Flor da Pele
1 3ª Geração
Notas iniciais
“Porra!”
Ela pestanejou enquanto sentia a chuva caindo cada vez mais forte, justamente quando ela não tinha guarda chuva e acendia o seu cigarro. Em questão de segundos estava ensopada, parou em frente à porta procurando suas chaves.
“Onde diabo está?!” Vasculhou seus bolsos.
“Você não é boa nisso, não é?”
Escutou a voz feminina atrás de si, e se virou só para confirmar quem pensava estar ali. Protegida da chuva, com uma capa, estava ela a encarando com expectativa no olhar claro e no rosto repleto de sardas mesmo que já fosse de noite.
“O que faz aqui?” Quando se deu conta todas às palavras ríspidas já tinham saído de sua boca. Deu voz ao seu lado irritado por ter sido descoberta.
“Posso te ajudar!” Ela avançou alguns passos e tirou o capuz de sua capa de chuva a encarando de perto, até descer sua mão para um dos bolsos dela e tirar facilmente um chaveiro de um pequeno boneco manipulável com as chaves que ela tanto queria. “Fácil” Mostrou as chaves.
Franky não conseguia desviar o olhar do rosto de Mini, assim como foi no primeiro encontro delas, tinha expressão de confusão por não entender todo aquele jogo e cordialidade, ela deveria ser uma das pessoas que mais a odiassem nesta cidade. Deveria querer a maior distância possível, afinal tinha ferido a Mini assim como os outros.
“Isso pode não ser uma boa ideia” Franky disse de forma vaga já que nem ela mesma queria pensar a fundo sobre o que poderia ser aquele momento vivido por elas. “Talvez seja melhor você ir embora.” Afinal ela tinha para quem voltar, pensou.
“Eu sei o que eu quero!” Mini a surpreendeu com a resposta, encostou no batente da porta e esperou como não teve nenhuma reação dela, voltou a falar. “Eu quero entrar.”
Franky não disse nada, mas dentro de sua cabeça tinha uma voz que berrava que estava cometendo um erro, não deixe a porta aberta, não faça isso, não a deixe entrar. E tudo o que ela fez foi o contrário, sem nenhuma palavra abriu a porta e entrou em sua casa sem mais nem menos.
Tirou o casaco ensopado e jogou em qualquer lugar, de longe aquele lugar parecia à casa abandonada como entrou pela primeira vez quando o que mais queria eram respostas. Ainda que hoje continuassem com muitos questionamentos. Fazia alguns meses que não via Mini, desde o casamento assim que começou a festa de comemoração na fazenda, Franky saiu sem se despedir dos amigos e sequer olhar para trás. Apenas mantinha contato com seus pais desde que decidiu viver na casa de sua mãe.
Só notou que estava muito pensativa quando focou o seu olhar na presença de Mini, num canto da sala a encarando. Havia algo ali. Tentou pensar que não fosse nada de ruim enquanto reacendia o seu cigarro sem se importar que não tirou o resto das roupas molhadas.
“Porque foi embora?” Não sabia dizer que pose era aquela dela, porém, era isso. Ela queria também respostas, talvez assim que as desse ela fosse embora logo de uma vez e tudo voltaria ao normal.
“Eu tive que ir, aquele era o melhor momento.” Franky deu os ombros para depois tragar o cigarro.
“Porque não se despediu de mim!?” Mini teimou em perguntar.
“Eu não podia, ok!” Seu tom de indiferença usado com esforço teve resultado porque Mini a olhou desacreditada.
“Era o MEU casamento. Depois de tudo...” Ela ficou calada como se deixasse absorver por lembranças. “Precisava de você comigo.” Soltou num fio de voz, tão baixo que parecia ter alucinado ela ter dito isso. Franky ficou quieta pensando em suas palavras, precisava seguir seu lado lógico afinal se fosse agir por impulso como sempre cometeria erros. “Você não me diz nada, ainda por cima, é realmente uma vadia egoísta!” Mini praticamente cuspiu essas palavras num tom de raiva, havia algo a mais ali. Por aquele momento indecifrável por que Mini usava uma máscara.
“Exatamente é disso que se trata eu sou uma vadia egoísta, por que ainda perde tempo comigo? Vai embora, me deixa sozinha!” Franky tentou ao máximo ser estúpida, mas surtiu o efeito contrário porque em vez de Mini caminhar até a porta e sair, ela veio caminhando até onde Franky estava parada.
“Não vou embora até entender o que te fez fugir, o que te fez dar as costas para todos e simplesmente ir.”
