Flor da meia-noite
33 A nova ordem da esperança
Notas iniciais

"Amor, a mais mortal das coisas mortais: mata quando você tem e quando você não tem. Mas não é exatamente assim. O condenador e o condenado. O executor; a lâmina; a prorrogação do último minuto; o suspiro e o céu acima de você, e o obrigada, obrigada, obrigada, Deus. Amor: ele vai matá-lo e salvá-lo, ao mesmo tempo."
Não dormi muito bem aquela noite, na verdade, não dormi nada bem aquela noite. Tive vários sonhos que me fizeram acordar ofegante várias vezes, eles estavam me atormentando há muito tempo e eu não sabia como fazê-los parar. Mas o pior eram as lembranças, as irmãs de Kaleesa repararam minhas memórias perdidas, e com elas vieram todas as outras, de todas as vidas.
Todas as formas das quais eu havia conhecido o Jason me dominavam por completo e eu estava enlouquecendo. Parece que foi ontem quando ele deu em cima de mim em um show, nem tínhamos celulares bons pra trocar mensagens, e ele me chamou pra encontra-lo no parque. Lembro-me de ter ficando encantada, e também me lembro da roupa horrível que usei. Como nós usávamos aquela roupa há alguns anos era um mistério pra mim.
Passei as mãos pelo cabelo e suspirei pela milésima vez. Minha cabeça estava cheia, e não acho que caiba mais alguma informação aqui, mais alguma morte, mais algum...
—Hey, tudo bem? – Jason pergunta abrindo um olho só. Sorrio e ele se senta como eu.
—Desculpe, foi só um pesadelo.
—Tudo bem, não é só você que está sofrendo com isso, mas uma hora vai acabar ok? E então nada mais vai te assombrar porque eu não vou deixar.
—Esse é problema Jason. Não sei se vai acabar, e não importa o que eu faça, sempre vou sentir o sangue em minhas mãos quando for me deitar.
—Vai acabar sim. Tenta dormir um pouco, eu tô aqui.
Ou Jason não sabe de nada, ou ele interpreta muito bem, porque não importa o que eu diga, nada vai mudar a forma como as coisas são.
Sinto-me mal por mentir pra ele de novo, mas acabei de reencontrá-lo, como eu poderia estragar o momento contando tudo o que eu estava planejando fazer? Contar que eu de novo, partiria em uma missão suicida sem ele. Todos estavam confiando em mim, e eu não podia falhar de jeito nenhum.
—Escuta, mesmo que eu encontre outra pessoa, mesmo que você encontre também, é você. Sempre foi você e sempre vai ser você. E eu não sei onde estava com a cabeça quando eu dizia que não era.
—Eu sei, Allyson, eu sei – Jason beija minha testa e volta se deitar. Sorrio quando ele me abraça pela cintura comigo como era acostumado a fazer, como naquela noite em 1994.
Depois de um tempo, me certifico de que ele pegou no sono novamente e me levanto, indo em direção ao guarda-roupa. Deslizo a porta pro lado e tiro a tábua solta do piso do móvel, revelando um punhado de roupas que deixei ali, coisas de Riverland que insisti em guardar.
Peguei a camisa vermelho-escura e quase chorei de alívio quando senti o objeto que ela estava “protegendo”.
A caixa era pequena, mas poderosa, gosto de pensar que ela é como eu. As engrenagens começaram a rodar quando toquei na superfície irregular daquele objeto significante. Rapidamente enrolei na blusa de novo e me levantei.
Eu estava mesmo sequer cogitando essa ideia completamente insana? Aquela caixa valia mais que o Presidente dos Estados Unidos e estava em minhas mãos. Aquela minúscula caixa.
Desci as escadas na ponta dos pés e peguei a chave do meu carro no meio das outras penduradas na parede. Pra minha sorte, meu antigo carro não estava dentro da garagem. O liguei e só acendi os faróis quando estava no fim da rua. Mandei uma mensagem pra pessoa que poderia me ajudar agora sem ficar me julgando. Prometi que nunca mais faria algo sem seu consentimento de novo. Estacionei na Colina da Ballard.
Logo David apareceu na frente dos apartamentos e eu saí do carro, mas antes deixei a caixa em um compartimento escondido dentro do meu porta-luvas. Eu amava o fato de o meu mecânico ser muito bom com cofres.
—O que você veio fazer aqui? – Ele pergunta quando entro em seu quarto.
—Como assim o que eu vim fazer aqui? Disse que precisava de ajuda com uma coisa, e também preciso mostrar outras – Sorri esfregando as mãos e olhando ao redor – Aqui ficou bem legal.
