Flightless Birds
5 Capítulo 5 - Sozinha (Kaya)
Notas iniciais
Boa leitura (:
P.S.: Recomendo escutarem essa música como fundo para o capítulo: http://www.youtube.com/watch?v=gXEbk0Sn6XI
O sol batia em meu rosto, mesmo de olhos fechados conseguia ver a luz através de minhas pálpebras. Pisquei ate conseguir abrir meus olhos.
Sozinha.
Eu estava completamente sozinha... Todos os dias eu acordava e me sentia sozinha.
Nos primeiros dias depois da morte dos meus pais, tentava me consolar com algumas orações, mas parei de acreditar em Deus. Se um Deus existisse não me faria sofrer assim, se houvesse um Deus, meus pais estariam comigo. Se houvesse um Deus o mundo não estaria assim. Não existe um Deus. Não existe nada. Tudo que existe é um um mundo que está virando um buraco negro, e está puxando todas as coisas boas para sabe-se lá onde.
Eu acordo e me sinto sozinha. Sozinha e me perguntando "porque não eu?". Poderia ser eu a ser puxada pela morte. As vezes me pego desejando por ela, até chamando-a silenciosamente. Assim a dor em meu peito poderia acabar, eu poderia ser livre. Eu não sofreria mais, eu não choraria mais. Fico pensando em como a morte deve ser. Fria e silenciosa? Acho que não. Tenho me perguntado se não é quente e acolhedora, como se fossemos abraçados e nunca mais soltados.
O desejo da morte tem sido tão grande, que me pergunto: por que não a trago até mim? Eu poderia simplesmente abraçar a morte. Eu mesma, sem que me chamassem.
Poderia mergulhar num mar profundo, e ir afundando aos poucos... Lentamente, me deixando levar...
Minha rotina havia virado essa: acordar, imaginar como a morte era, deseja-la. Nas vezes que conseguia levantar da cama, evitava me olhar para o espelho. Olheiras tomavam conta de meus olhos, agora inchados. Meus cabelos castanhos pareciam desbotados, sem vida. Meus olhos azuis perderam seu brilho. Meu corpo já magro, perdera bons quilos, eles se foram do mesmo modo que minha vida se fora.
Ouvi o telefone tocar... Não queria levantar. Não hoje. Nem nunca...
Não, algum dia eu teria que me levantar... Mas por que a morte não me leva enquanto estou deitada? Enquanto estou rendida e clamando por ela?
Porque a morte é uma vadia. Ela leva quem não merece e deixa os pobres assim... na vontade. Preferia estar morta a me sentir assim tão vazia... Tão sozinha, tão...
O telefone tocava insistentemente.
Ele tinha que parar. Porque não parava?
Meus olhos encheram de lágrimas O telefone não parava de tocar. Ele tinha que parar. Ele tinha que ficar em silencio.
“PARA!” exclamei e joguei o vaso vermelho que estava em cima da cabeceira na parede.
O telefone parou. Chorei compulsivamente. Por que comigo? Céus, por quê?!
Minha irmã abriu a porta subitamente.
“O que você pensa que está fazendo, Kaya?” berrou.
Fiquei calada. Não conseguia falar com ninguém.
Ela examinou o quarto. Estava uma bagunça. O vaso estilhaçado estava perto da porta do banheiro. Minha mesa, antes cheia de perfumes e bugigangas estava vazia, pois em um acesso de raiva, joguei tudo no chão. As paredes brancas estavam sujas pelos chutes e socos que dei nelas. Minhas mãos estavam roxas por causa desses episódios.
“Já chega, Kaya.” Me informou transtornada, a imagem do meu quarto e de mim era demais para ela. “Já chega. Desse jeito eu vou ter que te internar.”
Até então eu estava deitada de costas olhando para ela, então virei para o lado esquerdo, onde fixei meu olhar na porta.
“Já vão fazer três semanas. Cade a Kaya que faz coisas e honra as pessoas que não estão mais aqui? Cade seu elogio fúnebre dos nossos pais? Onde está a Kaya que não é hipócrita, hein? Eu não estou vendo.” Então ela começou a gaguejar” Tudo que eu vejo é uma garotinha se encolhendo na cama cada vez que lembra que não é ela que está num caixão.” Nesse ponto ela já estava chorando. Soluçando.
Eu me virei para ela novamente.
“Já não era difícil o bastante para mim perder nossos pais? Kaya, você era a única pessoa que eu podia contar. A única que podia me dar conforto agora. Não só tenho que lidar com a morte do papai e da mamãe, mas eu tenho que lidar com o fato da minha irmã ter virado um vegetal também?”
Ela soluçava, seu rosto pálido foi tomado por uma cor púrpura. Ela já não respirava direito.
“Eu perdi meus pais também, Kaya.” De seus olhos castanhos saiam cascatas de água, intermináveis cascatas de água. Águas de dor, de sofrimento. Dos olhos de uma pessoa quebrada. “Eu perdi eles... Mas eu perdi você também...” Ela parou, chorou ainda mais, parecia até comigo. “Eu não quero te perder, Kaya.” Meu coração estava apertado, mas ao mesmo tempo eu não conseguia sentir nada. “Eu não quero te perder e ficar sozinha. Porque esse mundo tá horrível. Eu não sei se vou conseguir viver em um mundo onde o papai e a mamãe não existem, mas viver num mundo sem a minha irmã é impossível.”
Agora eram lágrimas silenciosas que escorriam pelo meu rosto. Faça alguma coisa, Kaya. Você está sofrendo, mas evite que sua irmã sinta essa dor, eu tentava dizer a mim mesma. Nenhuma palavra saia de minha boca.
Os cabelos encaracolados e castanhos da minha irmã também estavam sem cor. Um rosto cansado e desgastado tomou o lugar de seu rosto infantil.
“Por favor, Kaya. Volta pra mim... Volta...” respirou fundo, suas lágrimas não paravam. “Volta por mim, Kaya. Não me deixa sozinha... Não me deixa sozinha.”
Mas eu sou sozinha...
Me virei novamente para a janela.
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