“Talvez tenha sido um erro deixar você entrar.” Pestanejou Franky e olhou para a porta tentando adivinhar como Mini a encontrou.
“Você me quer aqui!” Mini se aproximou mais e isso fez com Franky prestasse atenção nela, esquecendo até de seu cigarro. A forma como a olhava, era diferente.
“Talvez eu não queira falar.” Foi o que Franky disse.
“Eu preciso tanto das suas respostas, assim como você quer decifrar minha presença aqui.” Mini deixou de olhar seu rosto para roubar o seu cigarro e tragar em sua frente, soltou a fumaça olhando Franky. Novamente o cabelo bem curto, maquiagem forte e escura nos olhos agora derretida pela chuva, roupas grandes, sociais, assim como a conheceu. Com a diferença que as duas mudaram bastante, são outros tempos e a mesma pergunta.
“Por que você me olha assim?” Franky a questionou.
“Assim como?”
As duas não voltaram a falar e se encararam com vigor. Sem se mover, até que Mini deu um sorriso de lado e levantou a sobrancelha depois de ir com a cabeça na direção de Franky e ela não hesitar, mas fazer o mesmo até que ambas pararam.
“Eu tive que ir embora após entender que sou tóxica.” Franky disse de forma tão automática a verdade como se Mini arrancasse esse segredo dela só com o olhar. Esperou ela voltar a falar enquanto fumava. “Eu cometi muitos erros, sou como um buraco negro que traga as pessoas ao meu redor para o vazio e escuro.”
“Esta errada Franky!”
“Não, eu estou certa e depois de conhecer Luke tudo piorou e ficou mais evidente. Eu via todos felizes no seu casamento e era a única infeliz, tinha que me afastar. Depois que minha mãe morreu e minha relação com minha irmã ficou ruim, eu precisava voltar aqui. Entender minhas raízes. Parar de machucar a quem eu amo. Entende?”
“Você não é essa pessoa tão horrível quanto se julga.”
“Para de querer me justificar.” Franky estourou negando com a cabeça e passando a mão no rosto. “Se eu não fosse quem eu sou, talvez Grace ainda estaria aqui.”
“Para!” Mini falando mais alto para depois agarrar Franky com o cuidado de não queima-la. “Para. Talvez se Luke não fosse um psicopata Grace estaria aqui. Talvez se Liv não tivesse corrido atrás de Matt Grace estaria aqui. Talvez se Matt não dirigisse em alta velocidade Grace estaria aqui. Talvez se a própria Grace não estivesse entrado no carro ela ainda estivesse aqui. Então ainda esta se martirizando com diversas possibilidades que não tem sentido, Franky não tinha razão ao se afastar de todos dessa forma, de se afastar de mim.” Mini engoliu saliva antes de continuar. “Será que não consegue enxergar? Que não consegue perceber? Encarar?”
A cada pergunta feita só ficou evidente o quanto Mini estava magoada pelo afastamento de Franky, como ela parecia a encurralar na parede e exigir saber quem ela é realmente, o que ela sentia. A cada pergunta feita ela olhava da boca para os olhos de Franky deixando claro o que ela queria.
Por isso e como resposta para cada uma das perguntas, pela primeira vez fez o que desejava. A beijou. Devagar e delicadamente, mas Mini parecia querer mais então segurou com a mão livre o seu pescoço e aprofundou o beijo. Franky abraçou o corpo dela molhando sua roupa agora desprotegida da capa de chuva, sabe-se lá onde ela colocou. Poderia ter durado mais o beijo, porém foi interrompido por Mini.
“Porra!” Ela exclamou e se afastou para olhar sua mão. Soltando um riso ao ver que Franky não entendeu nada. “Me queimei com o cigarro!” Deu a explicação e o entendimento passou a se expressão no rosto de Franky para logo voltar a tensão. Ao ver a roupa de Mini molhada.
Percebeu a mudança de Franky, Mini revirou os olhos, pensando no maldito cigarro, que agora estava no chão da sala.
“Você ainda esta casada?” Foi a primeira pergunta de Franky depois de um tempo calada, ela precisava absorver o que tinha acabado de acontecer. Se é que deveria ter acontecido.
“Sim” Mini demorou a responder por pensar nessa pergunta. “Mas, é só um papel assinado, um contrato, não é um casamento.”
“Alo e você abusam do clichê de serem opostos complementares, é para dar certo. Entende? Você é a Wendy dele.” Franky deu os ombros. “Muitas vezes me senti dividida entre fazer o que era certo para meus dois amigos, e ser egoísta. Em ser viciada em poder interferir, manipular, não sentir culpa por cada maldade feita. Aprendi de certa maneira a ser assim com Luke.”