—É.
—Então, eu sei que andei te afastando, mas preciso que me diga...
—Ah, você jura? Primeiro você some pro outro hemisfério do nada, sem me dizer quando voltaria, me deixou apenas uma carta porque era covarde demais pra me dizer. Você nem teve a decência de me entregar pessoalmente pelo menos.
—David, escuta, eu...
—Não, escuta você – Ele sorri e balança a cabeça – Eu passei meses te esperando meses! E quando eu finalmente estava conseguindo recomeçar você surge do nada pra acabar com tudo que eu estava construindo. Pensei em fingir indiferença mas aí esqueci que você sabe que eu te amo. Fui a sua casa e lá estava o Jason, como sempre, e então me pede um tempo de novo, e volta a aparecer na minha porta. Como você quer que eu me sinta?
—Eu preciso de você, sempre precisei – Respondo sussurrando de cabeça baixa, sabendo que ele estava certo.
—Descubra o que você quer, Ally, porque eu cansei de ser o seu estepe – David cruza os braços e franzo as sobrancelhas.
—Caso tenha esquecido, eu não pedi por isso! – Explodo jogando as mãos pra cima, me rendendo – Tudo o que eu fiz foi pra te proteger, e se você não enxerga isso eu sinto muito. Mas muita coisa aconteceu, e no outro segundo eu estava matando meus amigos. Eu fiz coisas terríveis, tive visões terríveis do meu futuro e todos os fardos foram direcionados pra mim, eu não podia fugir mais de quem eu era.
—E aí fugiu de mim?
—Agora é a minha vez de falar – Coloco o dedo indicador em seu peito e sinto a fúria chegar – Eu quase matei o Adam em um piscar de olhos, e quando vi já estava em um avião. Como eu poderia trazer isso pra você? Como eu poderia ficar com você se eu ainda não conseguia controlar isso? Eu nunca me perdoaria se um dia te machucasse, David.
—Você machucou! Não tá vendo isso? Eu suportaria qualquer dor física pra que você confiasse em mim, Ally!
—Me tornei uma arma – Cruzo os braços e respiro fundo – Estava confusa e me tornei perigosa. Todas as decisões que tomei nos últimos seis meses foram pra te proteger da minha nova realidade. Sei que pra você eu estraguei tudo, e posso até ter estragado mesmo, mas eu fiz o melhor que pude. E só pra reforçar, eu não pedi por nada disso.
—Sabe, eu só... – Ele balança a cabeça e se senta – Você me pediu um tempo, aí eu te pedi um espaço também, e você ainda tá aqui, entende? Cada vez que eu me viro, aí está você.
—Você nem quer ver? – David dá de ombros e faço que sim com a cabeça. Vou em direção à porta mas paro na metade do caminho – Por que está fazendo isso?
—Fazendo o que?
—Me fazendo duvidar da única coisa na minha vida que eu tive certeza que foi real.
—Vai saber, não é mesmo, Rainha do baile?
Saio da universidade bufando de raiva, penso até em ligar pra Kaleesa e dizer o que tenho em mãos, mas ela tentaria me impedir e estou tão nervosa que não seria uma conversa amigável.
Olho pra cima como se Deus pudesse me dar uma resposta e bufo de novo, batendo os pés como uma menina mimada.
Um barulho de passos atrai minha atenção e olho ao redor, mas não vejo nada. Preparo minhas mãos para o caso de ser algum caído. Corro pro carro, pelo menos assim protegerei a caixa. Me tranco lá dentro e pego o celular novo do bolso da calça jeans.
Cai na caixa postal.
—Droga Hazel, sei que são quase três horas da manhã, mas eu preciso de ajuda, eles estão chegando, estão vindo atrás de mim, querem a caixa, preciso que você... – Engulo em seco – Não tenho mais pra onde correr, o tempo tá acabando, pegue a caixa e...
O vidro ao meu lado se estilhaça e eu protejo os olhos com o braço, deixando o celular cair perto do acelerador. Alguém me puxa pelo pescoço e sou jogada pra fora do carro. Rezo para que Hazel escute a mensagem o mais rápido possível.
—O mestre quer ver você – Estou no chão e com a respiração ofegante, mas enxergar a figura imensa que se ergue diante dos meus olhos.
—Mande o mestre ir pra puta que...
—Acho que não vai rolar – O homem diz e sinto cheiro de veratrum. Então alguém me agarra por trás e um lenço é colocado no meu nariz. Merda. Apago em segundos por conta da essência da planta.
