Flertando com um desejo impossível

1 Flertando com um desejo impossível


Notas iniciais
Até onde você é capaz de deixar sua zona de conforto para trás para viver seu mais lindo desejo?

Eu andava com meus fones de ouvido no volume 7 enquanto aquela música do Cazuza repetia mais uma vez na minha playlist e eu olhava aquela praça gigante que ficava perto do meu trabalho e ainda não me sentia acostumado com tudo aquilo, mesmo fazendo cinco meses que toda aquela cidade grande me deixava chamá-la de lar. Toda sexta-feira eu ia andando para casa onde passava o final de semana todo deitado sonhando com as rodas de samba que aconteciam por cada canto da cidade e guardava uma surpresa especial para mim. Quando cheguei naquela pracinha pequena, próxima a minha estação o avistei, era ele, o rapaz que se vestia e se portava de um jeito que eu nunca ousaria ser. Sabia que nós dois não habitávamos o mesmo mundo, por isso nunca tive a coragem de encará-lo por mais de 4 segundos, mas reconstruía a sua imagem na minha cabeça por horas e horas.

No entanto, toda aquela distância entre nós me dava fôlego para fantasiar mais e mais. Ele era o clichê que eu sonhava desde adolescente, quando morava naquela cidade que nunca me coube. Eu não tinha coragem de desejá-lo, mas naquela sexta-feira 13 escolhi sentar na mesma pracinha da qual ele estava quase todas as outras sextas e nunca me notara, então ali fiquei e desafiei minhas próprias fantasias.

Ele lia um livro de poemas e eu pensei em duzentos e oitenta e duas frases para puxar assunto com ele dizendo o quanto poemas era praticamente a minha forma de existir desde quando encontrei com a morte anos atrás, mas não ousei nada além do que apenas imaginar.

Ele depois de uns minutos se levantou e foi embora, e eu nem pude perceber quando isso aconteceu porque já estava frustrado demais pensando nas minhas próprias impotências.

Encontrei com ele novamente duas ruas depois, sentado no balcão daquela lanchonete cafona que tinha cheiro de mofo. E o mundo que nos separava desmoronou nos meus olhos naquele instante me fazendo sentir o coração apertar de medo, por cogitar que toda aquela fantasia que me distanciava dele, na verdade era uma fantasia que apenas me distanciava do meu próprio desejo.

Para deixar claro, essa lanchonete cafona que tinha cheiro de mofo era a minha favorita há três meses desde quando eu descobrira o melhor café expresso com o melhor preço do bairro. Era lá naquele balcão que eu sentava por várias vezes na semana na hora do almoço e pedia um expresso e depois me perdia no bloco de notas do celular escrevendo os meus poemas sobre a vida e os desamores.

Precisei de fôlego, mas fiz o mesmo que nas outras semanas fingindo normalidade e morrendo de medo de que ele pudesse achar que eu era um maníaco perseguidor de pessoas interessantes.

Pedi meu expresso e me forcei a começar um novo poema para que ele pudesse notar o meu habitual. Já ele, apenas se afundava na tela do seu celular com cara de tédio enquanto o seu café esfriava. Rapidamente ele atendeu uma ligação e levantou às pressas, deixando seu livro de poemas jogado no balcão. Eu surtei no momento que percebi que ele havia esquecido o livro e ali senti que todo o nosso destino havia se cruzado por um livro esquecido numa lanchonete cafona.

Carreguei o livro comigo para casa e o li por completo naquele mesmo final de semana. Não pude esperar por outro dia se não a segunda-feira para sair do trabalho e passar naquela pracinha e encontrá-lo lá, naquele mesmo banco de sempre para entregá-lo seu livro e iniciar a história que eu já havia vivido várias e várias vezes na minha cabeça. Acontece que ele não estava lá, nem na segunda, nem na terça, nem na sexta! Meu corpo doía por não encontrá-lo e minhas fantasias sobre o encontro só aumentavam. Três semanas se passaram e nada dele naquela pracinha que havia me apresentado o cara mais interessante do bairro, mas o livro de poemas nunca mais saiu da minha mochila.

Era final de mês e eu já havia aceitado a ideia de que não o veria nunca mais, então fui me acostumando com a antiga rotina, até que de supetão meus olhos pairaram sobre ele novamente na minha lanchonete favorita de novo sentado da mesma maneira que eu havia o encontrado da outra vez. O momento havia chegado! Cheguei com um tom de pressa na lanchonete me sentando rapidamente e pedindo o meu café e parei meus olhos no dele:

━ Desculpe-me atrapalhar, mas me lembro de você há umas semanas atrás saindo apressado dessa lanchonete e deixando esse livro para trás. Guardei para você.

Surpreso ele olhou para o livro do qual parecia nem se recordar mais e confesso que aquilo foi um soco no meu estômago.

━ Obrigado pela gentileza, não é sempre que isso acontece!

━ Que isso, fico lisonjeado em ter guardado um livro tão bom e ter a chance de entregá-lo para o verdadeiro dono.

Naquele momento eu quis sumir imediatamente por ter percebido a minha fala mecânica e ensaiada saindo da minha boca. Eu era uma decepção a mim mesmo.

Naquele mesmo momento ele pagou a conta em silêncio e foi embora.

E depois nós nos encontramos muitas e muitas sextas-feiras e o seu olhar perdido em qualquer coisa que não fosse em mim me lembrava dolorosamente que a fantasia que eu carregava de que os nossos mundos não se cruzariam não era apenas uma imaginação, era a verdade nua e crua me lembrando meus desejos impossíveis.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!