“Porque não se arrepende?” Mini a perguntou mesmo não gostando o fato dela mencionar o babaca que estragou a vida de ambas.
“Eu não sei.” Franky negou tentando esconder algo que Mini estava tentando tirar dela. Mais uma vez.
“Porque fez com que o meu caminho e o de Alo desviassem?” Mini insistiu a pressionando mais, dessa vez voltando a se aproximar e apertando os braços dela.
“Por que eu não queria vocês juntos, em diversas situações! Satisfeita? Por que eu gosto de você!”
“Você nunca demonstrou isso!” Mini contra-atacou.
“Você que não soube enxergar a minha maneira de mostrar! Por insistir em ter sua amizade mesmo quando deveria ter me afastado. Porque eu gosto de pessoas, eu amei Matt, assim como fui apaixonada por Luke, e como sempre fui atraída por você! Como um ímã.”
“Por que não me contou antes?”
“Pra ser mal tratada pior que Alo? Não obrigada!” Franky teve que ser irônica.
“Eu só comecei essa história com Alo porque sabia que não teria chances com você.” Franky ficou tão surpresa que ficou calada assim dando brecha para que Mini continuasse falando. “De qualquer maneira, você esqueceu um fato importante dessa história toda.”
“Qual?” Restou a Franky ainda perguntar.
“Peter Pan não fica com a Wendy!” Mini cruzou os braços. “Ele é um covarde que fugiu quando teve única oportunidade de mudar de vida, então viveu anos na Terra do Nunca com a culpa. Sem Wendy que crescia lidando com seus erros e acertos. Mas, que isso ela amadurecia!”
“O que quer dizer com isso? O que você quer de mim?”
“Amei Alo mais que Nick, nós temos uma história juntos que não pode ser apagada, ela transcendeu por um descuido nosso, nos amamos. Intensamente, escandalosamente, porém somos muito jovens. Ele não está na mesma sintonia que a minha, quer ainda explorar a vida como só um garoto caipira quer. Drogas, viagens, garotas, muito sexo. Nada disso comigo. Somos amigos e isso não vai mudar, mas o amor acabou assim como a nossa paixão começou como uma fogueira atrativa, calorosa e que causa queimaduras.”
“Porque acha que comigo seria diferente? Sou pior que ele.” Franky ainda estava descrente da situação que vivia.
“Para começar Franky, você não é ele! Eu te quis antes mesmo dele, e guardei isso aqui dentro porque não admitiria, não me permitiria a sentir. Até que nos beijamos e foi como se aqui dentro tivesse feito um clique e fizesse sentido como eu implicava com você.”
“Você tem uma família, Mini.”
“Isso não vai mudar, Franky.” Ela passou a mão no rosto dela pensando na filha que agora estava na fazenda com os avós paternos. “Eu quero que você forme parte dela também.”
Franky sentia o contato da mão quente dela no seu rosto e ficou dividida, quando justamente admitiu o que sente por Mini ela estava casada, teve a coragem de se afastar da forma mais covarde que pode e agora que ganhou certa estabilidade Mini aparece e a deixa com a sensação de flutuar, sem ter onde colocar os pés no chão.
“Você deveria...” confusa olhou para os olhos ansiosos de Mini e então para sua boca. “Ir embora.”
“Admita.” Mini falou vendo a contradição estampada no rosto de Franky, e aproveitou para lhe beijar a boca outra vez. “Admita que na verdade quer que eu fique.” Outro beijo. “Admite que o que sente por mim.”
Mini viu que cada beijo e pergunta deixava Franky mais confusa, e assim que viu que ela tinha intenção de rejeitá-la. Por que algo que mais temia durante toda sua viagem até onde agora ela vivia. Ela tinha que tomar uma providência porque sempre tinha o que queria. Sempre.
Assim antes que Franky falasse mais uma vez para ela ir embora, ela beijou com intensidade. Beijo que foi retribuído apesar dos pesares, assim que precisando de ar Franky segurou Mini pelos braços e afastou o rosto para respirar. Mini foi mais rápida de novo.
“Você não vai me expulsar daqui.” Deixou transparente sua posição.
“Vou!” Franky rebateu, o que de alguma forma desarmou Mini porque ela foi firme. “Mas, amanhã porque agora esta chovendo muito.” Dito isso a sala foi iluminada por um trovão com som estrondoso.
Mini sorriu voltando a ficar segura de si, por que Franky aproximou o rosto novamente com a clara intenção de beijá-la de novo. De novo. De novo. A noite inteira.

—-
Fale com o autor