P.O.V. Jason
Parte do guarda-roupa estava revirado e foi o primeiro indício de que eu deveria me preocupar pela Allyson não estar na cama quando acordei.
Desde quando ela tem um esconderijo no guarda-roupa? E o que pode ser tão importante a ponto de ela precisar fazer isso?
O segundo indício foi quando eu finalmente percebi o quanto ela estava estranha ontem, e o fato de eu não ter dado a menor importância pra esse fato me fez me sentir um nada. Eu devia ter insistido, devia ter ficado acordado até ter certeza de que ela tinha dormido.
Vesti a camisa de manga longa que estava quando chegamos e desci as escadas. Lanna e Miriel estavam sentados na cozinha, ambos tinham canecas nas mãos e Miriel estava atacando sua omelete como se tivesse passado a semana sem comer, e estranhei quando na verdade percebi que ele só andava com aquela roupa preta.
—Alguém viu a Allyson saindo hoje de manhã? Dar uma caminhada, ou sei lá.
—Não, por que? — Lanna pareceu surpresa em me ver, mas ao mesmo tempo feliz, e seu sorriso se tornou complacente, o que me deixou na defensiva.
—Ela não estava na cama quando acordei.
—Ai meu Deus, vocês...
—Não, só dormimos — Respondo um Miriel com expressão safada no rosto.
—Acordei cedo e não a vi saindo.
—O guarda-roupa estava revirado e...
—Revirado? – Miriel larga caneca na mesa e corre pro andar de cima. Ok, acho que agora é uma bora hora de se preocupar.
—Jason? – Lanna respira fundo – Onde está a minha filha? Por Deus, você disse que ia ficar de olho nela e agora ela fugiu de novo?
—Escuta, eu juro que não...
—Gente – Miriel desce de novo e coloca as mãos nos bolsos da calça jeans escura – A caixa sumiu, temos um problema.
P.O.V. Hazel
Os primeiros raios de sol entraram pela minha janela e resmunguei me virando pro lado. E aí sorri quando minha bochecha encostou no ombro nu de Zack, que ao contrário de mim, continua dormindo profundamente.
Me levantei e fui fazer um café enquanto ligava o celular e checava as mensagens perdidas de ontem e hoje: Allyson às... três da manhã? Umas quatro do Jason, uma do David... David? O que diabos ele queria me ligando? Dei de ombros e deixei o aparelho na bancada.
—Minha mãe acha que sou gay – Zack reclama e eu me viro sorrindo – Já que eu vivo dormindo na casa de um colega misterioso.
—Bom, você poderia me apresentar a ela – Me sento ao seu lado e mexo em seu cabelo – E contar que estamos juntos.
O celular toca na bancada e nós dois bufamos ao mesmo tempo e me levanto indo atender a quinta chamada do Jason só naquela manhã.
—Espero que tenha um bom motivo pra estar me ligando a essa hora.
—A Allyson sumiu, de novo.
—Zack, tranca quando sair.
Quando cheguei a casa dos Hale, estavam todos lá, menos os Hale, e muito menos a mais importante deles. Jason andava de um lado pro outro, Miriel conversava algo com Kaleesa bem baixinho, Kyla, mesmo tensa, escutava atentamente os dois, e David parecia prestes a abrir um buraco no chão só com o olhar.
A mensagem da Ally me deixou intrigada, parecia apavorada, ela não se comportava assim há um bom tempo, tinha aprendido muita coisa em Riverland. Me senti culpada por ter desligado o celular pra me envolver nos braços de alguém. Foi uma estupidez levando em consideração o que estávamos passando. Zack fazia eu me sentir humana e isso não faz bem pra mim. Não posso me distrair agora. Não podemos nos distrair. O quanto Zack me faz fraca? Quase morri por causa disso uma vez, não posso deixar a Allyson morrer por causa disso.
—Ótimo, você chegou – Jason me nota e, consequentemente, os outros também – Martim e Lanna saíram pra um exame, então vamos resolver isso porque não quero levar outra bronca.
—Ela me deixou uma mensagem ontem – Recobro os sentidos e me sento no sofá. Ligo o celular e coloco a mensagem pra tocar no viva-voz:
“-Droga Hazel, sei que são quase três horas da manhã, mas eu preciso de ajuda, eles estão chegando, estão vindo atrás de mim, querem a caixa, preciso que você... Não tenho mais pra onde correr, o tempo tá acabando, pegue a caixa e...
É possível ouvir o som de vidro se quebrando. Logo depois um grito fino. O som é abafado de repente e presumo que o celular tenha caído longe, mas consigo identificar uma voz masculina
—O mestre quer ver você.
