Flocos de Neve.
1 Capítulo Único: Flocos de Neve.
Notas iniciais
Existem vários lugares ao redor do mundo.
Lugares quentes e tropicais.
Lugares frios e congelantes.
Lugares de todos os tipos, para todos os tipos de pessoas.
Mas, e se um único e pequeno floco de neve mudasse tudo?
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O irritante som do alarme tocava. Aquele barulho que te faz querer pegar o despertador e jogá-lo do outro lado do país para irritar qualquer outra pessoa menos você. O barulho que te faz acordar já com o pé esquerdo. E bem, não há necessidade de detalhar...
Era um dia frio, estava próximo ao natal, estava ficando mais frio na “pequena” cidade de New York, minhas férias de inverno haviam acabado de começar.
12/18/2016, 10:30
Era a hora marcada no meu tablet que estava em seu apoiador, que eu havia recebido de natal ano passado, que o fazia parecer um alarme moderno. Deslizei o dedo suavemente no botão vermelho com um “X” branco, para desligar o alarme. Abaixei o rosto e tampei-o com o travesseiro, eu detestava acordar de manhã.
Eu e metade do universo.
Logo ergui a cabeça do travesseiro, e fui para a janela principal do tablet, e abri meu Spotify. Podia ser estranho, mas gostava das playlists do próprio Spotify, eu tinha uma ou duas só minhas. Comecei a procurar através das pastas.
“Mood”
“Jumping out of the bed”
Começou a tocar “24K Magic”, do Bruno Mars, meu humor mudou completamente, comecei a entrar na batida, fui até meu banheiro, joguei água no rosto, sem nem mudar a temperatura.
Erro meu.
A água estava congelante, peguei a toalha e passei rapidamente no rosto. Mudei para a água quente da torneira, escovei meus dentes, e entrei no box. No meu banheiro, era um chuveiro e banheira em um só, decidi só tomar uma ducha bem quente. Deixei as gotas quentes escorrerem pelo meu rosto, massageei o rosto sardento suavemente.
Ouvi o Spotify mudar de música, para “Perfect Ilusion”, me lembrava de relacionamentos passados, tentei ignorar esses sentimentos voltarem.
Lavei meu cabelo castanho, que foi escurecendo graças a água, e lavei o resto do corpo.
Quando desliguei o chuveiro, peguei logo minha toalha e me enrolei nela, o mesmo para o cabelo. Fui até a pia, e peguei alguns cremes que sempre usava.
Cremes para deixar a pele fabulosa, sim.
Maquiagem para parecer que é uma super-star ou uma idiota com reboco na cara, não.
Admito que eu sou um pouco viciada por pele macia, passei um pouco abaixo dos olhos para diminuir as olheiras, e outro creme passei pelo resto do rosto para não ressecar. Okay, nem tão viciada assim usar só dois cremes, depois de acordar e antes de dormir.
Logo peguei meu secador e desenrolei meu cabelo da toalha. Honestamente, estava ridícula. Comecei por traz, de baixo para cima, eu amo cabelo volumoso, então sempre fazia isso para dar a sensação de mais volume. Após muito esforço para secar meu enorme cabelo, sai do banheiro e fui até meu guarda-roupa. Coloquei minhas roupas íntimas, e rapidamente peguei roupas quentes.
Uma camiseta fina branca com golas tipo de uniformes, que não faço ideia do nome, um suéter de lã azul-cinzento claro, com costuras brancas para parecer flocos de neve, e ajeitei as golas sobre o suéter. Uma calça legging preta, bem grossa para suportar esse inverno, e apenas como detalhe, um short jeans azul-marinho, que era quase coberto pelo suéter, peguei umas meias grossas azuis também, e coloquei um par de pantufas, não pretendia sair de casa. Penteei o cabelo e fui até a sala.
Primeiramente, liguei o aquecedor, logo olhei a hora no relógio da parede.
11:21
Já era quase hora do almoço, mas eu estava faminta. Ótima vida de estudante de intercâmbio que mora sozinha. Decidi comer alguma coisa, olhei na geladeira, quase nada. Precisava ir ao mercado, mas precisava que meus pais me enviassem o dinheiro para esse mês.
Suspirei. Teria que comer fora. Ótimo, a pessoa que queria ficar em casa o dia inteiro lendo ou assistindo séries com uma xícara de café ao lado teria que comer fora. Maravilhoso.
