamente aparecer na minha janela.
— Foi o que eu disse.
— O que é um nephilim? – Clove resmunga digitando algo no celular.
— Eu não faço a menor ideia, e também não quero saber, já foi bizarro o suficiente.
— Ainda acho que deveria pesquisar.
— Ei Allyson, sobre o anuário, o que acha de... – Zoe, a garota do jornal chega atrás de nós com uma caderneta e lápis na mão.
— Zoe, o que acha de terminar o aborto que a sua mãe começou, hein? – Clove se vira irritada e eu coloco as mãos no rosto. A garota de cabelo enrolado atrás de mim fica com um olhar de vergonha e não sabe se corre ou enfrenta.
— Ahn... Eu só queria...
— Eu falo com você depois, ok? – Digo em um tom monótono e depois puxo seu braço pra sussurrar em seu ouvido – Foi mal por isso, eu passo no clube do jornal mais tarde.
— Ok Ally.
— É Allyson pra você – Hazel aponta e Zoe sai de perto da nossa mesa resmungando.
— Eu tenho boca, sabia? Parem de ser tão vadias, ninguém suporta mais.
— Ally tá de tpm, vamos nos afastar ou vão voar batatas fritas por esse refeitório – Lind ri e eu mexo mais uma vez em meu prato intocado.
As imagens da noite passada ainda estavam bem vívidas na minha cabeça, todas as sensações, tudo o que pensei, é como se voltasse a acontecer toda hora e eu estivesse presente, um ciclo vicioso.
Então eu avisto Jason na fila do refeitório, me levanto decidida a encerrar esse assunto e caminho a passos firmes. Não tive nenhuma aula com ele na parte da manhã, então eu teria que confronta-lo agora, não passaria de hoje.
— Ei, você! – Chamo e entro na fila logo atrás dele.
— Ow, Allyson, vai pro final.
— Cala a boca – Digo pro menino e me viro pro Jason de novo – Quem diabos é você? O que estava fazendo no meu quarto ontem a noite? Você que me chamou pelo nome? O que você quer?
— Ok, muitas perguntas — Jason sorri e eu rio sem humor algum.
— Me responda – Toco o dedo no seu peito mas uma dor na minha cabeça me invade assim que faço isso, a cor some do meu rosto e quase caio de cara no chão, mas ele me segura em seus braços.
— Flor, tudo bem?
— O que você... o que você fez? — Consigo perguntar me sentindo fraca e percebo que parte do refeitório olha pra nós, curiosos.
— Eu não fiz nada.
— O que você quer comigo? Como sabe meu nome?
— Vamos com essa fila!
— Eu disse pra calar a boca! – Me irrito e quando volto minha atenção pra frente, Jason não está mais lá, ele se dirige a porta do refeitório, e decidida a não deixa-lo escapar, corro atrás das minhas respostas – Você está me seguindo?
— Claro Allyson, estou te seguindo.
— O que você quer comigo?
— Quero salvar sua vida.
— Espera! – Ele continua andando – O que é um nephilim?
— Que? – Ótimo, consegui chamar sua atenção. Jason para de andar e se vira pra mim de repente, me fazendo dar de cara com seu peito duro e... o que? Foco Ally, foco.
— Eu tive um sonho, você estava nele, dizia que eu era uma nephilim, o que é isso? Porque sonhei isso? O que fazia no meu quarto noite passada? Eu tô ficando louca! Não me reconheço mais, não sei o que está acontecendo, eu só queria... Deus, eu queria entender toda essa merda.
— Ei, fica calma — Jason junta as sobrancelhas e me puxa pra um abraço – Eu ainda vou te explicar, mas pare de fazer perguntas, é perigoso.
— Perigoso pra quem?
— Ninguém gosta de gente que sabe demais.
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