—Mande o mestre ir...”
E então a mensagem acaba, creio que por causa do tempo limite.
—Adam de novo?! – Jason explode e eu me encolho.
—A culpa é minha – David sussurra olhando pro nada – Ela foi até mim e eu a mandei embora.
—Eu quem devia ter ficado mais alerta, devia ter prestado mais atenção no que ela estava tentando me dizer – Jason encosta na parede e parece como antes, todos nós, mas a solfrona tá vazia.
—E se eu não tivesse desligado o celular provavelmente teria dado tempo de chegar e...
—Não é culpa de ninguém – Kaleesa intervém e arruma a franja – Adam quer a caixa e Allyson a tem, é simples, só que ela foi burra em tentar resolver tudo sozinha como sempre.
—Eu disse que não era uma boa ideia – Miriel se pronuncia – Tirar a caixa da segurança de Riverland, é loucura.
—Não – Kaleesa franze as sobrancelhas – Ela sabe que era o único jeito, não foi por acaso.
—Mas que raios de caixa é essa? – Pergunto já irritada como toda aquela conversa paralela e interna.
—A Caixa de Pandora – David arrasta o livro que estava na mesa até mim – Ally trouxe a maldita Caixa de Pandora pra Ellicot e a escondeu, muito bem por sinal.
P.O.V. Allyson
—Sentiu saudade? – Pergunto quando sou forçada a sentar em uma cadeira de frente pro Adam, então olho pra trás e encaro meu raptor da maneira mais ameaçadora possível, ele somente se afasta, então me viro pra frente de novo – Qual é, Adam, foram apenas algumas horas. Achei que ia aguentar mais um pouquinho sem me ver acabar com todos os seus planos.
—Eu tenho a vantagem, Ally, então cale a boca.
—Falou o cara que precisa de veratrum e um capacho de dois metros de altura pra me pegar.
Rio e direciono o olhar pros seus pulsos agora enfaixados e o pescoço ainda exibindo a cicatriz enorme que deixei nele. Fico feliz quando ele percebe o que estou fazendo e esconde as mãos debaixo da mesa.
—O que você ainda quer comigo? Vingança pelo que aconteceu agora a pouco? Porque minha lista tá maior que a sua.
—Você tem algo que eu quero.
—Aparentemente, Adam – Me inclino pra frente – Eu sempre tenho algo que você quer. Mas o que é dessa vez?
—Você sabe o que é – Finjo um bocejo e me recosto na cadeira de novo, pensando em como vou me livrar daquelas algemas que de um jeito, parecem drenar toda a minha energia – Quero a Caixa de Pandora.
—Está me dizendo que a Caixa de Pandora existe e tá comigo? Caramba, preciso contar essa pra minha mãe.
—Não brinque comigo, Allyson.
—Não estou brincando – Sorrio docemente.
Adam faz um movimento com a cabeça pra algo no fundo da sala. Outro homem grande sai pelo corredor escuro que conheço bem, já que foi bem nessa sala que quase espanquei Jason até a morte.
Meu corpo todo estremece na hora que percebo o que ele está segurando, um objeto parecido com controlador de gado, só que com apenas uma ponta, fatal se usado do jeito certo, não, algo bem pior que a morte, intensificação. Foi com aquilo que Adam me torturou toda semana. Só que estava mais elaborado, não tinha fios.
—Olha só! – Adam ri como um louco e eu me viro pra ele engolindo em seco – Vejo que se lembra do nosso brinquedinho.
—Você é tão covarde.
—Não me importa – Ele se levanta e anda devagar até mim, se inclinando perto do meu ouvido – Me entrega a caixa e tudo isso acaba.
—Você nunca vai deixar isso acabar.
—Acertou de novo!
—Para com isso, não lembra do que a gente conversava quando era criança? Você é meu parceiro, Adam.
—Me dê a caixa! – Ele grita e eu me encolho. A raiva cresce dentro de mim.
—Boa sorte procurando.
Os dois nephilins monstruosos me pegam pelos braços e me arrastam. Tentei lutar, espernear, gritar, mas o veratrum estava na minha veia me impedindo até de respirar normalmente a essa altura.
Eu juro que eu disse que não ia mata-lo, eu sei, mas agora não parece mais uma ideia tão ruim. Finalmente percebi que o amigo que eu tinha aos dez anos não estava mais ali, nunca mais, ele sumiu.
Adam estava testando minha paciência, e não vai ser nada bonito quando ela chegar no limite. Eu sou sim capaz de machucar aqueles machucaram, e vou machucar muito. Eu cansei.