Calcei minhas botas de cano alto marrons, um casaco pesado, preto e logo, que ia até meu short, um cachecol branco e preto houndstooth, e um touca cinza que caia um pouco atrás da minha cabeça. Para ser sincera, se eu estava bonita ou não, não me importava, só ia comer, e ir embora.
Peguei minhas chaves, meu celular e minha carteira. Tranquei a porta do apartamento, e desci de elevador até o térreo. Liguei meu celular enquanto andava até uma padaria próxima, era francesa.
Próximo ponto de intercâmbio: França.
Fui deslizando o dedo entre as telas, que, modéstia parte, eu organizava muito bem, e abri um jogo que ficou bem famoso esse ano.
Pokémon Go.
O jogo é legal, não tinha muitos pokémons por perto então só desliguei o celular e guardei de volta no bolso. Já havia chegado na padaria. Cumprimentei Jeremy, o dono da padaria. E pedi o que eu mais pedia, um copo de café com leite e um prato de café da manhã comum, ovos, waffles, panquecas e pedaços de bacon. Paguei e levei a comida até uma das mesas. Coloquei um pouco de açúcar no café e misturei, e logo comecei a saborear a deliciosa comida.
Observei as pessoas chegando aos poucos, algumas só compravam algo salgado ou doce e iam embora, outras vinham, compravam algo, sentavam e conversavam, outras apenas sentavam e mexiam no celular. E imaginar que um aparelho tão pequeno seja tão prendedor.
Eu mesma peguei meu próprio celular e comecei a me distrair, entrei no instagram e fui observando as fotos. Vi algumas celebridades atualizando o status, colegas de escola curtindo a vida no Central Park.
Minha paixão sentando na cadeira em frente à minha.
Logo tomei um susto, dei um pulo, a cadeira caiu para trás, e meu celular caiu perto da caixa registradora. Senti a adrenalina percorrer pelas minhas veias, o nervosismo esquentando meu corpo, a dor que eu não sentia no momento por causa da ação repentina, senti o chão gelado percorrer minha nuca.
Empurrei meu corpo e apoiei meus cotovelos no chão, minhas pernas ainda estavam na cadeira, esfreguei levemente minha cabeça, enquanto todos ali presentes me observavam.
— Miah! Foi mal, pelo jeito te assustei. – Ethan se levantou da cadeira e me ajudou a levantar, o que se resume em basicamente me puxar pelos braços enquanto eu estava derretida por conversar com ele. – Você está bem? – Ele perguntou em um tom preocupado, apenas assenti, e ele esfregou meus cabelos carinhosamente, com um sorriso torto, mas fofo.
E então uma mão se posicionou no meu ombro, me virei, e me encontrei com Jeremy, ele estava me entregando meu celular, peguei-o e agradeci. Ele logo voltou para o caixa, e todas as outras pessoas que antes me encaravam, agora estavam fazendo seja-lá-o-que que estavam fazendo antes.
—De novo, desculpa. Eu te vi aqui comendo e quis te dar um olá. – Ethan auto explicou-se, coçando a nuca.
—N-n-nããão! Tudo bem, eu to bem, não é como se isso não fosse capaz de acontecer se eu estivesse sozinha. Do jeito que sou desastrada, é capaz de ter sido bem pior que isso. – Eu disse aliviada, num tom de piada para aliviar o clima tenso, e ao mesmo tempo, reconfortando-o. Ele repentinamente passou o braço pelo meu pescoço, senti meu rosto esquentar nesse momento.
—Que bom que não se machucou. Quer dá uma passada lá no Central Park? – O Central Park, era um dos lugares preferidos de Ethan, ele adorava passar tardes jogando futebol com seu time da escola. No qual, ele é o capitão. Resumindo: gentil+popular+gato-arrogante+inteligente = Ethan.
—Ahn... Claro, pode ser. – Me deixei ser levada por Ethan, fomos andando até o Central Park, tinha sorte que não era tão longe dali.
Ficamos alguns minutos em silêncio, com o braço de Ethan ainda ao redor do meu pescoço. Para andarmos na mesma velocidade tínhamos que ficar bem perto um do outro. Pude sentir o calor de seu corpo, e ao mesmo tempo o calor que minhas bochechas emitiam. Escondi meu rosto no cachecol, enquanto ele mostrava um lindo sorriso branco de canto.
Mas algo interrompeu isso.
Uma bola de neve.