Fiquei na mesma cela que da última vez, era uma piada do universo, claro. Quase esperei escutar a voz do Jake me chamando. Lembro que ter pensado que nada mais importava porque ele estava de volta na minha vida, nada mais importava... Hoje eu mudei e percebi que era um pensamento de criança. Muita coisa lá fora continua importando.
O meu raptor entrou junto comigo e me pus de pé, endireitei as costas e me fiz de forte, sabia o que estava por vir, e mesmo assim, quando a dor chegou na minha cabeça eu gritei.
“-Vamos Allyson! – Uma das bruxas grita e eu tento forçar meus joelhos a se levantarem, mas eles simplesmente cedem e caio de novo.
—Não consigo – Gemo quando a bruxa entra cada vez mais dentro da minha cabeça. Queimando minha corrente sanguínea.
—Nunca mais quero ouvir isso de você, entendeu? – Ela vem até mim e me puxa pelo braço. Minhas articulações ardem com a dor que cortam fundo na minha alma – Quer que eu suba o nível? Soube que você gosta de jogar.
—Glin, por favor – Forço mais uma vez.
—Você veio por respostas, lute por elas!
—Estou tentando, estou... tentando.”
Fiquei com vergonha por ter gritado. Tudo o que me fizeram passar em Riverland era pra ter me preparado para o que precisava suportar aqui, mas isso não se compara. Não é apenas a dor física, mas a dor emocional que as lembranças me trazem.
Adam entra depois de um tempo e eu continuo de pé, se eu me abaixar, tudo aquilo não terá valido de nada. Aprendi que uma princesa nunca abaixa a cabeça pra ninguém. Eu sou uma princesa de gelo agora, ninguém mais vai ferir meu sentimentos, nunca mais. Além de o fato de Adam ter me treinado bem, sei quando a hora de me tornar fria chega.
A sala está clara quando Jeff (descobri seu nome) se afasta de mim e eu me apoio na parede com a respiração ofegante. Já tá de dia? Há quanto tempo estou suportando isso de pé?
—É, voltou bem mais durona do que quando partiu – Adam sorri cruzando os braços e Jeff sai da sala – Três horas é mais do que achei que fosse suportar sem ceder, e olha só, você não cedeu.
—Por quê? – Consigo perguntar lutando pra manter os olhos abertos.
—Eu já disse o porquê. Como limpar o sangue? Onde está a caixa de Pandora?
—Eu não... sei.
—Ok – Ele tira o celular do bolso e o flash da câmera quase me cega, coloco as mãos na frente do rosto mas ele as tira – Vamos Allyson, siga para os seus amigos, o que eu quero.
—Não faz isso, deixa eles em paz.
—Seus amiguinhos estão com a Caixa, você com certeza deixou com um deles, como vou deixa-los em paz? Diga o que eu quero, ou entrego você ao Darko.
—Me entregue então, eu não tenho medo.
—Eu sei que você não tem, mas será que eu matar um deles hoje vai mudar sua posição?
—Não!
—Então fale!
—Não tragam a caixa, não... – Recebo um tapa forte no ouvido e quase me deixo levar pela dor, mas continuo de pé e sinto vergonha de mim mesma – Eu... por favor, não.
—Que garota difícil – Adam estala a língua – Acho que é o suficiente pra dar um incentivo, eu dou vinte e quatro horas pra ter a caixa, ou eu mato a... Clove! É, uma boa escolha – Então o flash some e arregalo os olhos. Clove não, por Deus, Clove não.
—Porque quer machuca-la? – Consigo reunir forças pra perguntar quando ele já está saindo.
—A Clove? Ah, não quero. Quero machucar você. Quero que veja o quão imprestável você é.
—Já a salvei uma vez, vou salvar outra.
—Tá aí, isso é o trágico de ser a Filha da Profecia – Ele volta a se aproximar de mim – Você sempre precisa salvar as pessoas. Mas assim que estiver fora do jogo – Adam faz um gesto com as mãos, como se espantando um mosquito, e depois abre os braços – Tudo desmorona. E todos esses... “felizes para sempre” viram pó, e sua vida inteira não significa... nada.
—A caixa! – Grito quando ele anda de volta à porta – O que tudo isso tem a ver com você precisar da caixa?
—Qual é, Ally, não se subestime, você conhece o mito de Pandora, sabe qual foi a única coisa que restou dentro da caixa.
—Esperança.
—Exatamente essa coisa insignificante, talvez ela devesse apenas ser... destruída, sabe, sobrar um espacinho lá dentro pro que realmente importa. Bom, agora eu vou andando, espero que seus amigos amem muito você. Jeff!
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