A bola de neve me distraiu e consequentemente tropecei, logo, me encontrei caída na neve, o choque do calor do meu corpo contra a frieza da neve me deu arrepios, me levantei com cuidado e olhei para trás, o mesmo fez Ethan. Havia um monte de garotinhos, que pareciam estar no fundamental. Eu chutaria uns 10 anos, eles começaram a rir feito loucos. Obviamente havia sido de propósito.
—Hey! Tampinhas! –Ethan gritou para os meninos.
—Ethan, foi nada demais, sério. – Não o deixei continuar. Eu sabia que ele me via como uma irmã, me machucar era a mesma coisa que machucar a irmã dele. Se ele tivesse uma.
Essa era a pior desilusão amorosa que alguém poderia vivenciar.
—Escuta sua namoradinha, boiola. — O menino ruivo, gordo e cheio de espinhas xingou. O que ele disse não tinha nem sentido.
—Olha só quem diz, um bolotinha que só anda por milagre. – Ethan xingou-o, ainda de forma pacifica, com um sorriso no rosto, o olhar confiante e determinado, ele revelava o canino afiado que tinha. Eu apenas me aconcheguei na neve como se fosse um puff, e observei a briga. – Agora por que não vai chorar para a mamãe, antes que eu te de um motivo para chorar de verdade.
— Você não me assusta! – O ruivo gritou.
—Mas eu te assusto. – Uma mulher ruiva, com casacos pesados, de mãos dadas com um homem moreno com os cabelos esbranquiçando apareceram. Provavelmente os pais do garoto. – Desculpem a confusão, já tentei de tudo para educar esse menino. Vamos Igor, está de castigo, de novo, vai ficar mais uma semana sem video-game. Isso uma semana antes do natal. – A mulher arrastou Igor para qualquer lugar que estivesse indo. Eu comecei a rir feito louca.
— Por que esse tipo de coisa tem que sempre acontecer comigo? — Me perguntei ironicamente e rir, Ethan começou a rir também. E continuamos a andar até o Central Park, mas sem nenhuma tensão, só risadas e piadas.
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Sentei-me em um banco frio aleatório do Central Park, tive que retirar a neve que estava se acumulando. De acordo com as notícias que eu via na tela do smartphone, era o dia mais frio do ano.
Para não congelarmos (pois simplesmente estávamos com preguiça de andar para outro lugar), ficamos sentados lado a lado, servindo de aquecedores humanos um para o outro. E tenho certeza que eu sentia mais impacto, estava quase desconfortável o calor que eu sentia por estar perto de Ethan, mesmo sabendo que temos zero chances de ficar juntos.
Éramos melhores amigos, quase irmãos. Era assim que ele me via, mas nunca foi assim o modo que o vi.
Apesar do intercâmbio, eu já o conhecia anos atrás, com parte da minha família morando em Boston, eu já os visitei várias vezes, e com direito a alguns meses em New York. Tinha talvez uns 8 anos de idade, e estávamos na mesma escola na época.
E hoje em dia também.
— Não sei como os nossos colegas aguentaram ficar aqui, para tirar aquelas fotos todas. – Ethan comentou, provavelmente imaginando eles “se divertindo” apenas para tirarem fotos. O que eu não duvidaria, as pessoas fazem loucuras para estarem bonitas em fotos. Nunca entendi isso, é até difícil encontrar fotos minhas.
— Humpf! Fotos, reputação e blábláblá. – Disse sem pensar, abrindo e fechando a mão para indicar que eram coisas sem importância. – Eles agem como se estivéssemos em filmes de adolescentes no Ensino Médio, onde a popularidade é a base da escola inteira. É sem sentido. Um cliché sem sentido.
— Só posso concordar com a senhorita dos olhos cor de grama. – Ethan brincou, e riu levemente. – Ou será que devo dizer senhorita dos olhos indefinidos, por que eles estão meio verdes, meio azuis, meio cinzas, meio brancos. – Ele disse enquanto movimentava delicadamente minha cabeça ao segurar meu queixo, tentando decifrar a cor dos meus olhos, era impossível, em todas as circunstâncias eu não ficar vermelha.
— T-Tá, nem ligo, meu olho é maluco, saquei, não precisa tentar decifrar esse mistério, xerife. – Brinquei. – Os olhos são estranhos para combinar com a dona estranha.
—Eu não te acho estranha. Você é legal. – Ele disse, desviando o olhar para o horizonte, com um esboço de um sorriso no rosto.
—Só por que sou “legal”, não quer dizer que não sou estranha, posso ser as duas coisas. Igual... O Ryan, ele é um nerd muito estranho e nem por isso deixa de ser legal.
— Então você está se comparando com o Ryan? – Brincou, lançando-me uma expressão maliciosa. Apesar de me envergonhar, não abaixei a guarda.
— Não, estou exemplificando, capitão chatice. – Ironizei com um sorriso tão malicioso quanto o de Ethan. Ele revirou os olhos, sacudiu a cabeça, e logo em seguida começou a rir, aquela risada que eu amava ouvir. Segui o mesmo ritmo e ri também.
Logo, nossas risadas foram interrompidas, neve. Estava começando a nevar, vi o céu escurecer e a neve a cair no chão já escondido pela nuvem branca.
Me empurrei e ajoelhei-me no chão, saindo dos braços de Ethan, que estavam atrás de mim. Brinquei levemente com a neve, e vendo outros flocos caírem próximo a mim, mas nenhum chegava a tocar em mim. Logo, Ethan estava ajoelhado ao meu lado, eu nem havia percebido que ele me encarava, que observava meu olhar fascinado e apaixonado, pela neve caindo no chão. Eu vinha do sul, estava acostumada com o calor, mas no norte, aprendi a viver no frio, sempre gostei dessa época do ano.
Então a mão mergulhada numa luva preta tocou meu ombro, virei minha cabeça para Ethan. Seus olhos azuis pareciam quase cinzas graças ao reflexo da neve. Tentei ler sua expressão, eu via o quanto os olhos dele estavam brilhando.
Minha concentração foi rapidamente mudada para algo gelado que caiu em meu nariz. Um minúsculo e fascinante floco de neve, ergui minha cabeça e vi que um monte chegava em nossa direção, abri minha boca, e deixei um floco cair sobre mim. Tinha gosto de nada, era só água, mas era legal fazer mesmo assim.
Então outros flocos caíram sobre mim e Ethan. Eu ainda encarava o céu, viajando em meu próprio mundo, até duas mãos quentes enroladas em luvas pretas segurarem meu rosto, fiquei nervosa, mas ao mesmo tempo relaxada, fui surpreendida por lábios quentes e macios. Ainda processava o que estava acontecendo, mas apenas fechei meus olhos e me deixei levar, ignorei meu mundo ao redor, os flocos de neves caindo sobre nós não eram relevantes.
Era tudo igual uma música, você se desliga do mundo ao seu redor e encontra o seu próprio. Mas eu não estava sozinha, estava com o cara de olhos azuis e cabelos negros que me enfeitiçava.
Quando paramos o beijo, para respirar, inclinamos nossas cabeças umas para as outras, apoiadas na testa um do outro, não era capaz de abrir os olhos, apenas sentir o calor percorrendo meu corpo, como se fosse a água quente do meu banho, mais cedo.
—Miah... Eu gosto muito de você. – A voz de Ethan estava baixa, imediatamente abri meus olhos para encara-lo. – Mais do que como um amigo de infância, mais que uma atração. Eu sou apaixonado por você desde quando entendi o que era estar apaixonado. Não.... Não apenas gosto de você, eu amo você.
Eu não era capaz de fazer nada, encarava seu rosto, pois seus olhos estavam semicerrados, uma porção de sentimentos encheu meu cérebro, era como se fosse um sistema que simplesmente deu pânico, era impossível colocar em palavras o que eu sentia.
—E-eu... Eu... –Não conseguia pronunciar uma frase.
—Você não se sente da mesma forma... – Ele se afastou de mim, parecia solitário, ele apenas deduziu errado. Ele se levantou, colocou as mãos no casaco e começou a andar, ele iria escapar entre meus dedos, eu não deixaria, eu podia sentir a aura de dor que ele sentia.
Não pensei em nada, apenas corri, me levantei e corri até ele. Puxei seu braço, e o obriguei a virar para mim, a me encarar nos olhos, eu cobria sua mão com minhas duas brancas mãos. Eu abaixei a cabeça e senti as lágrimas quentes percorrerem meu rosto, e pingarem no queixo. Ergui minha cabeça, e vi...
Um simples, pequeno, porém, valioso floco de neve cair em nossas mãos juntas...
Esse incentivo do universo veio a calhar. Eram apenas três palavras valiosas.
— Eu... Te amo... – Disse sorrindo, mesmo com as lágrimas escorrendo sobre meu rosto. E Ethan imediatamente se iluminou. Parecia que recebi meu presente de Natal uma semana adiantado.
Tudo isso, revelado, graças a míseros flocos de neve.
—Com Amor:
Miranda (Miah).
Para:
Ethan.
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